Recebemos a visita de Edu, um amigo de infância que eu não via havia décadas. Foi um encontro muito aprazível; por não termos filhos, eu, Tomás, e minha esposa, Raquel, desfrutamos a companhia dele com bastante sossego. Somos um casal normal e monogâmico. Nada fora do padrão. Era uma tarde de sábado de verão e estávamos à beira da piscina. Eu estava bem à vontade: pés descalços, sem camisa e vestindo apenas um calção de banho escuro, que já secava ao calor.
Minha esposa usava um biquíni branco de corte minimalista, o qual contrastava perfeitamente com sua pele iluminada pelo sol. Edu, por sua vez, exibia um estilo impecável: vestia uma bermuda de alfaiataria bem cortada e uma camisa leve de linho, com as mangas casualmente dobradas e os primeiros botões abertos. Chegara após o almoço vindo do seu hotel. Conversávamos havia horas sobre inúmeros assuntos, da cultura à música. Solteiro convicto, nosso amigo parecia encantado com a inteligência de Raquel.
Em certo momento, servi vinho aos dois na bancada americana. Em vez de me sentar ao lado da minha esposa, ocupei a cabeceira oposta para fatiar uma peça enorme de queijo, mantendo-me, contudo, no campo visual dela. Edu permanecia em pé; Raquel continuava sentada, voltada para mim, posição que, ainda assim, deixava à mostra suas belas coxas torneadas. Puxei assunto elogiando a percepção olfativa de minha esposa:
- “Edu, antes de dar o primeiro gole, deixe a Raquel lhe mostrar as notas desse vinho. Ela percebe detalhes aromáticos que eu nunca consigo identificar.”
Assim, Edu deu a volta na bancada, aproximou-se de Raquel a menos de meio metro e estendeu a taça para que ela emitisse um veredito sobre o aroma da bebida. Eu esperava sinceramente que Raquel se recusasse, pois ela sempre alegava que eu superestimava suas habilidades. Para minha surpresa, porém, ela olhou primeiro para mim e depois para ele, e exclamou:
- “Deixe-me ver.”
Ela pegou a taça da mão dele e encostou deliberadamente as pontas dos dedos em sua mão durante alguns segundos. Percebi que o contato entre as peles e a pronta aceitação do desafio produziram, naquele instante, uma mudança no ambiente. Ela respirou fundo, sentindo o aroma.
- “Ameixa preta e um toque de carvalho tostado”, disse ela, com a voz ligeiramente mais baixa, quase confidencial, rompendo a projeção vocal que usávamos antes.
- “Mas, no final, há algo mais terroso, mais quente. Sinta aqui o aroma”.
Em vez de simplesmente lhe entregar a própria taça, para que ele a segurasse, Raquel, ainda sentada, girou o corpo, antes voltado para mim, inclinou-se ligeiramente para a frente e ergueu a taça em direção ao rosto de Edu, reduzindo ainda mais a distância entre os dois. O gesto fez com que Edu também se inclinasse; seus rostos ficaram a poucos palmos um do outro. Ele aspirou o aroma da taça dela, mas manteve os olhos fixos em Raquel.
- “Verdade”, murmurou, em tom pausado, ao perceber que a proximidade não a intimidava.
- “Bem mais denso do que parece.”
Da minha extremidade da bancada, continuei cortando o queijo com movimentos lentos e deliberados, sem demonstrar qualquer sinal de tensão corporal. Em seguida, passei a regar generosamente as fatias com um delicioso azeite de oliva português. Quando Edu olhou de soslaio para mim, num reflexo involuntário de quem procura verificar se cometeu alguma imprudência, encontrou-me calmo, bebericando ocasionalmente o vinho e mantendo o ambiente absolutamente desprovido de qualquer ameaça.
Ao notar minha postura complacente, Raquel deu um gole profundo, algo incomum para quem costuma sorver o vinho aos poucos, deglutindo-o lentamente. Depois, relaxou os ombros de uma maneira que eu raramente observava diante de outros homens. Era o meu sinal.
- “Viu?”, disse eu. – “Ela é ou não é uma craque?”
Raquel sorriu e respondeu:
- “Seu bobo. Eu nunca acredito em você, porque é suspeito para falar.”
Dito isso, apoiou o antebraço esquerdo na bancada de mármore e ficou completamente voltada para Edu, mantendo a conversa sobre as propriedades daquele vinho. Ele então deu um passo sutil para a frente, ocupando definitivamente a estreita zona ao redor dela. Os dois conversavam animadamente sobre as particularidades dos vários tipos de vinho e… bebiam. E bebiam! Pareciam identificar-se como velhos conhecidos. Eu apenas ria, sem dizer nada: cortava o queijo, acrescentava azeite, bebia e ria com eles.
Durante a situação, ocorreu-me que a barreira da exclusividade da atenção havia cedido quando ela escolheu sutilmente permanecer exatamente onde estava, voltada para Edu. Ele estava entretido com ela, mas ainda demonstrava a hesitação prudente de um homem que teme ultrapassar uma linha invisível na casa de um amigo. Contudo, era nítido que se encantara por Raquel. E quem não? Ela tinha 35 anos, era linda e possuía um corpo perfeito. Além disso, como professora de literatura, era uma mulher culta, capaz de se posicionar sobre qualquer assunto. Até hoje me pergunto como consegui me casar com uma deusa como aquela.
As horas passavam, e as garrafas eram esvaziadas. Eu procurava beber pouco; queria estar sóbrio para acompanhar aquela dança sutil entre meu amigo, ainda em pé, e Raquel, sentada, mas completamente à vontade, com o corpo inteiramente voltado para ele. Foi então que Edu pousou a taça vazia sobre a bancada com a mão direita, para que eu o servisse pela enésima vez, e disse, olhando para ela:
- “Seu marido é um homem de sorte, Raquel. Você tem habilidades raras... não sei se é só relativo ao vinho ou se você tem outros talentos escondidos.”
Apercebi-me de que ele poderia ter dito aquilo a mim. Algo como:
- “Tomás, meu amigo, você é um homem de sorte por ter se casado com alguém com tantas habilidades.”
Mas não. Edu, certamente em virtude de seu estado etílico, dirigiu-se diretamente a ela, usando um tom sensual, como se estivesse a sós com Raquel... perscrutando.
Era o momento em que qualquer mulher sob a vigilância do script monogâmico recuaria: riria com modéstia, faria uma piada para desarmar a tensão de um elogio deslocado e ambíguo e restabeleceria a fronteira da cortesia. Afinal, Edu estava colocando a mão na maçaneta da porta, mas dependia do sinal dela para abri-la.
