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Entre o ódio e você | Capítulo 02

Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 3668 palavras
Data: 13/09/2026 19:54:44

CAPÍTULO 2

LEONARDO

Minha infância nunca foi fácil.

Enquanto algumas crianças cresciam preocupadas com provas, brinquedos novos ou qual presente ganhariam no aniversário, eu aprendi cedo demais que algumas casas podiam ser lugares perigosos.

Nasci e cresci na periferia do Rio de Janeiro. Nunca tivemos muito dinheiro. Minha mãe fazia o possível para colocar comida na mesa e manter as contas pagas, mesmo quando o salário mal dava para chegar ao fim do mês.

Meu pai era diferente.

Ele tinha o tipo de temperamento que fazia qualquer pessoa prender a respiração quando entrava em casa. Bastava uma coisa fora do lugar, uma resposta atravessada ou um dia ruim no trabalho para que o humor dele mudasse completamente.

Eu tinha sete anos quando entendi que meu pai não amava minha mãe da maneira como dizia amar.

Lembro daquela noite com uma nitidez que às vezes gostaria de não ter.

Eu estava no quarto, tentando dormir, quando ouvi uma discussão vindo da sala. No começo eram apenas vozes abafadas. Depois, minha mãe começou a chorar.

Levantei da cama.

Fiquei alguns segundos parado diante da porta, sem saber se deveria sair.

Então ouvi o barulho.

Corri para a sala.

Minha mãe estava encostada contra a parede, tentando se proteger enquanto meu pai gritava com ela. Eu não entendia exatamente o motivo da discussão. Talvez nem existisse um motivo de verdade.

— Para! — gritei.

Meu pai virou o rosto na minha direção.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Eu era uma criança pequena diante de um homem muito maior do que eu, mas naquele momento não pensei nisso. Só conseguia olhar para minha mãe.

— Não encosta nela!

Minha voz saiu tremendo.

Meu pai deu um passo na minha direção.

Minha mãe imediatamente entrou na minha frente.

— Leonardo, vai para o quarto.

— Não!

— Vai!

Foi a primeira vez que percebi medo na voz dela.

Não o medo que eu já conhecia.

Era outro.

Era o medo de que alguma coisa acontecesse comigo.

Voltei para o quarto, mas não fechei a porta. Fiquei sentado no chão, abraçado aos joelhos, ouvindo os dois discutirem do outro lado da parede.

Naquela noite, descobri que algumas coisas quebravam sem fazer barulho.

A confiança.

A segurança.

A infância.

Durante muito tempo, minha mãe tentou sair daquele ciclo.

E durante muito tempo, ela voltou.

Ela sempre encontrava uma justificativa.

Dizia que ele iria mudar.

Que estava nervoso.

Que tinha sido apenas aquela vez.

Que nós não tínhamos para onde ir.

Eu odiava quando ela dizia aquilo.

Não porque não entendesse.

Hoje eu entendo.

Quando você não tem dinheiro, quando não tem apoio e quando passa anos sendo convencida de que não consegue sobreviver sozinha, sair não é simplesmente abrir uma porta e ir embora.

É construir uma vida inteira do lado de fora.

Minha mãe levou anos para conseguir fazer isso.

Até que, finalmente, conseguiu.

Não houve despedida.

Não houve aviso.

Não houve planejamento perfeito.

Em uma madrugada, colocamos algumas roupas dentro de duas bolsas e saímos de casa.

Eu tinha treze anos.

Minha mãe segurava minha mão enquanto caminhávamos pela rua, e eu me lembro de olhar para trás algumas vezes.

Ela não olhou nenhuma.

Foi a primeira vez que vi minha mãe escolher a si mesma.

Nossa nova casa era pequena, simples e tinha muito mais problemas do que móveis. O telhado apresentava infiltrações, a cozinha mal comportava duas pessoas e meu quarto era dividido com caixas durante os primeiros meses.

Mas era nossa, e pela primeira vez, ninguém gritava atrás de uma porta.

Minha mãe começou a procurar emprego em qualquer lugar: supermercado, lanchonete, loja, faxina, recepção.

Ela não escolhia.

Ela precisava trabalhar.

