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Um Banho Diferente - Parte 7

Um conto erótico de Eros Monte
Categoria: Heterossexual
Contém 3861 palavras
Data: 01/09/2026 23:38:16

O dia seguinte nasceu limpo demais.

A Beatriz dormiu no meu peito a noite inteira. Sem pulga atrás da orelha. Sem inspeção. De manhã, beijou minha boca com gosto de pasta de dente e de confiança nova. Tomou banho longo. Saiu para o escritório falando de reunião e de almoço com a menina do trabalho. Eu fiquei no meu apartamento com o notebook e o trabalho andando. Representante. Namorado. Genro. O outro nome eu não usava de dia.

A Helena mandou só uma linha, cedo:

“Aula particular. Não vem. Hoje a casa tem gente no portão. À noite vocês vêm. Disfarça.”

Disfarcei.

No fim da tarde, fui buscar a Beatriz no escritório. Ela desceu sorrindo, blusa clara, cabelo preso, pescoço sem marca. Entrou, beijou meu rosto, apertou o cinto.

— Pizza hoje. Eu avisei. Meu pai adora. Minha mãe finge que adora. Você dirige que eu escolho o sabor.

— Tá.

— Você está quieto.

— É o trânsito.

Ela acreditou. Ou quis acreditar. O rádio baixo: Rush, Limelight, a mesma do bar. A Beatriz não reclamou. Bateu o pé no carpete.

— Gosto quando você põe isso. Parece gente grande.

Chegamos a Itatiaia com o sol baixo. A Helena abriu o portão. Vestido simples. Argolas. Sorriso de sogra. Os olhos passaram por mim um segundo a mais e desceram para a Beatriz.

— Entra. A pizza já vem. Já pedi.

Era o primeiro encontro depois da cama. O ar estava tenso e ninguém nomeava. Beijei a Helena no rosto, rápido, de genro. O perfume dela era outro. O de mãe. Por baixo, eu sabia, o corpo ainda lembrava. Ela apertou meu ombro um instante e soltou.

— O Rafael ajudou com a internet ontem — falou para o Paulo, natural. — A aula rendeu.

— Bom rapaz — disse o Paulo, de camisa aberta e bermuda. — Senta, genro. Cerveja?

Sentei. A Beatriz foi para a cozinha com a mãe. Ouvi riso. Louça. Família. Bebi e vigiei o próprio rosto. Qualquer desvio era prova. Então não desviei. Falei de cliente. De Resende. De prazo. A Helena voltou com os pratos. Quando serviu à minha frente, os dedos não tremeram. Profissional. Monstra descansando.

A pizza chegou. Calabresa e muçarela. A Beatriz distribuiu as fatias.

— Eu que escolhi. Ninguém reclama.

Ninguém reclamou. Comíamos quando o celular do Paulo tocou. Ele olhou a tela e o rosto abriu.

— É o Fernando.

Atendeu no viva-voz sem pedir. A voz que saiu era grossa, seca, de homem que não gasta palavra.

— Paulo.

— Fernando. Que saudade, porra. Tá vivo?

— Vivo. Sozinho. Olhando o mar. Cansei de conversar com parede.

A Beatriz gritou:

— Tio Fernando!

Silêncio curto.

— Beatriz. Tá boa?

— Tô. Estou aqui com o Rafael. E a mamãe.

Outro silêncio. Maior.

— O Rafael.

Não era saudação. Era medida. Senti o nome esfriar na mesa.

— Oi — falei. — Tudo bem?

— Tudo. — Pausa. — Paulo, chamei por isso. Quero vocês aqui. Angra. Casa vazia. Churrasco. Mar. A Helena. A menina. Você. O… namorado também, se quiser.

O “se quiser” pesou.

O Paulo riu, feliz demais.

— Claro que quer. Né, genro?

A Beatriz já estava de pé.

— A gente vai. Tio, faz tempo. Você sumiu.

— Seu pai quase separou. Eu dei espaço. Espaço vira distância. Quero corrigir.

A Helena falou perto do aparelho, a voz baixa:

— Obrigada, Fernando. É bom te ouvir.

— Helena. Você está bem?

— Estou.

— Então vem. Fim de semana. Quarto para o casal. Quarto para a Beatriz. O rapaz dorme no sofá ou no quarto dela, vocês decidem. Não ligo para etiqueta. Ligo para o Paulo não ficar velho sem me ver.

Mexi na fatia. O desconforto subiu.

— Se for atrapalhar… — comecei.

— Rafael — a Beatriz cortou. — A gente vai.

O Paulo bateu na mesa.

— Vai sim. O Fernando é meu irmão. Não de sangue. De vida. Viu a Beatriz nascer. Não é hora de frescura.

A Helena assentiu, tímida, um “vamos” quase sem som. Não chamou atenção. Não olhou para mim.

O Fernando resmungou:

— Então está marcado. Manda a hora. A casa está aberta. E, Paulo: traz a Helena. Não traz briga.

Desligou.

A mesa ficou quieta um segundo. A Beatriz apertou minha mão.

— Ele é assim. Ranzinza. Rico. Sozinho. Não gosta de muita gente. Não é pessoal.

Era pessoal. Eu senti. Talvez o afastamento tivesse o meu nome no meio. Talvez não. A dúvida ficou.

Sábado cedo, saímos de Itatiaia: eu no volante, a Beatriz no banco da frente, os dois atrás no outro carro. No rádio, Pink Floyd — Comfortably Numb — depois Rush de novo. A Beatriz cantarolava errado de propósito.

No meio da Rio–Santos, o WhatsApp do Paulo acendeu:

“O bicho parou.”

