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Caderno Vermelho, Primeiro Volume - XLIV - Consequências

Um conto erótico de Escravo 43
Categoria: Sadomasoquismo
Contém 3930 palavras
Data: 11/09/2026 11:14:01

Capítulo XLIV – Consequências

Parte I

Segurava Epona pelas coxas, finalmente as sentia, enquanto ela entrelaçava suas pernas no meu tronco e agarrava o meu pescoço. Beijamo-nos longamente; nossas línguas e virilhas se roçavam, espelhando umas os movimentos das outras!

Ela cravou suas unhas no meu pescoço e me forçou a olhar em seus olhos felinos e sedentos... começava a entender o orgasmo contínuo das Predadoras.

— Lembra de quando você chegou, Cavalo? Você era um lixo, um verme... todo flácido, todo inútil! Agora não, agora você me agarra forte, agora você tem pegada, agora você é a minha arma!

Aumentou a fricção da sua buceta no meu pau... separados apenas pelo tecido da sua calcinha.

— Eu guardei você para este momento, seu puto! Eu vou lhe devorar agora que sou Epona, Senhora do Estábulo e Senhora da Floresta! É isso que você quer, não é? Então me beija, caralho!

Beijei-a e, dessa vez, foi mais intenso... aos poucos os chupões foram virando mordiscadas, e as mordiscadas, mordidas. Epona mastigava meu rosto, meu pescoço, e eu delirava!

— Me solta, seu lixo! Isso, agora vem, fica de quatro de novo... agora de duas... ai! Não era esse quadril que você não parava de olhar e acompanhar no Estábulo? Não era? Fala, vadio!

— Era, Senhora... Era, sim!

— Então pede para eu sentar na sua cara, Cavalo!

— Por favor, Senhora! Deixa eu ser seu travesseiro!

— Travesseiro, é??? Não quero travesseiro, mas deixo você ser a minha clava!

Epona socou minha cara na sua bunda, o que fez com que sua calcinha entrasse ainda mais no seu rego. Segurava minha cabeça pela nuca e enfiava cada vez mais seu quadril na minha cara! Sentia o aroma do seu sexo, o aroma do seu cu... afogava-me em meio ao tesão e ela não me deixava tirar o rosto; estava me consumindo! E era exatamente isso que eu queria...

Quando Epona soltou meu rosto, eu já estava ficando roxo. Ela se virou e começou a tirar sua calcinha...

— Não, Cavalo, você não vai morrer... não enquanto eu não extrair a última gota do seu suor, do seu sangue e do seu sêmen! Abre a boca!

Minha Senhora enfiou a calcinha completamente encharcada em minha boca e começou a esfregar sua flor no meu rosto! Ela nem olhava para a minha cara, só a pressionava como se estivesse usando um consolo gigante para se masturbar...

— O tanto que eu aguentei, Potro, ouvindo as merdas da Noga, e as merdas da Ártemis, puta que pariu! Como eu queria socar a cara da Noga, estourar o supercílio dela que nem eu fiz com você, lembra!?!

— Lemmgrou Sengrola! — Epona não estava se esfregando na minha cara: ela estava me espancando!

— E eu tendo que depender de você... Que ódio que eu sentia... Lembrando o quanto eu fui complacente com você, o quanto eu podia ter trabalhado mais, ter feito você melhor! Menos covarde, mais confiante... Eu não sou mulher de usar espada enferrujada, sem fio ou com quebras! EU SOU A SENHORA DO ESTÁBULO E DA FLORESTA!

Atingia outro orgasmo... Recuou e falou:

— Cospe a calcinha! Cospe agora! Vou resolver isso já, seu lixo... De quatro! Vira a bunda! Isso, abre ela!

Estava tão duro e com tamanha privação de ar que não pensei direito; quando eu vi, já era tarde...

— Mas a calcinha ia entrar fácil nesse cuzão que eu arrombei! Ainda mais molhada...

Epona tirou seu sutiã, e as presilhas de metal arranhando foram especialmente dolorosas!

— ...é isso, você é minha arma, Cavalo! Vai guardar minhas roupas no cu! Agora deita no chão, hijo de puta!