Conseguiu uma vaga como auxiliar de serviços gerais em um hotel de alto padrão na Zona Sul.

O hotel pertencia a uma das maiores famílias empresárias do Rio de Janeiro.

Os Montenegro.

Naquela época, aquele sobrenome não significava nada para mim.

Era apenas o nome de uma família rica estampado nos documentos, nas placas e nas paredes do hotel.

Minha mãe também não tinha ideia do quanto aquele nome ainda faria parte das nossas vidas.

Ela começou limpando quartos, organizando áreas internas e fazendo tudo aquilo que ninguém percebe até deixar de ser feito.

E ela era boa.

Muito boa.

Minha mãe sempre foi.

Em poucos meses, começaram a confiar tarefas maiores a ela. Depois veio uma oportunidade na recepção. Ela aprendeu a lidar com hóspedes, reservas, telefone, reclamações e tudo mais que aparecia pela frente.

Pela primeira vez, eu via minha mãe crescer.

Ela chegava cansada em casa, mas sorria.

Às vezes trazia um pedaço de bolo que sobrava dos eventos do hotel.

Outras vezes contava histórias sobre hóspedes estrangeiros que não conseguiam pronunciar o nome dela.

Eu gostava de ouvir.

Gostava porque, durante aqueles momentos, ela parecia apenas minha mãe.

Não a mulher que havia passado anos tentando sobreviver.

Não a mulher que tinha medo.

A minha mãe.

Foi também naquela época que ela conheceu Augusto Montenegro, o dono do hotel.

O homem cujo sobrenome estava em todos os lugares. Ela sabia quem ele era, é claro que sabia.

Todo mundo sabia.

Mas, segundo ela, ele parecia diferente quando estava conversando com ela.

Eu era jovem demais para entender aquela história completamente, só sei que, depois que Augusto começou a prestar atenção nela, algumas coisas mudaram.

Minha mãe passou a chegar em casa mais tarde.

Começou a ficar mais quieta.

Quando eu perguntava se estava tudo bem, ela dizia que sim, sempre dizia que sim.

Até que um dia ela chegou em casa e chorou.

Não quis me contar o motivo, disse apenas que algumas pessoas confundiam poder com direito.

Foi a primeira frase que me fez desconfiar de que havia muito mais naquela história do que ela conseguia dizer.

Depois disso, minha mãe tentou se afastar, mas Augusto Montenegro era o chefe dela. E poder não desaparece simplesmente porque alguém pede distância.

Ela precisava daquele emprego, precisava daquele salário. Precisava daquela oportunidade.

E ele sabia.

Foi aí que tudo começou a desmoronar novamente.

Só que, dessa vez, eu não era mais uma criança de sete anos escondida atrás de uma porta.

Eu tinha idade suficiente para perceber., e idade suficiente para odiar.

Minha mãe nunca me contou todos os detalhes. Talvez tenha tentado me proteger, ou talvez tivesse vergonha.

Talvez simplesmente não conseguisse falar sobre aquilo.

Mas eu soube que Augusto Montenegro havia ultrapassado limites que nunca deveriam ter sido ultrapassados.

E soube também que, depois daquele episódio, minha mãe nunca mais foi a mesma.

O que sei é que aquela relação não aconteceu entre duas pessoas em condições iguais.

Havia medo, pressão e uma dependência financeira que tornava tudo ainda mais cruel. E, quando minha mãe percebeu que estava grávida, sua vida ficou ainda mais complicada.

A criança nasceu alguns meses depois. Minha irmã. Helena. Minha pequena Helena. Eu tinha idade suficiente para entender que ela era diferente de mim. Tinha os olhos claros, traços que não se pareciam completamente com os nossos e, principalmente, carregava uma história que minha mãe demorou anos para me contar.

Helena era filha de Augusto Montenegro. Sim. O mesmo homem cujo sobrenome eu viria a odiar.

Durante muito tempo, minha mãe tentou esconder a verdade. Augusto sabia que Helena existia, mas nunca assumiu publicamente a paternidade. Para ele, aquilo era um problema que poderia ser resolvido com dinheiro, silêncio e distância. Para nós, era uma pessoa. Era minha irmã. Era uma criança que não tinha culpa de absolutamente nada.

