Laura me apresentou muitas pessoas naquela noite. Sinceramente, não consegui guardar o nome de todas; na verdade, guardei de bem poucas. Eu estava um pouco nervosa no início, mas as pessoas me trataram muito bem e me elogiaram bastante, principalmente pela minha beleza. Comecei a acreditar que realmente tinha uma beleza acima do que eu enxergava. O que me deixou mais à vontade foi a forma como fui tratada. Apesar dos elogios, nenhuma das pessoas foi desrespeitosa ou invasiva.
O mais estranho foi que as mulheres pareciam mais entusiasmadas que os homens. A maioria dos homens que conheci foram super educados. Apesar de alguns terem me elogiado, foram mais contidos. Aquilo era incomum para mim; já passei por situações em que alguns homens tentaram passar do ponto ou disseram coisas que nem gosto de repetir. Porém, naquela noite, os que estavam ali pareciam verdadeiros cavalheiros. Eu gostei disso, já que um dos meus medos era que algum homem viesse de gracinha para o meu lado, mas isso não aconteceu em nenhum momento.
Depois de conhecer várias pessoas, finalmente tive um tempo mais tranquilo, e Sandra aproveitou a oportunidade para me roubar de Laura e me levar para conhecer Raquel formalmente. Eu já tinha visto Raquel algumas vezes ali no salão, mas ainda não tinha sido apresentada a ela. Sandra fez questão de fazer isso pessoalmente e provavelmente pediu a Laura, já que foi a única pessoa dos convidados que Laura não me apresentou.
Raquel era uma mulher bonita, mas não era só isso. Ela era muito simpática e tinha uma energia contagiante. Além de ser boa de papo, era daquelas pessoas de bem com a vida. Estava sempre sorrindo e gesticulava com os braços enquanto falava. Ela era realmente bastante expressiva, contagiava as pessoas ao redor com seu carisma e bom humor.
Fiquei um bom tempo conversando com Sandra e Raquel. As duas pareciam um casal bem entrosado, e Raquel confirmou o que eu já imaginava: ela havia largado seu trabalho e investido todo seu dinheiro no empreendimento de Sandra. Elas eram sócias em tudo. Eu achei que era só no spa, mas na verdade, tinham doze salões espalhados pela capital e algumas cidades satélites. Além dos quatro spas, todos na capital, mas já tinham planos de expandir para outras cidades.
O papo com elas foi muito bom, mas Nicole chegou como quem não quer nada e me roubou delas. Ela me levou para conhecer algumas das meninas que trabalhavam com ela. Não conversei muito com elas, pois já estavam interagindo com outros convidados. Nicole me levou para pegar uma bebida e me apresentou ao barman. Foi ali, bebendo uma cerveja, que percebi alguns movimentos que até então não havia notado.
Eu tinha conversado com alguns casais e agora via que alguns deles não estavam mais juntos, mas sim com pares trocados. Também vi Marcelo conversando com um casal, enquanto eu bebia minha cerveja e Nicole me falava sobre alguns convidados. Vi Marcelo e o casal saírem em direção a uma porta dos fundos. Não foram só eles; durante o tempo em que fiquei sentada com Nicole, vi outros casais indo na mesma direção, mas com parceiros diferentes. Havia também três mulheres juntas e alguns grupos de pessoas com quatro ou mais membros. Pelo jeito, não existiam limites de números, e pela animação que seguiam para a porta, todos ali pareciam felizes em seguir naquela direção.
Enquanto percebia esses momentos, Nicole me falou algumas coisas interessantes. Ela contou que todos os convidados ali eram da alta sociedade. A maioria eram empresários(as), mas havia políticos, advogados(as), até uma delegada da PF e uma juíza. Ouvindo aquilo, imaginei que, talvez, se no futuro eu precisasse, poderia obter ajuda daquelas pessoas. Mas para isso acontecer, eu precisava me enturmar, e aceitar a proposta da Laura seria essencial.
