CAPÍTULO 15
A Escolha do Amor e a Tortura da Esperança
Parte 1 – O Hiato de Tortura e a Espera em Silêncio
O mês de março de 2026 chegou trazendo uma mudança silenciosa à rotina da família Alves.
Fevereiro havia terminado deixando para trás o atentado, a gravidez, a missão em Gibraltar e uma conversa que nenhum dos dois conseguia esquecer.
Na volta da Europa Fred Alves estendera o seu recesso na distribuidora, dedicando as manhãs ao isolamento em seu apartamento, que começou como temporário, mas já aparentava ter perdido esse rótulo.
Com a notícia da gravidez pediu uma nova licença da empresa. Como da outra vez, a frase simples no e-mail corporativo — “licença temporária por razões pessoais” — foi uma paulada dura de aguentar para Beatriz.
Após o terrível susto da missão em Gibraltar e os desdobramentos de fevereiro, eles continuavam passando os dias completamente separados e incomunicáveis, exceto para tratar de assuntos da empresa, quando a conversa era meramente protocolar.
Não havia mais discussões.
Não havia mais acusações.
Mas também não havia a reconciliação que havia se iniciado até Fred se deparar com Cláudia e sua cesta e descobrir a gravidez.
O silêncio entre os dois não era mais o silêncio de antes.
Antes, Beatriz acreditava que o silêncio de Fred escondia uma traição.
Agora sabia que escondia um mundo inteiro.
E isso tornava tudo ainda mais difícil.
Fred permanecia em seu apartamento.
Beatriz continuava na residência do Lago Sul.
Os assuntos da empresa eram tratados por mensagens objetivas.
Contratos.
Reuniões.
Assinaturas.
Decisões administrativas.
Nada pessoal.
Nada sobre o casamento.
Nada sobre o bebê.
Mas havia pequenas exceções feitas sempre através de um interlocutor em comum.
Às vezes, Fred perguntava a Jonathan:
— Sua mãe comeu?
Jonathan respondia:
— Comeu.
Outro dia:
— Ela dormiu?
— Pouco.
— E os enjoos?
— Piores hoje.
Fred não fazia outra pergunta.
Mas, depois que desligava, permanecia vários minutos olhando para o telefone.
Beatriz também perguntava.
— Seu pai está bem?
Jonathan fingia não perceber.
— Está.
— As costelas?
— Ele não reclama mais delas.
— Ele está dormindo?
— Acho que sim.
Beatriz assentia.
E mudava de assunto.
Nenhum dos dois tinha coragem de ligar diretamente.
Não ainda.
Os seus companheiros da Força-Tarefa internacional já haviam retornado para as suas respectivas bases na Europa logo após a delação e extração de Brazino, a operação em Gilbraltar e as operações no Brasil; ele falava com Helena e Mauro pouquíssimas vezes por meio de linhas telefônicas seguras, ignorando que os agentes da Janus continuavam monitorando o perímetro à distância por segurança contra os desdobramentos sigilosos das máfias russas, milícias, políticos e traficantes brasileiros.
A saída de Fred da Força-Tarefa continuava suspensa. Depois da gravidez, os superiores haviam evitado tratar sua saída como definitiva.
Vance insistia.
O general Vance ligou para Fred em uma tarde:
— Como você está? Sei que está ferido, confuso e ainda por cima mais emocionalmente em frangalhos do que antes. Porém, isso pode ser uma motivação ainda maior para o trabalho no futuro.
Fred respondeu, cansado de ter aquela conversa novamente:
— General, eu sei que quer o meu bem, mas com todo respeito do mundo... ela pode estar grávida de outro homem e não tenho condições de pensar em nada.
Os demais tentaram abordagens diferentes.
Chris foi direto:
— Se o filho for de Rafael, isso muda biologicamente. Não necessariamente muda emocionalmente. Você tem que pensar por esse lado também, mas te conhecendo como conheço, sei que já pensou e isso é uma das torturas que você deve estar se submetendo.
Tom, como sempre, escolheu a frieza elegante:
— O orgulho costuma ser péssimo conselheiro quando disfarçado de dignidade.
Mizrahi foi o mais duro:
— Você não precisa perdoar agora. Mas também não precisa transformar dor em sentença perpétua.
Chicca apelava para o coração.
