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Amor sem Regras Absolutas: A saga de Beto e Sofia - Capítulo 2 - A Promessa e o Corpo - Parte 1

Um conto erótico de Darkness
Categoria: Heterossexual
Contém 5507 palavras
Data: 14/09/2026 17:19:12
Última revisão: 28/09/2026 07:45:51

Capítulo 2 - A Promessa e o Corpo - Parte 1

A tarde de quinta caía morna pela janela do estúdio quando o Tio Cláudio finalmente parou de reclamar da luz. Ele tinha essa mania: passava vinte minutos girando um refletor de um lado pro outro, resmungando que a sombra estava dura, que o fundo estava lavado, que aquele lugar pegava uma luz de fim de tarde que não perdoava. Eu ficava olhando, o tripé montado, a câmera ainda desligada, esperando a hora em que ele ia se dar por satisfeito e dizer "bora".

O estúdio não era grande. Um galpão adaptado no fundo do quintal da casa dele, forro de madeira, paredes forradas de fundo infinito, dois softboxes, um beauty dish antigo que ele dizia ter comprado de um fotógrafo de São Paulo que faliu, e um cheiro permanente de lente limpa com pano de microfibra. A gente passava horas ali — ele mostrando, eu aprendendo. Naquela tarde não era diferente. Ele tinha um ensaio de retrato corporativo marcado pra semana seguinte e queria me mostrar como ele trabalhava a luz no rosto, que era o tipo de coisa que a maioria dos fotógrafos da nossa cidade ainda fazia errado.

— Olha isso — ele disse, apontando pro rosto da modelo de teste que ele mesmo tinha recortado de uma revista velha e pregado num suporte. — Mesma luz, mesma potência. Se eu jogo direto, ela some no fundo. Se eu rebato aqui do lado, ela ganha relevo. Rosto não é só rosto, moleque. É superfície, é brilho, é o jeito que a luz beija e volta.

Eu anotei mentalmente. Não precisava escrever, essas coisas ficavam. Eu tinha dezessete, dezoito anos naquela época, e já sabia que aquele homem estava me ensinando mais do que fotografia.

— E no casamento? — perguntei. — Como você faz quando a igreja é escura?

Ele riu, aquele riso curto de quem já ouviu a pergunta mil vezes.

— Aí você reza e rebate na parede. Igreja escura é o teste de fogo de qualquer fotógrafo de interior. Mas você vai aprender. Vai aprender na dor, como eu aprendi.

Ele desligou o refletor, sentou na banqueta e me olhou com aquela expressão que eu já conhecia — a de quem ia puxar assunto de trabalho, mas que na verdade queria falar de outra coisa.

— E o último trabalho? Como foi?

Eu contei. Um casamento no sábado, na igreja matriz, aquela mesma igreja escura que ele tinha acabado de mencionar. O padre demorou, o cerimonial atrasou a entrada, o flash da minha câmera começou a falhar no meio da cerimônia e eu tive que me virar com o que tinha. Contei também do ensaio de gestante que fiz na terça, uma mulher de uns trinta e cinco anos, o marido fazendo carinho na barriga, e como eu tinha errado a mão na temperatura de cor das primeiras fotos e tive que refazer metade no Lightroom.

Ele ouviu tudo sem me interromper. Quando eu terminei, ficou um tempo em silêncio, girando a aliança no dedo — não era aliança de casamento, era um anel de formatura antigo que ele nunca tirava.

— Duas coisas — ele disse. — Primeira: flash falha. Sempre vai falhar. Aprende a fotografar sem flash. Segunda: nunca confia no que você vê no visor. O visor mente. A tela do computador também mente. Só confia no que você sentiu quando clicou. Se você sentiu que era a foto, era a foto. Se não sentiu nada, refaz.

Eu concordei. Ele abriu a boca pra continuar, mas foi aí que o celular vibrou no bolso da minha calça.

Eu tirei, olhei rápido. Ana. Deslizei o dedo pra recusar e guardei de novo.

— Quem era? — ele perguntou, sem parecer muito interessado, enquanto mexia no refletor de novo.

— Nada, não. Trabalho.

Ele não insistiu. Voltou a falar sobre o rebatedor, sobre como eu precisava comprar um melhor, que o meu era de plástico vagabundo e que isso aparecia nas fotos. Eu prestei atenção, ou fingi prestar, porque o celular vibrou de novo. Ana. De novo. Recusei de novo.

