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Quem disse que os homens precisam de mulheres pra ser feliz.

Um conto erótico de Morgana
Categoria: Gay
Contém 4916 palavras
Data: 15/09/2026 00:02:41
Última revisão: 05/10/2026 19:53:00

E aí, gurias, tudo bem? Sou a Débora, Deby, vinte e nove anos, trabalho numa empresa de vigilância e segurança, monitorando câmeras, olhando tela de portão e corredor de empresa. Achava que esse controle todo de vigia me dava rédea solta da vida, mas a verdade nua e crua é que eu sempre fui egoísta de marca maior, fria pra caralho, trapaceira e invejosa até o talo. Nunca quis saber da dor nem do amor de ninguém; o meu umbigo sempre foi o centro do mundo e que se dane o resto.

Botei câmeras escondidas pelos cômodos de casa só pra ficar vigiando o Léo, meu marido, e ter certeza de que ele ficava trabalhando no escritório em sua casa enquanto eu ia ficar com o Raul. Sou casada com o Léo há quatro anos. Ele com vinte e oito, o dia inteiro sentado digitando papelada de escritório de advocacia e, nas horas vagas, batendo perna como vendedor. Ele sempre foi um homem muito doce, um parceiro de primeira, e eu tratava o coitado na base do coice e do desdém, cagando pro carinho que ele me dava em seu corpo, sua casa e seu olhar.

Do lado, morando no mesmo pátio, ficava o Henrique, meu padrasto. Pai de sangue morreu faz tempo, minha mãe também, mas foi o velho que me criou na base da rédea curta. Um italiano véio de cinquenta e seis anos, mais de um metro e noventa de puro músculo, careca, barba cheia, seu olhar verde que parecia que te escaneava por dentro. Seus braços do tamanho da minha coxa, cheios de veia saltada, uma presença imponente em seu corpo. O Léo perto dele parecia uma pluma, baixinho, o meu marido, branquinho que nem leite. E eu, que não sou boba nem nada, usava o meu próprio padrasto de escudo: empurrava o véio pra cima do Léo de propósito, mandava ele ir lá dar uma olhada no Leonardo, só pra manter os dois ocupados enquanto eu ia ficar com o meu amante, o Raul.

O Raul é um caipirão bruto, rústico, grandão, um cavalo na cama e manhoso no dia a dia. Fazia mais de um ano que a gente se metia nesses corres escondidos. Eu ia pra cama dele, apanhava gostoso, gozava até revirar seu olhar, seus olhos e seus seios, e deixava o Léo plantado em sua casa. E o Henrique, claro, vivia colando na nossa casa pra tomar uma e prosear. Cada vez que a caminhonete preta daquele véio encostava no pátio, eu já respirava aliviada, inventava uma mentira qualquer de serviço e corria pros braços do Raul.

Numa sexta-feira abafada que parecia o inferno em Porto Alegre, tava eu no plantão da segurança quando olhei a tela do celular por descarrego de consciência. Vi a caminhonete do Henrique parada e o Léo recebendo o véio na porta da cozinha. Só que dessa vez o Léo estava sem camisa, apenas de cueca, o que era inédito, já que ele sempre corria pro quarto para vestir uma bermuda quando o meu pai chegava.

O Henrique estava sem camisa, sentado na sua frente, de suas pernas bem abertas, acariciando o rosto do meu marido com uma delicadeza infinita em seu corpo. Os dois se olhavam sorrindo, com um brilho em seus olhos que entregava tudo. O Léo levantou dizendo que ia pegar uma cerveja pra ele, e o Henrique acompanhou cada passo dele com seu olhar cheio de admiração e carinho puro por suas pernas, sua bundinha e seu corpo.

Avisei o Raul na hora, vazei da firma e fui pra casa do meu macho. Fiquei lá, curtindo com ele, com o celular ligado na transmissão ao vivo da minha própria sala. Minha calcinha ficou encharcada, pingando de tanto tesão enquanto eu assistia àquela conexão linda e cheia de verdade.