Nicole e eu bebemos três cervejas juntas, e na última, Sandra e Raquel se juntaram a nós. Achei estranho Nicole não ter ido falar com ninguém, então imaginei que ela já tinha algo combinado com Sandra e Raquel. Perguntei a Sandra sobre isso, já que poderia estar atrapalhando algo, mas ela disse que não tinha nada a ver. Que ela e Raquel só vieram se divertir e depois iriam se divertir na cama, mas só as duas. Antes que eu pudesse tentar entender, Sandra se adiantou e disse que, como já havia falado, ela e Raquel não faziam daquilo uma rotina ou algo com dia marcado; rolava às vezes, mas era só umas quatro ou cinco vezes no ano. Raramente ficavam com outra pessoa em festas ou reuniões seguidas, e na última vez, elas tinham ficado com alguém, então naquela, só vieram mesmo marcar presença. Ela também disse que Nicole não iria ficar com ninguém porque iria render o barman, que tinha um compromisso.
Nicole tomou o resto da sua terceira cerveja e já foi para dentro do balcão. Falou algo com o barman e ele olhou em direção a uma das mesas. Logo vi um casal se levantar e seguir em direção à porta. O barman foi até eles, e vi o homem conversar algo com ele, depois dar um beijo na esposa e voltar para a mesa. O barman pegou a mão da mulher e seguiu em direção à porta dos fundos. Eu olhava aquilo e tentava não julgar, mas para mim ainda era difícil entender.
Laura, que tinha sumido, apareceu com uma ruiva muito bonita e uma morena igualmente atraente. Elas foram para uma mesa bem próxima, mas Laura falou algo com elas e veio até onde estávamos. Pediu desculpas por não ter me dado muita atenção, disse que teve uma visita surpresa e precisou se ausentar. Eu disse que estava tudo bem, que ela poderia ficar à vontade, pois Nicole e o casal estavam me fazendo companhia. Ela disse que, caso eu quisesse ir embora, era para eu avisá-la; ela chamaria Marcelo ou arrumaria alguém para me levar. Ali, entendi que, com certeza, ela não teria muito tempo para mim pelo resto da noite. Respondi que falaria se quisesse ir embora. Ela foi sair, mas antes disse que no outro dia iria ao meu apartamento na hora do almoço para conversarmos.
Laura voltou para junto do casal, e eu fiquei ali com minhas novas amigas. A noite seguiu, e algumas pessoas retornaram ao salão, mas não vi Marcelo. O tempo foi passando e eu fui bebendo mais, trocando ideias com as meninas. Nicole me disse que Marcelo e o barman eram os únicos homens solteiros ali e, às vezes, eram solicitados por casais ou mulheres sozinhas. Foi aí que entendi a intimidade de Nicole com Marcelo; eles provavelmente fizeram amizade, já que provavelmente frequentava o lugar há bastante tempo.
Chegou um momento em que o sono e o álcool começaram a fazer efeito e comecei a abrir a boca de sono algumas vezes. Sandra notou e perguntou se eu queria ir embora. Se quisesse, ela e Raquel me levariam, já que também estavam pensando em ir para seu apartamento. Eu disse que não precisava, pois provavelmente morava bem longe delas. Sandra disse que não tinha problema, que elas podiam me levar assim mesmo. Como Marcelo tinha sumido e Laura já não estava mais na mesa com o casal de amigas, eu resolvi aceitar. Laura provavelmente estava em algum quarto se divertindo, e eu não queria atrapalhar. Aceitei a carona e, depois de me despedir de Nicole, pedi para ela avisar a Laura que eu já tinha ido embora com Sandra e Raquel.
Realmente eu morava longe das duas, mas elas me levaram assim mesmo. Durante o caminho, recebi a primeira cantada. Raquel, que não tinha papas na língua, disse que, se eu aceitasse a proposta de Laura, gostaria que eu me juntasse a elas na próxima festa. Se eu não aceitasse, poderíamos marcar algo no futuro. Ela disse que Sandra tinha gostado de mim, e ela também. Porém, era para eu pensar com calma na proposta e só aceitá-la se realmente me sentisse confortável. Se não me sentisse, poderíamos seguir sendo amigas da mesma forma. As duas eram lindas, mas naquele momento, eu não teria condições de responder, já que tinha muita coisa mais importante para pensar. Eu disse a Raquel que iria pensar sim com carinho e que no futuro poderíamos conversar novamente sobre o assunto. Ela entendeu de boa e continuamos conversando como se nada tivesse acontecido.