Na terceira vez, eu já estava com o celular na mão antes mesmo dele vibrar. O Tio Cláudio parou o que estava fazendo. Não disse nada, só ficou me olhando, com aquele sorriso de canto de boca que ele tentava disfarçar e não conseguia.

— Atende, moleque.

— Tô trabalhando, tio.

— Trabalhando uma ova. Já acabamos. Atende.

Eu olhei pro visor, pro nome da Ana escrito na tela, e senti uma coisa estranha. Não era tesão, nem culpa. Era uma mistura de coisas que eu não sabia nomear — um pouco de preguiça, um pouco de vontade, um pouco de saber que aquela ligação ia me custar uma saída no fim de semana que eu não estava com tanta vontade de ter.

Atendi.

— Beto? Oi. Desculpa ligar, você tá ocupado?

A voz dela saiu meio baixa, meio hesitante, como se ela já soubesse que eu estava ocupado.

— Tô, um pouco. Tô no estúdio do meu tio, terminando umas coisas. Mas fala.

— Não, tudo bem, eu só queria saber se... se você tá livre no fim de semana. A gente podia sair, sei lá. Tô com saudade.

Eu ri por dentro. Saudade. A gente tinha se visto 3 vezes em menos de 10 dias e a três dias estávamos juntos, todas as vezes fomos parar em motéis. Eu sabia o que ela queria dizer com "sair", e ela sabia que eu sabia. Era o mesmo jogo de sempre, e eu já estava começando a me cansar dele.

— Vou ver. Tô com bastante trabalho essa semana, tenho um ensaio na quinta e um casamento no sábado. Mas vou tentar dar um jeito, a gente combina.

— Tá bom. Me avisa.

— Aviso, Ana. Tô no meio de uma coisa aqui, depois te chamo.

— Tá. Beijos.

— Beijos.

Desliguei. O Tio Cláudio estava me olhando com a cara mais cínica do mundo. Ele tinha os braços cruzados, o pano de limpar lente pendurado no ombro, e aquele sorriso que eu conhecia desde criança — o sorriso de quem sabe exatamente o que está acontecendo e está se divertindo com a minha cara.

— E aí, o que a moça queria?

— Nada. Sair no fim de semana.

— Sair. Sei.

Ele riu. Não um riso alto, um riso baixo, de quem está achando graça sozinho.

— Você tá se dando bem, hein, moleque.

— Não é isso, tio.

— É sempre isso. — Ele jogou o pano em cima da mesa e sentou de novo na banqueta. — E ela? Você gosta dela?

A pergunta me pegou de surpresa. Eu fiquei parado, o celular ainda na mão, sem saber o que dizer. Gostar da Ana? Eu gostava de conversar com ela, gostava de sair com ela, gostava muito de transar com ela. Mas "gostar" daquele jeito que ele estava perguntando, esse gostar que implica em querer algo, em querer ficar, em querer assumir — isso eu não sabia.

— Não sei — respondi.

Ele balançou a cabeça devagar, deu um lado pro outro.

— Então deixa eu te falar uma coisa. E presta atenção, porque isso eu vou falar uma vez só.

Ele se inclinou pra frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos fixos nos meus.

— Não seja canalha. Se você não quer nada sério com essa menina, deixa isso claro pra ela. Não brinca com o sentimento de ninguém. Não fica dando corda só porque é conveniente. Se você quer só curtir, fala. Se ela, sabendo disso, quiser continuar, aí é problema dela. Aí você se diverte, e se diverte muito, porque você tem dezoito anos e nessa profissão você vai conhecer muita gente. Muita gente mesmo. Mas não confunde as coisas. Namorada é namorada. Caso é caso. Cada um no seu lugar.

Ele parou, respirou fundo, e voltou a falar.

— Você é novo. Vai encontrar muita mulher nessa vida. E quando você encontrar a que vale a pena, você vai saber. Não precisa ter pressa.

Eu fiquei quieto um tempo, entendendo aquilo, pelo menos tentando. Ele tinha razão em tudo, e eu sabia. Mas a pergunta saiu antes que eu pudesse segurar.

— E você, tio? Nunca encontrou?

