CAPÍTULO 3
GUSTAVO
— Segunda vez que eu te seguro hoje — Léo comentou, ainda com a mão firme na minha cintura. Ele me olhava com aquele meio sorriso que parecia surgir naturalmente no rosto dele. — Assim não vou mais poder deixar você andar longe de mim.
Por algum motivo, aquela frase conseguiu me deixar mais nervoso do que as duas quase quedas daquele dia. Talvez porque eu ainda estivesse tonto. Talvez porque estivesse cansado. Ou talvez porque existisse alguma coisa naquele garoto que fazia meu cérebro esquecer como funcionava uma conversa normal.
— Eu não costumo cair tanto — consegui dizer.
— Hoje está se esforçando bastante.
Ri sem querer. Ele finalmente me soltou, mas permaneceu perto por alguns segundos, como se quisesse ter certeza de que minhas pernas realmente conseguiriam me sustentar. Apoiei-me na parede e respirei fundo.
— Você está bem mesmo?
— Estou.
— Você já falou isso umas três vezes.
— Porque é verdade.
— Então prova.
Olhei para ele, sem entender.
— Como?
— Anda até a enfermaria.
Soltei uma risada curta.
— Isso não prova nada.
— Para mim prova.
— Você sempre é mandão assim?
— Só quando alguém quase cai duas vezes no mesmo dia.
Eu deveria ter achado aquilo irritante. Em vez disso, sorri. Foi quando percebi que ainda estava usando o casaco dele. Olhei para os meus ombros e depois para Léo.
— Seu casaco.
— Pode ficar com ele.
— Eu vou devolver.
— Amanhã.
— Amanhã?
— É. Hoje você apenas se cuida.
Não sei por que aquela resposta me fez sorrir novamente. Talvez porque, de alguma forma, significasse que ele pretendia me ver outra vez.
Léo começou a caminhar ao meu lado, acompanhando meu passo até a enfermaria. Eu ainda estava tentando entender aquele garoto. Ele tinha chegado naquele mesmo dia, praticamente não conhecia ninguém e, mesmo assim, parecia não ter dificuldade alguma em se aproximar das pessoas. Havia algo nele que me deixava curioso.
Na enfermaria, a enfermeira fez algumas perguntas, verificou minha temperatura e recomendou que eu fosse para casa. Segundo ela, eu provavelmente estava com febre e precisava descansar. Nada parecia grave, mas eu deveria procurar atendimento médico se continuasse passando mal. Quando saí da sala, encontrei Léo sentado no corredor, mexendo no celular. Assim que me viu, guardou o aparelho no bolso e se levantou.
— Melhor?
— Um pouco.
— Vai embora?
— Acho que sim.
Ele assentiu, mas não saiu.
Ficamos alguns segundos em silêncio até que ele olhou para mim.
— Me dá seu celular.
Franzi a testa.
— Pra quê?
— Me dá seu celular.
— Isso está parecendo um sequestro.
Ele riu.
— Seu celular, Gustavo.
Entreguei o aparelho, ainda desconfiado. Léo desbloqueou a tela e abriu a agenda de contatos.
— O que você está fazendo?
— Salvando meu número.
— Você poderia simplesmente me passar.
— Poderia. Mas assim eu tenho certeza de que você salvou.
Ele digitou o próprio nome e o número, salvou o contato e, antes de me devolver o celular, abriu o WhatsApp e mandou uma mensagem para o próprio número.
O celular dele vibrou imediatamente, ele pegou do bolso e respondeu a mensagem que ele mesmo tinha enviado.
Leonardo: Oi.
Olhei para a tela e depois para ele.
— Pronto. Agora você tem o meu.
— Eu percebi.
— E eu tenho o seu.
— Também percebi.
Ele me devolveu o aparelho e colocou as mãos nos bolsos.
— Se você passar mal de novo, me chama.
— Você está presumindo que eu vou passar mal outra vez?
