CAPÍTULO 1
GUSTAVO
- Quero que você se lembre de mim.
A voz de Léo saiu baixa, quase como um segredo que não deveria ser ouvido por mais ninguém.
Ele estava diante de mim, perto o suficiente para que eu conseguisse sentir o calor do seu corpo e perceber cada detalhe daquele rosto que, durante semanas, havia ocupado espaço demais nos meus pensamentos. O sorriso de canto apareceu devagar, aquele mesmo sorriso que tantas vezes me irritava e que, contra toda lógica, havia se tornado uma das coisas que eu mais gostava de ver.
- Mesmo quando estiver com outra pessoa, você vai lembrar de mim - continuou.
Eu tentei responder, mas não encontrei nenhuma palavra.
Léo se aproximou e me beijou.
E, naquele instante, tudo pareceu desaparecer.
O barulho ao redor, as preocupações, o medo, meu pai, a faculdade, todos os motivos que eu tinha inventado para acreditar que aquilo jamais poderia acontecer. Por alguns segundos, existíamos apenas nós dois.
Eu ainda não sabia que aquele momento mudaria completamente a minha vida.
Na verdade, eu ainda não sabia de quase nada.
Porque, para entender como chegamos até ali, era preciso voltar no tempo.
Duas semanas antes, quando eu acordei às seis da manhã com a sensação de que tinha dormido apenas alguns minutos.
Fiquei alguns segundos encarando o teto do meu quarto, tentando convencer meu cérebro de que levantar da cama era realmente necessário.
Passei muito mal aquela noite, estava enjoado e com dor de cabeça, eu merecia faltar aula. O despertador continuava vibrando sobre o criado-mudo, insistente, até que finalmente estendi o braço e o desliguei.
Primeiro dia de aula.
Segundo período da faculdade.
E eu já estava cansado antes mesmo de sair de casa.
Levantei sem muita vontade e fui direto para o banheiro. O banho quente deveria me despertar, mas aconteceu exatamente o contrário. Fiquei tempo demais debaixo da água, deixando o vapor tomar conta do ambiente enquanto pensava em tudo e, ao mesmo tempo, em absolutamente nada.
Eu não estava ansioso pelo início do semestre.
A verdade era que eu estava começando a me cansar daquela vida.
Faculdade. Casa. Família. Eventos. Obrigações. Sorrisos educados. Conversas sobre o futuro.
Meu pai adorava falar sobre o meu futuro.
Segundo ele, eu ainda não tinha idade suficiente para saber o que queria da vida, mas já tinha idade suficiente para entender o que era melhor para mim. E, aparentemente, o melhor para mim era Direito.
Direito porque a família tinha negócios.
Direito porque meu sobrenome abria portas.
Direito porque um dia eu assumiria responsabilidades que nunca pedi. E talvez essa fosse a pior parte.
Eu nem sabia se queria ser advogado, só sabia que meu pai queria.
Depois do banho, voltei para o quarto ainda sentindo algumas gotas de água escorrerem pela nuca. Peguei uma toalha, sequei os cabelos de qualquer jeito e parei diante do espelho.
Talvez fosse estranho me apresentar daquele jeito, mas, se eu fosse contar essa história, acho que vocês precisavam saber quem eu era antes de conhecer o Léo.
Meu nome é Gustavo Montenegro. Tenho dezoito anos e estou no segundo período de Direito. Tenho cabelos loiros, naturalmente ondulados, que quase nunca ficam exatamente como eu quero. Quando estão maiores, algumas mechas insistem em cair sobre a testa e perto dos olhos, e eu desenvolvi o hábito de afastá-las com um movimento rápido da cabeça. Meus olhos são claros, daqueles que minha mãe vive dizendo que são a melhor parte do meu rosto, embora eu nunca tenha entendido muito bem por quê.
Sou alto, mas nada que faça as pessoas precisarem olhar para cima quando conversam comigo. Tenho um corpo normal, sem aquela definição absurda que aparece nas fotos de academia dos meus amigos. Nunca fui obcecado por músculos ou por passar horas levantando peso. Gosto de me cuidar, claro, mas não vivo para isso.
Passei a mão pelos cabelos e fiquei alguns segundos encarando meu reflexo.
Eu não era feio. Também não me considerava o garoto mais bonito da faculdade. Talvez estivesse em algum lugar confortável entre os dois extremos. Tinha aprendido a conviver com a minha aparência sem pensar demais nela.