— Fred, ela te ama. Está evidente. Até um cego em uma sala escura perceberia. Vocês precisam se perdoar.
Alejandro, surpreendentemente contido, disse:
— Eu já vi homens perderem famílias por coisas realmente imperdoáveis. O que aconteceu com vocês é horrível, mas não nasceu da falta de amor.
Helena, porém, era quem conseguia atingir Fred com poucas palavras.
Naquela tarde, ela ligou.
— Como você está?
— Funcionando.
— Isso não é resposta.
— É a resposta que tenho.
Helena respirou.
— Você ainda acredita que a gravidez pode mudar tudo?
— Ela já mudou tudo.
— Biologicamente?
Fred permaneceu em silêncio.
— Eu não sei.
— E emocionalmente?
— Também não sei.
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
— A mentira destruiu a confiança dela, Fred.
Ele fechou os olhos.
— Eu sei.
— A escolha dela destruiu a sua.
A frase permaneceu entre eles.
Fred sentiu o peso dela como se alguém tivesse dado forma ao romance inteiro de sua vida.
A mentira destruiu a confiança dela.
A escolha destruiu a dele.
— Isso não significa que eu não entenda por que aconteceu.
— Entender não é o mesmo que perdoar.
— Eu sei.
— E perdoar não significa esquecer.
Fred olhou pela janela.
— Eu sei disso também.
Helena respirou.
— Então talvez exista uma terceira possibilidade.
— Qual?
— Reconstruir.
Fred ficou em silêncio.
— Mas primeiro você precisa descobrir se ainda quer construir alguma coisa com ela.
Ele respondeu sem hesitar:
— Quero. Quero tentar.
Helena fechou os olhos do outro lado da linha.
— Então pare de tentar resolver isso sozinho.
Fred sorriu sem humor.
— Essa recomendação está ficando repetitiva.
— Talvez porque você ainda não aprendeu.
A ligação terminou.
E, por mais que todos tentassem aconselhá-lo, por mais que ele compreendesse racionalmente a manipulação, a dor permanecia intacta.
Ele finalmente entendia por que Beatriz havia caído, mas ainda não conseguia perdoar o lugar onde ela caíra. Como caíra.
O suspense da espera era agudizado pela barreira biológica da gestação.
Como o atentado ocorrera no início do período gestacional, o feto possuía poucas semanas de maturação celular, tornando qualquer coleta de material genético ou exame de DNA fetal inviável e perigoso.
Fred permaneceu sentado.
Na mesa havia uma fotografia antiga.
Beatriz.
Jonathan.
Ele.
Os três sorrindo.
A família antes da queda.
Fred passou o dedo pela moldura.
— Eu ainda quero você.
Do outro lado de Brasília, Beatriz estava sentada diante da janela do quarto.
O colar de safira continuava em seu pescoço.
Ela tocou a pedra.
Pensou na conversa de Gibraltar.
Pensou no salto.
Pensou nas doze horas no mar.
Pensou na mão dele tocando seu rosto.
E pensou naquilo que mais a assustava: talvez ela tivesse passado meses tentando decidir se ainda podia confiar em Fred, sem perceber que Fred também precisava descobrir se conseguiria voltar a confiar nela.
Fred vivia atormentado pelo racha da traição, enquanto Beatriz definhava pelo mesmo motivo e por outros. As palavras de Fred no retorno da operação na Europa ainda ecoavam em sua cabeça.
O sofrimento físico e as náuseas intensas da gravidez eram agravados pela agonia de não conseguir recordar se Rafael havia usado o preservativo no quarto do hotel.
Larissa permanecera como a sua única e fiel confidente de retaguarda, organizando as consultas com o obstetra em absoluto sigilo e sustentando o teto que ameaçava desabar.
Ela chegou, inclusive, a sugerir que Beatriz ligasse para Rafael para tirar a dúvida sobre o uso do preservativo, mas Beatriz rechaçou a ideia.
Primeiro, porque não queria mais contato com Rafael. Se antes ela tinha uma lembrança nostálgica da época em que ficaram juntos e terminaram ainda jovens, de maneira traumática para ela, pela mudança dele de estado, agora, ver ou falar com ele só trazia dor para Beatriz.