— Depois do seu desempenho de hoje? Estou.
Revirei os olhos, mas sorri.
Ele começou a se afastar, mas antes de virar o corredor olhou novamente para mim.
— Amanhã eu quero meu casaco.
— Pode deixar.
— Não esquece.
— Não vou esquecer.
Ele foi embora e eu permaneci parado por alguns segundos, olhando para o corredor vazio.
Aquilo tinha sido estranho.
Muito estranho.
Eu conhecia aquele garoto havia poucas horas e já tinha o número dele no celular. E, pior, eu estava pensando demais nisso.
Quando encontrei Carla novamente, ela estava me esperando perto da saída. Bastou olhar para mim para perceber que alguma coisa tinha acontecido.
— Você está com uma cara diferente.
— Estou doente.
— Não estou falando da febre.
— Então está falando do quê?
Ela cruzou os braços.
— Do aluno novo.
— Não aconteceu nada.
— Gustavo, eu te conheço desde criança. Quando você mente, sua sobrancelha esquerda faz uma coisa estranha.
— Minha sobrancelha não faz nada.
— Faz sim.
— Você é maluca.
Ela riu.
— Ele te deu o número?
Parei de andar.
— Como você sabe?
— Porque você ficou com essa cara desde que saiu da enfermaria.
Passei a mão pelo cabelo, tentando esconder o sorriso.
— Ele só colocou o número dele no meu celular.
— Aham.
— É sério.
— Eu não disse que não era.
Carla começou a caminhar ao meu lado, ainda com aquele sorriso de quem tinha acabado de descobrir alguma coisa interessante.
— Só toma cuidado.
Olhei para ela.
— Cuidado com o quê?
— Com ele.
— Por quê?
Ela deu de ombros.
— Não sei. Às vezes a gente conhece alguém e sente que aquela pessoa vai bagunçar alguma coisa.
Não respondi.
Naquele momento, achei aquilo exagerado.
Eu mal conhecia Léo.
O que ele poderia bagunçar?
Quando cheguei em casa, a sensação era completamente diferente. A universidade parecia pertencer a outro mundo. Assim que entrei, encontrei meu pai sentado na sala, cercado por documentos. Augusto Montenegro nunca parecia estar realmente descansando. Mesmo em casa, havia sempre alguma coisa para resolver, algum telefone tocando ou algum contrato sobre a mesa.
Ele levantou os olhos quando me viu.
— Chegou cedo.
Olhei para o relógio.
— Eu saí no horário normal.
— Não perguntei se saiu no horário. Perguntei por que chegou cedo.
Respirei fundo.
— Eu passei mal na faculdade.
Ele voltou os olhos para os documentos.
— E?
— Fui para a enfermaria.
— Você perdeu aula?
— Era o primeiro dia.
— Isso não responde à pergunta.
— Perdi.
Ele soltou um suspiro irritado e finalmente me encarou.
— Gustavo, você tem dezoito anos. Já passou da idade de agir como criança sempre que alguma coisa não sai como planejado.
A frase me atingiu mais do que deveria.
— Eu não fiz isso.
— Não?
— Eu passei mal.
— Então aprenda a se cuidar.
Fiquei em silêncio.
Meu pai fechou a pasta que estava diante dele e se levantou.
— Você está no segundo período de Direito. Já deveria estar pensando no seu estágio, nas suas notas e no que vai fazer depois da faculdade. Eu não pago uma das melhores universidades do país para você passar o dia brincando de estudante.
— Eu não estou brincando.
— Então prove.
Ele se aproximou e colocou a mão sobre meu ombro.
Não foi um gesto de carinho.
Foi quase uma advertência.
— Você vai terminar Direito, vai entrar na empresa e vai aprender a assumir responsabilidades. Eu não passei a vida inteira construindo tudo o que temos para ver meu filho jogar isso fora porque resolveu ter uma crise de adolescência.