Percebi o instante exato em que a respiração de Raquel oscilou. Ela não desviou imediatamente os olhos de Edu; em vez disso, virou a cabeça em minha direção, e suas pupilas buscaram as minhas através do espaço de mais de dois metros entre nós. Foi uma fração de segundo, um pedido mudo de leitura do risco: “Você percebeu que ele está me xavecando? O que estamos fazendo aqui?”
Minha intervenção não foi verbal; foi estritamente contextual. Em vez de me impor na condição de marido zangado com o flerte, mantive o contato visual sereno, apoiei as duas mãos na tábua de queijos, relaxei os ombros e esbocei um sorriso sutil e aberto, sem pressa, sustentando o olhar dela. Apenas esperando que ela respondesse. Aquele meu micro gesto comunicava-lhe com absoluta clareza: “Estou percebendo que ele está interessado em você, compreendo a situação, e você está totalmente segura. Pode responder o que quiser.”
Como estávamos casados havia uma década, essa confirmação funcionou como um alívio de tensão quase físico para ela. O conflito moral que, teoricamente, pairava em sua mente dissolveu-se, e não precisei dizer nada. Havia anos que eu perdera meu sentimento de posse juvenil. Brigamos muito no início do matrimônio por causa dos inúmeros cortejos masculinos que ela recebia, nenhum dos quais correspondido por ela.
Ela deu um sorriso tímido, quase defensivo, baixando os olhos por um segundo para a própria taça antes de reencontrar o olhar de Edu. Talvez por causa da bebida, sua voz saiu mansa, num tom que equilibrava a elegância da anfitriã e a confissão sutil de quem aceita o jogo:
- “A resposta à sua pergunta, Edu, depende muito da situação e de quem me lê…”
Fez uma breve pausa, com a respiração ligeiramente mais curta.
- “E parece que você tem observado bastante hoje.”
Fiquei surpreso com suas palavras. Ela não apenas aceitou o elogio; tomou a iniciativa de transformar em explícito aquilo que, até então, permanecera implícito, reconfigurando a ordem da situação. Não era algo habitual em seu comportamento. A tensão moral provocada por um amigo flertando com uma mulher casada diante do marido havia se elevado até um ponto crítico.
O fato é que uma mulher com a história e a estrutura moral de Raquel não deixaria aquilo barato. Em seu rosto, percebi a hesitação típica de quem se aproxima de uma fronteira proibida, amparada, porém, pela certeza de que eu acompanhava cada movimento como alguém protetor e parceiro, pronto para intervir.
Ele sorriu e, macaco velho, devolveu na mesma moeda:
- “Com todo respeito ao meu grande amigo, quase irmão... não há como não constatar. Você é uma mulher rara, para não dizer perfeita.”
Pousou a taça na bancada, produzindo um ruído seco de cristal sobre pedra, e complementou:
- “Tomás me conhece desde criança e sabe que eu sou hiper seletivo. Importo-me apenas com o que vale a pena, Raquel.”
Era verdade. Eu sabia que Edu mantivera-se solteiro justamente porque buscava uma parceira ideal, alguém impecável no que ele considerava exemplar em uma mulher. Um silêncio profundo se instaurou por alguns segundos, atmosfera densa que se confundia com o zumbido distante da cascata da piscina.
Foi naquele momento que precisei agir. Peguei a tábua de madeira na qual acabava de fatiar o queijo colonial. Em vez de caminhar até eles e interromper a conversa, o que quebraria a bolha de tensão que se formava, inclinei-me sobre a bancada e deslizei a tábua no mármore até que ela parasse exatamente diante dele.
- “Já que você aprecia coisas raras e especiais, experimenta esse queijo aqui, Edu, “falei com um tom sereno, como quem comenta a temperatura da água da piscina, sem qualquer afetação ou urgência.
- “Segure o queijo na mão alguns segundos para aquecê-lo antes de comer. A Raquel sempre diz que esse gesto muda a textura.”
Ao introduzir a tábua, não me coloquei entre eles; apenas proporcionei um pretexto material para que continuassem o interlúdio em uma situação de conforto e segurança. Apoiei meu quadril na beirada, posicionei-me confortavelmente e tomei um gole de vinho, olhando para a tábua e depois para o rosto de Raquel, que permanecia sentada voltada para ele.
Não havia cobrança no meu semblante, nem o menor vestígio de vigilância policial. Ela virou a cabeça e olhou para mim. Sustentei seus olhos com a mesma cumplicidade relaxada de quem compartilha um segredo bem guardado. O que meu corpo comunicava era: o espaço continua seguro, não há nada de errado nesta situação, pode continuar conversando.
Ele pegou uma fatia e indagou:
- “Segurar como?”
Contudo, antes que eu respondesse, Raquel me surpreendeu novamente. Pousou sua taça ao lado da dele e estendeu a mão em direção à tábua. Seus dedos tocaram uma das fatias finas de queijo e disse prontamente:
- “É assim que se faz, Edu. Presta atenção. Tem de aquecer com a mão fechada. Faz uma lambuzeira, mas vale a pena.”
E mostrou a ele com a mão esquerda fechada. Após aquecer por alguns segundos, explicando a ele a técnica que aprendera em um curso, ela segurou a ponta do queijo entre o polegar e o indicador da mão direita e, em vez de levar à própria boca, estendeu a mão oferecendo-lhe o queijo supostamente aquecido. Parecia uma coreografia. Raquel permaneceu com a mão direita suspensa a meio caminho, os olhos fixos nos lábios de Edu, como se quisesse que ele sorvesse a fatia direto de sua mão.
Edu não tentou pegar com seus dedos a fatia oferecida por ela. Largou a fatia fria que segurava na borda da bancada e abriu a boca, sustentando o olhar dela, com o torso inclinado para a frente em um desafio mudo. Havia ali uma provocação calculada: ele aceitava com a boca a oferenda vinda de sua mão, forçando Raquel a decidir o que fazer com aquela proximidade que ela mesma havia construído.
Edu abriu a boca devagar, sem quebrar o contato visual, e recebeu o pedaço. Ao fechar os lábios sobre o queijo, seus dentes e a umidade quente da boca tocaram as pontas do polegar e do indicador de Raquel. Era ali que o script da boa esposa exigia uma interrupção abrupta: recolher os dedos com pressa, limpar a mão num guardanapo e restabelecer a compostura. Talvez saindo do transe.
