Ao final, a médica identificou os tubos, rubricou rapidamente e os guardou em um suporte identificado dentro de uma caixa, lacrando todo o sistema:
- As amostras estão adequadas. Vocês receberão um e-mail e uma mensagem quando o resultado estiver disponível. Não se preocupem com o sigilo do que estamos fazendo, é mais comum do que imaginam. Se já tiverem uma rede de apoio, não hesitem em acioná-la.
Os três saíram da sala em silêncio. No corredor claro da clínica, o som dos passos ecoava alto demais. Do lado de fora, o sol havia vencido as nuvens e batia forte sobre o asfalto.
Kelly e Jerry caminharam juntos até o carro. Chuck fez o mesmo, as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Antes que eles entrassem em seu carro, falou:
- Sinto muito. Por tudo...
Foi só.
Nenhum deles se despediu em voz alta. Nenhum deles tentou fazer uma cena. Não era necessário. O que precisava ser dito agora só o sangue poderia dizer.
[CONTINUANDO]
O e-mail avisando que o resultado do exame de DNA estava pronto chegou numa terça-feira, às 14:17.
Kelly estava em pé, de frente para a pia, secando uma xícara quando ouviu o aviso do celular, com o som curto e neutro de sempre. Ela viu o nome da clínica de genética na tela e sentiu o chão ceder alguns centímetros. A respiração parou no meio do peito. Secou as mãos no pano de prato, pegou o aparelho e leu o e-mail. Ligou de imediato para Jerry. Não que fosse necessário, pois noutra parte da cidade, ele também recebera o mesmo e-mail. Por fim, noutro canto da cidade, Chuck também recebera um e-mail idêntico. E foi dele a iniciativa de ligar:
- Jerry, sou eu. Você recebeu um e-mail hoje?
- Da clínica... Sim, Chuck. Recebi.
- Estou ansioso. Será que podemos ir lá ainda hoje.
- Não posso. Tenho dois atendimentos de urgência. Mas podemos ir lá amanhã de manhã. O que acha?
Chuck não queria aceitar, mas sabia que precisava se conter. Um dia a mais não o mataria.
Quando Jerry chegou em sua casa com Katie naquele final de tarde, Kelly veio correndo recebe-los:
- Recebi um e-mail da clínica. – Disse ela.
- Eu também. E o Chuck também. Ele me ligou. Marcamos de ir lá amanhã de manhã. Tudo bem para você?
- Sim. Estou nervosa. Mas eu tenho certeza de que o bebê é seu, amor. Eu sinto isso.
- Amanhã confirmaremos.
A noite passou lentamente para todos. Pouco dormiram. Apenas cochilos e sonhos que os despertavam de meia em meia hora.
No dia seguinte, às 9:00, lá estavam os três entrando na clínica. Uma atendente os recebeu e os encaminhou até uma sala reservada. Pouco depois, uma médica entrou com três envelopes nas mãos:
- Bom dia. Sou a doutora Claire Swartz. Estou aqui para elucidar eventuais dúvidas.
Todos acenaram instintivamente, mas a atenção deles já estava presa aos envelopes. A médica entendeu de imediato e repassou os envelopes, um para cada um. Após segundos de hesitação, eles os abriram. Começaram a ler do início para o fim, palavras difíceis, jargões médicos, explicações que mais geravam dúvida do que certeza. Enfim, chegaram a parte final e ali uma certeza ficou clara como a luz do dia, sem espaço para interpretação:
**Probabilidade de paternidade em relação ao indivíduo 1 - Gerald Lovett: 99,998%**
**Probabilidade de paternidade em relação ao indivíduo 2 - Charles Noland: 0%**
O silêncio que se instalou foi tão completo que uma mosca poderia ser ouvida voando. As feições de Chuck se fecharam de imediato:
- Eu não estou entendendo muito bem...
A médica se virou para ele e pegou o exame. Leu rapidamente o trecho final e perguntou:
- O senhor é quem?
