Kelly se despediu formalmente e olhou o marido que também a observava em silêncio. Ela se sentiu fraca, feia, cansada. Procurou o peito dele, e foi recebida com um abraço e uma frase derradeira:
- É melhor assim.
A porta estava aberta e Kelly ainda titubeava em atravessá-la. Tinha medo de estar caindo numa armadilha do próprio coração. Tinha medo de ir e não voltar. Mas, pela primeira vez desde o retorno de Chuck, sabia que não estaria mentindo, e pretendia honrar essa confiança. Conseguiria?
[CONTINUANDO]
O encontro aconteceu na sala de estar, exatamente no horário combinado. Katie estava na escola. A casa parecia maior e mais silenciosa do que o normal. Jerry e Kelly aguardavam sentados, lado a lado. Após minutos em que a tensão parecia ditar a regra daquela conversa, ouviram o som da campainha. Kelly olhou para Jerry, os lábios apertados, tensos:
- Acho que ele chegou.
Jerry não respondeu, nem gesticulou, nada. Apenas se levantou e foi em silêncio até a porta, abrindo-a. Chuck o cumprimentou com um meneio de cabeça contido. Jerry, por sua vez, esticou a mão. Os dois homens se cumprimentaram com um aperto de mão breve, formal demais para o que seria tratado. Kelly esperava de pé perto do sofá, as mãos entrelaçadas na frente do corpo, o rosto vermelho.
Chuck entrou e parou a alguns passos dela, não ousando se aproximar mais. Sorriu. Ela também. Jerry, que vinha logo atrás, apenas observava. O ar ficou imediatamente pesado.
Kelly foi a primeira a falar, convidando Chuck a se sentar no sofá a sua frente, indicado com um movimento de mão. A voz estava baixa, mas firme o suficiente para não tremer:
- Obrigada por vir, Chuck. Eu… A gente precisava conversar um assunto delicado, os três, juntos.
Chuck apenas anuiu com um discreto movimento de cabeça, encarando-a atento, sem saber o que esperar:
- Jerry teve uma ideia. Ele... me fez uma proposta. E eu acho justo que você ouça também. Afinal, ela te envolve.
- A mim!?
- Sim.
Jerry, que em pé estava, em pé permaneceu, posicionando-se perto da lareira apagada, com os braços cruzados. Chuck observava em silêncio do sofá, a postura rígida. Kelly ficou no sofá em frente a Chuck, perto o suficiente para ser ouvida e sentida, longe o necessário para não causar nenhum constrangimento. Era impossível isso não ser causado naquela noite, e todos logo saberiam disso.
Ela explicou tudo com cuidado, sem enfeites. Falou da espera pelo exame de DNA, da dúvida que corroía os três, da sensação que Jerry confessou de estar segurando-a à força, e da proposta: enquanto aguardavam o resultado, ela teria liberdade para se encontrar com Chuck alguns dias na semana, de forma discreta, apenas no horário escolar de Katie, e sempre com total transparência. Explicou também as poucas regras sobre o que poderia ou não acontecer entre eles.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Chuck, boquiaberto e de olhos arregalados, olhou rapidamente de Kelly para Jerry, como se procurasse a armadilha escondida atrás das palavras:
- Você está falando sério? - Perguntou, a voz rouca, desconfiada.
Jerry respondeu antes que Kelly pudesse:
- Está! Não é generosidade, Chuck. É só… exaustão. Não quero mais ficar no meio de ninguém. Se ela precisa de você para ser feliz, que seja. Eu prefiro que ela descubra o que ainda sente sem mentiras do que continuar vivendo com a dúvida de que sou só a segunda opção, ou pior, a opção mais segura e menos emocionante.
- Jerry, por favor! – Resmungou Kelly, a face roxa: - Você não é, nem nunca foi minha segunda opção. Eu te amo.
- Eu acredito que você me ame, Kelly. Mas se eu fosse a sua primeira opção, não haveria dúvida alguma em relação ao Chuck.
Chuck, que o olhava nesse momento, passou a mão pelo rosto. Estava visivelmente desconfortável. As orelhas avermelharam:
- Isso é… loucura, gente! Eu... juro que não esperava por isso. Pensei que quisessem tratar de alguma coisa relacionada a gravidez. Mas isso!? Isso nunca me passou pela cabeça. – Ele suspirou, mordeu os lábios e encarou Kelly: - Eu preciso de alguns dias para pensar. Não posso, nem consigo responder agora.
Jerry assentiu. Kelly assentiu. E ainda respondeu:
- Tudo bem. A gente espera.