Contudo, ela não fez nada disso. Ela manteve a mão ali, perto do seu rosto, por alguns segundos a mais. E naquele momento, talvez movida pelo vinho ou pelo fato de eu tê-la desfiado, Raquel fez algo que jamais a vira fazer com um homem em minha presença. Seus dedos deslizaram com calma pelo lábio inferior de Edu enquanto ele mastigava, recolhendo um traço quase invisível de azeite.
Ela limpou a boca de outro homem com seus próprios dedos em um gesto de carinho improvável para uma mulher casada. Fez mais. Em vez de limpar os dedos no guardanapo de linho ao lado, desceu a mão direita lentamente e esfregou o dedo sujo na parte superior do biquini, extraindo a oleosidade em si mesma.
Naquele instante, enquanto ela aguardava que ele deglutisse e desse seu veredito, reparei que seus mamilos estavam túrgidos, quase atravessando o biquini branco apertado. Seus olhos brilhavam como os de uma criança que comete uma peraltice, a respiração entreaberta escapando pelo nariz.
- “Sentiu?” Sussurrou ela, olhando fixo para ele, a voz embargada pela adrenalina da transgressão consumada.
Edu ainda mastigava, mas agora me observava pelo canto do olho, sondando minha reação, visto que o sinal havia sido emitido sem qualquer ambiguidade de álibi: ela o havia alimentado na boca, tocado seus lábios e continuava no jogo diante do marido. Óbvio que transmiti a ele uma total ausência de resistência.
Quando terminou de mastigar e finalmente engoliu, olhou nos olhos dela e disse:
- “Maravilhoso. Deixa ver se eu sei fazer”, com a voz tão próxima que Raquel sentiu o deslocamento de ar contra seu rosto.
Ele estendeu a mão para a mesma tábua, pegou uma fatia e procedeu da mesma forma. Enquanto ele aquecia a fina fatia, o silêncio estendeu-se por alguns segundos, preenchido apenas pelo som da água caindo na piscina e pelo estalo suave do gelo derretendo no meu balde. Ela parecia ansiosa por ser alimentada por ele.
Quando sentiu o toque de sua mão, com o queijo, em seus lábios, percebi que Raquel acordou para o peso de sua escolha. Vi sua garganta fazer uma deglutição seca. Seu corpo, outrora inclinado em direção a ele, vacilou alguns centímetros em um recuo de segurança, um reflexo condicionado que quase a fez quebrar o feitiço antes que se tornasse perigoso demais. Foi quando ela me procurou com os olhos novamente.
Eu não me movi. Estava maravilhado com aquela troca de gentilezas e petiscos. Não avancei para eles, não desviei o rosto nem baixei a taça. Apenas sorri, os olhos fixos nela, deixando que a calma do meu corpo preenchesse o ambiente. Meu rosto não demonstrava nem vigilância inquisitória nem a avidez de quem interfere em um espetáculo; era a presença neutra, cúmplice e absolutamente estável de quem dizia: “você é dona dos seus movimentos. Eu a apóio em tudo o que faz.” Aquela fração de segundo de validação bastou para que a hesitação dela evaporasse.
- “Queijos, vinho e companhias deliciosas”, exclamou ela ao terminar de deglutir, enquanto Edu limpava os dedos no calção. Sua ereção era nítida.
- “O que uma mulher pode querer mais para ser feliz em um sábado ensolarado como este?”
Após essa cândida confissão, a postura contida de Edu mudou. Ele não carecia mais de sutilezas. Puxou uma banqueta e sentou-se bem em frente a ela, contando sobre os vários queijos que provou durante as viagens de trabalho pelo mundo. Contudo, enquanto discursava, quase imperceptivelmente, com um movimento calmo e deliberado, pousava de vez em quando sua mão espalmada sobre a coxa direita de Raquel. E depois retirava. Testando.
E Raquel, por sua vez, não recuava. Escutava atentamente e sorria, impressionada com a variedade de experiências que ele narrava. No decorrer dessa conversa, percebi que os pés de Edu passaram a se apoiar na parte de baixo da banqueta enquanto ia encostando os joelhos nas coxas dela. Não foi um contato casual. Era algo premeditado. Um caçador armando a arapuca.
Pousei a faca de queijo sobre a tábua de forma lenta e macia, sem pressa. Dei um passo calmo para a lateral da bancada, diminuindo a distância entre nós três e trazendo minha presença para o centro do seu campo de visão. Eu queria que ela soubesse que eu também estava vendo ele tocá-la. O corpo de Edu se inclinava em direção a ela como se eu não participasse de nenhuma forma como ouvinte de suas façanhas gastronômicas.
Os dois se olhavam imersos em uma conversa que os hipnotizava. O fato de eu não intervir, e de Raquel aceitar, funcionou para Edu como uma mensagem inequívoca. Eu estava realmente surpreso e fascinado com o comportamento de minha esposa. Ela devolvia a atenção dele com suavidade, sem desviar o corpo para longe nem buscar abrigo comigo. Isso operou a quebra do interdito. Ao deixar que a mão dele ocasionalmente repousasse em sua coxa enquanto narrava suas peripécias, sob minha vista serena, Raquel sinalizou a ele que a porta não estava apenas destrancada, mas que ela própria havia girado a maçaneta.
Quando ele pousou a mão de forma um pouco mais demorada, ela voltou o corpo ligeiramente para trás, mantendo os olhos nos dele. Era perceptível para mim que a mão de Edu, espalmada na pele dela, mantinha o toque quente e contínuo. Foi um contato suave, quase hesitante no início, mas que escolheu permanecer. A princípio ela não se retirou após o toque inicial; deixou a mão dele pousada ali, leve, estabelecendo uma ponte silenciosa entre os dois.
Contudo, após meio minuto assim, senti, mesmo a dois metros de distância, a rigidez súbita que percorreu sua coluna. Ela estava no limite da sua linha de conforto; a brincadeira havia deixado de ser apenas sobre vinho e queijo. Os olhos dela piscaram com mais frequência, sinal notório de que ela ensaiava uma retirada defensiva. Pediu licença aos "meninos" porque precisava ir ao banheiro fazer xixi.
Quando o som das passadas descalças de Raquel sumiu pelo corredor da casa, o silêncio que se instalou na área da piscina tornou-se quase sólido. O sol de fim de tarde começava a dourar o espelho d'água, e a cascata parecia subitamente mais ruidosa. Edu então finalmente voltou-se a mim proferindo um discurso relativo ao cansaço do seu trabalho. Ele era empresário de sucesso na área financeira situada na capital. Estava em nossa cidade interiorana para um evento hospedando-se em hotel que deixava a desejar em termos de conforto.