Voltei para o quarto, peguei o celular e me joguei novamente na cama. Carla provavelmente já deveria estar acordada. Eu havia prometido que passaria para buscá-la antes de irmos para a faculdade, e conhecendo minha melhor amiga, ela provavelmente já estaria pronta há pelo menos meia hora.
Abri algumas mensagens, rolei pelas redes sociais e quase imediatamente me arrependi.
Fotos de viagens. Festas. Gente exibindo praias, restaurantes caros e vidas aparentemente perfeitas.
O meu mundo inteiro cabia naquela tela.
E, ainda assim, às vezes eu tinha a impressão de que não pertencia a ele.
Talvez fosse por causa do segredo.
Ou talvez fosse porque, apesar de todas as coisas que eu tinha, havia uma parte de mim que eu nunca conseguia colocar para fora.
Eu era gay.
E, na minha família, aquilo não era exatamente uma informação que eu pudesse compartilhar durante o café da manhã.
Meus pais não sabiam. Meu pai provavelmente jamais aceitaria. Minha mãe talvez tentasse entender, mas eu não tinha coragem de descobrir. Aos dezoito anos, eu já tinha aprendido que algumas verdades poderiam custar muito caro.
Carla sabia.
Lucas também.
E, por enquanto, eram as únicas pessoas que precisavam saber.
Conhecia Carla desde criança. Nossas famílias se conheciam, estudávamos juntos desde pequenos e, em algum momento, deixamos de ser apenas colegas para nos tornarmos inseparáveis. Ela havia sido a primeira pessoa para quem contei que gostava de meninos.
Eu esperava uma reação completamente diferente.
Em vez disso, ela chorou, me abraçou e passou os vinte minutos seguintes fazendo perguntas sobre quem era o garoto que tinha me feito descobrir aquilo.
Era a Carla.
Ela transformava qualquer momento sério em alguma coisa impossível de esquecer.
Depois dela, Lucas era provavelmente a pessoa que mais conhecia minhas partes escondidas. Nós crescemos juntos e tínhamos intimidade suficiente para conversar sobre praticamente qualquer coisa.
Os dois eram meus melhores amigos.
E eram também as duas únicas pessoas que conheciam o Gustavo que existia por trás do sobrenome Montenegro.
Escolhi uma roupa simples, ajeitei os cabelos loiros diante do espelho e fiquei alguns segundos observando meu reflexo. Eu tinha aquele tipo de cabelo que nunca parecia completamente arrumado, mesmo quando eu passava tempo demais tentando fazê-lo obedecer.
Peguei a mochila e desci.
Minha casa estava silenciosa.
Grande demais para três pessoas.
Às vezes, eu tinha a impressão de que aquela casa tinha mais quartos do que conversas.
Meus pais já estavam acordados, mas meu pai estava ocupado ao telefone e minha mãe tomava café enquanto lia alguma coisa no tablet. Dei um bom-dia rápido, sentei por alguns minutos e comi qualquer coisa antes de sair.
Do lado de fora, o motorista já me esperava.
Ser filho dos Montenegro significava que eu raramente precisava me preocupar com coisas pequenas.
O carro estava sempre esperando.
As contas estavam sempre pagas.
As portas estavam sempre abertas.
E, em troca, existiam expectativas.
Muitas expectativas.
Meu pai havia construído boa parte do patrimônio da família investindo em imóveis, e o sobrenome Montenegro estava espalhado por prédios comerciais, apartamentos e empresas pelo Rio de Janeiro. Dinheiro nunca havia sido um problema para mim.
Liberdade, às vezes, era.
Depois de alguns minutos, chegamos à casa de Carla.
Carla entrou no carro como se estivesse chegando atrasada para uma viagem internacional, carregando uma bolsa enorme em um braço e o celular na outra mão. Antes mesmo de fechar a porta, já estava reclamando da minha demora.
E talvez fosse uma boa hora para apresentar a minha melhor amiga.
Carla era o tipo de mulher que não passava despercebida. Negra, linda e dona de uma presença impossível de ignorar, ela tinha cabelos cacheados volumosos que emolduravam o rosto e pareciam ter personalidade própria. Gostava de deixá-los soltos, principalmente quando queria chamar atenção, embora jurasse que não fazia isso de propósito. Os olhos escuros e expressivos denunciavam quase tudo o que ela estava pensando, mesmo quando permanecia em silêncio.
E os homens percebiam.
Definitivamente percebiam.
Não era raro algum cara olhar duas, três ou até quatro vezes quando ela passava. Carla fingia que não notava, mas eu a conhecia bem demais para acreditar nisso. Às vezes, bastava um sorriso dela para alguém perder completamente a capacidade de formular uma frase.