Dois dias depois, Chuck ligou. A voz ainda carregava hesitação, mas a resposta veio clara:
- Eu aceito. Apesar de achar tudo loucura, eu aceito. Mesmo com as condições que vocês colocaram, eu aceito. Só não sei onde isso vai dar…
Os primeiros encontros foram exatamente como Kelly temia e, ao mesmo tempo, como esperava: tímidos, quase inocentes. Eles se viram três vezes naquela primeira semana, sempre no apartamento de Chuck, sempre entre as nove da manhã e as duas da tarde. Conversavam sobre o passado, sobre a ilha, sobre os quatro anos de silêncio, sobre a gravidez e o medo do resultado do DNA. Sentavam-se em poltronas separadas. As mãos às vezes se tocavam por acaso ao passar um copo de água e os dois se afastavam como adolescentes pegos em flagrante. Houve um momento em que Chuck enxugou uma lágrima do rosto dela com o polegar e depois retirou a mão como se tivesse tocado em fogo. Kelly riu, nervosa, e mudou de assunto.
Quando voltava para casa, Kelly fazia questão de ligar para Jerry, contando que já havia chegado:
- Só conversamos. Sobre o passado. Sobre o bebê. Nada mais.
- E como foi?
- Normal, Jerry. Eu realmente não sei o que você poderia esperar que eu te contasse.
- É. Nem eu.
Em outras vezes, quando já estava em casa e ela voltava a tocar em algum assunto conversado, Jerry apenas ouvia, assentia, e guardava o alívio e a dor no mesmo compartimento.
Na segunda semana, algo começou a mudar. Kelly chegou dos encontros com os olhos mais vivos, a pele mais corada. À noite, no quarto, ela buscava Jerry com uma urgência que ele não via há tempos. Na terceira noite daquela semana, durante um sexo já intenso, ela se virou de quatro, olhou por cima do ombro e implorou com a voz rouca:
- Quero você aqui… atrás. Todo.
Jerry hesitou, se assombrou mesmo. Aquilo era raro entre eles. Mas a forma como ela o olhava não deixava espaço para recusa. Ele a preparou com cuidado, usou lubrificante, entrou devagar, e ela gemeu alto, enterrando o rosto no travesseiro. Foi profundo, intenso, desesperado. Não demorou muito e ela começou a tremer, perdida em sensações. Jerry veio pouco tempo depois. Quando terminaram, ainda ofegantes, Jerry traçou círculos nas costas dela e perguntou, baixo:
- O que está acontecendo com você?
Kelly demorou a responder, ainda perdida nas respirações descompassadas. Escondeu o rosto no peito dele antes de responder:
- Hormônios. Deve ser a gravidez… Você lembra como eu era na gravidez da Katie, né? Está mexendo com tudo.
Mas o silêncio que se seguiu e a forma como ela apertou os braços em volta dele deixaram uma possível verdade subentendida: os encontros com Chuck estavam despertando algo, e esse algo estava transbordando para a cama do casal. Ainda se ali ficasse, Jerry não tinha motivos para reclamar. Mas seu medo era justamente se o transbordamento se desse no apartamento de Chuck. E com isso, ele ainda não sabia como lidar.
Alguns dias depois, Kelly faria nova visita a Chuck. Jerry notou a diferença antes mesmo de sair de casa. Kelly se arrumava no banheiro enquanto ele colocava sua gravata. Notou que o sutiã dela era um transparente, de renda preta, tão ousado que ela só o usava em dias fora do habitual. A calcinha combinava, mínimo, preta, transparente. Atrás só três discretos fios a mantinham presa à cintura, pois na bunda desaparecia. O vestido que ela separara sobre a cama, era um belo florido de tons azuis, mas curto e bastante justo, marcava suas curvas com uma clareza quase declaratória de suas intenções. Jerry raramente a via se arrumar tanto em manhãs de semana:
- Vai sair? – Ele perguntou, a voz levemente trêmula.
- Vou encontrar o Chuck. Vamos almoçar juntos.
Jerry notou que o batom que ela escolhera era mais escuro que o que costumava usar. Mas pior foi seu olhar, distante, preocupado, levemente culpado. Ele sentiu o estômago pesar. A imagem se formou completa e cruel: ela estava se preparando para se entregar a Chuck. E seria naquele mesmo dia. Ele quase desistiu e só não o fez porque Katie irrompeu em sua suíte, lembrando-o de que tinha aula.
Kelly beijou a filha e por um instante a olhou de uma forma diferente. Então, murmurou um “até mais” para ela e para Jerry sem conseguir olhar nos olhos dele, e saiu.