Ele me olhou de um jeito que eu não entendi na hora. Não era raiva, não era tristeza. Era uma coisa mais antiga, mais funda, que eu só fui entender depois.

— Encontrei várias — ele disse. — Esse é o problema.

— Como assim?

— Porque são muitas opções, moleque. E eu não quero magoar nenhuma. Então acabo não escolhendo nenhuma, e fico com todas, e no fim fico sozinho. Você ainda é jovem. Vai entender com o tempo.

Ele deu uma risada curta, se levantou e começou a desmontar o refletor. Eu fiquei parado, olhando pra ele, pensando naquelas palavras. Não entendi tudo na hora. Só muito tempo depois, quando olhei pra trás, é que percebi o que ele estava me dizendo.

Não perguntei mais nada. Ele não era de abrir o coração assim, do nada. Se quisesse falar, teria falado. O que ele disse já tinha sido mais do que o normal. Então eu só ajudei a desmontar o softbox, enrolei o cabo de força, guardei o beauty dish na caixa de isopor que ele usava pra proteger os refletores, e ficamos calados.

Ele ia viajar na sexta pra fotografar um casamento em outra cidade. Ia ficar dois dias fora. Antes disso, queria deixar tudo organizado — as lentes limpas, as baterias carregadas, os cartões formatados. Eu conhecia a rotina de cor. A gente fez tudo isso junto, em silêncio, cada um cuidando da sua parte, e quando o sol já estava baixo lá fora, eu me despedi.

Cheguei em casa quase na hora do jantar. Minha avó estava na cozinha, meu avô estava na sala, assistindo ao jornal com o volume alto.

Jantei com eles, conversei sobre bobagem, lavei a louça pra minha avó, subi pro meu quarto, e fiquei olhando pro teto por um tempo antes de pegar o celular.

Ana. Ela tinha mandado mensagem depois que a gente desligou. Três mensagens, na verdade.

"Foi mal ter ligado na hora do seu trabalho."

"Você tá livre mesmo no fim de semana?"

"Me avisa quando puder."

Eu olhei aquilo por um tempo. A gente tinha se visto três vezes em dez dias. Todas as vezes acabamos indo em motel. Todas as vezes o mesmo roteiro — mensagem, encontro, banho, cama, despedida, "beijos". Um ciclo tão mecânico que eu já sabia até o que ela ia falar antes dela falar.

Eu gostava dela. De verdade. Mas não era aquilo. Não era aquele gostar que o Tio Cláudio tinha perguntado. Era um gostar leve, sem peso, sem futuro. E eu sabia que ela sentia algo diferente, ou pelo menos queria algo diferente. Porque ninguém fica mandando coração em mensagem pra alguém que só quer sexo.

Respondi:

"Foi mal, tô resolvendo umas coisas. Amanhã te falo sobre o fim de semana."

"Beijos."

A voz do Tio Cláudio ainda estava no canto da minha cabeça, e não ia sair tão cedo.

Eu deitei de barriga pra cima, os braços cruzados atrás da cabeça, olhando pro teto. A gente cresce ouvindo que ser homem é ter várias mulheres, é se dar bem, é não se amarrar. Aí o cara que sempre te disse isso te chama pra perto e fala pra não brincar com sentimento de ninguém. Aí você descobre que o mesmo cara que te ensinou a se divertir é o cara que perdeu, porque se divertiu demais.

O celular vibrou. Era o César. César era meu melhor amigo desde a oitava série.

— Fala, Beto. Tô montando uma saída da turma no fim de semana, negócio na praça, evento da cidade. Vamo?

— Vou ver — respondi. — Tô meio cansado, mas a gente se fala.

— Beleza, moleque. Vê se aparece, faz tempo que a gente não junta a galera.

Desliguei. A verdade é que eu quase não via mais a turma do colégio. Desde que comecei a trabalhar sério com fotografia, desde que me envolvi com a Ana, desde que o tempo passou do jeito que sempre passa, eu tinha me afastado de todo mundo. Joaquim, o Douglas, o César — eles eram meus amigos desde sempre. A gente cresceu junto no bairro, hoje todos com 18 anos, na época de colégio fazíamos trabalho em grupo na casa um do outro, jogou videogame até de madrugada. Era um mundo que ainda existia, mas que eu já não frequentava.