- Noland. Charles Noland...
- Bem, senhor Noland. O filho, ou filha, não é seu.
Jerry levantou-se e se virou para uma janela. Queria rir, comemorar, mas sabia que o momento não era propício. Ainda assim mantinha o resultado do exame em mãos e o olhava como se não acreditasse ainda. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas nenhuma caiu. Ele apenas assentiu várias vezes, repetidamente, como se o corpo precisasse confirmar a informação através do movimento.
Kelly sentada leu o resultado com um misto de alívio e dor. Sabia que o marido estava radiante e, com aquela confirmação, seu casamento tinha todo o necessário para ser reconstruído com êxito. Mas sabia também que Chuck agora sentia uma dor tão avassaladora que temia pelas consequências futuras. Antes que pudesse dizer algo, ouviu a sua voz:
- Mas não há chance do resultado estar errado? Eu... Ela... O bebê pode ser meu, não pode?
- Lamento, senhor. Mas esse resultado é lavrado apenas após a realização de uma contraprova com outra equipe da clínica. E os resultados foram os mesmos, sem nenhuma dúvida ou intercorrência que justificasse nova coleta.
Chuck olhou para Kelly e depois para Jerry. Não sabia o que fazer. Não sabia o que dizer. Apenas ficou. Releu o resultado, como se fosse possível, por alguma mágica, que as palavras mudassem numa segunda leitura.
Não mudaram.
Ele respirou profundamente consternado. Levantou-se calmamente da mesa e agradeceu a explicação da médica. Então, se despediu de Jerry e Kelly, dirigindo-se para a porta:
- Espera, Chuck. Eu... A gente... Jerry, a gente não devia falar algo?
- Falar o quê, Kelly?
- Não sei! Alguma palavra de consolo... Sei lá...
- Ninguém precisa dizer nada, Kelly. Eu já entendi. Eu só preciso... sair... respirar...
E saiu.
E caminhou... Por minutos... Perdido...
Sentou-se no banco de uma praça e releu o resultado uma vez mais:
**Probabilidade de paternidade em relação ao indivíduo 2 - Charles Noland: 0%**
Suas mãos tremiam enquanto ele relia a confirmação matemática de algo que ele já temia, mas que ainda não havia sido dito em voz alta pelo mundo.
Largou o resultado sobre o banco com total desleixo. Esticou as pernas e colocou as mãos sobre os olhos, tentando apagar aquela imagem de sua mente. Esperava que ela morresse aos poucos. Foi em vão. Queria gritar, mas não gritou. Queria discutir com alguém, não discutiu. Queria brigar, não brigou. A dor era grande demais para caber em gestos largos. Era uma dor de afogamento lento, daquelas que enchem o peito e impedem o ar de circular direito.
E o tempo passou.
Minutos.
Horas.
Quando anoiteceu, ele se levantou e voltou caminhando para onde havia deixado seu carro.
Parou no primeiro pub que encontrou aberto, um de renome pouco indicado, perto do porto. Queria afogar as lembranças de qualquer forma. E bebeu. O ambiente era horrível demais de se estar. Então, procurou outro bar. Entrou e bebeu novamente. Ali aceitou o convite de uma mulher que sorria demais, perguntava de menos e cobrava um preço mediano. Foi com ela para o primeiro motel que encontrou. O corpo respondeu por memória muscular, sem desejo, nem presença. Quando terminou, pagou em dinheiro, vestiu-se em silêncio e saiu antes que ela pudesse perguntar seu nome.
No dia seguinte repetiu o padrão. E no outro. E no outro.
Recusou todos os contatos de Kelly.
Recusou também os de Jerry.
Nem mesmo ao doutor Reeves retornou as chamadas.
O álcool virou uma presença constante. Depois vieram comprimidos vendidos em banheiros de postos de gasolina, comprimidos que embaralhavam as horas e tornavam o silêncio do apartamento menos afiado. Tudo servia para o mesmo propósito: tornar a expressão “0%” um pouco mais distante da consciência.
