Chuck atravessou a calçada como um homem bêbado. As flores ficaram espalhadas no chão do corredor. Ele caminhou sem direção por quase uma hora. Depois parou junto a um muro baixo, vomitou o pouco que tinha no estômago e ficou sentado no meio-fio, a cabeça entre as mãos.
Quinze anos de reconstrução. Quinze anos tentando aprender a viver sem Kelly. E no final, o destino, ou o inconsciente, ou a crueldade do acaso, o fizera amar exatamente o que restava dela no mundo. Uma versão dela ainda livre. Ainda disponível.
A porta que ele fechara em Memphis se abrira de novo, de uma forma que ele nunca previra, e agora se fechava outra vez, desta vez com um estrondo que ecoava em cada parte de quem ele era.
Ele se levantou.
As pernas tremiam.
Sabia, com uma certeza absoluta, que não poderia continuar em Princeton. Não depois daquilo. Não depois de ter visto os olhares quando a verdade desabou sobre todos.
A única imagem que lhe restava era a da ilha.
O lugar onde tudo começara.
O lugar onde, talvez, tudo precisasse terminar.
[CONTINUANDO]
Chuck não voltou ao apartamento naquela noite.
Ele simplesmente andou. Andou sem destino, com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. As ruas de Princeton foram ficando para trás. Os prédios do campus desapareceram. Os bairros residenciais se transformaram em estradas mais escuras, ladeadas por árvores que o vento da madrugada fazia balançar. Quando finalmente parou, o céu já começava a clarear em um tom cinza-azulado. Estava à beira de um lago artificial. A superfície da água refletia as últimas estrelas. Sentou-se na grama úmida e ficou ali, imóvel, enquanto o frio subia pelas pernas.
Por quinze anos, ele se afastou dela.
Por quinze anos, construiu uma vida que não desabasse de uma hora para outra.
Por quinze anos, evitou a frase “eu te amo” como quem evita uma doença.
Por quinze anos, acreditou que a disciplina, os livros e a distância bastavam para manter o passado trancado.
E no fim, o destino, ou o inconsciente, ou a matemática cruel do acaso, o fizera amar exatamente o eco da mulher que ele jurara deixar para trás. Não era Kelly. Era o que restava dela no mundo. Uma versão mais jovem, mais livre, ainda não marcada pelas mesmas escolhas. E isso tornava a dor ainda mais afiada.
Ele tirou o telefone do bolso. A tela estava cheia de notificações. Nenhuma de Katherine. Uma mensagem curta de Jerry despontava e ele a abriu, querendo sofrer um pouco mais. Enganou-se:
Jerry – “Peço desculpas pelo que fiz e falei. Conversamos com Katie e entendemos que não houve intenção, nem um culpado. Mas ainda assim não consigo aceitar. Não entendo o porquê, mas o destino deve ter alguma implicância com você. Enfim... A Katie vai solicitar transferência para outra universidade para não correr o risco de te encontrar novamente. Apenas deixe-a ir.”
Chuck suspirou. Depois desligou o aparelho e o guardou.
Quando o sol nasceu de verdade, Chuck já havia tomado uma decisão. Não haveria nova cidade universitária. Não haveria nova tentativa de se encaixar no continente. A civilização o havia rejeitado de formas diferentes ao longo da vida: primeiro com o barulho do avião se partindo, depois com o silêncio de um laudo de DNA, e agora com o olhar de uma jovem que descobria, tarde demais, que amar machuca. Restava apenas o lugar onde tudo começara. O lugar onde ele aprendera a sobreviver sem temer as pessoas. A ilha.
Mandou uma simples mensagem para Jerry:
Chuck - "Diga para ela ficar. Já solicitei minha transferência. Peça desculpas a ela por mim. Pode não acreditar, mas desejo tudo de bom para ela."
Voltou ao apartamento apenas o tempo necessário para o essencial. Empacotou o mínimo absoluto: algumas roupas resistentes, o relógio de bolso vazio, o diploma dobrado ao meio, um caderno de anotações antigas e a faca de sobrevivência que guardara durante todos aqueles anos como um talismã silencioso. O restante, móveis, livros acumulados, eletrodomésticos, a vida inteira de professor, seria deixado para trás ou vendido em questão de dias por preços que beiravam a doação. Não negociou. Não se importou. Dinheiro era apenas o combustível para chegar ao fim da linha.