Apesar disso tudo, depois da gravidez minha mãe voltou a ser a mulher feliz que ela era, e Augusto simplesmente sumiu de nossas vidas.

Quando fiz 18 anos, até então, nunca havia precisado trabalhar. Mesmo com todo sacrifício minha mãe dizia que lugar de filho dela era estudando. Eu havia acabado o Ensino Médio e passava meu tempo estudando para o vestibular do próximo ano, e ajudando a cuidar da minha irmã, que agora tinha 3 anos.

Tudo isso mudou quando minha mãe foi demitida sem nenhum motivo. A justificativa oficial foi uma reestruturação interna, eu nunca acreditei, pois ela foi dispensada na mesma época que a esposa do Augusto Montenegro assumiu a direção do hotel.

Nada naquela história parecia coincidência.

Depois que minha mãe saiu do hotel, eu achei que finalmente teríamos conseguido deixar tudo aquilo para trás. Estava errado. O que aconteceu depois foi ainda pior, porque algumas feridas não fecham quando a pessoa que as causou desaparece. Elas continuam abertas dentro de quem ficou. Minha mãe começou a mudar aos poucos.

Primeiro vieram os dias em que ela não queria sair da cama. Depois, as noites em que eu a encontrava chorando sozinha. Ela deixou de trabalhar, perdeu a vontade de conversar e passou a existir dentro de uma tristeza que eu não sabia como alcançar. Eu tinha a geladeira vazia quando percebi que não podia mais esperar que ela voltasse a ser a mulher que eu conhecia. A comida precisava aparecer na mesa. As contas continuavam chegando. Helena precisava de fraldas, remédios e tudo aquilo que uma criança pequena precisava para crescer. Então eu fiz o que precisava ser feito. Comecei a trabalhar.

No começo, fazia pequenos serviços onde aparecesse. Carregava caixas, ajudava em comércio, entregava coisas, fazia bicos na rua. Eu voltava para casa cansado e com as mãos doendo.

Escolhi o trabalho. Não porque queria abandonar os estudos, mas porque naquele momento alguém precisava sustentar aquela casa e não havia ninguém além de mim. Minha mãe já não tinha condições. Eu tinha quinze anos e, de repente, parecia ter cinquenta.

Enquanto outros garotos da minha idade reclamavam de provas, festas e trabalhos da faculdade, eu calculava quanto dinheiro precisava conseguir antes do fim da semana para comprar comida.

Minha mãe continuou piorando.

Eu tentava cuidar dela, cuidar de Helena e ainda fingir que conseguia cuidar de mim mesmo. Não conseguia. Mas ninguém pergunta para um garoto de dezoito anos se ele está preparado para carregar uma família nas costas. A vida simplesmente coloca o peso sobre você e espera que não deixe cair.

Até que um dia minha mãe morreu.

Não foi como nos filmes. Não houve uma despedida bonita, nenhuma última frase perfeita que eu pudesse guardar para o resto da vida. Houve silêncio. Houve um telefone tocando. Houve uma casa que, de repente, ficou grande demais para duas crianças. E houve a sensação de que alguma parte de mim havia morrido junto com ela.

Eu não sabia o que fazer.

Helena era pequena demais para entender. Eu era jovem demais para ser responsável por alguém, mas não existia ninguém vindo nos salvar. Foi então que recebi a carta.

O envelope tinha o nome de Augusto Montenegro.

Fiquei vários minutos olhando para ele antes de abrir. Dentro havia algumas palavras formais de condolências e um cheque. Um valor alto. Alto o suficiente para resolver problemas que eu nem sabia mais como resolver. Augusto dizia que esperava que aquilo pudesse ajudar a mim e a Helena naquele momento e que o dinheiro deveria ser suficiente para que tivéssemos alguma estabilidade.

Estabilidade.

Aquela palavra quase me fez rir.

Ele tinha dinheiro para transformar a morte da minha mãe em um cheque.

Eu queria rasgar aquela folha.

Queria devolver tudo.

Queria colocar fogo naquele envelope e fazer com que Augusto Montenegro soubesse exatamente o que eu pensava dele.

Mas então olhei para Helena.