No consultório, Jerry não conseguiu atender. Cancelou os pacientes da manhã com a secretária, alegando uma enxaqueca. Ficou sentado na cadeira olhando a parede em branco. A certeza de que, naquele momento, a mulher que ele amava estava se despindo para outro homem quebrou alguma coisa definitivamente dentro dele. E então ele decidiu: iria para casa, faria as malas e terminaria o casamento. Descobrira, enfim, que não conseguiria suportar aquela situação.
O céu, que pela manhã estava limpo, fechou de repente. A chuva começou fina e logo se transformou em temporal. Jerry dirigiu mesmo assim. Entrou metade do carro na garagem, subiu direto para o quarto e abriu o armário. Puxou a mala grande. Começou a dobrar camisas com movimentos mecânicos, o rosto fechado, a mandíbula travada. A sensação de derrota o dominava.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Kelly e Chuck estavam no apartamento dele. Havia uma tábua de frios sobre a mesa, uma garrafa de vinho pela metade e risadas ecoando de alguma lembrança compartilhada do passado. Chuck notou a mudança nela no mesmo instante em que ela tirou o casaco. O vestido, a forma como o cabelo caía solto, o olhar que demorava um segundo a mais no dele:
- Você está diferente hoje... – Murmurou o óbvio.
Kelly não negou. Eles seguiram conversando. Aliás, mais se olhavam, se analisavam, do que conversavam. O vinho ajudou a soltar o que a conversa não conseguia. Em determinado momento, Chuck não resistiu e se aproximou, tocando o rosto dela. Kelly não se afastou. Ao contrário, o encarou, esperou, desejou. E um beijo aconteceu. Começou contido e logo se aprofundou. As mãos buscaram o corpo um do outro. As respirações se misturaram.
Foram tateando as paredes na direção do quarto, despindo-se mutuamente pelo caminho, sem pressa, mas sem hesitação. Quando ficaram nus, Chuck a deitou na cama, beijou o pescoço, os seios, a barriga ainda plana, e se posicionou entre as pernas dela. A glande já deslizava úmida contra a entrada, fazendo Kelly suspirar profundamente. Entretanto, quando ele posicionou junto à entrada de sua vagina, Kelly colocou as duas mãos no peito dele e o segurou, suavemente, mas com firmeza:
- Para, Chuck. Por favor. Para.
Chuck congelou imediatamente. O olhar era de confusão, tensão, tesão:
- O que foi? Fiz algo errado?
Kelly estava ofegante, os olhos cheios, mas agora desviados do olhar dele:
- Eu não posso. Eu pensei que pudesse… pensei que quisesse... – Ela suspirou novamente: - Mas não posso. Eu te amo, Chuck. Eu sei disso. Eu sinto. Mas eu amo o Jerry também e também a vida que a gente construiu juntos. A Katie... A minha família... Eu não posso fazer isso com ele. Não é certo. Quero envelhecer com ele. Eu não consigo te dar o que você merece. Não mais. Me desculpa.
O pau de Chuck sentiu o baque antes dele próprio. Ele ficou em silêncio, um longo e constrangedor silêncio. Depois se afastou dela, sentando-se na beira da cama, o rosto baixo. Kelly começou a se vestir com as mãos trêmulas. Antes de sair, tocou o ombro dele:
- Desculpa.
Ele apenas assentiu, sem conseguir olhar para ela.
Kelly seguiu pelo corredor pegando o restante de suas roupas. Então, desceu as escadas vendo a chuva torrencial lá fora. Entrou no carro encharcada. Seguiu diretamente para casa. Mas poucos quarteirões antes de chegar, o motor engasgou e morreu. Ela tentou ligar três vezes. Nada. Abandonou o veículo, fechou a porta e continuou a pé, a água escorrendo pelo cabelo, pelo vestido colado ao corpo, pelos sapatos encharcados. Quando virou a esquina, viu o carro de Jerry estacionado meio dentro da garagem. O coração disparou, não de medo, mas sim pela decisão tomada.
Entrou pela porta da frente, deixando poças no chão. Não viu o marido de imediato. Seguiu pelo corredor escadas chamando o nome dele. Encontrou-o no quarto, de costas, dobrando uma calça dentro da mala aberta:
- Jerry…
Ele se virou. O rosto estava cansado, os olhos vermelhos. Viu o estado dela, encharcada, tremendo, a maquiagem escorrida, e a expressão endureceu ainda mais:
- O que é isso? – Ela perguntou, apontando para a mala.
