Eu me chamo Renata. Tenho trinta e três.
Um dia alguém falou que eu estava gorda. Não foi xingamento grande. Foi pior: foi solto, no meio de uma frase. Desde então virei viciada em academia. Peso, esteira, proteína, espelho. A barriga diminuiu. A bunda subiu. O peito firmou um pouco, ainda médio, ainda meu. Coxa marcada. Cintura que a roupa agora mostra. Morena clara, cabelo castanho escuro no ombro, depilada porque eu gosto.
MILF, eu brinco. Sem filho. O corpo de mãe gostosa e o útero que não colabora. Uma piada ruim que eu mesma conto na cama, às vezes, quando o cara aperta a bunda e fala que eu tenho cara de quem já teve criança. Não tive. Só treinei até parecer que tive.
Ninguém vira a rua inteira. Na academia olham. Na luz baixa, serve.
Eu sempre quis filho. Escolhia nome calada. Imaginava barriga, peito cheio, alguém me comendo grávida. O corpo, pra mim, tinha que servir pra alguma coisa além de tesão. Descobri que não.
O médico falou improvável. Depois, praticamente impossível. “Tem gente que engravida mesmo assim. É raro.”
Raro eu levei pra cama. Porque o ser humano, quando perde uma função, tenta usar a outra até doer.
O namorado gozava dentro e eu ficava deitada com o porra escorrendo, perna fechada, empurrando de volta com o dedo como se pudesse guardar o que a vida já tinha recusado. Sangue no mês seguinte. Ele cansou. Acabou. Ninguém aguenta muito tempo ser altar de uma fé alheia.
Aí eu fui atrás de pau com laudo.
Não era putaria solta. Era putaria com PDF. “Manda o exame. Recente.” HIV, sífilis, hepatite. Data na folha. Se o cara falasse “pode confiar”, eu bloqueava. Confiança é o que a gente pede quando não quer ver o papel. Eu queria o papel. Queria o gozo. Queria o meio-termo entre cuidado e desespero.
O colega de trabalho. Motel. Pau médio, grosso o bastante pra arder na entrada. Me comeu de frente, depois de quatro, a mão na minha nuca. Gozou fundo, latejando, me enchendo. Eu apertei a buceta pra não deixar sair. Sentei no vaso vendo o branco descer e mesmo assim fiquei com tesão. Pensei: fica um pouco. Talvez grude. A matéria quer continuar. A gente chama isso de tesão pra não chamar de pânico.
O do app. Apartamento. Chupou até eu gozar na boca dele. Enfiou sem capa, pedi eu mesma. “Quero sentir você gozar dentro.” Ele meteu pesado, segurou pra não acabar, parou no fundo com o pau batendo.
— Vai escorrer tudo.
— Deixa escorrer depois.
Gozou duas vezes. Da segunda eu já estava molhada da primeira, fazendo barulho, pedindo mais fundo. Dormi com a coxa colada. Acordei com o tesão e a barriga igual. O corpo esquece de manhã o que a alma combinou de noite.
O casado. Hotel. Exame no banco do carro. Me chupou com aliança na mão. Enfiou e falou baixinho que não podia gozar dentro da mulher e ia gozar dentro de mim. Eu abri mais. Existe uma honra torta nisso: o que é crime numa cama vira oferenda na outra. Ele gozou tanto que escorreu no lençol, no cu, na coxa. Eu passei o dedo e levei à boca. Não era tesão de gosto. Era ritual. Como se engolir pudesse convencer o útero. Bobagem safada. Teste negativo. Sangue.
Eu viciava no combo: papel limpo e porra quente. A ilusão de controle e a entrega total na mesma hora.
Tinha um de academia, pau pesado, veia aparente. Me virou de quatro, cuspiu no cu, meteu na buceta até eu babar no travesseiro. Segurava, saía quase inteiro, enfiava de uma vez. Falava que eu estava apertada demais.
— Vou gozar.
— Dentro.
— Você é doida.
— Dentro.
Ele enterrou e gozou gemendo feio. Ficou pulando dentro. Quando saiu, desceu um fio grosso. Eu empurrei com o dedo de volta. Ele riu. “Quer engravidar, é?” Eu não respondi. Beijei a boca dele com gosto de sexo. Querer é uma forma de rezar. Rezar de perna aberta ainda é rezar.
Outro me comeu no carro, banco reclinado, calça no joelho. Exame no WhatsApp uma hora antes. Enfiou molhado, curto, fundo. Gozou rápido. Eu fiquei sentada sentindo escorrer na calcinha o caminho inteiro. Cheguei em casa e me masturbei com aquilo ainda quente, dois dedos, imaginando que tinha pego. O prazer é bom em mentir. A gente ajuda.
Teve um de quarenta e poucos, dois filhos, pau grosso, metia devagar. Me abriu as pernas, olhou a buceta depilada e falou que era uma pena eu não poder ter. Aí gozou dentro como se pudesse. Ficou em cima até amolecer. Eu sentia o leite vazando em volta do pau. Quase pedi de novo. Pedi. Ele comeu a segunda vez já mole-duro e gozou menos, ainda dentro. Quem já fez filho acha que o próprio gozo é argumento. Eu quis acreditar no argumento.
Um ano disso.
Fila. Motel, apto, carro, quarto de solteiro. Sempre o mesmo ritual: laudo na tela, pau na boca, pau na buceta, “goza dentro”, eu gozando também, às vezes no pau, às vezes no dedo depois, misturando. Homem que me fazia de quatro até doer. Homem que eu montava e milhava até ele gozar fundo. Homem que eu chupava o que escorria e voltava a sentar.
Nenhuma doença. Nenhum atraso de verdade. Nenhum milagre.
A filosofia barata que me restou é essa: a gente confunde possibilidade com direito. Acha que tesão intenso vira destino. Acha que muito sêmen é uma espécie de justiça. Não é. É só matéria saindo de um corpo e atravessando outro. O sentido a gente inventa depois, deitada, com a coxa molhada.
Amiga engravidou de vacilo, uma noite só, sem exame. Eu gozei de inveja e depois me odiei. Fui pra cama com outro no mesmo fim de semana, pedi sem capa, levei gozo até a buceta fazer barulho de molhada demais. No mês seguinte, absorvente. O acaso não respeita quem se organiza. Às vezes premia quem não pensou.
No fim não tem teste positivo.
Tem o celular cheio de PDF de laboratório. Tem memória de pau latejando dentro. Tem gosto de porra e esperança. Tem a buceta acostumada a receber e o útero que não segura.
Eu quis continuar alguém no mundo. Fui comida por muitos, sem proteção, limpa de doença, suja de teimosia. Cada um gozou como se fosse o último. Nenhum foi o primeiro pai.
O raro não era eu. Eu só abri a perna acreditando. E gozei nisso também — porque, no meio da falta, o corpo ainda sabe fazer uma coisa: querer. Mesmo quando não pode. Mesmo quando só sobra o gozo dos outros escorrendo, e a gente fingindo que aquilo é um começo.
É isso.