Epona começou a se agachar, seu gozo escorria e acertava meu rosto, como queria provar o que até então me foi negado... e, claro, minha Senhora sabia disso... Começou a brincar... toda hora que parecia que sentaria na minha cara, ela levantava e, em cada levantada, eu sentia meu corpo inteiro tremer... não aguentei, na quarta vez que ela fez que vinha, eu projetei o pescoço e fui ao encontro... e então uma dor terrível tomou conta de mim...

— Dessa vez eu só apertei seu saco; na próxima eu vou arrancar! Você é arma, você não é gente!

Minha Senhora não deu tempo para eu me recuperar e sentou-se com tudo no meu rosto... Antes que eu conseguisse colocar a língua para fora, ela já usava meu rosto todo para sentir prazer... Quando consegui prová-la, senti seu doce gosto com um fundinho azedo... ela começou a gemer... Era a primeira vez que gemia...

Cometi o segundo erro ao gemer também... Ela se levantou abruptamente e então sentou-se com tudo em cima da minha barriga — diminuindo, no impacto, o meu ar — e, com suas mãos em volta do meu pescoço, estrangulando-me, disse:

— Não quero você falando! Não quero você gemendo! Você é Cavalo, você não é putinha, você não é machinho! Você só fala quando eu falar! Só geme quando eu permitir!

Soltou-me; agora meu pescoço tinha as marcas das suas mordidas e das suas mãos... Ainda sentada sobre mim, aproximou seu corpo do meu e voltou a me beijar! Não queria sentir meu gosto, queria sentir o seu próprio gosto! Sem que eu pudesse antecipar, talvez sem que ela mesma pudesse prever, estávamos tão molhados e melados que sua buceta engoliu meu pau todo de uma só vez!

Epona gemia pela segunda vez... felizmente gostava da sensação. Vigorosamente, começou a mover-se sobre mim como se estivesse cavalgando, mas cavalgando rápido, sem complacência com o animal... pronta para estalar o chicote em suas costas... Eu, contudo, pobre animal, estava no céu; sem entender o que me esperava, depois de tanto tempo trancado em minha cocheira, finalmente era escolhido para o passeio! Ela percebeu que eu estava prestes a chegar ao limite, e então:

— Conta para mim, Cavalo! Conta como o meu Hex, o meu cãozinho, predou depois de tanto tempo? Ele saltou de uma vez só no pescoço? Ou atacou o calcanhar, como quando predava com os irmãos, em matilha?

Não sei como minha Senhora conseguia sempre invadir a minha mente... mas pensar nisso era desagradável demais... não sabia o que dizer, mas não queria que ela perdesse seu desejo, não queria que ela parasse de rebolar, então inventei:

— Você tinha me dito que eu não podia ser visto...

— Aham... aham!

— ...o Rex tava meio perdido, e aí eu vi, à distância, um Porquinho... ele estava voltando para se abrigar da tormenta... Pensei que ele podia servir de guia; fui seguindo no seu encalço... até que ele percebeu algo e olhou em nossa direção...

— Aí, Cavalo, assim! Continua falando! — Epona gemia enquanto requebrava em cima de mim!

— ...eu me joguei no chão sem pensar, aproveitando as raízes altas das árvores e o mato para me camuflar... teria dado certo...

— Não para, não para! Por que... por que teria dado certo!?! — Falava enquanto trocava o apoio dos joelhos pelos pés e se arqueava para trás para poder sentar com mais vigor!

— ...mas o Rex viu o que eu via e disparou ao invés de se camuflar...

— Isso, Cavalo! Tô quase lá, fala para mim como o Hex fez, fala!!!

— ...quando o Porquinho achou que não tinha visto nada demais... o Rex pulou por trás dele, levando-o ao chão, mordendo sua nuca e sua cabeça! Ele gritou muito, mas a tempestade já caía... para acabar com seu sofrimento, eu bati na cabeça dele...

Epona chegou ao ápice mais uma vez, e eu ainda não tinha conseguido... ter que inventar essa história me consumia muito... Como eu a tinha feito gozar, acho que teve dó de mim e se abaixou para me beijar de novo... um beijo manso... quase romântico; gesticulou para trocarmos de posição...

— Vai, Cavalo, bem romântico... como faziam nossos pais, hahahaha!