- Eu não consigo... - Disse ele, a voz baixa e rouca: - Eu não consigo viver sabendo que você ainda o ama e foi lá se entregar a ele de novo. Eu pensei que conseguisse. Eu... Eu tentei. Eu abri a porra da porta, mas eu não consigo.
Kelly deu um passo à frente, a água escorrendo pelo vestido e formando uma poça a seus pés:
- Eu não me entreguei. Eu fui. Eu quase… quase fiz. Eu estava na cama com ele, pelados os dois. Ele ia… Mas eu pedi para parar. Eu não consegui. Porque no momento em que senti o calor do corpo dele, eu só consegui pensar em você, na Katie, na vida que a gente tem. E eu decidi te escolher, hoje e para sempre. – Então, ela deu uma risada jovial, genuína: - Daí, eu voltei. Meu carro enguiçou perto daqui e tive que vir andando na chuva. Mas eu voltei.
Jerry ficou parado, a calça ainda nas mãos. O silêncio foi longo. Ele olhava nos olhos úmidos dela, procurando alguma falha, alguma mentira. Mas só viu determinação e algo que ele já esquecera há tempos: determinação e escolha. Ele então empurrou a mala para o lado com um gesto brusco. E atravessou o quarto em dois passos, puxando-a para si com força, como quem agarra a única coisa que ainda faz sentido. O beijo foi molhado de chuva e lágrimas, desesperado e aliviador ao mesmo tempo. As mãos dele abriram o vestido encharcado com dificuldade, o tecido colando na pele arrepiada dela. Ela arrebentou os botões da camisa dele, desabotoando a calça com raiva. Roupas caíram no chão molhado formando um monte escuro.
Eles tropeçaram até a cama. Mas Jerry a deitou com cuidado, como se ela fosse ao mesmo tempo frágil e forte ao mesmo tempo. Beijou cada centímetro de pele fria e úmida: a testa, as pálpebras, a boca, o queixo, o pescoço, o vale entre os seios, obviamente os seios, o ventre onde o segredo ainda crescia em silêncio. Desceu até entre as coxas e a lambeu com uma fome devota, a língua traçando círculos lentos e depois rápidos, chupando o clitóris até Kelly arquear as costas e gemer o nome dele como uma prece. Quando ela estava no limite, ele subiu o corpo e entrou nela de uma vez, fundo, completo, os olhos nos olhos:
- Eu te amo. – Repetiu ela, a cada estocada: - Eu te escolho. Só você.
Kelly puxou sua boca e trançou as pernas em volta da cintura dele. Unhas passaram a arranhar suas costas, respondendo com o corpo inteiro. Eles se moveram como se tentassem fundir pele, osso e memória. Ele a virou de lado, depois de quatro, depois a colocou por cima, deixando que ela ditasse o ritmo enquanto ele beijava os seios e sugava os mamilos.
Ela se oferecia cada vez mais, o corpo reagindo, mais aberto, mais entregue. Novamente, ela se posicionou de quatro. Ele a preparou com a língua e com os dedos, e a tomou por trás com uma lentidão devocional. Logo, o peito colava às costas dela, a boca no ouvido sussurrando que ela era dele novamente, que era para sempre.
O orgasmo veio em ondas, primeiro nela, longo e tremido. Depois nele, profundo, derramado dentro dela enquanto os braços a apertavam como se pudessem impedir o mundo de existir do lado de fora. Ficaram unidos por longos minutos, a respiração aos poucos se acalmando, a chuva batendo na janela como um aplauso distante daquele momento de reconciliação tão aguardado.
Depois, ainda enlaçados, Jerry beijou seu ombro e falou contra a pele:
- Preciso manter a porta aberta ainda?
Kelly deu um sorriso para ninguém e respondeu:
- Não. Agora eu sei quem eu quero.
- Então, a partir de agora a gente fecha ela. Juntos.
Kelly assentiu, lágrimas agora se misturando ao resto da chuva que ainda escorria do cabelo:
- Juntos... - Repetiu ela, voz baixa: - Mas... o bebê?
- Vamos fazer o que a Laura orientou e não nos preocuparmos antes do tempo. O importante é que agora estamos juntos.
Kelly puxou os braços dele entre seus seios e ficou olhando para a parede. Jerry encaixou-se atrás dela e ficou sentindo o perfume de seu xampu.
Do lado de fora, a tempestade continuava.
Do lado de dentro, pela primeira vez em muitos meses, o silêncio não era ameaça. Era apenas dois corpos que tinham se reencontrado de novo. E agora se prepararam para lutar juntos.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
