Eu ainda lembro exatamente do dia em que ela se mudou para o 4B.
Eu e meu colega de quarto estávamos voltando daquela clínica de doação de esperma (não pergunta) quando a porta se abriu e ela apareceu. Cabelo loiro, sorriso fácil, uma caixa na mão e aquele jeito meio atrapalhado de quem ainda não conhecia ninguém na cidade. O nome dela era Stephany.
Eu acho que me apaixonei em menos de dez segundos.
Não de um jeito intenso ou confiante. Foi aquele sentimento patético de quem olha e já começa a inventar uma vida inteira. Eu imaginei a gente jantando juntos, eu explicando alguma coisa de física enquanto ela ria e dizia que eu era inteligente demais. Imaginei até filhos. Sim, eu sou esse tipo de idiota.
Desde o começo eu fiz de tudo por ela.
Ajudei a carregar as caixas. Consertei a prateleira que estava torta. Prestei o Wi-Fi quando a internet dela caiu. Uma vez ela disse que estava sem dinheiro para o Uber e eu fui buscar ela às três da manhã sem nem perguntar de onde ela vinha. Ela entrou no carro com o cabelo bagunçado, o perfume misturado com outro cheiro que eu não soube identificar, e ainda assim eu só consegui pensar: “Ela confiou em mim.”
Stephany nunca me beijou.
Nunca me deixou tocar nela de verdade.
Nunca deu nenhum sinal claro de que sentia o mesmo.
Mas ela sorria para mim de um jeito que me fazia acreditar que, se eu continuasse sendo bom o suficiente, um dia ela ia perceber.
Eu via ela saindo com outros caras. Claro que via.
Às vezes era um cara alto e largado. Às vezes alguém de terno. Às vezes ela simplesmente desaparecia a noite toda e voltava de manhã com a roupa do dia anterior. Eu sentia um aperto no peito toda vez, mas engolia em seco. Afinal, a gente era só amigos. Eu não tinha nenhum direito de sentir ciúme. Quem era eu para reclamar?
Então eu fazia o que eu sempre fazia: fingia que estava tudo bem e pedia para ajudar em mais alguma coisa.
— Precisa de algo, Stephany?
— Quer que eu busque comida?
— Se quiser companhia para assistir alguma coisa…
Ela quase sempre respondia com aquele sorrisinho doce:
— Você é o melhor, Bernardo. Sério. Não sei o que eu faria sem você.
Eu guardava essas frases como se fossem declarações de amor.
Teve uma noite em que eu estava no sofá quando ouvi barulhos vindos do apartamento dela. Gemidos. Batidas ritmadas na parede. A voz dela, mais alta e diferente do que eu estava acostumado. Fiquei parado no escuro, ouvindo tudo, com o coração acelerado e uma mistura horrível de dor e excitação. Depois ficou silêncio. Minutos mais tarde, meu celular vibrou.
Stephany: Você ainda está acordado? Tô com um pouco de fome… tem alguma coisa aí?
Eu levantei na hora, montei um prato e levei até a porta dela. Ela abriu só um pouco, usando uma camiseta larga, cabelo bagunçado, e pegou a comida com um sorriso cansado.
— Você é um amor. Obrigada.
A porta se fechou. Eu voltei para o meu apartamento e fiquei olhando para a parede, imaginando o que tinha acontecido ali minutos antes. E mesmo assim, no fundo, ainda tinha uma parte de mim que pensava: “Pelo menos ela veio falar comigo.”
Eu sei que parece patético.
Eu sei que qualquer pessoa de fora olharia e acharia óbvio.
Mas quando você gosta de alguém do jeito que eu gostava dela, você cria desculpas. Você minimiza. Você se agarra em qualquer migalha de atenção e transforma isso em esperança.
Stephany nunca me deu um beijo.
Nunca me deu a chance de ser mais do que o amigo prestativo do corredor.
E mesmo assim eu continuei ali, esperando.
Fazendo favores.
Mendigando qualquer olhar a mais.
Porque no fundo eu ainda acreditava que, um dia, ela ia perceber o quanto eu gostava dela.
E eu era bom demais em me enganar.