Epona podia achar engraçado, mas eu achava muito sensual poder alternar a visão entre seu rosto com seus sorrisos maldosos, seus seios subindo e descendo no ritmo do encontro da minha pélvis com seu quadril, sua barriga se contraindo e se estendendo conforme respirava de maneira mais acelerada, e, ainda, meu pau saindo e entrando de dentro dela. Era visível que eu estava no céu...

— Agora me fala, Cavalo, como você e o Hex deram cabo da vida do outro Porquinho?

Ela tinha que me puxar para o inferno de novo... o que iria inventar aqui? Confessaria uma mentira? Tinha de ser; não queria sair do meio de suas pernas...

— Eu tinha entrado na cozinha para procurar o vidro... e acabei deixando a porta aberta...

— Aí, Cavalo, que delícia, deixou aberto de propósito pro Hex entrar, não foi? — ela piscou para mim; eu não respondi, era difícil pensar nisso e continuar funcionando...

— ...ouvi alguém gritando por socorro e entrei... era um Porquinho de Noga, o Hex tava atacando a perna dele e ele tentava se libertar...

— Isso, Cavalo! Não para, me conta, hein! Ele estava usando a roupa ridícula que Noga fez você usar também, não estava? Você não viu nele como você estava ridículo usando aquilo!?!

Balancei a cabeça e acelerei o ritmo; eu realmente estava ridículo naquilo, e ver aquilo me fez ter mais ódio...

— ...aí eu fiz como a Senhora me ensinou, em seu nome, de novo: sacrifiquei o Porquinho golpeando sua cabeça antes que ele pudesse fazer mal para o Rex!

— Ai, carajo, Cavalo! Que delícia, isso, acelera, vai, desconta sua raiva! Você não bateu só uma vez, né? Bateu mais e mais até a cabeça dele virar um purê, não foi?

— Foi, Senhora, eu bati naquele verme, filho da puta, até não sobrar mais nada, só parei porque o pedaço de pau que eu peguei estava podre na base!

Encaixei em sua cintura e metia o mais rápido e forte que conseguia... eu respirava pela boca; Epona não parava de gemer!

— Isso, seu vadio, goza! Pode gozar! Você merece espalhar seu sêmen em mim como espalhou os miolos daquele lixo na cozinha! Fiquei sabendo do estrago; Noga deve ter matado mais uns de raiva de tanto que aquilo deve ter demorado para limpar!

Foi fatal. Tive que aprender que, para gozar, precisava mentir; é como eu já disse, o prazer da presa só acontece em segredo ou com permissão... Quando Epona sentiu que eu a inundava, ela passou a esfregar seus pezinhos no meu rosto e eu passei a chupar seus dedos, estendendo assim nossos orgasmos ao limite... bom, ao meu limite... caí sobre ela com suas peças íntimas enfiadas no cu... Epona ria... eu pensei em chorar, mas ri também...

Parte II

Alguns dias se passaram... uma grande cerimônia seria realizada em meu nome, no último dia do outono, quando seria decidido meu destino no Templo de Ártemis. Fui cuidadosamente preparado por Epona, tanto para o que deveria fazer como para a maneira que deveria me portar, e principalmente para aquilo que não poderia, de modo algum, fazer... não poderia errar e, muito menos, hesitar.

Fui acordado cedo, e Epona me levou para o Estábulo pela última vez. Lá treinamos pela manhã; errei os disparos por diversas vezes, provocando ora o riso, ora a fúria em minha Senhora. Depois ela me deu banho, me depilou, cuidou dos meus cascos e da minha crina. Passou uma espécie de óleo ou gordura que me fez ficar reluzente, algo semelhante ao que se usa nas apresentações de fisiculturistas... Estava longe de ser um, mas também já não era aquele homem meio franzino e meio gordinho que chegara ao Templo...

Epona se despediu e foi se arrumar; a cerimônia começaria ao pôr do sol. Comigo, preso às minhas costas com fitas, estava o arco de Ártemis; na minha boca, uma flecha. Usava também meu cinto e minha coleira; seriam os últimos momentos em que usaria os apetrechos de Epona. Ouvia a movimentação do lado de fora, muita agitação; não sabia quantas pessoas participariam. Então, os guardas abriram o Estábulo de maneira total, não apenas a porta metálica que tipicamente se usava. Clara, trotando, veio até mim; como eu poderia ser promovido a Cavalo de Ártemis, era sua mais recente Égua quem deveria me buscar.