Ela estava sentada no chão da sala, brincando com uma boneca velha que minha mãe havia comprado meses antes.

Eu não tinha dinheiro.

Não tinha emprego fixo.

Não tinha entrado para uma universidade.

E tinha uma criança dependendo de mim.

Então aceitei.

Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida. Eu odiava aquele dinheiro, mas precisava dele. Usei parte para organizar nossa casa, garantir comida e pagar tudo o que estava atrasado. Depois consegui voltar a estudar. Helena também passou a ter acesso a uma escola melhor, médicos quando precisava e uma vida que eu jamais teria conseguido proporcionar sozinho naquele momento.

Era irônico.

O dinheiro do homem que eu culpava pela destruição da minha família foi justamente o que permitiu que eu mantivesse a parte dela que ainda estava viva.

Eu nunca perdoei a família Montenegro pela morte da minha mãe.

Na verdade, talvez tenha sido exatamente aí que o meu ódio ficou mais forte.

Porque eu precisava continuar vivendo sabendo que, de alguma forma, ele havia comprado o direito de continuar longe de nós.

Os anos passaram.

Eu cresci.

Helena cresceu.

E eu passei a ocupar um lugar que nunca imaginei ocupar tão cedo: o de irmão e responsável por uma menina que ainda perguntava coisas demais para alguém tão pequena.

— Léo, por que meu pai nunca vem me buscar?

Essa era uma das perguntas que eu mais odiava.

No começo, eu inventava respostas.

Dizia que ele trabalhava muito.

Que estava longe.

Que talvez um dia viesse.

Mas crianças crescem.

E Helena começou a perceber que as respostas não faziam sentido.

— Ele não gosta de mim?

Eu nunca sabia o que dizer.

Como explicar para uma criança que ela não tinha culpa de nada? Que o pai dela sabia que ela existia? Que tinha dinheiro suficiente para comprar metade da cidade, mas nunca apareceu para perguntar se ela estava bem?

Eu via minha irmã crescer carregando uma ausência que não era responsabilidade dela.

E toda vez que ela perguntava por que o pai nunca aparecia, eu lembrava da minha mãe.

Lembrava dela chorando.

Lembrava das noites em que tentava esconder de mim o quanto estava sofrendo.

Lembrava do hospital.

Do enterro.

Da carta.

Do cheque.

Do sobrenome Montenegro.

Foi assim que a minha decisão começou a tomar forma.

Eu não queria o dinheiro de Augusto.

Não queria a piedade dele.

Não queria que Helena crescesse acreditando que precisava aceitar migalhas de alguém que nunca teve coragem de assumir a própria filha.

Eu queria que ele olhasse para tudo aquilo que havia feito e, pela primeira vez, não pudesse simplesmente pagar para que desaparecesse.

Foi por isso que entrei naquela universidade.

Não por causa do Direito.

Não por causa da bolsa.

Não por causa do futebol.

Entrei porque Gustavo Montenegro estava lá, e ele seria minha porta de entrada para minha vingança.

Eu sabia que ele era filho de Augusto. Sabia que carregava o sobrenome que eu aprendi a odiar. Sabia que, de alguma forma, ele fazia parte daquela família.

Mas eu não sabia quem ele era.

Não sabia que ele seria diferente do que eu imaginava.

E, principalmente, não sabia que o filho do homem que eu queria destruir poderia se tornar a única pessoa capaz de colocar toda a minha vingança em risco.

Os anos passaram, mas algumas coisas permaneceram exatamente no mesmo lugar dentro de mim. O ódio por Augusto Montenegro era uma delas. Foi por isso que, naquela manhã, quando atravessei os corredores da universidade pela primeira vez, eu não estava preocupado em fazer amigos, conhecer professores ou descobrir onde ficava a biblioteca. Eu tinha uma missão. E missões não combinavam com distrações.

Entrei na sala alguns minutos antes do início da aula e escolhi uma carteira mais ao fundo. Coloquei a mochila no chão, puxei o capuz sobre a cabeça e fiquei observando. Eu sempre fui bom em observar. Talvez porque tivesse aprendido cedo que prestar atenção nos outros era uma maneira de entender o que eles escondiam. Aquela sala estava cheia de pessoas que pareciam pertencer a mundos completamente diferentes do meu. Roupas caras, relógios que provavelmente custavam mais do que tudo o que eu já tive, conversas sobre viagens, festas e coisas que eu não fazia questão de conhecer. Eu não estava ali para me encaixar.