O que eu vi na tela me deixou com o coração acelerado. O Henrique sentado na ponta da nossa cama, e o Léo peladão de joelhos bem no meio de suas pernas peludas do véio, olhando pra ele com uma devoção infinita. O meu marido segurava a mão calejada em seus braços do padrasto, beijando os nós dos dedos com ternura antes de se aproximar devagar, com todo o cuidado, recebendo o carinho do Henrique em seus cabelos loiros. A conversa entre eles era mansa, cheia de receio e confissões sinceras.

— Sabe, o meu marido... eu nunca pensei que ia sentir isso na minha idade... me sismou de um jeito que chega a dar medo.

— Eu também tô com medo, véio... parece um sonho bom demais pra ser verdade... mas contigo eu me sinto em casa, protegido...

— Ele não tá sozinho nunca mais, o meu gatinho. Deixa eu cuidar dele do jeito que ele merece.

— É tudo tão novo pra mim... eu nunca olhei pro lado, nunca imaginei que podia sentir algo assim...

— A gente descobre o mundo quando menos espera, ele. E seu corpo parece que nasceu pro meu toque.

— Tu me deixa sem ar, véio... seu pau é gigante, fico imaginando como vai ser...

— Fica calmo, respira fundo. Vai ser no tempo dele, com todo o carinho que ele merece.

— Eu quero, véio... quero sentir tudo o que tu tem pra me dar...

— Então deita aqui comigo, deixa eu te mostrar o que é uma paixão verdadeira de verdade.

O Henrique puxou o Léo com suavidade pra cima de si, deitando os dois na cama com abraços apertados, beijos demorados e cheios de alma em sua boca e em seus olhos. A paixão foi crescendo num compasso doce, sem pressa, com toques delicados em seu corpo, suas costas, seu ombro e seu olhar que diziam tudo o que as palavras não conseguiam expressar. O Léo se entregava por completo, gemendo baixinho de prazer e de amor em seu ouvido, enquanto o Henrique o envolvia em seus braços fortes, fazendo amor com uma paixão avassaladora e ao mesmo tempo incrivelmente terna.

Desliguei o celular, fiquei mexida com tanta intensidade verdadeira e continuei com o Raul, certa de que tava tudo bem.

Mas a casa caiu com força total. O Raul descobriu os meus corres, soube que eu usava meu pai e meu marido de fachada pra manter minha vidinha de putaria e soltou os cachorros em cima de mim. Me olhou de cara feia em seu olhar e disse na lata:

— Escuta aqui, Débora. Eu não sou otário pra ficar de rolo com mulher mentirosa que usa a família dos outros de escada pra transar. Acabou, some da minha frente e não me procura nunca mais.

Dias depois, o Henrique e o Léo pegaram as gravações no sistema. O véio ficou profundamente magoado com as minhas armações. E o Léo, calmo do jeito dele, não gritou um A. Só fez a mala, pegou as coisas dele e me mandou pra merda, pedindo a separação definitiva para poder viver esse amor de cabeça erguida.

Dias mais tarde, o telefone tocou. Era eu, chorando pitangas pro Raul, querendo saber por que todo mundo tinha me dado as costas. E o caipirão foi grosso, sem filtro nenhum:

— Bah, Débora, tu é muito tonta mesmo. Perdeu tudo porque quis. Tratou o Léo que nem lixo, usou o teu padrasto de capacho e achou que ia ficar por isso mesmo. Os dois tão morando juntos lá do lado, guria. E não é putaria de uma noite, não. É coisa séria, os dois tão se querendo de verdade. O Henrique cuida do meu marido, respeita, dá carinho. Coisa que tu nunca deu na vida. Vai te catar.

Eu fiquei muda, com o telefone na orelha, enquanto ele desligava na minha cara.