Aquele sábado era um oásis em sua semana pesada. Agradeceu efusivamente meu convite para que ele viesse a nossa casa. Confessou-me estar se sentindo carente e solitário. Minha resposta foi gentil e amável. Disse-lhe que gostava muito dele e era um prazer tê-lo ali. Eu e a Raquel estávamos felizes com sua visita. Reiterei que esperava que voltasse sempre. Sem demonstrar pressa, peguei o pano de prato limpo, passei suavemente pela tábua e verti mais um pouco de vinho na taça dele, fazendo o líquido rubro girar devagar.
Apesar de sua maturidade, Edu aparentava uma leve inquietude. A hesitação moral de Raquel, até então era obliterada pelo vinho, foi exposta de forma clara e límpida pela postura da anfitriã em fuga.
- “Acho que está na hora de eu ir embora. Já chateei muito vocês dois com minha retórica”. Disse ele, talvez desapontado por ela ter se esvaído. Mas eu o tranquilizei.
- “Que nada, meu amigo. Você sabe que está sendo um prazer tê-lo aqui. Minha esposa ainda está se acostumando com sua presença. Eu o conheço há décadas, Edu, mas Raquel está tendo contato com você somente agora. Ela apenas o conhecia por meio dos meus relatos,” falei, em tom despretensioso, como quem comenta o trânsito na volta da praia.
- “Eu a conheço melhor do que ela mesma. Tenho certeza de que ela está ficando encantada por você. Você sempre arrebatou corações femininos.” Rimos juntos.
Edu se levantou e veio em minha direção. Ficamos os dois em pé, bebendo. Seus olhos procuravam sinais em mim. Apesar de nossa intimidade, era nítido que perscrutava cada detalhe do meu papel naquele jogo, tentando compreender minha postura diante do flerte explícito que se descortinara diante de mim. O que encontrou foi aquele afetuoso amigo de infância, relaxado, com os ombros soltos e uma atitude compreensiva diante da inevitável atração que Raquel despertava. O ar em seus pulmões pareceu destravar. Então, ele me testou:
- “Com todo respeito, Tomás, mas sua esposa é realmente fascinante”, declarou, com a voz ligeiramente rouca, balançando a cabeça devagar enquanto sorvia mais um gole de sua taça.
- “Nossa sólida amizade exige que eu lhe confesse que estou completamente arrebatado pela sua personalidade”, disse ele.
- “Fique tranquilo, Edu. Você não é o único. Normalmente, este é o efeito que ela causa nos homens”, respondi, sorrindo e sustentando seu olhar com firmeza e aprovação.
- “Sei exatamente com quem estou casado.” E arrematei:
- “Se deseja que um exuberante passarinho seja feliz, deixe-o voar livremente, pois é disso que ele precisa para exercitar sua formosura.”
Antes que eu pudesse fornecer a ele mais detalhes sobre quem era Raquel, escutamos o clique suave da tranca da porta do banheiro da piscina. Providencialmente, mudamos de assunto enquanto esperávamos o retorno de minha esposa.
Ela vinha caminhando devagar. Ambos olhamos para ela. Divina.
O cabelo, antes solto de qualquer jeito, havia sido preso no alto, em um coque frouxo, deixando totalmente desnuda a curva elegante do pescoço e dos ombros. Linda. Sexy.
O rosto estava lavado, fresco, mas as maçãs da face permaneciam com aquele rubor característico de quem acabara de encarar a própria imagem e reconhecera que não havia como fingir inocência a respeito do que sentia.
Apesar de o cair da tarde trazer uma leve queda na temperatura, ela não havia colocado uma saída de praia; permanecia de biquíni branco, assumindo a beleza estonteante de seu corpo. Exalava sensualidade. Seios e quadris perfeitos naquela balzaquiana madura. Qualquer homem tentaria algo. Eu era realmente um felizardo por ter o seu amor.
Ao caminhar em nossa direção, seus olhos não foram para Edu. Foram diretamente para os meus. Interpretei aquilo como um retorno à segurança que eu proporcionava. Quando finalmente se aproximou, abraçou-me de lado, toda carinhosa, e permaneceu ali, agarrada a mim, escutando minha conversa com Edu, que agora voltava-se para assuntos triviais, como futebol e congêneres.
O calor da pele dela e o cheiro do protetor solar misturado ao hálito de vinho deliciavam minhas narinas. Ela procurava demonstrar que permanecíamos em nossa cumplicidade, afastando qualquer possibilidade de ressentimento conjugal por ter permitido que um limite fosse ultrapassado pela primeira vez.
Mantive meu corpo junto ao dela, aceitando os carinhos que fazia em minha cintura. Como eu amo esta mulher. Por que nunca tivemos filhos? Seria uma mãe maravilhosa, mas a decisão fora dela, obcecada com sua profissão. Edu então, em um recuo estratégico, pediu licença para ir ao banheiro.
Ela então, aproveitando-se da ausência de nosso convidado, virou-se de frente, colocou seus dois braços envoltos em meu pescoço, abriu um sorriso lindo e declarou:
- “Já te disse que eu te amo, hoje?”
Antes que eu pudesse responder, ela colou seus carnudos lábios nos meus e me tascou um beijo lascivo, molhado e sensual. Apertou seu corpo contra o meu e depois levou sua boca rente aos meus ouvidos, sussurrando baixinho:
- “Hoje você não me escapa. Estou hiper molhada. Pegue para você ver.”
Seu corpo estava quente. Seus mamilos eretos. Levei minha mão esquerda em direção ao vão de suas pernas e comprovei. O grau de umidade era intenso e vertia sob o tecido. Ato súbito, levei os dedos à boca e senti o sabor do néctar. O odor erótico que se instaurou no recinto era extremamente afrodisíaco. Raquel era daquelas mulheres que exalam fortemente no ambiente o cheiro de sexo quando estão acesas. Podia-se percebê-lo a metros de distância. Antes que eu pudesse ter qualquer reação em direção a um conteúdo sexual, ela se desvencilhou rapidamente de mim, proclamando:
- “Mas agora não. Temos que respeitar nossa visita.”
Ela também jogava comigo. Sua reação abrupta ocorrera porque ela temia uma pergunta sobre o real motivo de estar enxarcada. Ficou claro que era uma reação ao flerte de nosso amigo. Eu apenas dei uma gargalhada e disse:
- “Você provoca e sai fora. Típico das mulheres.” Sua resposta foi de bate-pronto:
- “Eu sei. E vocês homens amam isto em nós, não é? A conquista fica mais saborosa.”