Wilson permanecia na cadeira perto da janela, o rosto pintado desbotado virado para a sala. Chuck evitava olhar para a bola. Tinha vergonha dela. Tinha vergonha de ter precisado dela. Tinha vergonha de ainda querer falar com ela.
Numa madrugada de sexta-feira a solidão ficou maior do que ele podia carregar. Escreveu algumas linhas num pedaço de papel, deixou-o sobre a mesa ao lado do relógio de bolso que havia socorrido da sacolinha lacrada e engoliu o que restava dos comprimidos com o fundo de uma garrafa de uísque. Deitou-se de lado, de frente para a parede, e fechou os olhos.
Não foi Jerry quem o encontrou. Nem o porteiro de seu prédio.
Foi o doutor Reeves que, alertado pela doutora Laura do resultado do exame, que acionou a polícia e os bombeiros temendo pelo pior. Viaturas e uma ambulância de apoio chegaram com sirenes baixas. A porta não precisou ser arrombada, pois o porteiro tinha uma chave mestra. O procedimento foi rápido e técnico. Quando Chuck voltou a ter algum nível de consciência, estava em um quarto branco, com a janela protegida e uma pulseira de plástico em torno do pulso. Sentou-se na cama com uma lentidão farmacológica. Quase que imediatamente dois enfermeiros entraram no quarto, um ficando próximo à porta, enquanto o outro veio até próximo dele:
- Como está se sentindo, senhor Noland?
- Onde estou?
- O senhor está numa clínica de reabilitação.
- Por quê? Quem? Como?
- Fique tranquilo, senhor. Todas as suas perguntas serão respondidas em breve pelo doutor Maxwell.
- Eu queria... ir embora.
- Certamente, senhor. Mas precisamos que o doutor lhe dê alta antes, ok?
- E ele demora?
- De forma alguma, senhor. Já foi informado de que o senhor despertou e logo virá vê-lo.
O enfermeiro mediu sua pressão. Lançou rapidamente uma luz em seus olhos. Ouviu seu coração e o orientou por fim:
- Descanse um pouco. O senhor ainda deve estar sob efeito dos remédios. O doutor virá em breve.
Se ele veio, Chuck não soube, pois dormiu minutos depois. Acordou somente no outro dia, com outro enfermeiro chamando por seu nome, convidando-o a se levantar para o breakfast.
Assim que terminava de comer uma refeição insonsa, Chuck foi abordado por um homem vestido num jaleco branco, no crachá o nome Maxwell. Ele se sentou à sua mesa com um café em mãos. Próximo deles, um enfermeiro alto e forte:
- Como está se sentindo hoje, senhor Noland?
- Pode me chamar de Chuck, doutor.
- Ok. Chuck... – Ele concordou com um aceno de cabeça: - E como está se sentindo?
- Um pouco cansado. Meio... confuso... Eu queria ir embora.
- Isso acontecerá em breve, Chuck, mas não hoje.
- Por que não?
- Você tentou se suicidar. Lembra-se disso?
Chuck se lembrava e ficou constrangido consigo mesmo. Abaixou a cabeça e apenas acenou positivamente. O médico, acostumado a casos idênticos, sabia o que se passava por dentro dele. Não a história exata, mas o drama, a sensação de desesperança, enfim, a ideia do fim de linha. Não se deixou contaminar:
- Não precisa ter vergonha ou receio de mim, Chuck. Estou aqui para ajudá-lo. Mas eu preciso entender o que te levou a fazer isso. Gostaria de compartilhar comigo sua história?
Querer, ele não queria. Mas sabia que se se recusasse, sua permanência ali poderia ser alongada, muito, indefinidamente. Respirou profundamente, olhou para o médico de olhar neutro e disse:
- É um longa história, doutor. Acho que vou tomar boa parte da sua manhã.