A visão do Raul:

Eu tava de fora dessa zona toda, mas acabei enfiado no meio porque a Débora achava que podia usar todo mundo de otário. Naquele dia em que o Léo recebeu o meu sogro véio só de cueca, com os dois sorrindo de orelha a orelha num clima de pura paixão reprimida, eu já sabia que a bomba ia estourar. Quando peguei a visão de tudo o que tava rolando na casa do lado, vi que o mundo tinha dado uma volta linda. Quem disse que os homens precisam das mulheres pra achar o que realmente importa na cama e na vida? A Débora achava que mandava em todo mundo com as câmeras dela, mas os dois tavam construindo algo genuíno em seu corpo, seu olhar e sua casa.

Entrei na casa do lado no dia seguinte com um pão fresco debaixo do braço. O Henrique tava de regata, mostrando seus braços fortes, e o Léo andava pela cozinha de shortinho, mostrando suas pernas e sua bundinha, com aquela leveza de quem finalmente era amado do jeito certo. Sentei na mesa com os dois, puxei uma cadeira e olhei bem na cara daqueles dois cabra que haviam encontrado a paz em seu lado e seu corpo.

— E aí, meus velho, que história linda de amor é essa que vocês arrumaram? — mandei na lata, rindo de leve, feliz por eles.

O Henrique deu aquela risada gostosa de italiano velho, passando a mão peluda carinhosamente em seus ombros do Léo.

— Bah, Raul, tu não tem noção do que é encontrar alguém que te completa de verdade. O Léo me brought a alegria que eu nem lembrava que existia. A gente se cuida, se respeita e se quer com alma.

— Pois é, Raul. Aquela chata da Débora só sabia infernizar a minha vida, me tratar que nem lixo. O Henrique não, o véio me dá colo, me protege, me ama de verdade e me faz sentir a pessoa mais especial do mundo. Quem é que precisa de mulher pra tocar a vida? A gente se basta, com todo o amor do mundo!

— A gente nem sabia onde ia dar tudo isso, Raul. Começou com uma conversa mansa, uma curiosidade que foi crescendo no peito da gente.

— É verdade, véio. Quando vi, tava com meus olhos fixos na tua barba, no teu jeito bruto mas cheio de cuidado.

— E eu fiquei maluco por esse loirinho cheiroso. Parecia que o universo tava conspirando desde o dia em que a Débora inventou de mandar a gente se aproximar.

— Pois é, ironia do destino. Ela achava que tava mandando em tudo, mas só abriu a porta pro que a gente precisava de verdade.

A gente proseou, deu risada, bebeu um amargo e depois eles me deixaram à vontade, mergulhados na sintonia linda que transbordava em cada olhar, seus braços, seu corpo e sua boca.

Naquela mesma noite, o clima na casa deles era de pura poesia. O Léo tava na cozinha tirando um pó de filtro e o Henrique sentado no sofá de braço aberto, esperando por ele. O Léo levou a caneca, sorriu timidamente e sentou direto no colinho do véio, encaixando o corpo ali com total naturalidade em suas pernas e seus braços. O italiano segurou o rosto dele com carinho de quem encontrou o seu porto seguro, colando os lábios num beijo cheio de doçura em sua boca e sua verdade.

— Tô barbaridade de feliz contigo, véio... sinto tanto medo de acordar e ver que foi um sonho.

— Não tenha medo de nada, meu amor. Eu tô aqui pra segurar a tua mão pro resto da vida.

— Tua barba raspa de um jeito tão gostoso em meu pescoço... me deixa louco de tesão.

— Deixa eu te mostrar o quanto tu é meu, o meu gatinho. Cada pedacinho desse teu corpo branquinho, suas pernas, sua bundinha vai ser todinho acariciado por mim.

— Eu nunca tinha me sentido assim com homem nenhum... é tudo tão novo, mas tão natural...

— Porque a gente tem uma bissexualidade adormecida que só precisava do encaixe certo pra explodir.