Segundo, porque ele poderia confirmar, ainda que não fosse verdade, que não usou o preservativo apenas para tentar reconquistá-la ou, se não tivesse mesmo usado, teria na possibilidade real de um filho com ela um motivo para tentar se fazer presente e afastá-la em definitivo de Fred.
Beatriz não queria que Rafael soubesse de maneira nenhuma que ela poderia estar grávida dele.
Ela emagreceu nas semanas seguintes.
Não muito, mas o suficiente para Larissa perceber. Para Maria perceber. Para Jonathan fingir que não percebia, porque ainda não sabia como lidar com a possibilidade de sentir alegria pela gravidez e medo pela origem dela ao mesmo tempo.
O calor abafado e o ar parado de Brasília pareciam ecoar o vazio dos cômodos, intensificando a sensação de isolamento.
Larissa tornou-se o apoio constante de Beatriz. Ia à casa dela quase todos os dias. Levava comida, insistia para que ela caminhasse um pouco, marcava consultas, organizava exames, respondia mensagens quando Beatriz não tinha energia para isso. Às vezes, apenas ficava sentada ao lado dela no sofá.
Sem perguntas.
Sem conselhos.
Só presença.
Em uma tarde, Beatriz abriu uma gaveta e encontrou a caixa vazia do doce italiano. Segurou-a por alguns segundos. O colar continuava em seu pescoço.
Ela havia pensado em tirá-lo várias vezes.
No dia em que Fred saiu arrasado.
Na noite em que chorou até adormecer.
Na manhã em que acordou com náuseas e percebeu que carregava dentro de si uma vida envolta em dúvida.
Em todas as vezes, levara a mão ao fecho. Em nenhuma conseguiu abri-lo.
A joia não era mais apenas um presente. Era a última prova física de uma versão feliz da família. O infinito em safira parecia zombar dela e, ao mesmo tempo, sustentá-la.
— Eu devia tirar — sussurrou.
Larissa, do outro lado da sala, ouviu.
— Mas não quer.
Beatriz fechou a caixa.
— Não consigo.
— Então não tire.
— Parece injusto.
— Com quem?
Beatriz levou a mão ao ventre.
— Com ele. Com Fred. Comigo.
Larissa sentou-se ao lado dela.
— Talvez seja só um lembrete de que nem tudo acabou.
Beatriz chorou em silêncio.
Naquela noite, sozinha, voltou mentalmente ao início de tudo.
As imagens falsas, os áudios. A dor. O choque. E, principalmente, sua própria decisão.
Ela lembrava com uma clareza cruel que não havia confrontado Fred. Não mostrou os arquivos. Não abriu o celular diante dele. Não exigiu explicações. Guardou tudo para si.
Porque pensou: “Se eu perguntar, ele vai mentir.” “Se ele realmente tem outra mulher, nunca vai admitir.” “Preciso decidir sozinha o que fazer.” O pensamento lhe pareceu racional na época. Agora parecia uma prisão. Foi essa decisão que a isolou emocionalmente. Foi esse isolamento que a tornou vulnerável à manipulação de Renato.
Beatriz não havia deixado de amar Fred.
Esse nunca fora o problema.
O problema era mais profundo, mais dilacerante: Eu amo esse homem. Mas será que algum dia eu realmente o conheci?
Antes da verdade vir à tona, essa pergunta era devastadora.
Ela olhava para o marido e via amor, história, desejo, parceria, mas também via portas fechadas. As viagens. As respostas incompletas. Os silêncios.
Então Rafael surgiu como algo que não era amor.
Era nostalgia.
Ele representava um tempo em que a vida parecia mais simples, mais compreensível, menos cheia de zonas escuras. Sim, ela o amou, mas antes de conhecer Fred.
Beatriz não buscou Rafael para substituir Fred. Buscou, desesperadamente, uma versão de si mesma que ela acreditava ter perdido. E, depois daquela única noite, percebeu imediatamente o erro. Não porque Rafael fosse ruim. Mas porque seu coração continuava pertencendo a Fred. Por um momento imaginou o que as pessoas que tanto a elogiavam por sua competência e inteligência pensariam dela por ter agido de maneira tão estúpida, impulsiva e covarde. Por ter tomado uma única decisão (de ter transado com Rafael) de maneira tão açodada, sabendo que estava fragilizada emocionalmente, por não ter dado a Fred o direito de se defender e, ainda, por cima, sob os efeitos do álcool.