Pediu demissão por um e-mail curto e sem explicações. O chefe de departamento tentou ligar duas vezes. Chuck não atendeu. Cancelou o contrato de aluguel. Fechou a conta bancária principal, deixando apenas o suficiente para a viagem e para alguns meses de subsistência precária. O resto foi transferido para uma conta internacional que ele não pretendia usar.
A rota foi planejada com a mesma precisão fria que outrora aplicara às planilhas da FedEx. Voo até uma cidade portuária no Pacífico Sul. De lá, barco até a maior ilha habitada do arquipélago. Depois, um trecho final de helicóptero até a região próxima. Sabia que a ilha em si não constava nos mapas turísticos. Sabia que precisaria pagar em dinheiro vivo e não fazer perguntas. Sabia, sobretudo, que uma vez lá, ninguém viria procurá-lo.
Nos últimos dias em Princeton dormiu pouco. Comia apenas o necessário para manter o corpo em pé. Falava com quase ninguém. Na véspera da partida, antes de fechar a mala definitivamente, abriu a caixa de sapatos onde Wilson jazia murcho e rachado. Olhou a bola durante muito tempo. O rosto pintado estava quase apagado. Pela primeira vez em mais de uma década, falou com ela:
- Acabou, Wilson. De verdade. Desta vez eu não volto.
Não houve resposta, é claro. Ele fechou a caixa com cuidado e a deixou sobre a mesa, ao lado da chave do apartamento e de um envelope contendo o valor do último aluguel.
A viagem foi longa e cheia de silêncios. No avião, Chuck passou a maior parte do tempo olhando pela janela. O continente ficando menor e para trás a cada segundo. O oceano se abriu abaixo dele como uma página sem fim. Em determinado momento a comissária perguntou se ele desejava algo para beber. Ele apenas balançou a cabeça, recusando.
No porto intermediário, enquanto esperava a conexão de barco sob um céu baixo e pesado, uma chuva fina típica dos trópicos começou a cair. Foi então que viu uma mulher que lhe chamou a atenção.
Do outro lado da pequena agência de viagens locais, de costas, falando com o atendente sobre horários de partida, uma mulher gesticulava sem parar. Seus cabelos castanhos estavam presos num coque baixo e prático. Os ombros retos e tensos. Quando ela se virou, suspirando inconformada com algo, os olhos deles se encontraram. E ele a reconheceu de imediato, mas sem lembrar nomes, ou de onde. Ficou ainda mais claro quando ela sorriu para ele.
Ela o reconheceu no mesmo instante. Não houve surpresa teatral nem gestos largos. Apenas um reconhecimento lento, profundo, como quem encontra uma página que havia sido arrancada de um livro antigo e de repente a encontrasse intacta dentro de outro. Ela se aproximou e se sentou ao seu lado:
- Você... - Disse ela, a voz mais rouca pelo tempo, mas ainda clara.
- Eu? – Respondeu, Chuck, ainda confuso.
- Ainda não me reconheceu, não é?
- Desculpa... Eu sinto que te conheço, mas não consigo lembrar...
De repente, um lampejo de consciência trouxe um nome de volta: Bettina Peterson, a mulher das asas de anjo.
A postura ainda carregava a mesma solidez que ele lembrava vagamente do dia distante em que deixara o pacote na porta daquela casa no Texas:
- Bettina... Peterson.
- Eu! – Ela concordou, com um sorriso.
Ficaram se olhando em silêncio enquanto a chuva aumentava do lado de fora. Depois Bettina fez um gesto discreto na direção de um café quase vazio ao lado da agência. Chuck hesitou só um segundo, mas a seguiu. Ele ainda tinha algum tempo antes de partir para sempre.
Sentaram-se junto à janela embaçada. Pediram café preto. Nenhum dos dois tocou na xícara de imediato. O cheiro de terra molhada e de mar entrava pela porta cada vez que alguém abria:
- Eu nunca soube o seu nome completo, sabia? - Disse ela, quebrando o silêncio: - Até ver um documentário sobre a sua história.
- Noland. Charles Noland. Mas meus amigos me chamam de Chuck. Alguns inimigos também.
- Hoje, eu já sei. – Ela retrucou, sorrindo: - Mas e eu? Como devo te chamar?
- Chuck. Só Chuck.
- Ok, “Só Chuck”. – Ela falou e deu uma risada rápida: - Desculpa. Não resisti. Meu nome é Bettina Peterson. Mas isso você já sabia, né? O pacote tinha meu nome.