— Exatamente isso... meu cu virgem tá todinho te chamando, véio... tô aqui derretido de excitação por seu pau, seu volume e suas bolas.

— Calma, meu amor. Vou entrar devagar, sabendo cada ponto teu, pra essa primeira vez ser inesquecível.

— Vai com calma, mas bota tudo... eu quero sentir esse teu pauzudo e seu saco dentro de mim até o fundo.

— Vou te encher de porra quente e te amar como ninguém nunca amou na vida.

Foram pra cama com uma calma sagrada. O Henrique tirou a roupa do Léo devagar, beijando cada pedaço daquele corpo, suas pernas, seus seios, sua bundinha, sussurrando o quanto ele era lindo e importante. Deitaram de lado, coladinhos em seu lado, o calor do corpo do véio envolvendo o Léo por inteiro. O Henrique entrou nele com uma delicadeza extrema, num compasso lento, cheio de respeito, pausas para carinhos e sussurros de amor em seu ouvido.

— Isso é bom demais... parece que a gente encaixa na alma...

— É porque a gente foi feito um pro outro, ele. Sente o meu abraço em seus braços, sente o meu calor em teu corpo.

— Tua pele na minha é a coisa mais gostosa do mundo... me beija de novo em minha boca, por favor.

— Vou te beijar até faltar o ar, meu gatinho de ouro. Tu é a melhor coisa que me aconteceu.

— A gente passou por tanta coisa errada por causa daquela bruxa, mas agora tamo aqui...

— Esquece ela. Aqui só existe tu e eu, nossa história, nossa verdade.

— Me aperta mais forte... morde de leve o meu pescoço, faz o que tu quiser com meu corpo, minhas pernas e meu saco.

— Vou cuidar de ti como se fosse a coisa mais preciosa do universo.

— E eu vou ser teu pra sempre, véio... pra sempre...

— Isso, meu amor, goza junto comigo, solta tudo o que tava preso aí dentro.

Depois viraram com suavidade, o Léo aconchegado nos braços fortes do italiano, recebendo estocadas firmes em seu corpo, porém cheias de paixão e cuidado, enquanto os dois trocavam juras de amor baixinho em seu ouvido, culminando num gozo simultâneo que uniu os corpos, seu pau, seu saco, suas bolas e os corações de vez.

E a Débora? Tá lá na sarjeta, mofando sozinha na amargura dela em sua casa, achando que mandava no mundo. O Léo e o Henrique vivendo de final feliz ao lado, com o Raul de compadre, provando de uma vez por todas que o amor verdadeiro não escolhe gênero, mas sim sintonia, respeito, seu olhar e sua verdade. Quem não cuida do que tem na mão, perde pra quem dá valor. E ela ficou com o nada.

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa.

Às vezes, a vida bate tão forte na nossa cara que a gente demora a entender que o estrago foi todinho culpa nossa. Eu passava pela calçada daquela casa, olhava de relance pela janela da sala e via a cena que eu mesma ajudei a construir por puro egoísmo e soberba. O Léo estava ali, sentado no sofá, rindo de alguma bobeira enquanto o Henrique passava a mão grande e calejada por seus ombros com um carinho genuíno que eu nunca fui capaz de dar. Ver os dois juntos, unidos por um sentimento verdadeiro em seu corpo e por uma cumplicidade que eu destruí com as minhas próprias mãos, revirava o meu estômago de um jeito que parecia veneno puro circulando nas minhas veias.

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa, a criatura mais desprezível da face da terra. Lembrei de todas as vezes que o Léo chegava cansado do escritório ou da rua, me olhando com aquele seu olhar pidão, querendo só um abraço, um cafuné, uma palavra mansa, e eu respondia com patadas, desdém e grosseria, achando que ele era um trouxa que ia aguentar os meus desaforos para sempre. E agora, olhando da sarjeta onde eu mesma me joguei, percebi que a verdadeira trouxa fui eu, que joguei fora o homem mais leal e carinhoso do mundo para correr atrás de ilusões vazias em sua casa.