Elas me deixaram no portão do meu prédio. Eu expliquei a elas onde era meu apartamento e disse que seriam bem-vindas a qualquer momento. Elas pediram meu número de celular e eu passei numa boa. Sandra me disse que eu deveria comprar outro celular e arrumar um novo número caso aceitasse trabalhar com Laura, porque com certeza muita gente iria querer meu número, e ter um número diferente poderia ser uma boa opção. Eu disse que faria isso. Desci logo após me despedir e elas se foram. Fui direto para a portaria, dei uma boa noite rápida para o porteiro e segui para meu apartamento. Tirei meus sapatos e minha roupa e me joguei na cama para dormir.
Acordei tarde no dia seguinte, mas logo após o café, comecei a pensar com calma no que faria. Já não tinha dúvidas: eu iria aceitar a proposta da Laura. Agora, precisava resolver como seguir minha vida dali para frente e quais seriam meus próximos passos. Sem dúvida, o que eu primeiro precisava fazer era conversar com Laura, resolver tudo com ela e, depois sim, falar com Helena e minha família. Eu não iria contar a eles; acho que não iriam entender muito bem minha escolha, e, no fundo, tinha vergonha de contar a eles o tipo de trabalho que eu iria aceitar. Porém, eu seguiria o que Laura falou e precisava pôr isso em prática. Contar para eles sobre meu trabalho fictício era obrigatório.
Laura ligou às onze horas, disse que iria se atrasar, mas que chegaria no apartamento antes das treze. Eu disse que não tinha pressa, mas precisava vê-la naquele dia e que, como prometi, já tinha a minha resposta. Laura disse que com certeza iria me ver o mais rápido possível. Acho que o que eu disse fez com que ela se apressasse um pouco, porque antes do meio-dia ela chegou. Logo que abri a porta para ela entrar, ela se sentou no sofá e já foi perguntando.
Laura— Então, qual é sua resposta?
Camila— Se tudo que você me falou for verdade, e estou confiante que é, vou aceitar sua proposta.
Laura— Te prometo que é a verdade, você vai ver. Estou muito feliz de você ter aceitado.
Camila— Antes, quero deixar uma coisa bem clara para você não achar que fui mal agradecida ou para você não ser pega de surpresa.
Laura— Claro, pode falar.
Camila— Eu não fico com homens em circunstância alguma; não aceito ficar com ninguém que eu não queira. Se isso for cumprido, acho que não teremos problema. Porém, se não for, eu saio na hora; não há meio termo para isso. Pode ser?
Laura— Por mim tudo bem, você não é obrigada a ficar com ninguém, como eu já disse. Sempre será uma escolha sua.
Camila— Outra coisa: minha prioridade é a Manu, sempre vai ser. Você sabe da situação que estou vivendo. Se acontecer algo que eu precise sumir, eu vou fazer isso sem pensar duas vezes.
Laura— Se acontecer algo, eu posso ajudar. Então, por favor, me avise. Mesmo que você tenha que sair correndo, não deixe de me avisar e mantenha contato comigo para eu ver o que posso fazer. Até agora não me meti nesse assunto porque é sua vida pessoal e você disse que quer resolver do seu jeito para evitar problemas para a família da Helena. Porém, se você mudar de ideia, me fale; eu posso te ajudar a acabar com o Rogério.
Camila— Como?
Laura— Eu tenho muita influência sobre pessoas poderosas. Não estou falando em acabar com ele literalmente, mas agir dentro da lei com pessoas poderosas ao nosso lado.
Camila— Graças a Deus, você me assustou. Mas, por enquanto, deixa eu tentar resolver sem que isso faça um estrago enorme. Pelo menos enquanto a saúde do seu Geraldo estiver frágil, prefiro manter as coisas como estão.
Laura— Tudo bem, sempre vou te mostrar opções para você seguir, mas a escolha sempre vai ser sua, e vou respeitá-la.