Dito isto, Raquel voltou a se sentar, a dois metros de distância. Mesmo assim ainda exalava o odor vaginal. Bebi mais um gole de vinho, apoiei-me confortavelmente na quina da bancada e perguntei:
- “Então meu amor. Por falar em provocar e recuar, tudo o que eu contei a respeito do Edu corresponde ao que você está percebendo nesta tarde?”
Raquel respirou fundo e foi declaradamente sincera comigo:
- “Ele é muito mais do que você descreveu, meu amor. Edu é muito parecido com o que nós dois somos e gostamos: desinibido, intelectual e agradável. Um verdadeiro amigo para desfrutar de nosso convívio. Devíamos chamá-lo mais vezes para partilhar nossa companhia.”
Percebi que ela usara a expressão "nossa companhia", que significava que estávamos juntos naquela aceitação sobre ele estar desfrutando de forma saliente de nossa intimidade. Respondi a ela de forma dúbia:
- “Eu sempre o vi assim. Somos unha e carne. Eu e Edu somos muito parecidos nos gostos, posturas e ideias. Dividimos tudo.”
Ao escutar a expressão "dividir tudo", ela subitamente olhou surpresa para mim e ficou em silêncio durante alguns segundos. Contudo, antes que ela pudesse finalmente pedir esclarecimentos, Edu saiu do banheiro.
Vendo que ela estava sentada, ele não voltou para próximo de mim. Com passos ritmados, contornou a bancada, aproximou-se do espaço compartilhado com ela e sentou-se novamente na mesma banqueta próximo a Raquel. Certamente percebeu o aroma libidinoso emanado por ela que teimava em não se dissipar. Ela o recebeu com um sorriso:
- “Vocês homens não demoram no banheiro como nós. Sinto inveja da praticidade de vocês.”
A resposta de Edu fora criativa, completa e ao mesmo tempo instigante:
- “É fato que somos funcionais. Basta ficar em pé, abrir o zíper, colocar para fora e mandar ver. Depois chacoalhar, guardar e lavar as mãos. Não precisamos sentar, nem abaixar nada. E no final não precisamos secar e colocar a peça íntima no lugar. Ainda mais eu, que nunca uso cuecas. Contudo, sou obrigado a confessar que a conversa está tão arrebatadora que fiz tudo isto em uma velocidade a jato. Não desejo perder nem um segundo da companhia de vocês. Ficar longe de uma conversa como a sua, Raquel, mesmo alguns minutos, pareceu um desperdício imperdoável de uma tarde perfeita.”
O impacto da dessa última frase atingiu minha esposa em cheio. O rubor que já marcava suas maçãs do rosto ganhou um tom mais vivo, mas ela não abaixou a cabeça nem usou o riso para desarmar a intensidade do elogio. Ela permaneceu imóvel por um instante, sorvendo o peso daquela declaração masculina direta, bem diante de mim, seu marido. A palavra que eu havia soltado antes, "dividimos tudo", ainda flutuava invisível no ar entre nós. Ela levou a taça aos lábios, deu um pequeno gole para ganhar tempo e devolveu o olhar a Edu com um meio-sorriso contido, elegante:
- “Você se expressa muito bem utilizando palavras como um mestre da literatura, Edu... Tomás sempre me disse que você era perigoso...”
Da minha ponta da bancada, apoiei os cotovelos no mármore e num tom solto confirmei:
- “A palavra é exatamente esta, meu amor. Você matou a charada. Mulheres tendem a ser enlevadas pela força da retórica deste exímio bajulador. Ele lê rapidamente o cenário e expõe exatamente o que elas querem ouvir. Como uma sereia ao avesso, ele conquista quem quer. Já vi em questão de minutos mulheres caírem em sua lábia infalível.” Ele riu de meu comentário. Ela não.
Contudo, mais do que um chiste, minha fala funcionou exatamente como uma validação do poder de sedução que a fazia fraquejar, evidenciando de forma explícita que eu estava ciente da cantada e dava carta-branca para que o jogo continuasse. E era uma delícia assistir a esses dois gladiadores na arena.
Edu aproveitou a deixa com a perícia de quem sabe ler o ambiente. Puxou a banqueta mais alguns centímetros para a frente, diminuindo a distância a ponto de os joelhos dos dois se tocarem novamente. Encheu os pulmões de ar mostrando sutilmente a ela que aspirava o aroma de suas profundezas, apoiou o antebraço esquerdo no mármore, bem próximo da taça de Raquel, e falou com um sorriso de canto:
- “Tomás, meu velho. Apesar de você revelar meu truque, pode acreditar que cada palavra dita aqui por mim nesta maravilhosa tarde é reflexo puro da verdade do que eu sinto. E digo mais...”, agora ele olhou profundamente nos olhos de minha esposa.
- “Diante de uma mulher como Raquel, que domina a cena com sua presença marcante e sua forma maravilhosa de se expressar, quem está indefeso sou eu.”
Ponto para ele. Edu parecia ter feito um gol de placa. O silêncio que se seguiu foi denso, ritmado apenas pelo gotejar contínuo da cascata e pela brisa que começava a esfriar a água da piscina.
Na primeira parte da tarde, quando Edu tocara propositalmente a coxa de Raquel, isto provocou a rigidez moral que a fez levantar-se para o banheiro. Agora, a reação dela era outra. Talvez pelo vinho, pela confiança que eu demonstrei ou pelo tempo de convivência com este galanteador, ela pousou a taça de vinho na bancada com um toque suave, permaneceu com os joelhos encostados nele e, sem desviar os olhos dos dele, disse:
- “Se um homem como você que rodou o mundo, acostumado a negociar em tantas mesas difíceis... se um expert em se deliciar com a vida, além de vinhos e queijos, provou tantos sabores... se um mestre charmoso e lindo como você que teve tantas mulheres em sua cama... enfim, se você, com toda esta bagagem, se diz indefeso ante a mim...”, a voz dela neste momento vacilou e saiu ligeiramente mais densa, exigindo uma breve pausa para engolir em seco antes de reencontrar a cadência habitual.
- “...então o perigo que eu corro como mulher casada é ainda maior do que o Tomás me avisou.”