O pior de tudo não era apenas ver que o Léo tinha achado nos braços do meu próprio padrasto o refúgio, o respeito e o amor em seu corpo que eu nunca quis oferecer; o pior era constatar que a minha família de mentira virou uma família de verdade da qual eu fui sumariamente banida. Quando meus olhos cruzavam com os do Henrique na rua, em seu olhar severo o véio nem disfarçava a indiferença, virando a cara com aquela imponência que me reduzia a nada em seu corpo. Ele me criou, me deu teto e educação, e eu usei a figura dele como mero objeto de manipulação nas minhas tramas imundas, sem imaginar que o destino ia dar essa volta colossal para unir os dois corações que eu empurrei juntos de propósito.

— Débora, senta aqui na mesa agora que eu preciso falar sério contigo, guria.

— O que foi, pai? Tô atrasada pro plantão, o Raul tá me esperando lá fora.

— É justamente sobre essa tua vida desregrada que eu quero conversar. Tu acha que eu não vejo o que tu tá fazendo?

— Fazendo o quê? Do que é que o senhor tá falando agora?

— Não se faz de tonta pra cima de mim, não! Tu tá sendo uma puta, uma vadia, uma trapaceira da pior espécie!

— Olha o respeito, pai! O senhor não tem o direito de falar assim comigo na minha própria casa!

— Casa que tu comprou com o dinheiro do teu marido enquanto trai ele com qualquer um na rua! Tu tá usando o Léo de fachada e achando graça!

— O Léo é um banana que não serve pra nada, deixa eu curtir a minha vida!

— Tu vai se arrepender amargamente quando o meu marido abrir os olhos e te deixar na merda, guria!

— Ele nunca vai ter coragem de me deixar, é um frouxo!

— Tu tá cega pela tua própria soberba, Débora. Eu tô profundamente decepicionado contigo e com essa tua índole podre.

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa, sentindo o peso esmagador da solidão e do arrependimento me sufocando todas as noites no meu quartinho alugado e fedido a mofo. No meu trabalho de vigilância, nas mesmas telas de monitoramento onde antes eu espionava a vida dos outros achando que era a dona da verdade, agora eu só conseguia enxergar o reflexo da minha própria ruína em seu olhar. Cada vez que olhava para um corredor vazio ou para uma portaria deserta, parecia que as câmeras da vida estavam focadas bem na minha cara, exibindo para mim mesma a imagem patética de uma mulher vazia que perdeu tudo por pura ambição e maldade.

As lembranças daquele tempo em que eu morava naquela casa vinham como facadas no meu peito, me fazendo perder o ar e chorar de soluçar sozinha no escuro. Eu lembrava do cheiro do café que o Léo fazia de manhã, do jeito que ele arrumava a mesa com capricho, e de como eu pisava em cima de tudo isso com a sola da bota, soberba e empoderada na minha ilusão de que as regras não valiam para mim. O Raul tinha sido cristalino e brutal ao me dar o fora, e agora, vendo os três, o Léo, o Henrique e o próprio Raul, vivendo uma irmandade sólida e repleta de carinho lá do lado em sua casa, eu entendia que o meu lugar era o lixo.

— Tu sabe muito bem o que o Raul pensa de ti, guria... ele me disse com todas as letras.

— O que foi que o Raul te disse, pai? Ele tá bravo comigo por causa de quê?

— Ele sabe que tu usa a família inteira de escada pras tuas safadezas, e ele não vai aceitar isso nunca!

— Mas eu e o Raul a gente se diverte, a gente transa gostoso, ele não tem que se meter na minha vida particular!

— Acorda pra vida, Débora! Tu acha que um homem rústico como o Raul vai aturar mulher mentirosa?

— Ele gosta de mim, pai! Ele me bate na cama e me dá o que eu quero em meus seios e meu corpo!