No dia seguinte, sexta-feira, minha rotina foi a de sempre. Acordei cedo, tomei café com meus avós, peguei o ônibus pro centro pra resolver umas coisas do trabalho. Tinha um ensaio marcado à tarde, uma cliente nova, uma mulher de uns quarenta e poucos anos que queria fotos profissionais. Simples. O tipo de trabalho que eu fazia de olhos fechados. Fiz as fotos, entreguei a prévia no mesmo dia, recebi o pagamento, e voltei pra casa ainda antes do sol se pôr.

Foi quando o César ligou de novo.

— E aí, vem ou não vem?

— Vem onde?

— Na praça, amanhã à noite. Evento da cidade, tipo festa junina fora de época, sei lá. Todo mundo vai: eu e a Taís, o Douglas com a Priscila, o Joaquim com a Bruna. A gente não junta a galera desde a formatura, cara. Vai ser bom.

— E eu vou fazer o que? Segurar vela? Vocês todos com namorada, eu sozinho.

— Você não tem ninguém pra levar? Aquela mina que você tava saindo, como é o nome dela? Ana, né?

Eu parei. Ele sabia da Ana porque eu tinha comentado uma vez. Só uma. E ele tinha guardado o nome. Isso era o César — prestava atenção nas coisas, mesmo quando parecia que não estava prestando.

— A gente não tá namorando, César.

— Eu sei, eu sei. Mas pode chamar, não custa nada. Se ela topar, ótimo. Se ela não topar, você vai sozinho mesmo, pô. Mas vai. Faz tempo que a gente não se vê.

Fiquei quieto um tempo. Ele tinha razão.

— Tá. Vou ver com ela. Se ela não puder, eu não vou.

— Ah, vai sim, moleque. Você vai dar um jeito.

— Deixa comigo.

Desliguei. Fiquei olhando pro celular por um tempo, e aí mandei mensagem pra Ana.

"Oi. Meu amigo tá organizando uma saída com a galera no fim de semana. Se você quiser ir comigo, a gente vai junto. Se não puder, tudo bem, a gente sai só nós dois em outro dia."

Ela respondeu.

"Eu vou! Que horas? Onde?"

Combinei com a Ana de encontrar ela perto da praça, num ponto de ônibus que ficava a duas quadras do evento. Cheguei primeiro, de Palio, estacionei num canto e fiquei esperando com o rádio ligado baixo. Ela apareceu uns dez minutos depois, com uma blusa leve e uma calça jeans, o cabelo solto do jeito que eu gostava. Entrou no carro, me deu um beijo rápido na bochecha e sorriu.

— Você tá bonito hoje.

— Eu tô igual sempre.

— Por isso mesmo.

Ri. Ela sempre tinha esse jeito de falar coisas simples e inesperadas que fazia eu rir. Fui dirigindo até o centro, e quando a praça apareceu na esquina, o movimento já dava pra ver de longe. Barracas de comida, palco com uma banda tocando sertanejo, luzes penduradas nas árvores, cheiro de pastel e pipoca misturado no ar.

— É maior do que eu pensei — ela comentou, olhando pela janela.

— A cidade é pequena, mas quando o povo resolve sair, sai todo mundo.

Estacionei o carro numa rua próxima e a gente foi a pé até a entrada da praça. Antes de chegar, vi o grupo parado perto de uma das barracas. César foi o primeiro a me ver e levantou a mão.

— Ó, o Beto chegou!

Ele veio me cumprimentar com um abraço apertado, do jeito que ele sempre fazia. A Taís, ao lado dele, me deu um beijo no rosto e já foi olhando pra Ana com aquele sorriso aberto dela.

— Essa é a Ana — eu disse, sem mais nada.

— Muito prazer, Ana! — Taís estendeu a mão. — Eu sou a Taís, namorada do César. Esse aqui é o pessoal: o Douglas, a Priscila, o Joaquim e a Bruna.

Eles foram se apresentando, cada um com um aceno, um sorriso, um "prazer". O Douglas era o mais contido, meio de longe, do jeito dele. A Priscila, do lado dele, deu uma risadinha e um "oi" baixinho, quase um sussurro. Ela era assim mesmo, mais reservada. A Bruna veio logo puxando assunto com a Ana, perguntando de onde ela era, o que ela fazia, como é que a gente se conheceu. O Joaquim ficou meio de canto, as mãos no bolso, olhando a praça, como quem estava ali mas não estava muito.