Sua crina estava reluzente e seu corpo brilhava como o meu. Veio a mim para me salvar pela segunda vez; dessa vez sorria mais, e uma tiara impedia que sua crina caísse sobre seu rosto... Como me foi ensinado, quando ela se aproximou, abaixei o rosto dando a testa para ela, e ela a beijou. Saímos trotando, os dois, de dentro do Estábulo, ela à frente mostrando o caminho e eu atrás. Eu era guiado através do átrio, mas este estava completamente diferente. Temas do fim do outono estavam espalhados por todo lugar. No centro do átrio, as árvores faziam um tapete de folhas douradas; elas próprias estavam cobertas de papéis dourados, marrons, laranjas e vermelhos. Ao longo dos corredores estavam muitas pessoas: Guardas, Cavalos, Éguas, alguns cientistas subordinados de Epona, alguns convidados de gala... No centro do átrio, havia três cadeiras. Uma eu conhecia bem: era a antiga cadeira com a qual Epona tinha tentado me ensinar a Doma rebelde; ao seu lado, havia uma cadeira dourada, igualmente antiga, mas maior e visivelmente mais trabalhada — era a cadeira de Ártemis; por fim, havia uma cadeira de madeira muito simplória e bastante crua, um artesanato deslocado — era a cadeira de Noga. Como fui instruído, sob aplausos, parei quando estava a três metros da cadeira de Ártemis, em frente a ela. Clara trotou até ficar ao lado da cadeira de Ártemis.

Olhei então para tudo, para todos os rostos, para todo o átrio preparado para a minha solenidade, e fiquei imensamente feliz em não ver quase nenhum rosto conhecido na plateia. Ninguém veio me ver por dó; todos estavam ali em uma formalidade solene. Era o dia em que se presenciaria a entrada de um novo integrante no Templo.

E então entrou Epona. Recebida por uma salva de palmas, ela vestia um vestido feito às pressas para a cerimônia. Tinha que incorporar, aos seus motivos de Senhora do Estábulo, os motivos de Senhora da Floresta. O vestido era longo, e uma Égua e um Cavalo seguravam as pontas dele para que não tocasse o chão. Como parte do ritual, antes de ir ocupar sua cadeira, ela passou por mim e fez uma carícia em minha crina. Então foi se sentar.

Logo após, veio Ártemis, usando um vestido dourado, e foi recebida com ainda mais euforia! No entanto, eu ainda não podia olhá-la; sabia a cor do seu vestido apenas pela barra que se espalhava pelo chão e que Clara, sozinha, tentava cuidar para que não se sujasse... em breve, se tudo desse certo, viria alguém em seu auxílio, Clarinha!

Quando Ártemis se sentou, começou a tocar uma música... Fora do meu campo de visão, havia uma orquestra que executava a Cavalgada das Valquírias, de Wagner — foi a primeira vez que ouvia o que era praticamente o hino do Templo de Ártemis. Após a abertura musical, o som foi diminuído e Epona se levantou, saudando a todos.

— Foi-me incumbida a tarefa de preparar um Cavalo para Ártemis... sim, para Ártemis — riu performaticamente, levando a plateia a rir também —, pois, depois de todos esses anos preparando Cavalos, nossa Deusa achou que eu estaria apta a preparar seu próximo Cavalo. Não fugiria da difícil tarefa; perguntei apenas se poderia escolher o material-base, e ela me negou, dizendo que me traria um Potro... Estava armada a tragédia: não só teria que preparar um Cavalo, como teria que lidar com um Potro cuja origem e história eu desconhecia. Vocês riem... mas não ririam se estivessem em minha pele! Quando me foi entregue o Potro, todos os meus temores pareceram se confirmar; ele estava terrivelmente ferido, marcado pela Sociedade da Humanidade. Seria um trabalho hercúleo prepará-lo, e vocês conhecem Ártemis: ela não queria esperar até o período comum de entrada, a primavera...