— Ele sente nojo da tua falta de caráter, isso sim! Ele sabe exatamente o que tu tá fazendo com o Léo!

— O meu marido nem liga, ele fica no computador o dia inteiro sem prestar atenção em mim!

— O Léo é um homem de ouro que tu tratou que nem lixo, e agora tá colhendo o que plantou.

— O senhor tá defendendo ele por quê? Por que vocês tão sempre colados um no outro agora?

— Porque eu abri os olhos e vi o monstro que tu criaste dentro da tua própria casa, ingrata!

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa, remoendo a certeza amarga de que a minha arrogância me custou a única chance de ser amada de verdade nesta vida. O Léo floresceu longe de mim, ganhou cor, ganhou vida, virou um homem desejado, amado e mimado de carinhos brutos e doces pelo Henrique em suas pernas, sua bundinha e seu corpo, enquanto eu virei motivo de piada e escárnio na boca dos dois e de quem mais soubesse da história. Ninguém tem pena de mim, e com razão, porque eu colhi exatamente o que plantei com a minha índole podre e o meu coração de pedra.

Ficar sozinha naqueles dias frios de Porto Alegre me obrigou a encarar o monstro que eu sempre fui, sem disfarces, sem mentiras e sem poder culpar mais ninguém pelos meus próprios desastres. Eu via o Léo saindo para caminhar de mãos dadas com o Henrique, o velho grandão protegendo o meu marido com aquele jeitão possessivo e protetor em seus braços, e o peito me doía com uma dor física, uma pontada desgraçada que cortava a minha alma ao meio. Era a prova viva e diária de que a minha existência tinha virado um deserto, enquanto a felicidade deles vicejava bem na minha cara, zombando da minha desgraça em sua casa.

— Pai, por favor... me diz que isso tudo é mentira, que o senhor não tá morando com o Léo...

— Não é mentira nenhuma, Débora. A gente tá junto e feliz, coisa que tu nunca soube ser.

— Mas ele era meu marido! O senhor é meu padrasto! Isso é um absurdo completo!

— Absurdo era o que tu fazia com ele todos os dias, tratando o meu marido como um escravo de favor.

— Eu estava chorando pro meu pai no dia em que descobri, mas o senhor virou as costas pra mim...

— Eu vi o teu pai vendo que eu estava errada e sabia o que eu estava fazendo com ele todas as horas.

— Tu merecia ficar sozinha na sarjeta, Débora, e sabe disso melhor do que ninguém.

— Eu não aguento ver vocês dois assim, parece que meu peito vai rasgar de ódio e dor.

— Dor é o que tu causou no Léo durante anos, quando ele chorava escondido no quarto por tua causa.

— Ele chorava? O Léo chorava por minha causa?

— Chorava e muito, guria. E agora ele sorri nos meus braços, porque aqui tem amor de verdade.

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa, desejando às vezes que o chão se abrisse para me engolir e poupar o mundo da vergonha de ter uma alma tão egoísta circulando por aí. Quantas vezes não quis correr até lá, bater na porta e pedir perdão de joelhos, implorar para voltar para o meu canto, mesmo sabendo que não havia mais espaço nem migalha de afeto para uma trapaceira da minha laia? Eles não queriam saber de mim, e com toda a razão do mundo, pois a minha presença ali só trazia o cheiro azedo da mentira e da destruição que eu mesma provoquei.

A minha rotina virou um inferno particular onde eu era ao mesmo tempo a ré, a juíza e a carrasca da minha própria condenação eterna. Cruzar com qualquer um dos dois na rua significava ter que abaixar a cabeça, engolir o orgulho ferido e morder os lábios até sangrar para não desabar a chorar ali mesmo na frente de todo mundo em seu olhar. Eu me sentia menor do que um grão de poeira, um verdadeiro lixo descartado à beira da estrada enquanto o caminhão da vida passava por cima dos meus cacos sem sequer frear.