A Ana se soltou rápido. Em cinco minutos já estava conversando com a Taís e a Bruna como se fossem amigas antigas, as três rindo de alguma coisa. A Priscila ficou um pouco de fora no início, mas a Taís puxou ela pra conversa, e logo as quatro estavam juntas, indo em direção às barracas.

Fiquei olhando de longe por um instante, e o César apareceu do meu lado.

— Gostei dela.

— Nem conhece ela direito.

— Não preciso. Tá vendo como ela se enturmou? Menina que se enturma rápido com o grupo assim é menina de boa. Fica esperto, moleque.

Ele me deu um tapa no ombro e foi atrás da Taís. Eu ri sozinho, mão no bolso, olhando a praça. Fazia tempo que eu não via aquela turma. A gente tinha se formado no fim do ano passado, e de lá pra cá cada um tomou um rumo. O Douglas entrou na empresa dos pais, o César foi pra administração, o Joaquim continuou na feira, do jeito que sempre fez desde moleque. Eu fui pra fotografia. E a vida foi levando a gente pra cantos diferentes. Mas ali, naquela praça, com todo mundo junto de novo, parecia que nada tinha mudado.

A gente andou pelas barracas, comeu pastel, tomou caldo de cana, ficou parado ouvindo a banda. O Joaquim contou uma história de um freguês da feira que eu já tinha ouvido três vezes, mas ri de novo, porque a história era boa. O Douglas reclamou do preço do churrasco, e a Priscila riu dele. O César e a Taís dançaram uma música perto do palco, e a Bruna puxou a Ana pra dançar também, e eu fiquei olhando as duas dando risada, sem me mexer. O Joaquim apareceu do meu lado com um copo de cerveja na mão.

— Tá quieto.

— Tô observando.

— Fotógrafo é tudo meio estranho, né.

— Fotógrafo vê o que os outros não veem.

Ele riu e me deu um soco leve no braço. Ficamos um tempo em silêncio, olhando a praça. A banda começou uma música mais lenta, e as luzes que estavam penduradas nas árvores pareciam ainda mais amarelas.

— Escuta — ele disse, depois de um tempo. — Quando você puder, passa lá em casa. Tô arrumando as coisas do meu quarto, sabe? Tô jogando um monte de tralha fora. Achei umas coisas suas que ficaram lá de quando a gente fazia trabalho junto, no colégio. Separei pra você.

— Beleza. Quando você quer que eu vá?

— Qualquer dia desses. Me avisa antes.

— Fechado.

Ele deu um gole na cerveja, ficou um tempo olhando pra frente, e aí foi embora na direção da Bruna. Eu fiquei ali mais um pouco, olhando o grupo todo espalhado pela praça.

A noite foi passando e o evento foi acabando. A gente se despediu por volta de meia-noite, com abraço, "a gente tem que marcar mais vezes", "vê se não desaparece", essas coisas que a gente fala e depois nunca cumpre direito. A Ana se despediu das meninas com beijos no rosto, trocaram números de telefone, como se fossem amigas de infância, e eu percebi que ela tinha gostado de verdade. Não era falsidade. Ela tinha se dado bem com todo mundo.

Voltamos pro carro de mãos dadas e ficamos um tempo em silêncio, dirigindo pelas ruas vazias da cidade.

— Eu gostei dos seus amigos — ela disse, por fim.

— Eles gostaram de você também.

— A Taís é muito engraçada, viu? Ela me contou umas histórias do César que eu quase morri de rir.

— Não duvido.

Ela ficou um tempo olhando pela janela e aí virou pra mim.

— Foi bom, Beto. Eu não conhecia ninguém do seu mundo. Só você.

Eu não respondi nada. Não porque não quis, mas porque não soube. Ela tinha razão. Ela não conhecia ninguém do meu mundo. E o que ela tinha visto naquela noite era só uma parte pequena — os amigos, as namoradas deles.

O silêncio se esticou por um tempo, mas foi um silêncio confortável. Ela encostou a cabeça no apoio e fechou os olhos, sorrindo pra si mesma. Eu continuava dirigindo, e uma ideia já tinha se formado na minha cabeça antes mesmo dela falar qualquer outra coisa.