Ele assentiu, dando um sorriso tímido, contido, como se ser feliz ofendesse a própria existência:
- O pacote das asas de anjo. Eu precisei devolver. Na época, foi a única coisa que ainda fazia algum sentido. Além de ter sido o único que eu não abri. Lembro que eu escrevi que aquele pacote tinha me salvado a vida. E era verdade de algum jeito. Ou pelo menos foi a verdade que eu precisei acreditar para não enlouquecer lá naquele lugar.
Bettina observou o rosto dele com atenção. Notou as marcas profundas do sol antigo, a magreza que não era mais só de sobrevivência, a quietude diferente ao redor dos olhos:
- Você parece alguém que já tentaram matar algumas vezes e se cansou de só tentarem.
Chuck soltou um riso seco, quase sem som:
- Duas vezes, pelo menos. Talvez três. A conta fica confusa depois de um tempo.
- Sei... – Ela resmungou, bebendo um gole de seu café, sem pressa: - E agora? Para onde você vai com essa cara de quem decidiu fazer o que ninguém conseguiu?
Ele olhou para a chuva que escorria pelo vidro em fios irregulares. Depois, para ela:
- De volta. Para a ilha. Aquela mesma...
Bettina não demonstrou choque. Apenas inclinou a cabeça ligeiramente, como quem escuta uma confissão que já esperava de algum modo:
- Posso perguntar por quê?
Chuck a encarou e demorou a responder. Não sabia o que dizer. De certa forma, sabia, mas se envergonhava de si mesmo por ter tomado aquela decisão. Quando falou, a voz saiu baixa, titubeante:
- Porque todas as vezes que tentei viver entre pessoas, alguma coisa se quebrou nelas de forma irreparável. Na primeira vez, o avião se partiu e perdi vários amigos. Na segunda, eu quase destruí uma família inteira. Na terceira… Acho que foi a pior... Eu amei a filha da mulher que eu amo sem saber quem ela era. Eu... Não resta lugar para mim no continente. A ilha, pelo menos, é honesta. Ela nunca fingiu que eu pertencia a algum lugar. Ela nunca prometeu nada além de solidão e trabalho duro para eu continuar respirando.
- Mas ela quase te matou?
- Eu pensava assim também. Mas hoje eu enxergo diferente. A ilha foi o meu lar, o meu chão. Mesmo sendo difícil, sendo uma luta diária, ela nunca me abandonou e lá, eu nunca consegui ferir ninguém.
Bettina ficou em silêncio por um tempo apenas observando. Segurou a xícara com as duas mãos, os polegares desenhando círculos lentos na porcelana. Depois falou, a voz ainda mais baixa e contida:
- Eu passei anos pensando naquele pacote entregue com tanto atraso e também no homem que o trouxe de volta depois de tanto tempo, com uma nota dizendo que ele tinha salvado sua vida. Imaginei histórias. Imaginei que você tinha encontrado algum tipo de paz, que tinha recomeçado. Parece que eu estava errada em pelo menos metade disso.
- Paz é uma palavra grande demais para o que eu consegui. - Respondeu Chuck honestamente: - Eu encontrei sobrevivência. Depois encontrei uma espécie de ordem acadêmica. Depois encontrei de novo o caos, só que desta vez disfarçado de carinho. Agora eu só quero silêncio. Um que eu já conheço.
Ela o estudou por mais alguns segundos. Depois abriu a bolsa de lona que carregava, tirou um envelope amassado pelas bordas e o deslizou sobre a mesa, em direção a ele:
- Então leve isto.
Chuck estranhou a proposta, mas não a recusou. Pegou o envelope e o abriu com cuidado. Dentro havia um desenho simples feito a lápis e carvão: asas de anjo, imperfeitas, humanas, com as penas mal acabadas e o traço um pouco trêmulo. Embaixo, uma frase curta escrita à mão com letra firme:
“O que nos salva não é o lugar para onde a gente vai. É o que a gente escolhe fazer com o que ainda resta quando chega lá.”
Chuck olhou o desenho durante um tempo longo. A chuva lá fora intensificou-se por alguns instantes e depois afrouxou. Ele dobrou o papel com extremo cuidado e o guardou no bolso interno da jaqueta, exatamente ao lado do relógio de bolso vazio. Então, a encarou:
- Por que está me dando isso?