— E se eu não quiser trabalhar na sua empresa?
O silêncio que veio depois foi imediato.
Meu pai me encarou como se eu tivesse acabado de dizer algo absurdo.
— Você vai.
— Pai...
— Não existe essa discussão.
— Mas é a minha vida.
Ele deu uma risada curta, sem humor.
— Enquanto você morar nesta casa e depender do meu dinheiro, Gustavo, muita coisa na sua vida não será decidida por você.
Senti a garganta apertar.
— Entendi.
— Espero que tenha entendido mesmo.
Ele pegou a pasta novamente e voltou para o sofá, encerrando a conversa como fazia sempre.
Eu subi para o meu quarto sem dizer mais nada.
Assim que fechei a porta, tirei os sapatos e me joguei na cama. Fiquei alguns segundos olhando para o teto, tentando afastar as palavras do meu pai da cabeça.
Enquanto eu fazia isso, meu celular vibrou.
Peguei o aparelho.
Uma nova mensagem no WhatsApp.
Leonardo: Chegou bem?
Fiquei olhando para aquelas três palavras.
Era uma pergunta simples.
Nada demais.
Mas, depois daquela conversa com meu pai, foi estranho perceber que alguém que eu conhecia havia poucas horas tinha perguntado se eu estava bem, enquanto a pessoa que deveria fazer isso havia passado os últimos minutos me dizendo tudo aquilo que eu deveria ser.
Digitei uma resposta.
Eu: Cheguei. E você?
A resposta veio pouco depois.
Leonardo: Cheguei também. Descansa. Você não parece muito bem.
Sorri.
Eu: Obrigado pela delicadeza.
Leonardo: Disponha.
Coloquei o celular sobre o peito e fechei os olhos.
Eu ainda não sabia quase nada sobre Leonardo. Não sabia direito de onde ele vinha, não conhecia sua família, seus planos ou o motivo de ter escolhido aquela universidade. Mas alguma coisa nele tinha ficado comigo desde aquele primeiro encontro.
Talvez fosse o jeito de falar.
Talvez fosse o sorriso.
Talvez fosse a forma como ele me segurou antes que eu caísse.
Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, pela primeira vez naquele dia, alguém tinha olhado para mim sem querer que eu fosse alguma coisa diferente.
Não sei quanto tempo fiquei olhando para o celular antes de finalmente adormecer. A febre tinha começado a pesar no corpo e, depois de um dia inteiro tentando fingir que estava bem, minha cabeça finalmente desistiu de continuar funcionando. A última coisa de que me lembro foi da tela do celular apagando ao meu lado e do nome de Leonardo ainda aparecendo na minha mente antes de tudo ficar escuro.
Acordei algumas horas depois com o barulho da porta do meu quarto se abrindo. Abri os olhos devagar, ainda sonolento, e demorei alguns segundos para conseguir enxergar direito. A primeira coisa que vi foi uma silhueta ruiva entrando no quarto com cuidado para não fazer barulho.
— Lucas?
— Finalmente — ele respondeu em voz baixa, fechando a porta atrás de si. — Achei que ia precisar chamar uma ambulância para conseguir acordar você.
Esfreguei os olhos e tentei me sentar na cama.
— Que horas são?
— Quase dez.
— Da noite?
Ele me encarou.
— Não, Gustavo. Da manhã. Claro que é da noite.
Revirei os olhos e deixei a cabeça cair novamente no travesseiro.
— O que você está fazendo aqui?
Lucas largou a mochila em uma poltrona e se aproximou da cama.
— A Carla me contou que você passou mal. Vim ver como você estava.
— Você não precisava.
— Eu sei.
Ele puxou a cadeira para perto da cama e se sentou.