— O passeio não acabou — eu disse.

Ela abriu os olhos e olhou pra mim.

— Ah, não?

— Não. A gente já passeou, já comeu, já viu a banda. Agora eu quero a sobremesa.

Ela riu, uma risada baixa e safada, daquelas que ela soltava quando entendia exatamente o que eu queria dizer.

— Você é um safado.

— E você gosta de mim por isso.

— Gosto mesmo.

Fui direto pro motel, o mesmo que a gente já conhecia de outras vezes. Estacionei o carro, e a gente entrou sem pressa. O quarto era simples, mas decente. Água quente, lençóis limpos, ar-condicionado funcionando. Do jeito que tinha que ser.

Fechei a porta atrás de mim e a Ana já estava de costas, jogando a bolsa em cima da cadeira. Ela virou pra mim e não disse nada. Só ficou parada, olhando, com aquele sorriso de canto que dizia tudo.

Ela puxou a blusa pra cima, devagar, sem pressa, e jogou no chão. Ficou de sutiã, a pele arrepiada pelo ar-condicionado.

— Vem — ela disse.

Era um convite. E eu fui.

O beijo começou devagar, a mão dela subiu pro meu cabelo. Desceu pela minha nuca, pelos ombros, e foi parar no meu peito, com a palma aberta, sentindo.

— Tira isso — eu murmurei, tocando no sutiã.

Ela desceu a alça sozinha, sem tirar a boca da minha. Jogou a peça de lado e puxou minha camisa pra cima. Eu tirei o resto da roupa, e ela fez o mesmo. Quando ficamos os dois sem nada, ela encostou o corpo no meu, colada, e eu senti o calor da pele dela contra a minha. Ela estava quente.

— Vamos tomar banho — ela disse, me puxando pela mão.

O banheiro era pequeno, mas a água quente encheu o box de vapor em segundos. Entrei atrás dela e fiquei um tempo só olhando. Passou o sabonete no corpo devagar, sem pressa, e depois virou pra mim com o sabonete na mão.

— Deixa eu passar em você.

Ela começou pelo peito, descendo devagar, as mãos pequenas deslizando pela minha pele com o sabão. Passou pelo abdômen, pelo quadril, e quando chegou embaixo, envolveu com a mão sem pressa. Passou a espuma devagar, com a mão fechada em volta, e me olhou com aquele sorriso safado.

— Você gosta.

— Você sabe que sim.

Ela se ajoelhou. A água caía em cima da cabeça dela, escorrendo pelo cabelo, e ela me olhou por baixo. Sem dizer nada, colocou na boca. Sem pressa. Com a língua trabalhando devagar, olhando pra mim o tempo todo pra ver minha reação. Eu encostei a mão na cabeça dela, sem forçar, só sentindo. Ela tirou a boca por um instante, respirou fundo, e voltou. Mais fundo agora.

O vapor do chuveiro embaçava o vidro e a água escorria pelo corpo dela, pelo peito, pelas costas, e ela continuava ali, ajoelhada, a boca quente, a língua trabalhando em volta da cabeça, depois descendo pela extensão toda, sem pressa, com a mão acompanhando o movimento. Ela tirava a boca, respirava, olhava pra mim, e voltava. Ela mordia o lábio as vezes e depois voltava me envolver com a boca, agora mais devagar, sugando de leve.

— Gostou?

— Você sabe que sim.

Ela sorriu e continuou. Ficou mais um tempo ali, me deixando chegar perto do limite, até que eu puxei ela pra cima pelo braço.

— Chega. Senão eu acabo aqui mesmo.

Ela riu, eu fechei o chuveiro. Saímos do banho sem pressa. Ela se secou devagar, com a toalha em volta do corpo, e quando eu terminei de me secar, ela já estava na cama, deitada de bruços, com a toalha jogada de lado.

Eu fui pra cama, virei ela de barriga pra cima, e comecei devagar. Desci beijando o pescoço, o peito, a barriga. Ela se arrepiou quando eu cheguei perto da virilha, e abriu as pernas. Eu comecei com a língua, devagar. Ela prendeu a respiração.

— Ai… assim… — ela murmurou.

Continuei. A língua trabalhando em círculos lentos, depois mais rápido, depois lento de novo. Ela puxou meu cabelo, apertou, soltou. A perna dela começou a tremer de leve. Eu subi a mão pelo lado do corpo dela, passei pela cintura, e ela agarrou meu pulso.