A voz dela saiu ligeiramente mais grave do que o habitual, desprovida daquela projeção firme e acadêmica que ela costuma usar em sala de aula ou nos debates teóricos que tantas vezes presenciei. Havia uma densidade nova na entonação, como se cada sílaba precisasse de um esforço deliberado para contornar a respiração mais curta que lhe marcava o peito. Raquel fez uma pausa calculada, umedeceu os lábios devagar e completou, sustentando o olhar dele:
- “Mas me sinto segura, sabia? E sabe por quê? Não acho que você se encontre indefeso. Acho que alegar fragilidade é similar à tática de um animal que finge estar morto para dar o bote. É mais provável que você esteja apenas escolhendo com muito cuidado qual estratégia vai usar agora para tentar me seduzir.”
A réplica foi impecável do ponto de vista da elegância. Uma resposta extremamente inteligente que defendia sua retaguarda retórica, mantendo o álibi de quem apenas maneja as peças de um jogo verbal em um doce revide a um visitante deliciosamente atrevido.
No entanto, sob a bancada de mármore, a realidade física contava uma história muito mais franca e exposta. Os joelhos dos dois continuavam encostados. E a umidade teimava em aumentar, intensificando a constatação da fragrância libidinosa. Talvez por causa disto, Edu não se abalou. Mesmo descoberto, abriu um sorriso com um brilho divertido nas pupilas. Sendo experiente em embates como este e acostumado a recusas femininas prévias, tinha aval suficiente para discernir quando a negativa de uma mulher é uma manifestação de desprezo ou quando é apenas a tênue preservação formal do protocolo de decência. As pernas se tocando e o aroma fluindo lhe davam a derradeira informação que atestava sua predisposição para continuar.
- “O termo "estratégia" contradiz a espontaneidade demonstrada nesta tarde desde o início dessa tão aprazível interação, Raquel”, respondeu Edu, inclinando o tronco sobre a bancada, apoiando o antebraço direito na pedra fria e cruzando as pernas, desencostando seu joelho dela.
- “Seu marido é testemunha da minha personalidade. Posso usar recursos linguísticos cultivados em décadas de leitura incessante, mas este sou eu, autêntico, desnudado e franco. Não há estratégia planejada e sim movimento forte em direção a quem admiro e desejo. Meu fascínio é real. Sou alguém que aprendeu a ler nas entrelinhas com lucidez, Raquel. E o que vejo claramente é que um sentimento puro pode ser facilmente confundido com "estratégia de sedução" quando quem formula tal equívoco não está consciente de seu medo em admitir atração recíproca.”
Resposta de mestre. Acho que Raquel nunca tinha encontrado alguém tão hábil em argumentos. Ao dar o golpe e recuar no contato físico, ele forneceu um recado. Decididamente Edu não era afoito. Ele falava como quem compreende que a pressa compromete a eficiência de uma conquista. Ao expô-la e recusar a proximidade de sua pele, Edu dera um ultimato a Raquel.
Observei o perfil da minha esposa com a atenção minuciosa que dez anos de convivência me conferiram. Vi a garganta dela mover-se numa deglutição quase imperceptível. Engoliu em seco várias vezes. Sua linda face, levemente marcada pelo sol da tarde e pelo teor alcoólico das taças esvaziadas, tingiu-se de um rubor profundo, subindo suavemente pelas têmporas até a raiz dos cabelos presos no coque. O olhar dela, que sempre sustentara debates com altivez inabalável, oscilou por uma fração de segundo, não por ausência de elementos disponíveis para contestação, mas pela consciência repentina de constatar a veracidade do que ele dissera. Ele a desnudou sem dó. Seu pulso batia visivelmente na base do pescoço. Ela demorava para responder.
Percebendo minha amada em apuros, agi. Não podia permanecer imóvel na minha posição de expectador enquanto percebia minha esposa sozinha ostentando um semblante de desarranjo entre o que sente e sua posição de esposa. Peguei a garrafa de vinho branco que descansava no balde com gelo, enxuguei a base de vidro com o pano de prato e, sem qualquer gesto brusco que pudesse quebrar a cadência magnética que se instalava diante de mim, dei a volta lentamente pela bancada.
Minha aproximação foi tranquila, os passos descalços amortecidos pelo piso de pedra ao redor da piscina. Parei ao lado da banqueta de Raquel, a uma distância confortável, pousando uma mão suave sobre o ombro desnudo dela. Senti a musculatura sob meus dedos ligeiramente contraída, vibrando com aquela adrenalina típica de situações de emoção profunda.
Ao sentir meu toque no ombro, Raquel ergueu a cabeça e encontrou meus olhos. Havia naquela troca de olhares uma comprovação silenciosa, crua, desprovida de qualquer disfarce: o reconhecimento de que uma linha invisível estava prestes a ser ultrapassada de vez, diante de mim. Seu silêncio confessava-me que ela estava irremediavelmente atraída por ele. Ela queria, mas algo a impedia. O odor de sexo ainda reinava forte, avisando a todos que muito néctar ainda exalava de sua intimidade.
Inclinei-me suavemente e verti um fio límpido de vinho na taça dela, completando metade do bojo de cristal, e em seguida fiz o mesmo no cálice de Edu, que acompanhava cada movimento meu com uma expressão de atenção e ansiedade contida.
- “A espontaneidade fornece sabor à vida, Edu”, comentei, a voz mansa, olhando para os dois com a serenidade de quem valida a naturalidade da cena.
- “É fato que a existência humana é recheada de situações aleatórias que vão se construindo a partir dos ganchos que puxamos. Nada é totalmente natural e autêntico, e nada é totalmente planejado. Não sabemos com certeza aonde tudo se finalizará. Mas sabemos o que sentimos. Podemos negar por medo, visto que emoções brotam sem pedir licença. Mas acho que temos que vivê-las. Eu, por exemplo, vivo para meu amor, desde que a conheci. Tenho a mais absoluta certeza da chama pétrea que nutro por esta mulher. Algo sólido que quero viver até levar para o túmulo.”
Acariciei de leve a curva do ombro dela com o polegar antes de recolher a mão. Ela abriu um sorriso enorme. Minhas palavras e aquele contato operaram como um bálsamo. Senti os ombros de Raquel cederem alguns milímetros para baixo, o ar saindo prolongadamente pelo nariz, como se o corpo finalmente recebesse a confirmação de que não havia perigo em sermos o que somos: seres que sentimos emoções que fluem sem que se peça permissão para que fluam. Dito isto, vagarosamente voltei ao meu posto anterior. De lá, a dois metros deles, proclamei:
- “Um brinde a nós, à nossa espontaneidade e à coragem de expressar e viver o que verdadeiramente sentimos nesta tarde”.