Então eu vi ele.

Gustavo Montenegro.

Eu já tinha visto fotografias. Sabia como era. Sabia o nome, o curso, a idade e, principalmente, sabia de quem ele era filho. Mesmo assim, ver Gustavo pessoalmente foi diferente. Ele estava sentado algumas carteiras à frente, conversando com uma garota negra de cabelos cacheados. Parecia completamente à vontade. Ria de alguma coisa que ela dizia enquanto mexia no celular, como se não tivesse uma preocupação sequer no mundo.

Então aquele era o filho de Augusto Montenegro.

Por alguns segundos, fiquei apenas observando. Era estranho pensar que o garoto diante de mim carregava o mesmo sobrenome que eu havia aprendido a odiar. Não havia nada particularmente ameaçador nele. Pelo contrário. Gustavo parecia tranquilo demais, talvez até inocente demais para alguém que vinha daquela família. Mas eu precisava me lembrar de uma coisa: eu não estava ali para julgar Gustavo. Estava ali por causa de Augusto. Meu problema era com o pai dele. Só que, se eu quisesse chegar perto de Augusto, precisava chegar perto de Gustavo primeiro.

E isso poderia ser mais fácil do que eu imaginava.

A professora começou a aula e, como era de se esperar, decidiu fazer aquela tradicional rodada de apresentações. Um por um, os alunos começaram a dizer seus nomes, cursos e algumas coisas sobre si mesmos. Eu não prestava muita atenção até chegar a vez dele.

Gustavo se levantou.

Foi nesse momento que consegui observá-lo melhor. Ele era mais bonito pessoalmente do que nas fotografias. Tinha cabelos loiros, levemente ondulados, e um rosto que transmitia uma espécie de tranquilidade irritante. Não parecia alguém acostumado a lutar por nada. E talvez não precisasse mesmo.

— Gustavo Montenegro. Direito. Segundo período.

Simples. Sem grandes explicações. O sobrenome, porém, ficou na minha cabeça.

Montenegro.

Por alguns segundos, não enxerguei mais o garoto sentado diante de mim. Enxerguei minha mãe. A casa onde cresci. Os anos em que ela tentou reconstruir a própria vida. O hospital. O funeral. A carta. O cheque. Meu maxilar travou. Respirei fundo e voltei a olhar para ele.

Não.

Não podia misturar as coisas.

Gustavo não era Augusto. Eu sabia disso. Mas ele poderia ser a minha porta de entrada. E era exatamente assim que eu precisava enxergá-lo: como uma porta.

Durante a aula, comecei a pensar em como me aproximaria dele. Eu não poderia simplesmente chegar dizendo que conhecia seu pai, muito menos demonstrar qualquer interesse pela família Montenegro. Precisava parecer natural. Um colega novo. Talvez um amigo. Alguém em quem Gustavo pudesse confiar. Depois, eu encontraria uma maneira de chegar até Augusto. Eu ainda não sabia exatamente como, mas saberia.

O sinal do intervalo tocou e a sala imediatamente se transformou. As pessoas começaram a guardar seus materiais, conversar e sair em grupos. Eu me levantei sem pressa, esperando que o corredor ficasse menos cheio. Foi quando vi Gustavo sair da sala. Ele caminhou em direção à escada, mas, antes que pudesse chegar ao primeiro degrau, diminuiu o passo. Alguma coisa estava errada. Levou uma mão à parede e ficou parado por um instante. Então seu corpo inclinou para frente.

Eu não pensei. Apenas fui.

Segurei Gustavo pela cintura antes que ele caísse pela escada e o puxei de volta, fazendo com que suas costas encostassem na parede. Por um segundo, ficamos próximos demais. Consegui sentir a respiração dele descompassada e percebi que seus olhos estavam perdidos, como se ainda tentasse entender o que havia acontecido.

— Você está bem?