— Não para… — ela pediu. — Puta que pariu, não para agora…

Eu não parei. Depois de um tempo, a respiração dela começou a ficar entrecortada, e eu senti o corpo dela começar a tremer de verdade.

— Beto… tô chegando… não para…

Eu não parei.

Ela gozou com um gemido baixo, o corpo arqueando antes de relaxar. Fiquei um tempo ali, sentindo o cheiro dela, a pele dela, esperando o coração voltar ao normal. Ela ficou um tempo parada, respirando fundo, com a mão ainda no meu cabelo. Depois subi, deitei do lado, e ela abriu os olhos.

— Você é muito bom nisso.

— Você gosta.

— Eu adoro!

Ela me puxou pra cima e me beijou. Ficou um tempo me beijando devagar, como se estivesse comemorando alguma coisa, e depois empurrou meu peito, me fazendo deitar de costas. Subiu em cima de mim, se posicionou com a mão, e sentou devagar. Quando me sentiu entrar, ela parou por um instante. Ficou assim, parada, sentindo. Eu deixei.

— Caramba… — ela murmurou. — Toda vez é a mesma coisa. Preciso de um tempo, pra acostumar, muito grosso.

— Não vou a lugar algum. — sorrir pra ela.

Ela riu. E começou a se mover. Devagar no início, ajustando o corpo, encontrando o ritmo. Depois foi aumentando, subindo e descendo com mais vontade, as mãos apoiadas no meu peito.

Eu fiquei olhando. A visão dela por cima, o cabelo molhado caindo pelos ombros, o corpo dela inteiro exposto pra mim. Ela subia até quase sair, e voltava a descer, se abrindo em volta, molhada, brilhando sob a luz fraca.. Ela levantava o quadril, e eu via a extensão toda aparecendo, brilhando, antes de sumir de novo dentro dela. Os seios dela balançavam no ritmo, os bicos duros, e eu estiquei a mão pra pegar. Ela soltou um gemido curto e jogou a cabeça pra trás.

— Ah… tá gostoso… — ela disse, com a voz embargada. — Tá muito bom…

Eu puxei ela pra frente, pelas costas. Inclinou o corpo sobre o meu e desceu a boca até a minha. Me beijou enquanto continuava a subir e descer, só o quadril se movendo, lenta, o resto do corpo colado no meu. Ficou um tempo assim, me beijando e cavalgando ao mesmo tempo, e eu sentia a respiração dela na minha boca, o hálito quente, o suor do corpo dela passando pro meu.

— Eu gosto quando você fica por cima — eu disse, contra a boca dela. — Gosto de ver você assim.

Ela sorriu e mordeu meu lábio de volta. Voltou a se endireitar, as mãos no meu peito, e retomou o ritmo. Agora mais intensa, mais determinada. Eu via os seios balançando, o suor escorrendo entre eles, e a boceta dela descendo e subindo em volta do meu pau, toda molhada, se abrindo a cada movimento. A pele dela estava quente, o rosto vermelho, a boca aberta, e eu senti que não ia durar muito.

— Vira de costas.

Ela entendeu. Sem parar o movimento, se virou, ficando de costas pra mim, e continuou cavalgando. A visão mudou. Agora eu via as costas dela Ela se inclinou pra frente, apoiada nos joelhos, e eu segurei o quadril dela com as mãos. A pele dela estava molhada, quente, e eu apertava com força pra sentir o movimento.

— Assim… — eu disse. — Assim tá bom.

Ela ficou mais um tempo ali, quicando, sentindo. Depois começou a ficar mais lenta, mais ofegante. Ela olhou por cima do ombro e sorrindo.

— Quero de quatro.

Ela saiu de cima e se posicionou. Ficou de quatro no meio da cama, a bunda empinadinha, ela olhando pra frente, eu me ajoelhei atrás. Entrei devagar. Segurei a cintura dela com uma mão, e com a outra puxei o cabelo dela de leve, do jeito que eu sabia que ela gostava.

— Ah, Beto… — ela gemeu.

Eu comecei devagar, mas logo a coisa foi ficando mais intensa. Eu puxava o quadril dela na direção do meu. Ela gemia baixo, às vezes mais alto. Em um momento, ela apoiou o rosto no lençol e eu vi os dedos dela agarrando o tecido.