Ela sabia que era bonita, mas não fazia disso a parte mais interessante dela.
Carla era intensa. Falava alto, ria mais alto ainda e tinha uma opinião sobre absolutamente tudo. Conseguia transformar uma ida rápida ao shopping em uma história de três horas e, de alguma maneira, sempre sabia quando eu estava mentindo.
Talvez por isso nossa amizade tivesse sobrevivido a tanta coisa.
Nós nos conhecíamos desde crianças. Crescemos juntos, brigamos por motivos idiotas, fizemos as pazes tantas vezes que já tínhamos perdido a conta e compartilhamos segredos que provavelmente levaríamos para o túmulo.
Ela era uma das poucas pessoas diante de quem eu não precisava ser o Gustavo Montenegro.
Com Carla, eu era apenas o Gus.
E talvez fosse exatamente por isso que eu a amava tanto.
- Você demorou. - ela disse
- Bom dia para você também.
- Bom dia. Você demorou.
- Você sabe que eu moro a dez minutos daqui.
- E eu sei que você demora quinze para arrumar o cabelo. - disse ela me despenteando e me vendo ficar irritado por alguns segundos.
Era impossível ficar de mau humor perto dela por muito tempo.
Quando chegamos à universidade, o movimento já tomava conta do campus. O primeiro dia do semestre sempre tinha aquela mistura estranha de gente perdida procurando salas, veteranos reencontrando amigos e alunos novos tentando fingir que sabiam exatamente para onde estavam indo.
Nós ficamos alguns minutos no pátio antes de seguir para a sala.
Foi quando Lucas apareceu.
Ruivo, sorriso fácil e uma energia que parecia não ter botão de desligar.
- Finalmente! - gritei.
Ele abriu os braços.
- Sentiu minha falta?
- Durante as férias? Nem um pouco.
- Mentiroso.
Lucas me abraçou e começou a contar, sem qualquer ordem cronológica, tudo o que tinha feito durante as férias. Eu mal conseguia acompanhar metade da história, mas já estava acostumado.
Quando entramos na sala, percebi que havia alguns rostos que eu não reconhecia.
Dois alunos novos.
Um deles estava sentado perto da professora. Era magro, usava óculos e tinha aquela aparência de quem provavelmente já havia lido metade da bibliografia antes mesmo do primeiro dia.
O outro estava algumas carteiras atrás praticamente escondido dentro de um casaco. Eu só conseguia ver parte do seu rosto.
- Olha aquele ali - Carla murmurou ao meu lado.
- Qual?
Ela apontou discretamente.
- O de casaco.
- Você não consegue nem ver o rosto dele.
- Mas consigo ver que ele é alto.
- Impressionante.
- E parece forte.
- Carla...
- O quê? Estou fazendo uma análise científica.
Ri baixo.
Pouco depois, a professora começou a aula e, como era tradição, decidiu que precisávamos nos apresentar.
Eu já conhecia aquele ritual.
Nome.
Idade.
Curso.
"Como foram as férias?"
Uma tortura coletiva disfarçada de dinâmica de integração.
Aquela aula, especificamente, era diferente das outras. Como se tratava de Ética no Trabalho, a universidade reunia alunos de diferentes cursos e períodos na mesma sala, o que explicava a quantidade de rostos que eu não reconhecia. Era também o motivo de Carla e eu estarmos juntos naquela turma, apesar de cursarmos coisas completamente diferentes.
Eu fazia Direito, seguindo o caminho que meu pai havia escolhido para mim, enquanto ela estava no curso de Publicidade e Propaganda, exatamente o tipo de área que combinava com sua personalidade criativa e com a facilidade que tinha para conversar com qualquer pessoa.
Lucas, por outro lado, não estava naquela aula. Ele cursava Jornalismo e tinha uma grade completamente diferente da nossa, então nossos encontros durante o semestre acabavam acontecendo principalmente nos intervalos, nos corredores ou por pura coincidência.
Talvez fosse justamente por isso que aquela turma tivesse um ar tão diferente. Pessoas que provavelmente jamais se conheceriam acabavam dividindo as mesmas carteiras, as mesmas discussões e, sem saber, algumas das histórias que ainda estavam por acontecer.
Fiquei prestando atenção nas apresentações apenas o suficiente para não parecer completamente mal-educado.
Até que chegou a vez do garoto do casaco.
Ele se levantou.
Primeiro tirou o casaco.
Depois levantou o rosto.
E eu simplesmente parei de prestar atenção em qualquer outra coisa.
Moreno.