Sei que não deveria, não era hora disso, mas não conseguia parar de chorar e agradecer mentalmente a Epona por tudo o que ela havia feito... Tentava disfarçar como podia, em alguma medida, pois, a esse ponto, não podia olhar para ninguém, apenas para o chão.

— ...poupo vocês, para a alegria de todos, dos terríveis detalhes pelos quais eu e o Potro passamos nesses meses em que ele esteve entregue aos meus cuidados. O que quero trazer é a lição que aprendi nesse processo: não devemos duvidar daquilo que não compreendemos simplesmente porque não compreendemos. Ártemis, em sua sabedoria, não me deu uma tarefa para a qual eu estava preparada; ela me deu uma tarefa para a qual eu teria que me preparar, eu teria que ser melhor do que jamais fora. Mais audaciosa... Sim, mais uma vez tive a chance de olhar para outra Gigante da história e aprender que tinha que parar de olhar para baixo e voltar meus olhos para cima. O sol só queima os frágeis, limpando os céus para as figuras solenes que elevam nossa espécie!

Os aplausos vieram e Epona teve de interromper sua fala... Não precisava vê-la para saber que tinha ficado brava; consegui sorrir e conter um pouco a minha emoção.

— Em síntese, voto do único jeito que eu poderia votar: o Potro merece virar Cavalo! Não envergonharia Ártemis e todos vocês se não fosse para apresentar uma vitória absoluta!

As palmas retornaram, e Epona aproveitou para se sentar.

Ártemis, sem se levantar, começou a falar:

— Como sabem, Noga está, a partir de hoje, destituída de suas funções até o final do inverno. Em consequência disso, seu voto será dispensado.

Fez uma pausa para demarcar a separação entre uma fala administrativa e seu discurso.

— Quando vivia na Sociedade da Humanidade, antes de tomar a direção dessa instituição e rebatizá-la para marcar minha conquista, sentia que solenidades como essa eram um grande estorvo. Também estava intoxicada pelas mentiras de que existiriam sujeitos antes de existirem Potências e Funções. Meu Templo vem para demolir as mentiras úteis da era da humanidade: existem apenas Potências e Funções. Predadores como eu, Epona e Noga temos Vontade, determinamos valores e distribuímos funções; presas como vocês participam do Templo em suas funções. Nada mais, nada menos. A pequenez das presas não é escondida aqui, mas esclarecida, e, com isso, as presas conseguem ocupar funções que dão carne aos nossos valores e elevam nossas Vontades! É com pesar que reconheço que o instinto de rebanho ainda queira se iludir e que entre vocês existam aqueles que sentem que estão acima da função que ocupam. Porém, alegra-me saber que Epona conseguiu treinar o Potro que será, se aceito, entregue a mim como meu mais novo Cavalo!

Não precisava ouvir nem entender completamente para saber que não haveria palmas... Todos estavam completamente magnetizados pelas palavras de Ártemis. Um espírito de solenidade envolvia-nos e dava sentido à nossa existência. Nosso mais profundo silêncio era a coisa mais digna que tínhamos a oferecer diante de tamanha sabedoria — uma sabedoria íntima...

— Sei de todos os passos do treinamento, dos erros, dos acertos e, principalmente, sei que minha atitude de trazer um Potro de maneira não regular preocupou a todos... Mas a regularidade é também um veneno que precisa ser combatido para que meu Templo não se transforme naquele abismo de onde vocês saíram! Sei também que há um ruído circundando essa cerimônia. Ouvi dizer que Epona tramou um jogo político para conseguir que o Potro fosse aprovado como Cavalo. Devo dizer que o Templo não é lugar para fofoca, principalmente entre as presas; qualquer uma de vocês pode vir, a qualquer tempo, à frente de qualquer uma das Senhoras do Templo e dizer as “verdades” que pensem existir... Basta que aceitem as consequências de defender suas ideias! Dói-me, portanto, ter que vir aqui e expor aquilo que é óbvio: por mais que saiba que Epona levou meu pedido de treinar o Potro com extremo rigor a sério, também sei que o que se sucedeu está muito além disso. Deveríamos, portanto, ver nas ações de Epona traição, corrupção, maldade? Só porque ela aparentemente não cumpriu o suposto espírito das nossas normas? Só porque ela procurou brechas nas nossas leis? O Templo não é uma sociedade! O Templo é uma associação de Vontades; as leis não são grilhões, mas mecanismos. Lá fora valeria tudo o que eu disse e que eu desprezo! Aqui não, aqui valorizamos tudo o que Epona fez e chamamos pelo que é: Liberdade, Criatividade e Vontade! Epona provou-se Gaia e, mais que isso, provou que Gaia pode, sim, esmagar Cronos. A passagem do Potro para Cavalo é apenas uma das conquistas que Epona conseguiu; que sirva de lição para Noga não se apequenar e se acomodar à soberba insidiosa das tradições! Por tudo isso, voto em favor de o Potro se tornar Cavalo, meu Cavalo!