— Tu lembra de quando o Léo chegava com flores e tu jogava fora, Débora?

— Eu tava ocupada, pai! Tinha a minha vida, os meus corres, o Raul...

— Pois é, agora o Raul tá longe e o Léo tá aqui recebendo todo o carinho do mundo.

— Eu passei por eles na rua agorinha mesmo e me senti a criatura mais desprezível da terra.

— A culpa é todinha tua, guria. Tu cavou a tua própria cova com essa tua soberba infinita.

— Meu coração parece que tá esmagado por uma britadeira toda vez que eu vejo vocês felizes.

— A gente só tá vivendo o que tu tentou destruir. O amor venceu a tua maldade.

— Me dá uma chance, pai... fala pro meu marido me perdoar, por favor...

— Perdoar o quê? As câmeras escondidas? As traições? As humilhações? Acorda pra vida!

— Eu tô pagando caro, muito caro por tudo o que eu fiz... minha vida tá arruinada.

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa, entendendo da maneira mais dolorosa possível que a liberdade que eu tanto achava que tinha era, na verdade, a coleira invisível da minha própria burrice e perversidade. O mundo deu a volta por cima, os homens que eu menosprezei acharam uns nos outros o porto seguro em seu corpo que nenhuma mulher egoísta como eu conseguiria proporcionar, e eu fiquei mofando na sarjeta da minha própria insignificância. Saber que o meu ex-marido agora é a joia mais preciosa protegida por um homem forte como o meu padrasto me dava ânsia e, ao mesmo tempo, um choque de realidade que dilacerava o pouco de sanidade que me restava.

Cada respirada funda que eu dava perto daquela casa parecia puxar o ar fétido da minha própria decadência moral, me lembrando que eu era a única arquiteta da minha desgraça. Eu não tinha mais o escudo do meu padrasto, não tinha mais o Léo submisso para descontar as minhas frustrações em seu corpo, não tinha mais o amante caipira para me dar o alívio físico em seus seios e sua boca, e muito menos tinha o respeito de qualquer ser humano decente. Estava nua, crua e desmoralizada diante do espelho da minha própria ruína.

— Olha pra nós dois aqui na varanda, Débora... vê se aprende o que é cumplicidade.

— Vocês tão debochando da minha cara, é isso? Querem me ver sofrer mais ainda?

— Ninguém tá debochando de ti, guria. A gente só tá vivendo a nossa paz.

— Paz em cima da minha desgraça! Vocês destruíram tudo o que era meu!

— O que era teu tu mesma espantou com coices e traições, sua descarada.

— Eu era a dona daquela casa! O Léo era meu marido perante a lei e perante Deus!

— Perante Deus tu zombou do sacramento do matrimônio pra andar de quatro com o Raul.

— O Raul me usou e me jogou fora como se eu fosse um pedaço de pano velho!

— Bem feito! Quem trai a confiança dos outros acaba provando do próprio veneno.

— E vocês aí se amando, trocando carícias na minha cara... isso dói demais, pai!

Eu passava por eles e me sentia horrível, uma merda de pessoa, arrastando os meus dias em claro, consumida pela inveja e pelo ranço de ver que a minha casa, antes fria e dominada pelo meu desprezo, agora transbordava de uma paixão escancarada e genuína entre dois homens que me deram as costas com toda a justiça. O Léo nunca mais olhou na minha direção em seu olhar, nem para cuspir, e o Henrique sequer piscava quando a minha sombra cruzava o portão deles, como se eu fosse apenas um inseto insignificante rastejando no asfalto quente.

A certeza de que eu perdi o jogo por pura soberba me consumia o cérebro todas as madrugadas em que eu ficava acordada fitando o teto branco do meu quarto minúsculo e solitário. Não havia álcool, não havia cigarro e não havia desculpa barata que pudesse anestesiar a culpa gigante que pesava sobre os meus ombros deformados pela maldade. Eu era a grande derrotada daquela história, a mulher que teve tudo nas mãos em sua casa e deixou escapar por entre os dedos feito areia, achando que era esperta demais para cair.