Cabelos escuros, bagunçados, caindo de um jeito quase displicente sobre a testa. Alto. Ombros largos. O rosto tinha traços fortes, mas havia alguma coisa no olhar dele que me fez continuar observando mesmo depois de perceber que estava encarando.
Ele parecia não fazer esforço nenhum para chamar atenção.
E, justamente por isso, chamava.
- Leonardo - disse.
A voz era grave e rouca.
Eu engoli em seco.
- Tenho vinte e três anos. Estou entrando agora na turma porque consegui uma bolsa esportiva. Eu curso Direito.
Ele fez uma pausa e olhou rapidamente ao redor da sala.
- E, antes que alguém pergunte, sim, eu sou bolsista e não tenho família rica como vocês.
Algumas pessoas riram.
Ele apenas deu um pequeno sorriso e voltou para o lugar.
Leonardo.
Léo.
Eu repeti o nome mentalmente sem saber por quê.
- Gustavo.
A voz da professora me arrancou dos pensamentos.
- Hm?
- Sua apresentação.
- Claro.
Carla segurou o riso.
Eu me levantei, falei meu nome, meu curso e sentei novamente.
Não fazia sentido eu estar prestando tanta atenção naquele garoto.
Eu nem o conhecia, e ainda assim, alguma coisa tinha mudado.
Não prestei muita atenção durante toda aquela aula em nada que a professora falava até que o intervalo finalmente chegou. Assim que a professora liberou a turma, todo mundo começou a sair ao mesmo tempo.
Assim que a professora saiu, comecei a guardar minhas coisas enquanto observava o movimento da sala. Era estranho como tudo funcionava na faculdade.
Durante a aula, alguns alunos simplesmente levantavam, pegavam suas mochilas e saíam sem sequer pedir licença. Outros passavam boa parte do tempo mexendo no celular, conversando ou fazendo qualquer coisa que não tivesse relação com o conteúdo, ninguém parecia realmente se importar.
Na escola, aquilo seria motivo para uma bronca, uma anotação e provavelmente uma reunião com os pais.
Existia um horário para tudo. A gente entrava quando o sinal tocava, permanecia na sala até o professor liberar e só então podia correr para o corredor como se tivesse acabado de escapar de uma prisão.
Aqui, não. Não existia sinal dizendo quando você deveria ficar ou quando poderia ir embora. Talvez essa fosse a verdadeira diferença entre os dois mundos. Na escola, a vida parecia acontecer até o sinal tocar.
Na faculdade, talvez a vida começasse justamente depois dele. E, olhando para trás, eu ainda não fazia ideia de que aquele seria o começo da minha história.
Eu me levantei depressa demais.
Minha mochila escorregou da cadeira e derrubou parte das minhas coisas no chão.
- Perfeito - murmurei.
Fiquei para trás recolhendo cadernos, canetas e folhas enquanto o restante da turma desaparecia pelo corredor. Procurei Carla mas ela já havia saído da sala, provavelmente para guardar uma mesa no pátio perto da lanchonete que sempre sentamos.
Quando finalmente terminei, coloquei tudo dentro da mochila e saí.
Foi no meio da escada que senti alguma coisa estranha.
Minha visão ficou turva.
Parei.
Segurei o corrimão.
Por alguns segundos, tentei esperar a sensação passar.
Não passou.
Meu corpo perdeu o equilíbrio antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo.
E então uma mão segurou minha cintura.
Firme.
Rápida.
Puxando-me para trás antes que eu pudesse cair.
Quando levantei o rosto, encontrei os olhos de Leonardo.
De perto, ele parecia ainda mais bonito, oque era extremamente inconveniente.
- Você está bem?
Tentei responder.
Minha cabeça ainda girava.
- Estou.
Minha voz saiu baixa demais.
Léo claramente não acreditou.
- Você quase caiu.
- Eu fiquei tonto.
Ele me soltou devagar, mas permaneceu perto, como se estivesse esperando que minhas pernas resolvessem colaborar novamente.
- Consegue andar?
Assenti.
Ele não pareceu convencido, mas começou a descer as escadas ao meu lado.
Não disse mais nada.
Eu também não.
Quando chegamos ao pátio, ele me indicou uma mesa.
- Senta.
- Eu consigo ficar de pé.
- Eu não perguntei se conseguia.
Olhei para ele.
Ele ergueu uma sobrancelha.
E eu sentei.
Pouco depois, Carla apareceu e encontrou a cena.
- O que aconteceu?
- Seu amigo quase caiu da escada - Léo respondeu.
- Quase?
- Por pouco.