- Bem... Está um dia lindo. Que tal uma caminhada? Você começa a me contar e se não terminar, continuamos depois. Pode ser?
E caminharam... Por toda a manhã daquele dia. Paravam no jardim da clínica. Sentavam-se em bancos. E conversaram, muito. Chuck foi o mais honesto possível e revelou toda a verdade dolorosa que pesava em seu peito. O doutor Maxwell o ouviu pacientemente. Pontuava em certos momentos. Questionava em outros. Mas em nenhum momento, o criticou. O acolhimento era necessário naquele primeiro contato, e foi apenas isso que Chuck recebeu.
Os primeiros dias passaram meio que imersos em uma névoa química. Perguntas repetidas. Luzes acesas em horários que não respeitavam o sono. Médicos, enfermeiros, o psiquiatra de voz calma que falava em ajustes de medicação e em planos de segurança. Reeves apareceu assim que a autorização foi liberada. Encontrou Chuck sentado no jardim, olhando uma árvore à sua frente, onde pássaros alimentavam um filhote. Sentou-se ao seu lado. Não disse “eu avisei”. Não fez discursos. Apenas esteve ali, presença constante e silenciosa, enquanto Chuck flutuava entre o torpor e a vergonha.
Kelly soube no terceiro dia através da doutora Laura, contando do acontecido com a voz mais neutra que conseguiu. Ela ouviu, ficou em silêncio por um tempo muito, muito longo, e depois pediu simplesmente:
- Eu posso vê-lo?
Jerry olhou para ela durante alguns segundos não sabendo se a pergunta fora feito para si:
- Mas por que não, Laura? Eu... só queria... falar com ele. – Justificou, enxugando uma lágrima.
Um breve silêncio depois, e Kelly continuou:
- Tá. Então, quando eu puder, por favor, me avisa? Obrigada.
Jerry se sentou próximo de Kelly e ela o encarou com os olhos marejados:
- Ele... O Chuck... Ele tentou se matar.
- Mas como foi isso?
Kelly explicou o que Laura havia acabado de contar. Não sabia todos os detalhes. Mas sabia o suficiente para sofrer por aquele por quem ainda nutria fortes sentimentos, e sabia que era recíproco. Abraçou Jerry, sendo acolhida por completo. Não havia como recusá-la, não naquelas circunstâncias. Ela sofria. Jerry sabia. E sabia porque, no fundo, ele também sofria.
Os dias passaram. Foram se acumulando. Kelly e Jerry tentavam manter a rotina, além de reconstruir a relação desgastada por tudo o que passaram. A confirmação da paternidade trouxe um alento a Jerry, mudando o clima da casa para melhor. Katie foi a primeira a sentir. A felicidade só não era plena pelo sofrimento causado ao Chuck. Mas a filha não precisava participar dessas verdades.
Foi numa sexta-feira que Laura, com Kelly e Jerry em seu consultório, ligou para Reeves. Ele era presença constante na clínica em que Chuck estava, ajudando na sua estabilização com suas conversas e terapias. Ao final da ligação, Laura explicou:
- Ele já pode receber visitas externas.
- Eu queria vê-lo.
- Certo. Mas devo pedir que seja uma visita mais leve, Kelly. Ele não está ainda plenamente restabelecido.
Kelly olhou para Jerry, mas nem precisou fazer pedido algum. Ele se adiantou:
- Vai. Mas volta pra mim, pra gente...
Na segunda-feira seguinte, nublada, quase chuvosa, Kelly foi a clínica e orientada a aguardar no restaurante. Sentou-se à uma mesa e aguardou. Segundos. Minutos. Então, ouviu passos e viu Chuck se aproximar lentamente, um enfermeiro ficando de prontidão próximo a uma porta. Ele estava de pijama hospitalar cinza, mais magro, a barba por fazer, os olhos fundos e com um brilho falso. Não demonstrou surpresa ao vê-la. Apenas se sentou e desviou o olhar para grande porta que separava o restaurante do jardim.