Bettina sorriu de um jeito pequeno, cansado e sem ilusões:
- Porque alguém, uma vez, me deu asas quando eu mais precisava, mesmo sem saber que estava fazendo isso. Hoje, quem precisa delas, é você. – Disse ela, tocando de leve a mão dele: - A ilha vai te receber e devolver apenas você mesmo, Chuck. Sem plateia. Sem desculpas. Sem justificativas. Sem a possibilidade de culpar o destino por tudo. O que você vai fazer quando só restar isso?
A pergunta ficou pairando entre eles, mais pesada que o mormaço quente daquela região. Chuck não respondeu de imediato. Pensou, refletiu, tentou entender o sentido através das letras. Quando o fez, a voz saiu quase sem força:
- Eu não sei. Mas eu preciso descobrir. Sozinho. Desta vez sem inventar companhias.
Bettina assentiu devagar, como quem aceita uma resposta que não é confortável, mas é honesta:
- Então vá. Mas vá inteiro. Não como alguém que já se decidiu pelo fim. Vá como alguém que ainda está disposto a ver o que a manhã seguinte lhe trará.
Eles terminaram o café em silêncio. Quando se levantaram, a chuva havia se transformado numa garoa fina. Do lado de fora, o cheiro de mar misturava-se ao asfalto molhado e ao odor de peixe que vinha do cais próximo.
Bettina estendeu a mão. Chuck a apertou. O contato foi breve, mas sólido, como um acordo silencioso entre dois náufragos de espécies diferentes:
- Boa viagem, Charles Noland, ou Só Chuck.
- Obrigado, Bettina. Por tudo. Inclusive por isto. – Disse ele, dando dois tapinhas sobre onde a carta estava.
Ela se afastou primeiro, sumindo no movimento da pequena cidade portuária com a mesma naturalidade com que havia aparecido. Chuck ficou parado na calçada por longos minutos, olhando-a como se ela tivesse algum significado para ele, a mão ainda pressionando o lugar sobre o peito onde as asas de papel estavam guardadas. Depois, ele seguiu até o cais. Sozinho.
O barco partiu no final da tarde. Chuck permaneceu no convés descoberto a maior parte do tempo, deixando o vento e o spray do mar baterem no rosto. O sol descia em um vermelho profundo sobre a linha do horizonte. O motor roncava baixo e constante. Ao redor, apenas oceano em todas as direções.
Ele tirou o desenho do bolso e olhou novamente sob a luz que diminuía. As asas imperfeitas. A frase simples e cortante. Depois tirou uma foto do relógio de bolso e a colocou ao lado do papel na mão aberta. Dois objetos. Duas lembranças. Duas versões de si mesmo: o homem que precisou de uma lembrança para sobreviver e o homem que agora carregava apenas um desenho feito por uma estranha que um dia, sem saber, também o havia salvo:
- Que bom que gostou do meu desenho. Embora tenha ficado horrível... Mas, em minha defesa, eu nunca fui boa com desenhos.
Chuck se surpreendeu e se levantou de repente, fazendo com que a foto e o desenho caíssem no chão. Ele se abaixou para resgatá-las, ao mesmo tempo em que Bettina fazia o mesmo. Então, ele a encarou:
- O que você está fazendo aqui?
- Só vivendo mais uma aventura. Eu iria de avião, mas um passeio de barco é sempre mais emocionante. – Disse ela, entregando o desenho para Chuck: - E quem sabe eu consiga convencer um certo alguém a mudar de rota.
Chuck se levantou, dobrou os dois pedaços de papel e os guardou no bolso:
- Minha aventura tem destino, Bettina. Chegarei lá em alguns dias.
- Entããão... tá! Vou com você.
- Como é que é!?
- É, ué!? Se você vê algum sentido em ficar isolado em uma ilha inóspita, correndo riscos, é porque deve ser interessante. Vou te acompanhar.
- Acho que você não entendeu direito para onde eu estou indo...
- Acho que “você”... – Bettina frisou a palavra e encostou o indicador no peito dele: - ... não entendeu que eu sou insistente e teimosa.
- Mas eu não quero que você venha comigo.
- Você é o dono da ilha?
- Não. Sim. Bem... Acho que... não sei.
- Então, se ela não é sua, eu posso ir. Ou podemos mudar o seu itinerário e seguimos para... – Ela tirou uma mapa da bolsa, desdobrou e olhou cuidadosamente: - Tahiti!
- Mas eu... eu...
- Chuck, ouça a minha proposta. – Ela o interrompeu, colocando o mapa em suas mãos, indicando com o dedo: - Me dê alguns dias de sua companhia. Se não valer a pena, se eu não conseguir te convencer que só o fato de viver já é uma dádiva, você continua sua viagem.