— Mas eu quis vir.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Lucas tinha esse jeito. Fazia parecer que qualquer coisa que acontecesse comigo também dizia respeito a ele. Nós éramos amigos havia tantos anos que eu já nem conseguia lembrar quando exatamente aquilo começou. Nossas famílias se conheciam, crescemos praticamente juntos e, em algum momento, Lucas deixou de ser apenas um amigo da infância e virou uma das pessoas que eu mais confiava no mundo.
— Eu estou bem.
Ele colocou a mão sobre minha testa.
— Você está quente.
— Obrigado pela constatação, doutor.
— Idiota.
Sorri.
Lucas afastou alguns fios do meu cabelo da testa e ficou me observando por alguns segundos.
— Você me assustou hoje.
— Eu só fiquei tonto.
— A Carla disse que você quase caiu de uma escada.
— Ela exagera.
— Ela disse que um garoto novo te segurou.
Fiquei em silêncio por um instante.
— Segurou.
— O mesmo garoto que estava sentado perto de você?
— Sim.
Lucas baixou os olhos por um segundo.
— Leonardo.
— É.
— Parece que vocês ficaram amigos rápido.
— Não somos amigos.
— Ainda.
Olhei para ele.
— Por que você está falando desse jeito?
— Desse jeito como?
— Como se estivesse interrogando alguém.
Ele soltou uma risada.
— Só estou curioso.
— Você nunca foi curioso sobre alunos novos.
— Talvez esse seja diferente.
Dei de ombros.
— Ele só me ajudou.
Lucas ficou quieto por alguns segundos. Depois se levantou e foi até a minha mesa, pegando uma garrafa de água.
— Bebe.
— Você está muito mandão hoje.
— Alguém precisa cuidar de você.
Ele me entregou a garrafa e eu bebi alguns goles. Quando devolvi, Lucas voltou a se sentar ao meu lado.
— Vou passar a noite aqui.
Quase engasguei.
— O quê?
— Você ouviu.
— Lucas, eu estou com febre, não morrendo.
— Melhor ainda. Assim você não pode reclamar que eu ronco enquanto você estiver inconsciente.
Ri.
— Você é muito idiota.
— E você está muito doente para me expulsar.
Ele tirou os tênis e se acomodou na poltrona ao lado da cama.
— Vou ficar aqui. Se precisar de alguma coisa, eu pego.
— Você não precisa fazer isso.
— Eu sei.
Ele repetiu exatamente as mesmas palavras de antes.
Mas dessa vez havia alguma coisa diferente no jeito como falou.
Fiquei observando enquanto ele se ajeitava na poltrona. Lucas sempre fazia isso. Estava presente sem pedir nada em troca. Talvez por isso eu nunca tivesse percebido certas coisas.
Ele era cuidadoso demais comigo.
Atencioso demais.
Talvez eu simplesmente tivesse me acostumado.
Fechei os olhos novamente.
— Gustavo?
— Hm?
Senti o colchão afundar levemente ao meu lado. Lucas havia se aproximado. Alguns segundos depois, senti seus dedos passando devagar pelos meus cabelos.
Abri os olhos.
— O que você está fazendo?
— Cafuné.
— Por quê?
— Porque você está doente.
A resposta veio tão naturalmente que não questionei mais.
Fechei os olhos outra vez.
Os dedos dele continuaram passando pelo meu cabelo, devagar, e o quarto ficou silencioso. Eu conseguia ouvir apenas o barulho distante da cidade e a respiração tranquila de Lucas.
— Você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, né? — ele perguntou.
— Eu sei.
— Qualquer coisa mesmo.
— Eu sei, Lucas.
Ele ficou em silêncio.
Eu não vi a expressão que surgiu no rosto dele naquele momento.
Não vi o jeito como me observou enquanto eu fechava os olhos novamente.
Não percebi que, para mim, aquele carinho era apenas amizade.
Porque Lucas nunca tinha sido outra coisa.
Ou, pelo menos, era assim que eu enxergava.