Carla olhou para mim.
Depois para ele.
Depois novamente para mim.
Conhecendo aquela expressão, eu sabia que ela já estava criando alguma teoria completamente absurda dentro da cabeça.
- Eu estou bem - falei antes que ela perguntasse.
Lucas apareceu logo depois e, em poucos minutos, estávamos os quatro conversando.
Léo era diferente do que eu tinha imaginado.
Ele falava pouco, mas quando falava tinha sempre alguma coisa por trás. Não parecia interessado em impressionar ninguém. Não ria das coisas apenas para acompanhar o grupo. Quando Carla começou a contar as histórias da turma, ele prestava atenção de verdade.
E, de algum modo, acabou ficando.
Quando o intervalo terminou, voltamos para a sala.
A próxima aula era sobre Psicologia Jurídica e apenas Léo estava nessa matéria junto comigo.
Eu escolhi uma cadeira mais para o fundo e Léo sentou ao meu lado.
Meu coração disparou, aparentemente, ele já tinha decidido transformar aquele semestre em uma experiência de sofrimento.
- Está melhor? - ele perguntou baixo.
- Estou.
- Tem certeza?
- Tenho.
Ele me observou por alguns segundos antes de olhar para a tela.
- Então tá.
A professora colocou um documenario para passar, e eu até tentei prestar atenção.
Não consegui.
Estava frio demais.
Cruzei os braços e tentei ignorar, mas comecei a tremer.
- Professora, dá para aumentar um pouco a temperatura?
Antes que ela respondesse, alguém reclamou do outro lado da sala. Carla, como sempre, entrou na discussão e, em menos de trinta segundos, duas pessoas já estavam trocando provocações.
Foi quando senti alguma coisa sobre meus ombros.
O casaco de Léo.
Olhei para ele.
- Não precisa.
- Você está tremendo.
- Eu estou bem.
- Você fala isso bastante.
Antes que eu pudesse responder, ele simplesmente ajeitou o casaco sobre meus ombros.
A mão dele tocou de leve meu pescoço.
Meu corpo inteiro arrepiou.
Ele percebeu.
Eu percebi que ele percebeu.
E, por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada.
- Você está quente - ele murmurou.
- Acho que estou ficando doente.
- Eu te levo para a enfermaria.
- Não precisa. Quando acabar aqui, eu vou para casa.
Ele ficou me olhando por mais alguns segundos, como se estivesse decidindo se deveria insistir.
No fim, apenas assentiu.
Durante o restante do documentário, tentei ignorar uma coisa estranha. Sempre que eu me mexia, Léo perguntava se eu estava bem.
Uma vez, encostou a mão na minha testa.
Outra, perguntou se eu precisava de água.
Era um cuidado simples.
Nada demais.
Mas eu não estava acostumado.
Principalmente vindo de alguém que eu havia acabado de conhecer
Quando o filme terminou, todos começaram a sair. Já Léo ficou para ajudar a professora a organizar algumas cadeiras.
Eu poderia simplesmente ter deixado o casaco na cadeira e ido embora.
Não deixei.
Fiquei esperando.
Talvez porque fosse educado.
Talvez porque estivesse preocupado.
Ou talvez porque eu simplesmente quisesse ficar mais alguns minutos perto dele.
Quando finalmente terminou, Léo veio até mim.
- Vamos?
Levantei.
O mundo girou novamente.
Dessa vez, ainda mais forte.
Tentei me apoiar na parede, mas minhas pernas não responderam.
Léo me segurou antes que eu caísse.
Novamente.
A mão dele ficou firme na minha cintura enquanto eu tentava recuperar o equilíbrio.
Ele soltou uma risada baixa.
- Segunda vez que eu te seguro hoje.
Levantei os olhos.
Ele estava sorrindo.
- Acho que vou ter que começar a ficar de olho em você.
Meu coração acelerou.
- Por quê?
Léo inclinou levemente a cabeça.
- Porque, desse jeito, não vou poder deixar você andar muito longe de mim.
E foi naquele momento, ainda apoiado nele, que eu deveria ter percebido que alguma coisa estava começando.
Mas eu não percebi.
Eu só sabia que o aluno novo tinha chegado naquela manhã.
E, sem fazer absolutamente nada, já tinha conseguido virar o meu primeiro dia de aula de cabeça para baixo.
Xxxx------xxxX
E aí meus queridos, prontos para uma nova saga?
Lembrando que a história também está no wattpad (Inclusive a capa desse livro está perfeita!), vou deixar o link nos comentários para quem quiser acompanhar por lá.