- Não serei uma boa companhia.
- Ou talvez você seja, e só precise reaprender. Confie em mim. Veja isso como um passeio com uma amiga que acabou de se curar de um câncer. Eu estou comemorando a vida. Quero que você faça o mesmo comigo.
Chuck ficou em silêncio por um instante, olhando o mapa, sem focar em nada em específico:
- Você se curou de um câncer?
- Foi. Agora, eu só quero passear, viver, comemorar a vida. Não importa onde, nem com quem.
- Mas você tem um bom motivo?
Ele pegou o mapa das mãos dele. Dobrou e o guardou na bolsa. Então segurou nas mãos dele e as trouxe para próximo de seu peito, fazendo com que ele a encarasse sem ter como desviar o olhar:
- E você também! O seu motivo será vir comigo, e viver. Não estou te prometendo ser a solução de todos os seus problemas. Mas serei uma boa companhia. Isso eu te garanto!
Aquela improvável conversa seguiu noite adentro. As estrelas apareceram com uma clareza que Chuck só lembrava dos anos na ilha. Chuck apoiou os cotovelos no parapeito molhado e deixou o vento bater livremente no rosto cuja barba já começava a ficar aparente. Bettina havia ido até o refeitório buscar algo para comerem, dizendo que o obrigaria a se alimentar nem que tivesse que lhe enfiar a coxa de peru pela bunda. Foi a primeira vez que Chuck riu de verdade, há tempos.
Aliás, pela primeira vez em muitos anos, a pergunta que habitava o peito dele não era “por que eu sobrevivi?”. Era outra, mais quieta, mais perigosa e, de certo modo, mais adulta: “O que eu vou fazer com o fato de que ainda estou vivo?”
A ilha se aproximava na escuridão, ainda invisível, mas já presente em cada cheiro de sal e em cada balanço do casco do navio. Ele não sabia se encontraria ali o fim ou algum tipo de começo sem honra. Sabia apenas que estava a caminho. Ainda. E que, desta vez, não levava a mesma força que o fez retornar antes.
Olhou novamente para as asas desenhadas à mão por uma mulher que um dia recebera um pacote atrasado demais e mesmo assim o transformara em esperança. E num impulso, jogou no mar a foto do relógio de bolso.
E o silêncio enorme, antigo e limpo do oceano o engoliu.
Embora a certeza dele agora tivesse se transformado numa dúvida, Bettina parecia ter uma resposta que ele ainda não compreendia. Quando ela retornou com dois potes de comida, ele já tinha uma decisão tomada:
- Não vou usar sunga. Fico horrível com essas perninhas finas.
Bettina sorriu ao ouvir a brincadeira. Mais do que isso, seus olhos se marejaram rapidamente ao notar que ela o havia convencido a não desistir. Entregou-lhe um dos potes e disse:
- Use um short, bermuda, cueca. Vá pelado! Eu adoraria te ver balançando o pingolim em Tonga.
Chuck riu novamente enquanto abria o pote. Comeram. Beberam. Conversaram. Riram de coisas bobas, descompromissadas, leves, ao léu. Talvez fosse isso que ele precisava: viver uma vida sem ter que se preocupar com o amanhã. E Bettina parecia ser boa nisso.
Quando a primeira luz do amanhecer começou a clarear a linha distante do horizonte, Chuck e Bettina ainda estavam no convés. Ela dormia com a cabeça em seu colo. O corpo dele estava cansado, mas o coração, antes vazio de ilusões, agora estava estranhamente mais leve do que em qualquer outro momento das últimas décadas.
A ilha estava à frente.
Mas já não era o seu destino.
E pela primeira vez desde que o avião se partira sobre o Pacífico, ele não sentia medo do que encontraria quando o barco finalmente se aproximasse da costa.
Sentia apenas o vento.
O cheiro do mormaço ao seu redor.
E o espaço aberto, terrível e possível, de uma vida que, contra todas as probabilidades e contra todas as suas próprias tentativas de encerrá-la, ainda não havia terminado.
O sol nasceu e com ele o sorriso nos lábios de Bettina:
- Babei na sua calça.
Chuck riu e se levantou no convés. Então se abaixou e ofereceu a mão para Bettina. Ela aceitou, sendo içada por ele. E ele olhou para a frente, buscando algo que ainda não sabia. Mas não largou a mão dela.
E, pela primeira vez em muito tempo, não olhou para trás.
[FIM]
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