Raquel levou a mão à taça recém-servida, mas não a levantou de imediato. Eu e Edu erguemos as nossas e bebemos. Raquel não. Deixou as pontas dos dedos acariciarem a haste fina do cristal, enquanto seu corpo, liberto do peso da hesitação, acomodou-se ainda mais na banqueta. Deu um longo gole em seu vinho e disse:
- “Não sei se devemos brindar a isto.” Suas palavras exalavam algo profundamente refletido. E complementou:
- “Não posso celebrar se não tenho a clara certeza das consequências do que sinto. Nem todo sentimento é adequado. Raiva, ciúme, ódio, vaidade, entre outros, são exemplos de emoções naturais, espontâneas, que devem ser contidas ou, no máximo, sublimadas. E sobre expressar o que sentimos... perdoe-me discordar, meu amor, mas isto pode fazer mais mal do que bem, visto que pode ser um caminho sem volta.”
Edu manifestou desapontamento por uma fração de segundo e então lançou uma derradeira cartada:
- “Seja como for, você só saberá se tiver a coragem de ir em direção a isto e experimentar, Raquel. A existência humana, como sabiamente exclamou seu marido, é recheada de situações a partir dos ganchos que decidimos puxar. Eu e Tomás estamos no mesmo barco, como aprendizes. Não temos medo de puxar os ganchos nesta aventura de viver o que se sente. E precisamos fazê-los para obter consciência. Tudo é aprendizagem.”
E, olhando profundamente para os olhos de Raquel, voltou a colocar deliberadamente sua mão direita espalmada em sua coxa, abandonando qualquer pretexto de casualidade. Eu complementei a fala de Edu, fornecendo a permissão que faltava:
- “Cada segundo que se passa nesta vida, meu amor, não tem volta. Como saberemos se valeu a pena ter vivido aquele momento, se ele for negado a nós mesmos? Pode ser uma experiencia boa ou ruim. Quem sabe? Contudo, o medo não deveria nos impedir de viver”.
Ela sorriu para mim e voltou a encarar Edu, desviando seus olhos para a mão que agora segurava sua coxa. Abriu um sorriso. E, com os olhos brilhando, perguntou a ele com uma coragem que eu raramente vira desabrochar com tanta intensidade:
- “Se não há estratégia, Edu, e você está sendo sincero...”, disse ela, inclinando a cabeça e sustentando o olhar penetrante dele com uma calma quase provocativa,” ...então me diga, de forma clara, na frente do meu marido, que é o amor de minha vida, e utilizando toda a franqueza e honestidade que diz ser parte de sua personalidade... o que exatamente você deseja em relação a mim nesta tarde?”
O silêncio que se abateu sobre a bancada durou apenas alguns segundos, mas o peso da pergunta de Raquel fez o ar parecer subitamente mais rarefeito. Ela não havia feito uma pergunta qualquer; lançara um desafio, convocando o homem à sua frente a assumir a responsabilidade moral pelo próprio desejo, diante do marido e sem o biombo das metáforas sobre vinhos e queijos.
Edu não retirou a mão da coxa dela. Pelo contrário: seus dedos, que antes apenas repousavam de forma contida sobre a pele macia de Raquel, exerceram uma pressão sutil, quase involuntária, espalmando-se de maneira mais convicta, apertando-a de leve. Ele sustentou o olhar penetrante de minha esposa sem pestanejar. Por um décimo de segundo, os olhos dele deslizaram até mim, na extremidade da bancada, buscando confirmar a solidez do terreno em que pisava.
Encontrou-me encostado na quina de madeira, a taça erguida entre os dedos, com a mesma expressão serena e atenta de quem acompanha o desdobramento natural de um diálogo profundo. Não havia censura no meu rosto. Havia a tranquilidade de quem sabia exatamente o que estava proporcionando àquele encontro. Edu voltou a fitar Raquel. Seu semblante perdeu o ar galanteador habitual e adotou uma seriedade madura, a postura de um homem acostumado a tomar decisões de alto risco sem tergiversar.
- “A verdade, Raquel? Ela esteve evidente em cada centímetro deste ambiente durante a tarde inteira”, começou ele, a voz descendo para um tom grave, aveludado, pronunciando cada palavra com uma clareza deliberada, sem qualquer resquício de afobação.
- “O que possuo como desígnio com você não é uma aventura clandestina de corredor de hotel barato, fútil e fugaz, e sim algo que vou levar como uma tatuagem para toda a vida. O que eu desejo, respeitando profundamente o amor do homem com quem você escolheu dividir a vida, é desfrutar da intensidade da sua presença até o limite que você mesma me autorizar a ir.”
Ele fez uma pausa curta, umedecendo os lábios secos enquanto sua mão direita deslizava alguns milímetros para dentro, contornando a curva interna da coxa com a ponta dos dedos, um movimento lento que fez a pele dela arrepiar e minha esposa emitir um perceptível suspiro. Seus mamilos enrijecidos pareciam tochas acesas. O odor inconfundível de sua vagina era denso.
- “O que eu desejo é acariciar seu corpo sem que isso seja tratado como um pecado ou como uma ofensa ao meu melhor amigo, pelo contrário, seria manifestação de amor e amizade a ele”, continuou Edu, os olhos fixos nos lábios dela, ávido por um beijo.
- “Desejo sentir o calor do seu corpo, saber o gosto da sua boca e comprovar se toda essa inteligência brilhante se traduz na mesma paixão desenfreada quando você se entrega ao prazer do sexo.” Mais uma pausa controlada para verificar a reação de Raquel, que permanecia atônita diante dele.
- “Desejo ter você inteira, seus seios lindos em minhas mãos, deslizar minha língua em seu botão de prazer, penetrá-la com a potência dos amantes, roubar sua alma por apenas um curto espaço de tempo, você sendo minha, e eu sendo seu macho, com a bênção e a cumplicidade do Tomás, meu irmão... porque deixar de viver o que nós três queremos, mesmo que momentaneamente, será o maior erro que poderemos cometer nesta vida.”
O impacto da declaração de Edu atingiu Raquel com a força de um raio. Vi o tórax dela expandir-se num hausto profundo de ar, uma inspiração quase ruidosa que fez seus ombros subirem por um instante antes de desabarem numa expiração trêmula. Nítido que seu corpo tremia de nervosismo. O rubor que lhe cobria inteira tingia de vermelho a linha das clavículas expostas pelo corte reto do biquíni branco.