— Mais forte… — ela pediu. — Um pouco mais forte…

Eu obedeci.

O quarto ficou só com o som da pele, da respiração e dos gemidos curtos dela. Em um momento, ela parou.

— Espera… — ela disse. — Espera um pouco. Tô muito sensível.

Eu parei na hora. Fiquei parado, ainda dentro, respirando fundo. A gente riu um pouco, os dois sem fôlego. Ela apoiou a testa no lençol e eu fiquei ali, sem sair, esperando o tempo dela. Ela respirou fundo uma vez, duas, e depois mexeu o quadril de leve.

— Agora tá melhor. Pode ir.

Eu voltei devagar. Mais devagar do que antes, sentindo cada movimento. Ela acompanhava, rebolando de leve. Aos poucos foi ficando bom de novo, e ela soltou um suspiro longo.

— Tô quase gozando de novo — ela avisou.

— Eu também.

— Mete então, mais goza comigo.

— Pode deixar.

Eu aumentei o ritmo, e ela gemeu ainda mais alto. A respiração dos dois foi ficando mais rápida, mais curta. Ela começou a tremer de novo, e eu senti o corpo dela apertar em volta de mim. Foi o bastante. Eu gozei logo depois, segurando o quadril dela com as duas mãos, sentindo o corpo inteiro arrepiar. Fiquei ali um instante, parado, com a respiração presa.

Depois saí devagar e me deitei. Ela se deitou do meu lado, encostou a cabeça no meu peito, e ficamos um tempo calados, só recuperando o ar. O ar-condicionado fazia barulho, o quarto cheirava a sexo e sabonete, e o lençol já estava todo amassado. Ela jogou uma perna por cima da minha, o braço atravessado no meu peito, e a respiração dela foi desacelerando aos poucos.

Foi ela quem falou primeiro.

— Eu gosto de estar com você. Adoro a química que a gente tem.

Eu não respondi. Não porque não quis, mas porque não soube o que dizer. Ou porque sabia que qualquer coisa que eu dissesse poderia ser interpretada como algo que eu não sentia. Ela não parecia esperar resposta. Ficou quieta, a mão em cima do meu peito, e depois de um tempo o corpo dela foi ficando mais pesado. Ela dormiu.

Eu fiquei acordado.

Olhando pro teto, sentindo o peso dela sobre o meu peito, o cheiro dela no travesseiro, o calor do corpo dela ainda colado no meu. O quarto estava escuro, com só a luz do estacionamento entrando pela fresta da cortina, e o barulho do ar-condicionado virou um zumbido de fundo que eu já nem escutava mais.

E eu fiquei pensando. Na Ana.

Na mulher que estava dormindo no meu peito. Gostosa. Sem frescura. Dava pra ver que ela estava começando a descobrir o próprio corpo, e cada vez que a gente se encontrava ela vinha mais solta, mais confiante, mais safada. Ela chupava com vontade, cavalgava com ritmo, pedia o que queria, gemia. Tinha entrega nela. Não era encenação. Era ela mesma, ali, sem vergonha.

E o sexo era muito bom. Muito bom. Daqueles de fazer eu sair do motel pensando em voltar. Toda vez era assim. A gente se encontrava, transava, e eu ficava com ela na cabeça por dias. Não pelo sentimento. Pelo tesão. Pelo corpo. Pelo jeito que ela me olhava quando estava por cima.

Aí eu pensei: como é que eu ia abrir mão disso?

Não era namoro. Ela sabia. Eu sabia. Mas mesmo assim, naquela noite, com ela dormindo no meu peito, o pensamento que me veio não foi de culpa. Foi de posse. Eu queria continuar. Queria continuar transando com ela, queria continuar encontrando ela, queria continuar tudo do jeito que estava. Não porque eu amava. Mas porque eu gostava. Gostava dela, do corpo dela, do jeito dela, do sexo dela.

E isso, naquela noite, me pareceu suficiente. Só não sabia por quanto tempo.

Foi a última coisa que eu pensei antes de fechar os olhos. Sem imaginar o que viria a acontecer depois desse dia.

OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS, MAS OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL PODEM NAO SER MERA COINCIDÊNCIA.

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