Ele apenas balançou a cabeça.

Eu deveria ter soltado imediatamente, mas esperei. Aquela era uma oportunidade. Eu precisava conhecê-lo. Precisava fazer com que ele confiasse em mim. Talvez aquele pequeno incidente fosse justamente o começo que eu precisava.

Ajudei Gustavo a descer as escadas e o levei até o refeitório. Quando ele se sentou, fui buscar alguma coisa para comer. Não porque estivesse preocupado com ele. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo. Eu estava apenas fazendo o necessário.

No refeitório, encontrei novamente os amigos dele. A garota que estava ao seu lado na sala veio imediatamente perguntar o que tinha acontecido. O ruivo apareceu logo depois e, em poucos minutos, eu estava sentado com eles. A garota falava sem parar. Carla. Ela me explicou quem era praticamente todo mundo daquela turma, quem namorava quem, quem não se suportava e quais professores eram mais difíceis. O ruivo, Lucas, também parecia conhecer Gustavo havia anos e participava da conversa com a intimidade de quem já tinha vivido metade da vida ao lado dele.

Eu permanecia mais quieto. Observava. Era o que eu sabia fazer.

Gustavo ria das histórias de Carla, às vezes interrompia Lucas, outras vezes apenas ficava olhando para os dois enquanto mexia distraidamente no copo que tinha nas mãos. Eu prestava atenção em tudo. Como ele falava. Como ria. Quem parecia ser importante para ele. Quem ele procurava quando alguma coisa acontecia. Quanto mais eu observava, mais informações reunia.

Era isso que importava.

Informação.

Eu precisava saber como Gustavo funcionava para descobrir como chegar até Augusto.

E, enquanto eles conversavam, comecei a perceber uma coisa que poderia facilitar muito o meu plano. Gustavo confiava facilmente nas pessoas. Ou pelo menos parecia confiar. Talvez fosse por ter crescido naquele mundo. Talvez fosse porque nunca tivesse precisado desconfiar de todo mundo.

Eu, por outro lado, havia aprendido exatamente o contrário.

Não confie. Não conte demais. Não demonstre fraqueza. Não deixe ninguém chegar perto o suficiente para descobrir quem você realmente é.

Por isso, quando Gustavo virou o rosto na minha direção e perguntou alguma coisa sobre mim, eu apenas respondi o necessário. Nada além. Ele não precisava saber quem eu era.

Ainda não.

O sinal tocou novamente e todos começaram a se levantar. Eu acompanhei o movimento, mas meus olhos permaneceram por alguns segundos em Gustavo.

O filho de Augusto Montenegro.

A porta que eu precisava atravessar para chegar até o homem que eu queria destruir.

Eu ainda não sabia quanto tempo levaria. Também não sabia o que precisaria fazer. Mas tinha certeza de uma coisa.

Gustavo Montenegro seria o caminho até seu pai.

E eu faria o que fosse necessário para chegar até Augusto.

Naquele momento, eu ainda não imaginava que algumas portas, depois que você abre, não fecham mais do mesmo jeito. E que, às vezes, o maior perigo de uma vingança não é descobrir que você pode falhar.

É descobrir que talvez já não queira vencer.

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Comentários

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Nossa, que triste a história dele e principalmente da mãe que teve um fim tão precoce por conta daquele Satanás dos infernos! Não suporto esse tipo de gente. Leonardo tem a vibe de Miguel de rebelde. Entendendo o motivo da vingança dele e não vou julgar por enquanto, só sinto pena do Gustavo que quando descobrir tudo, vai ficar bem mau.

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E essa foi exatamente a referência para criar esse personagem!! Amei que alguém percebeu 💙

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Arrasou! Já vi que vou estressar bastante rsr.

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Opa, as cartas começando a ser colocadas na mesa!!

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Ansioso pelos próximos capítulos

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Poxa, decepcionado com o Leonardo, sei que provavelmente o Gustavo vai saber a verdade em algum momento e vai perdoar, pq todo conto parece que é conto de fadas e todo mundo se perdoa, mas Eu sendo o Gustavo não perdoaria, mesmo que o Leonardo tenha as razões dele.

Dito isso, aguardo por mais capítulos!

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