A franqueza desabrida de Edu destruíra o último refúgio de alguma forma de ambiguidade que pudesse existir. Não havia mais como anfitriã e convidado brincarem de digladiar. O que estava sobre a mesa, explícito e formulado em bom português, era a intenção declarada de transar com minha esposa, formulada na minha presença e aguardando a chancela definitiva de sua vontade. Ela é quem decidiria.
Raquel engoliu em seco. Pela primeira vez na minha vida, vi sua capacidade retórica falhar momentaneamente. O cérebro da professora culta, acostumada a organizar raciocínios com precisão semântica, parecia lutar contra a torrente de impulsos que seu próprio corpo emitia em resposta àquele discurso viril e direto. Seus lábios entreabriram-se para formular uma resposta, mas o som não veio de imediato. E o silêncio se fez. Havia ainda hesitação.
A mão de Edu permanecia firme sobre a coxa dela, agora aquecida pela circulação sanguínea acelerada de Raquel. Ele não avançou para além daquele ponto; teve a sabedoria tática de estancar o movimento, deixando que a gravidade de suas palavras fizesse o trabalho de persuasão.
Percebendo que, novamente ela precisava de mim como alicerce, decidi atuar. Afastei-me da cabeceira onde estava e dei três passos calmos até a lateral da bancada, parando em pé a pouco mais de um metro dos dois. Pousei a garrafa de vinho com um som oco sobre o mármore e olhei para ambos, exibindo um sorriso sincero.
- “Confesso a vocês que nunca imaginei que em minha vida ia poder presenciar uma cena como esta, um amigo quase irmão, se declarando de forma honesta para o amor da minha vida. Nem em sonhos poderia conceber viver isto que está ocorrendo. Não disse que a aleatoriedade da vida é fascinante? E porque amo a vocês dois, de forma diferente, estou profundamente tranquilo em respeitar suas decisões. Queria que soubessem que não me sinto em decréscimo. Pelo contrário”, disse eu, a voz mansa, olhando nos olhos dela que agora se voltavam para mim, buscando desesperadamente um porto seguro para decidir.
Raquel fitava-me com uma intensidade quase dolorosa. Suas pupilas estavam dilatadas, o brilho úmido dos olhos refletindo a luz alaranjada que se acendeu automaticamente devido ao findar da tarde. O ar ao redor dela parecia denso. Mas ao mesmo tempo havia em algum lugar nela aquele magnetismo animal que eu conhecia tão bem dos nossos momentos de intimidade conjugal mais intensa. Ela estava com muito desejo, mas também com muito medo.
- “Amor, você ouviu o que o Edu disse que quer fazer? Tem ciência do que significa?” proclamou ela, a voz ligeiramente embargada, com um tom de indignação, resquício de sua moral rígida que sempre pautara sua conduta, apesar do desejo que a consumia.
- “Ele acabou de nos dizer que quer comer sua esposa. E disse isto na sua frente,” exclamou ela.
- “Raquel, amor da minha vida, evidente que estou muito consciente do que ele quer com você, “respondi, aproximando-me mais um passo, sem invadir o espaço entre os dois, mas estabelecendo minha presença como o esteio de segurança de que ela precisava.
- “Não se trata do que Edu quer fazer. O que ele deseja ficou claro para nós três desde que ficou enfeitiçado por sua maravilhosa personalidade, efeito com o qual estou acostumado. Você também sabia o que ele queria. A pergunta que cabe a você responder, com a mesma honestidade que exigiu dele, é: o que você, Raquel, mulher que eu amo e que nunca vou deixar de amar, deseja fazer? Seja qual for sua decisão, eu não só vou respeitar como apoiá-la, visto que sou seu parceiro para toda vida. Raquel, meu amor, eu não vivo sem você.”
Minha intervenção produziu nela uma metamorfose visível. A menção à sua autonomia e ao amor incondicional que eu lhe devotava retirou o peso esmagador da ideia de uma possível traição. Finalmente ela se conscientizou de que não estaria desafiando nossa união, pelo contrário, estaria fortalecendo nossos laços, visto que estava sendo convidada pelo próprio marido a explorar uma dimensão proibida de sua feminilidade, sob o manto de uma cumplicidade inabalável.
Ela abriu um enorme sorriso. Respirou fundo mais uma vez, apoiou a mão esquerda na bancada e, com um movimento lento e calculado que revelava a transição definitiva da hesitação para a agência, virou o rosto para Edu. Não havia mais vestígio do dilema que a apavorava por quebrar regras morais sólidas. Havia ali uma mulher consciente do poder devastador que exercia sobre os homens.
Raquel levou sua mão direita até a sua própria perna, exatamente onde os dedos dele descansavam, e pousou a sua palma suavemente por cima da mão dele. Foi um gesto de aceitação. Ao cobrir a mão de Edu com a sua, ela selou o contato de pele com pele, pressionando os dedos dele contra a sua própria carne com uma firmeza silenciosa que dispensava qualquer palavra. Olhou no fundo dos olhos dele e, com um sorriso enigmático que desenhava uma curva sutil nos cantos dos lábios carnudos, disse em tom inquisidor:
- “Você teve a coragem de se declarar para mim diante do meu marido. Agora, Edu, nós vamos ver, lá no meu quarto, se você tem a valentia e o fôlego necessários para sustentar o que prometeu.”
Levantou-se subitamente e veio em minha direção, deixando-o ainda sentado, sem saber o que fazer. Caminhou apressada em minha direção e se jogou em meus braços. Suas feições agora eram leves, destoando da hesitação de outrora. Com as mãos em minha nuca, puxou-me para perto de sua boca e perguntou baixinho pela última vez:
- “Você tem certeza de que é isto que você quer, meu amor? Eu tenho muita vontade de viver esta aventura proibida, confesso. Está mexendo muito com minha sexualidade e preciso desvendar. Mas só irei realizá-la se você admitir claramente que também deseja que eu faça com ele”.
Nesse instante eu a beijei. Um beijo amoroso, terno, profundo e doce.
- “Quero muito, sim. Vá lá e arrasa, poderosa!”
Ela respondeu:
- “Vá no nosso quarto daqui a uma hora, mais ou menos. E verá como eu ainda sou sua. Sempre serei. Até o fim,” respondeu-me com um semblante de mulher soberana. A minha Raquel. Voltou até ele e disse:
- “Vamos?” E assim, adentraram de mãos dadas em nossa casa enquanto eu, envolto em pensamentos, organizava a bagunça que estava naquele deck de nossa piscina. A noite agora estava esfriando. Não poderia me esquecer de ligar o motor da piscina...
Continua...
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