Kelly respirou profundamente, enquanto o olhava. Então, após breves segundos, falou:
- Eu precisei vir. – Disse com a voz baixa.
- Eu imaginei que viria.
O silêncio se instalou entre os dois novamente, denso, molhado pelo som da chuva que começava a cair. Kelly respeitou o espaço que ele não havia oferecido, mas que claramente precisava:
- Eu soube que você... – Ela se calou, os olhos ficando marejados: - A gente sabia que isso podia acontecer, que o bebê poderia ser do Jerry. - Falou ela, mesmo sabendo que ele já sabia.
- Eu li o laudo, Kelly. Zero por cento de chance de ser meu. É uma frase bastante clara. E que me atormenta todos os dias.
- Eu sinto muito por você, Chuck. Eu sei que essas palavras são pequenas. Sei que não mudam o que você está sentindo. Mas eu precisava dizê-las mesmo assim.
Ele soltou uma risada curta, sem qualquer humor. Então se calou e passou a mão por um dos olhos, certamente secando uma lágrima que denunciaria sua dor interna. Ele não queria isso. Não na frente dela. Não agora:
- Quatro anos... Por quatro anos eu sobrevivi pensando no seu rosto. Cada vez que o mar estava alto demais, cada vez que a fome apertava, cada vez que eu pensava em desistir, eu imaginava você me esperando. Depois voltei e você tinha feito uma vida inteira, nova, sem mim. Eu engoli isso. Ou quase. Depois você e o Jerry abriram uma porta. Eu entrei. E você fechou. Você! E eu ainda engoli de novo. Por quê? Porque eu podia ser pai. E no final… zero! É matemático demais para ser humano.
Kelly apertou as mãos uma contra a outra até os nós dos dedos ficarem brancos. Uma lágrima desceu por sua face:
- Eu nunca quis que você morresse. Nunca. Se você tivesse conseguido… se eu tivesse recebido a notícia de que você não estava mais aqui, eu não sei se eu teria forças para continuar. Eu... carregaria isso até o último dia, como uma sentença.
- Não sou sua responsabilidade, Kelly.
- Mas você foi o grande amor da minha vida. - Disse ela, e a voz finalmente quebrou: - Antes de qualquer outra coisa, antes do Jerry, antes da Katie, antes desse bebê... Foi você, Chuck... e só você! E uma parte de mim ainda sabe disso com uma clareza que dói. Por isso eu estou aqui. Não para reabrir nada. Só para tentar impedir que a minha escolha seja a razão do seu fim.
Chuck virou o rosto na direção dela. Os olhos estavam vermelhos, mas secos:
- O que você quer de mim agora?
- Eu quero que você viva! - As lágrimas desciam sem que ela as enxugasse: - Eu quero que você encontre um motivo que não seja eu ou o bebê que eu carrego. Porque eu não quero mais ser esse motivo. Eu escolhi. E vou continuar escolhendo todo dia a vida que eu construí com o Jerry. Mas não acho justo você se entregar pela escolha que eu fiz. Não quero saber que a minha escolha te matou.
Ela puxou o ar com dificuldade, enxugou o rosto com as mãos e falou ainda mais baixo, como se a frase pudesse queimar a língua:
- Me diz o que você ainda precisa de mim. Qualquer coisa. Se for ficar em silêncio, eu fico. Se for falar do passado, eu falo. Se for… qualquer outra coisa, eu... faço. Eu não sei se consigo, mas eu pergunto mesmo assim. O que você precisa levar de mim para não desistir?
O imenso restaurante pareceu ficar pequeno demais. Chuck olhou para o enfermeiro que de longe observava tudo. E ele desviou o olhar. Até parecia ter sentido o drama que assolava aqueles dois corações.