Camila— Bom, então acho que é isso. Eu tenho que assinar algum documento, contrato ou algo assim?
Laura— Não, pelo menos não no seu caso. Eu garanti sua descrição para todos. Se não fosse isso, nem ontem você poderia ter participado da festa.
Camila— Nossa, muito obrigada. Mas tem casos que a pessoa precisa assinar algo.
Laura— Sim, um contrato de confidencialidade. Algumas das meninas e o barman assinaram, mas hoje, nem me lembro disso; eles mostraram ser confiáveis.
Camila— Por que você confia tanto em mim?
Laura— Eu não sei como te explicar isso, mas tenho um ótimo feeling para isso. Pode-se dizer que sei ler bem as pessoas. Já nasci com isso, mas por causa do meu trabalho como advogada no mundo dos negócios, parece que ficou bem mais apurado. Eu sei que você é uma pessoa honesta, que tem um bom coração e jamais faria algo para prejudicar a mim, as pessoas que você conheceu ou qualquer ser humano. Eu já tinha certeza disso antes, mas depois que você me contou sua história, tive mais certeza ainda.
Camila— Queria ter nascido com esse tal de feeling; teria evitado muita coisa ruim na minha vida.
Laura— Você é uma pessoa boa, e pessoas assim normalmente só veem o lado bom das outras. Eu não sou como você; não sou uma pessoa ruim, mas não sou uma pessoa boa como você. Geralmente sou boa com quem realmente merece, mas quando pisam no meu calo, minha reação é bem diferente da sua.
Camila— Já entendi, não vou pisar no seu calo.
Laura— Boba, não foi uma indireta; fui sincera com você. Sei que você vai ser correta comigo; confio em você.
Camila— Obrigada, de coração.
Laura— Bom, agora você trabalha para mim. A próxima festa vai demorar um pouco; quando for acontecer, vou te avisar no mínimo uma semana antes. É seu único compromisso comigo; tirando isso, você pode fazer o que quiser da sua vida. Sempre vou te pagar um ou dois dias após a festa. Se você tiver uma conta bancária, isso irá facilitar o pagamento.
Camila— Eu tenho sim, posso te passar agora mesmo. Mas antes, queria sua ajuda em algo.
Laura— Claro, se eu puder ajudar, pode contar comigo.
Camila— Gostei da sua ideia. Vou fazer o que você disse. Vou estudar e vou querer sua ajuda com o trabalho que você mencionou. Esqueci o nome, mas é o que você disse que eu poderia falar que trabalho de casa.
Laura— Fico feliz que tenha decidido estudar; vai ser uma das melhores decisões da sua vida. O trabalho é de logística. Vou providenciar tudo para você. Vou pedir para entregar o computador, a impressora, os móveis de um pequeno escritório. Também vou pedir que alguém da minha confiança traga alguns arquivos falsos e te ensine tudo que você precisa saber. Vou pedir para que instalem um Wi-Fi para você, vai ser útil.
Camila— Não acho isso certo; isso tem que ser por minha conta. Mas a pessoa e os arquivos eu vou aceitar.
Laura— Não vai ser de graça. Vou te cobrar o valor de algumas coisas que eu mandar, porém consigo tudo isso por um preço muito menor. Se você tiver de acordo, faço tudo que falei; você me paga aos poucos, se quiser. O Wi-Fi você vai pagar uma taxa por mês, os móveis eu tenho no estoque da empresa, só vou te cobrar pelo computador e pela impressora. Tudo bem?
Camila— Tudo bem, eu aceito, mas te pago à vista. Ainda vou pagar com o dinheiro que você me deu, de todo jeito, vai sair de graça.
Laura— Não se apegue a esses detalhes, Camila. Só aceite e pronto; não pense demais.
Camila— Está bem, está combinado então.
Conversamos mais um pouco e ficou combinado que na segunda ela mandaria entregar tudo. Laura se foi e eu fui criar coragem para o próximo passo: contar para Helena e minha família sobre o novo emprego. Se fosse real, tudo bem, mas não era, e eu teria que mentir. Isso não seria fácil para mim, mas era o que eu precisava fazer.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