Era o meu momento: bastava trotar até Ártemis sem olhá-la; ela retiraria o arco de minhas costas e me mandaria ficar de pé. Eu me levantaria, ainda olhando para baixo; ela me entregaria o arco e, então, era só atirar a flecha que carregava na boca no alvo... Fiz tudo passo a passo, esforçando-me muito para não errar. Quando, no entanto, estava aos pés de Ártemis, nossa Deusa quebrou o protocolo:

— Como não estamos na Primavera, eu não poderia pleitear um aumento dos meus Escravos. Para pegar um novo, este teria que abater o mais antigo. Contudo, como vocês sabem, eu tenho vagas suficientes, razão pela qual tínhamos decidido que o disparo contra um alvo seria apenas uma figuração simbólica. No entanto, novas informações chegaram aos meus ouvidos e, por mais de uma vez, ouvi dos Cavalos e das Éguas do meu Templo que alguns Guardas sentem repulsa e nojo do que vivenciam aqui. Enquanto tinha dúvidas se a repulsa era orientada aos Cavalos e às Éguas — o que é justo e esperado, já que são o elo mais frágil de nosso Templo —, permaneci em silêncio. Mas a vinda do Potro me abriu os olhos, e pude ver que alguns Guardas acham que as escolhas das Senhoras são inadequadas à sua moralidade... veem-nos como fetichistas simplistas, quando, na verdade, somos seres Totais que vivem todas as suas Potências conjuntamente. Sendo assim, peguei um dos Guardas para substituir o alvo simbólico. Tragam-no imediatamente!

Não preciso dizer que comecei a tremer de medo e, mesmo sem poder olhar para Epona, sabia que ela também estava... Se eu falhasse, seria a morte para mim e, pior, uma grande vergonha para minha Senhora, justamente nesse momento em que ela estava em ascensão. Era a última coisa que faria por ela; eu não poderia falhar... mas ouvir o guarda amordaçado, tentando gritar por sua vida, despertou o que ainda havia de homem dentro de mim... Quando Ártemis pediu para me preparar, fui o mais lento possível... temendo o que tinha que fazer... mas era inevitável; quer eu atirasse ou não, teria que olhar para o alvo...

Sorrira!

Era o guarda que Epona colocou para me buscar no Estábulo, aquele que, de cara limpa, pensava-se superior ao meu corpo cheio de cicatrizes! O Templo de Ártemis me agraciava com mais uma chance de vingança!

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"(O Primeiro Volume se encerra aqui. Existem algumas páginas soltas, alguns relatos contraditórios com os fatos que vim a saber depois e, principalmente, algumas publicações clandestinas e parciais... Como Curador, não me cabe dizer o que você, leitor, deve ou não fazer com esse registro. Use-o como quiser; inclusive, sinta-se livre para mentir, para participar do rebanho e execrar o texto, apenas não se deixe convencer de que é outra coisa que não uma presa... Por fim, para as presas cativas, aquelas que entrariam sem problemas no Templo caso recebessem a oferta, fica registrado meu compromisso: já estou preparando o Segundo Volume.)"

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Foto de perfil de BM carmesimBM carmesimContos: 42Seguidores: 2Seguindo: 2Mensagem Um texto que não arrisca o autor não vale a pena. Se quiser ver outros riscos: https://www.recantodasletras.com.br/contosinsolitos/8725941

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