Chuck então a observou durante um tempo que se estendeu demais. Viu a mulher que ele amara com uma intensidade que o mantivera vivo. Viu a mulher que o rejeitara com uma dura decisão. Viu a mulher que agora, movida por culpa e por um amor residual teimoso, abria as mãos vazias e perguntava o que ainda podia dar. E viu uma armadilha inconsciente com uma lucidez quase cruel. Se ele pedisse o corpo dela, se pedisse que ela ficasse mais um pouco, se pedisse uma última noite, estaria apenas empurrando a ela e a si mesmo para o abismo que surgiria alguns dias depois.
Quando finalmente falou, a voz saiu rouca, cansada e estranhamente limpa:
- Eu quero que você vá embora.
Kelly piscou, como se não tivesse compreendido:
- Chuck…
- Eu quero que você vá embora e não volte, Kelly. Eu preciso me reencontrar. E eu não consigo fazer isso se você continuar sendo a razão pela qual eu ainda respiro. Você já me deu tudo o que podia e eu te agradeço isso. De coração! Mas agora eu preciso de uma vida que não tenha o seu nome escrito. Mesmo que essa vida seja vazia no começo. Mesmo que doa. Mesmo que eu não saiba ainda como construí-la.
Ele desviou o olhar para a porta do jardim outra vez:
- Eu preciso daquilo: liberdade! Me deixa tentar. Longe de você.
Kelly chorou de um jeito forte e silencioso. Não era o choro contido das outras vezes. Era o choro de quem entende, tarde demais, que algumas formas de amor só podem sobreviver sob a forma de ausência. Liberdade. Era isso que ele precisava dela agora. E ela a daria, mesmo que doesse. Levantou-se e, com extremo cuidado, tocou o ombro dele. Ele não se afastou. Também não se moveu na direção dela:
- Eu não vou pedir que você... - Sussurrou ela.
- Não peça! Só viva a sua vida. Cuida da Katie, cuida desse bebê, cuida do babaca do Jerry. – Ele não conseguiu evitar um sorriso sarcástico nesse momento: - Eles precisam de você inteira. E eu preciso que você esteja inteira longe de mim.
Ela retirou a mão. Caminhou até a porta de saída, na direção oposta ao imenso enfermeiro. Antes de abrir, olhou uma última vez para o homem sentado à mesa:
- Adeus, Chuck.
Ele se virou para ela e a encarou uma última vez:
- Adeus, Kelly. Seja feliz.
- Você também.
A porta abriu-se e se fechou com um som suave e definitivo.
Chuck ficou olhando o espaço vazio onde ela estivera. Depois olhou para o jardim a sua frente, e chorou. Chorou sem soluços, sem barulho, apenas com o corpo sacudindo pela clareza terrível de ter sido ele, finalmente, a fechar a porta que durante tanto tempo o mantivera vivo.
As semanas seguintes foram feitas de trabalho lento, pouco glorioso e profundamente necessário. Ajuste de medicação. Sessões diárias alternadas entre o doutor Reeves e o doutor Maxwell. Grupos de autoajuda. Caminhadas monitoradas no pátio interno. Diários obrigatórios. Noites em que o sono vinha apenas com ajuda de medicamentos e manhãs em que o gosto metálico da realidade voltava antes mesmo de ele abrir os olhos. Os médicos e terapeutas não ofereciam consolo barato. Falavam de luto real, de identidade fragmentada, de construção de sentido que não dependesse de outra pessoa como eixo. Chuck resistiu no começo. Depois escutou. Depois, aos poucos, começou a entender, e falar.
Quando a alta foi autorizada, ele estava mais magro, mais calmo e portando uma determinação frágil, mas real. Voltou ao apartamento apenas o tempo necessário para resolver o que faltava. Vendeu os móveis. Doou o que restava de útil. Pediu demissão formal da FedEx. Comprou uma passagem só de ida para uma cidade de Nova Jersey.
Na última noite em Memphis, abriu a gaveta da mesa, tirou uma folha e escreveu uma despedida definitiva. Deixou sobre a mesa com um relógio de bolso, e instruções para quem deveriam ser entregues.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