Ele continuou fazendo cafuné até perceber que eu estava adormecendo outra vez. Antes de pegar no sono, ainda pensei na mensagem que havia recebido naquela noite.
Leonardo.
O garoto novo.
O casaco dele estava sobre a cadeira.
O número dele estava no meu celular.
E, pela primeira vez, eu estava ansioso para que o dia seguinte chegasse.
Eu não fazia ideia de que, naquela mesma noite, duas pessoas diferentes estavam ocupando espaços completamente distintos dentro da minha cabeça.
No dia seguinte, acordei com uma sensação horrível. Minha cabeça parecia pesada, meu corpo inteiro doía e, por alguns segundos, não consegui lembrar onde estava. Abri os olhos devagar e encontrei Lucas sentado na poltrona ao lado da minha cama, ainda com a mesma roupa do dia anterior. O cabelo ruivo estava completamente bagunçado e havia uma expressão de preocupação no rosto que eu raramente via nele.
— Finalmente acordou — ele disse, levantando-se. — Como você está?
— Péssimo.
Minha voz saiu rouca. Tentei me sentar, mas uma tontura forte me fez desistir quase imediatamente.
Lucas se aproximou e colocou a mão na minha testa.
— Você está queimando.
— Dramático.
— Gustavo, eu estou falando sério.
Ele pegou o termômetro que havia deixado sobre a mesa e esperou alguns segundos. Quando olhou para o resultado, seu rosto ficou ainda mais preocupado.
— Você está com febre de novo.
— Quanto?
— O suficiente para eu não deixar você ir para a faculdade.
— Eu tenho aula.
— E eu tenho olhos. Você não vai.
— Lucas...
— Não.
Ele falou de um jeito tão firme que acabei rindo, mesmo sem vontade.
— Você é muito mandão.
— E você é muito teimoso.
Ele pegou meu celular e colocou na minha mão.
— Avisa a Carla que você não vai.
Olhei para a tela e pensei por alguns segundos. Havia uma mensagem de Leonardo da noite anterior. Abri a conversa antes mesmo de perceber que estava fazendo isso.
Leonardo: Dormiu bem?
Fiquei olhando para a mensagem por alguns segundos.
Eu: Mais ou menos. Ainda estou com febre.
A resposta veio pouco depois.
Leonardo: Então não vai para a faculdade.
Sorri.
Eu: Todo mundo resolveu mandar em mim hoje.
Leonardo: Talvez porque você precise.
Levantei os olhos da tela e encontrei Lucas me observando.
— O que foi? — perguntei.
— Nada.
— Você está olhando estranho.
— Estou olhando para você mexendo no celular enquanto está doente.
— É o Leonardo.
A expressão de Lucas mudou por uma fração de segundo, mas desapareceu tão rápido que quase não percebi.
— O aluno novo?
— Ele mesmo.
— Ele está preocupado?
— Está.
Lucas deu um pequeno sorriso, embora não parecesse muito feliz.
— Legal.
Guardei o celular.
— Vou faltar hoje.
— Ótimo. Agora podemos ir ao hospital.
— Hospital?
— Sim.
— Não precisa.
— Gustavo, ontem você quase caiu duas vezes, passou pela enfermaria e hoje acordou com febre alta. Eu não vou ficar aqui esperando você piorar.
Não tive forças para discutir.
No caminho para o hospital, Lucas praticamente não me deixou fazer nada sozinho. Pegou minha mochila, abriu a porta do carro, ficou perguntando se eu precisava de água e, quando percebeu que eu estava com frio, aumentou o aquecimento. Eu conhecia aquele comportamento havia anos. Lucas sempre fora assim comigo. Desde crianças, ele tinha uma maneira quase exagerada de cuidar das pessoas que gostava.
Por isso, para mim, não havia nada de estranho naquilo.
Era apenas Lucas sendo Lucas.
Depois de alguns exames e algumas horas de espera, veio a suspeita de dengue. O médico explicou que eu precisava ficar em repouso e acompanhar a evolução dos sintomas. Nada de faculdade por alguns dias.