O silêncio da casa a esmagava. Em outra época, ela reclamaria do barulho. Do riso alto de Fred. Das provocações de Jonathan. Da música. Das conversas na cozinha. Das brincadeiras sobre o quarto do casal. Agora, a casa era tão silenciosa que parecia doer.
Jonathan entrou certa noite, encontrou a mãe olhando para a escada e entendeu sem que ela dissesse nada.
— Sabe o que é estranho? — perguntou ele.
Beatriz virou-se.
— O quê?
Ele sorriu com tristeza.
— Eu daria qualquer coisa para voltar a reclamar do barulho de vocês transando.
A frase quebrou Beatriz por dentro.
Ela cobriu o rosto com as mãos. Jonathan a abraçou. Não disse que tudo ficaria bem.
Porque nenhum dos dois sabia.
O problema não era mais apenas o que cada um, ela e Fred, havia feito.
Era o que fariam com aquilo.
E a resposta ainda estava longe.
Porque março estava longe de acabar.
Parte 2 – Cláudia e Rafael (A Ponte da Verdade)
A culpa corroía Cláudia de forma implacável, roubando-lhe o sono desde o confronto destrutivo no jardim da chácara.
Ela estava inquieta havia dias. A expulsão da casa de Beatriz a deixara devastada, mas não o suficiente para fazê-la finalmente aprender a ficar calada.
Desde o confronto com Beatriz, dormia pouco.
Comia mal.
E, pela primeira vez, começava a perceber que suas tentativas de “ajudar” haviam contribuído para destruir justamente aquilo que ela dizia querer proteger.
Ela, então, decidiu procurar Rafael.
Consumida pelo remorso, ela tomou a iniciativa de ligar e marcar uma reunião com Rafael Menezes em uma cafeteria de iluminação fosca e reservada, nos limites do Setor de Autarquias Sul, disposta a desenterrar a raiz de todo aquele equívoco.
A chuva fina escorria pelos vidros.
Rafael chegou alguns minutos atrasado.
Cláudia já o esperava.
O aroma de café moído misturava-se ao som da chuva batendo contra os painéis de vidro quando Rafael sentou-se à mesa, exibindo o semblante desgastado de quem também carregava o peso de sua parcela de erros corporativos. Cláudia fixou os olhos nele, as mãos apertando o guardanapo de papel:
— Eu destruí o que restava do casamento deles, Rafael... — desabafou Cláudia, a voz embargada pelo choro.
Rafael franziu a testa.
— O que aconteceu agora?
Cláudia continuou sem esperar convite.
— Eu soube pelo meu irmão Gabriel que a Beatriz deu entrada grávida no hospital após o tiroteio.
— Eu achei que Fred soubesse e acabei falando na frente dele. Fiz uma cesta para o bebê. Fui pedir desculpas. Só que ele não sabia. Ela não tinha falado para ele. Coloquei os pés pelas mãos de novo.
Rafael ficou imóvel.
— Você contou para o Fred?
— Sem querer.
— Cláudia...
— Eu sei! Eu sei. Beatriz me colocou para fora. Disse que eu destruí qualquer chance de reconciliação. Eles agora estão completamente separados por causa de uma dúvida terrível sobre quem é o pai.
A expressão dele mudou de imediato.
Rafael Menezes travou os movimentos, a xícara parando a milímetros de seus lábios. Seus olhos castanhos arregalaram-se em um choque técnico absoluto, e a sua linguagem corporal traiu o pânico de quem via um terrível mal-entendido destruir a vida da mulher que amara:
— Grávida? A Beatriz está grávida? — sussurrou Rafael, a voz saindo em um tom tenso. Ele passou a mão pelo rosto, o desespero misturando-se a uma frustração cega.
— E por que ela não havia contado para ele? Por que está me contando isso?
Ela hesitou.
— Porque... o filho pode ser seu.
— Meu Deus, Cláudia... tudo faz um sentido doloroso agora. Dias atrás, consumido pelo remorso e pela necessidade de me desculpar pelo estrago que o eu causei ouvindo os incentivos do Renato, eu liguei diretamente para a distribuidora tentando falar com a Beatriz. Eu queria apenas pedir perdão por ter sido um peão no jogo do irmão do Fred, mas a secretária repassou o recado seco: a Beatriz me baniu e disse que a nossa história estava encerrada em definitivo. Eu achei que aquela rejeição gélida era apenas raiva pelo hotel... mas ela já estava carregando esse fardo sozinha! Se você não tivesse me chamado para conversar hoje e dado a notícia, eu jamais imaginaria o tamanho do abismo em que a joguei!