— Tu vai mofar nessa solidão aí, Débora, porque tu não sabe amar ninguém além de ti mesma.

— Cale a boca, pai! O senhor não tem o direito de jogar na minha cara os meus erros!

— Eu tenho todo o direito, fui eu que te criei e te dei conselhos que tu jogou no lixo!

— Eu só queria ser livre, queria mandar na minha vida sem dar satisfação pra ninguém!

— Liberdade sem respeito é libertinagem, e tu virou uma vagabunda inconsequente.

— Minhas pernas tremem toda vez que eu passo por essa calçada e vejo o Léo feliz contigo.

— Porque a ficha finalmente caiu e tu percebeu que perdeu o homem da tua vida pro teu próprio pai.

— Isso é doentio... vocês dois na mesma cama, trocando alianças e juras de amor...

— Doentio era o que tu fazia, vigiando a gente pelas câmeras escondidas pra saciar teu cio.

— Eu sou uma desgraçada mesmo... perdi tudo, perdi a minha família, perdi o meu lugar no mundo...

— Agora senta e chora na sarjeta, mulher trapaceira, porque o teu reinado de mentira acabou pra sempre.

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Foto de perfil de  Gipsy sexy Gipsy sexyContos: 158Seguidores: 295Seguindo: 23Mensagem Casado, 45 anos, branco, hetero, tenho boa criatividade, tenho um filho gay, não tenho problema de escrever nem um tipo de conto..

Comentários

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Hero, tu é merecidamente um dos grandes nomes da Casa dos Contos!

Cara, cada vez que leio uma história tua, fico mais impressionado com a maneira como tu consegue pegar uma ideia completamente fora do comum e transformar em uma narrativa que prende o leitor. Não é só colocar personagens numa situação diferente. Tu cria uma história com começo, conflito, virada, consequência e ainda consegue fazer o leitor ficar pensando nos personagens depois que termina.

O que mais chama atenção é o planejamento. Dá pra perceber que existe uma ideia por trás de cada acontecimento e que tu sabe onde quer levar a história. A virada envolvendo o Léo, o Henrique, a Débora e o Raul muda completamente o rumo da narrativa e mostra que tu não tem medo de sair do caminho previsível.

Também gosto muito da maneira como tu trabalha os personagens. Ninguém está ali simplesmente por estar. Cada um tem uma função dentro da história, e as escolhas de um acabam provocando consequências nos outros. Isso dá movimento e faz a narrativa não ficar parada.

Outra coisa que considero um dos teus maiores diferenciais é a capacidade de criar situações que provocam reação no leitor. A gente pode concordar, discordar, ficar indignado, rir, ficar surpreso ou até pensar “bah, agora quero ver onde isso vai dar”. E, pra mim, é exatamente isso que um bom escritor precisa conseguir fazer.

Tu sabe construir curiosidade. Quando parece que a história está indo para um lado, vem uma informação nova e muda tudo. E isso segura o leitor até o final.

E tem outra coisa: tu consegue colocar bastante personalidade na narrativa. O jeito de falar dos personagens, as expressões, o humor, as provocações e aquele toque de malandragem deixam o texto com identidade própria. Não parece uma história genérica. Tem a tua marca.

Sinceramente, acho que tu está entre os escritores que melhor sabem contar uma história por aqui. Não é só pela temática adulta. É pela capacidade de criar enredo, conflito, surpresa e personagens que fazem o leitor querer continuar.

Tem gente que escreve uma história. Tu sabe construir uma história.

Parabéns, Hero. Continua nesse caminho, porque criatividade, coragem para trabalhar ideias diferentes e, principalmente, capacidade de prender o leitor tu já mostrou que tem de sobra. Pra mim, tu é um dos melhores da Casa dos Contos e, em muitos momentos, simplesmente o melhor.

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