Os dias seguintes se transformaram em uma sequência confusa de sono, febre, água, remédios indicados pelo médico e mensagens que eu mal tinha energia para responder. Lucas aparecia todos os dias, às vezes pela manhã, às vezes depois do almoço, sempre carregando alguma coisa que achava que poderia me fazer sentir melhor. Quando eu reclamava, ele dizia que estava apenas cumprindo seu papel de melhor amigo. E talvez fosse exatamente isso que ele estivesse fazendo.
Fiquei longe da faculdade por mais de uma semana. Durante esse período, precisei retornar ao serviço de saúde para as reavaliações e acompanhar a evolução do quadro. Aos poucos, a febre começou a ceder, mas meu corpo continuava fraco e eu demorava mais do que gostaria para voltar ao normal. A faculdade continuava acontecendo sem mim, as aulas acumulavam e, embora eu reclamasse todos os dias que estava ficando maluco dentro daquele quarto, havia uma pequena parte de mim que gostava de saber que alguém estava sentindo minha falta.
Principalmente quando meu celular vibrava.
Leonardo: Como você está hoje?
Peguei o aparelho imediatamente.
Eu: Melhor. Ainda meio acabado.
Leonardo: Você vai voltar semana que vem?
Eu: Acho que sim. Estou ficando maluco dentro de casa.
Leonardo: Então eu te vejo logo.
Fiquei olhando para aquela última mensagem.
Eu te vejo logo.
Era uma frase simples, mas senti uma expectativa estranha surgir dentro de mim.
— Quem é? — Lucas perguntou.
— Leonardo.
Ele ficou em silêncio.
— Ele fala com você todos os dias?
— Quase.
— Vocês só se viram pessoalmente um dia!
— Eu sei.
— E já estão trocando mensagem todos os dias.
— Lucas, você está com ciúmes?
Ele riu.
— De você? Claro que não.
— Então pronto.
Voltei a olhar para o celular.
Não percebi que Lucas desviou os olhos para a televisão e ficou quieto por alguns segundos.
Talvez eu devesse ter percebido.
Mas não percebi.
Para mim, Lucas sempre esteve ali. Era como uma parte da minha vida que eu nunca precisei questionar. Eu sabia que podia ligar para ele de madrugada, contar qualquer coisa, pedir ajuda, aparecer na casa dele sem avisar. Sabia que ele estaria ali.
E talvez justamente por isso eu nunca tivesse parado para pensar no quanto ele fazia por mim.
Era fácil demais acreditar que aquilo era apenas amizade.
Naquela noite, antes de dormir, recebi mais uma mensagem de Leonardo.
Leonardo: Boa noite, Gustavo. Se cuida.
Sorri antes de responder.
Eu: Boa noite, Léo.
Coloquei o celular ao lado da cama e fechei os olhos.
Eu estava doente havia dias.
Tinha perdido aulas, estava cansado, irritado e ainda não conseguia entender por que uma mensagem tão simples conseguia mudar meu humor.
No outro lado do quarto, Lucas dormia na poltrona.
Ele havia passado algumas noites praticamente cuidando de mim sem reclamar uma única vez.
Era meu melhor amigo.
A pessoa que conhecia minha história, meus medos, minhas manias e todos os meus defeitos.
A pessoa que provavelmente me conhecia melhor do que qualquer outra.
Eu tinha certeza de que jamais encontraria alguém em quem pudesse confiar tanto quanto confiava nele.
E talvez esse fosse exatamente o problema.
Porque enquanto Lucas já ocupava um lugar enorme na minha vida, eu começava a abrir espaço para alguém que acabara de chegar.
E eu ainda não fazia ideia de que os dois ocupavam lugares completamente diferentes.
Ou de que, em algum momento, eu seria obrigado a escolher onde cada um realmente pertencia.