Rafael respirou fundo.
— Cláudia, você precisa saber de uma coisa.
Cláudia esperou.
— Eu me lembro de ter usado preservativo.
Ela o encarou.
— Tem certeza?
Rafael demorou.
— Tenho certeza de que ela pediu. Tenho certeza de que eu coloquei.
Pausa.
— Mas aquela noite foi confusa. Ela estava muito alterada. Eu também tinha bebido.
Cláudia respirou fundo.
— Então existe uma possibilidade?
Rafael ficou em silêncio.
— Existe uma possibilidade teórica. Ínfima, mas existe. E é exatamente por isso que eu não vou dizer a ninguém que o bebê é meu.
— Mas você acredita que é do Fred?
— Acredito.
— Por quê?
— Porque, pelo que me lembro, não houve ejaculação interna.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Mas quem precisa decidir isso não sou eu.
Cláudia assentiu.
— Então o que você vai fazer?
Rafael respondeu:
— Falar com Fred.
— Você tem certeza?
— Não.
— Então por que vai?
Ele olhou para ela.
— Porque eu já fiquei calado demais.
Pausa.
— E talvez a única coisa decente que eu possa fazer agora seja parar de aumentar a dúvida.
Rafael inclinou o corpo para a frente, fixando o olhar em Cláudia com uma urgência cortante:
— Preste atenção no que vou te dizer. A Beatriz carrega essa dúvida porque estava em transe. Sofrendo e entorpecida pela bebida naquela madrugada no hotel, mas a verdade que ela não consegue lembrar é que ela manteve o bom senso e exigiu o preservativo. Eu atendi o comando dela no início, mas retirei a proteção somente na hora de gozar. Só que eu terminei estritamente do lado de fora, Cláudia! Não houve ejaculação interna. Eu descarreguei todo o sêmen sobre as costas e as nádegas dela na cama. Não há a menor chance biológica de fecundação da minha parte. Pelo menos eu entendo assim. Esse bebê é do Fred!
Cláudia levou a mão à boca, empalidecendo bruscamente diante da revelação.
— Meu Deus, Rafael... a Beatriz está sofrendo semanas no isolamento porque assumiu que a camisinha havia falhado por completo ou que você não estava usando e que o filho pode ser seu!
— Não é.
— Você tem certeza?
Ele fechou os olhos novamente.
A lembrança daquela noite voltou fragmentada. Beatriz destruída, emocionalmente ausente em alguns momentos, bebida demais. Ele próprio havia bebido, mas não a ponto de perder completamente a consciência.
Ele tentou organizar a memória.
— Eu estava alterado, mas não completamente bêbado. Ela estava pior. Muito pior. Mesmo assim, antes de qualquer coisa, ela pediu que eu usasse camisinha.
Cláudia respirou.
— Então...
— Mas entendo a dúvida dela, porque eu gozei sobre ela. Ela estava confusa, bêbada, emocionalmente destruída, pode não lembrar dos detalhes com segurança.
Rafael levantou-se da cadeira em um solavanco, recolhendo os seus pertences com os nós dos dedos trêmulos. O foco e a dignidade falavam mais alto do que o orgulho de ex-namorado:
— Eu preciso falar com Fred.
— Com o Fred?
— Sim.
— Rafael, talvez seja pior.
Ele a encarou.
— Pior do que ele achar que o filho pode ser meu?
Cláudia não respondeu.
— Eu devo desculpas a ele desde aquela noite. E, se existe uma chance de a criança ser dele, talvez ele precise ouvir isso de mim. Não da Beatriz. Não de você. De mim.
— Você acha que ele vai acreditar?
— Não sei. Mas eu preciso tentar.
Rafael pegou o celular.
— E, se depois quiser confirmação, que façam DNA, mas eu não vou ficar calado enquanto uma vida inteira desmorona por uma dúvida que talvez eu possa ajudar a esclarecer.
Pela primeira vez em muito tempo, Cláudia não tentou interferir.
Apenas assentiu.