Encontrei os dois num posto, capô aberto, o Paulo suado, a Helena de óculos escuros, o vestido grudado no vento. O frentista já tinha dito o óbvio: radiador, ou bomba d'água, ou as duas coisas. Sem seguro. Sem guincho barato.

— Deixa aqui — falou o Paulo, a voz pequena. — Depois a gente volta. Se Deus quiser, não levam.

A Beatriz já abria a porta de trás.

— Sobe. Papai atrás com a mamãe. A gente não vai perder o fim de semana por causa disso.

O carro velho ficou no canto do posto. Os quatro entraram no meu. Beatriz na frente. Eu no volante. Paulo atrás, do lado da janela. A Helena atrás de mim.

O banco de trás encheu do perfume dela. A Beatriz ligou o ar. Engatei. Mãos no volante, nove e três. A serra se foi... quieta.

No retrovisor interno, vi a Helena. Os óculos. A boca. O olhar que não ia para a paisagem. Ia para as minhas mãos. Para o antebraço. Para o jeito de conduzir a sua própria família. Ela cruzou as pernas. Descruzou. Olhou a janela. Voltou. A Beatriz falava do tio Fernando, da casa, de quando era menina e ele deixava pegar siri. O Paulo ria. A Helena respondia no tempo certo. Por baixo do vestido, eu sabia, o corpo dela estava em outro lugar: no homem que anteontem tinha gozado dentro, agora dirigindo a família inteira como se fosse só o genro.

A mão dela no encosto, perto da minha cabeça, não chegou a tocar. Quase.

— Dirige bem — disse o Paulo.

— Sempre dirigiu bem — falou a Beatriz.

— Com um carro desse, até eu — finalizou o Paulo.

A Helena não falou do volante. Não falou de mim. O desejo ficou no silêncio entre uma faixa e outra, no joelho fechado, na respiração que eu ouvia quando a Beatriz calava para trocar a música.

The Spirit of Radio. A Beatriz bateu palma.

— Essa. Alta.

Pus alta. A estrada se foi. Angra apareceu. Condomínio. Portaria. O nome do Fernando na lista. A casa no fim da rua de areia: dois andares, madeira e vidro, uma piscina pequena do lado, a porta dos fundos abrindo direto na praia. Barco tampado. Jet ski flutuando. Churrasqueira de pedra. Dinheiro quieto.

O Fernando esperava na varanda. Alto. Cabelo grisalho curto. Camisa de linho. Olhar fechado. Abraçou o Paulo longo. Beijou o rosto da Helena com respeito. Beijou a Beatriz na cabeça, pai demais para quem não era pai. Para mim, a mão. Firme. Fria.

— Rafael.

— Fernando.

— A casa é essa. Quarto de vocês em cima, à esquerda. O casal embaixo. Eu fico no escritório, minha cama é lá. Não faço festa. Tem cerveja. Tem peixe. A praia é limpa. Não quebra regra de vizinho.

— Obrigado por chamar.

Ele olhou a Beatriz grudada no meu braço.

— Ela cresceu. Não gosto de ver gente nova sem peso. Você tem peso?

A Beatriz riu, constrangida.

— Tio.

— Pergunta honesta.

— Tenho trabalho — respondi. — Tenho ela.

Ele assentiu, sem se convencer.

— O Paulo falou que você é bom rapaz. O Paulo fala bem de todo mundo quando está feliz. Entra.

A Helena passou por mim no corredor claro, o vestido colado no vento da praia. Baixo, só para mim, sem mover demais a boca:

— Depois. Não agora. Aqui ele vê tudo.

Subimos as malas. A Beatriz abriu a janela do quarto e gritou para a areia. O Paulo já estava com a cerveja na mão, falando de oficina, peças e de tempo perdido com o Fernando. A Helena na cozinha, abrindo armário como quem conhecia a casa. Eu fiquei no vão: a sogra a dois metros fingindo que cortava limão, o gozo de anteontem virando só memória.

A Beatriz puxou minha mão.

— Viu? Nada de dúvidas. Família. Mar. Pizza ontem, peixe hoje. Relaxa o ombro. Você está duro.

Duro era outra palavra.

Na varanda, o Fernando ergueu a lata.

— À mesa. Antes que anoiteça. E, Rafael: amanhã de manhã eu saio com o Paulo no barco. Você fica com as mulheres ou vem. Se vier, rema. Se ficar, não deixa a Beatriz sozinha na água. Tem correnteza.

— Fico com ela.

A Helena, atrás, fechou a gaveta. O olhar cruzou o meu por um segundo. Tesão. Medo. Mar. Casa grande. Quatro paredes e um homem que não gostava de mim vigiando a família que eu tinha acabado de atravessar.

O sol descia em Angra.

O primeiro dia era só chegada.

A janela, dessa vez, tinha areia, dinheiro e um ranzinza na porta.

E a Helena, no banco de trás a tarde inteira, ainda sentia o volante nas minhas mãos — e o resto, mais embaixo, onde a filha não via.

O peixe assou na grelha. O cheiro de carvão, sal e limão tomou a varanda enquanto o mar lá fora virava uma massa preta, batendo fraco na areia.

O Paulo bebeu a terceira cerveja. O Fernando, uísque puro com uma pedra de gelo. A Beatriz sentou do meu lado, o joelho encostado no meu, a mão na minha coxa por cima da bermuda. Carinho de namorada. O problema é que a Helena sentou bem na minha frente.

O vestido dela agora era outro, escuro, de alça fina. Sem sutiã. O mamilo marcando o pano fino quando o vento da praia entrava na varanda.

Ela não olhava para mim direto. Olhava para o copo. Para as mãos do Fernando. Para o prato. Mas a perna dela, esticada por baixo da mesa de madeira comprida, raspou no meu tornozelo. Um toque rápido. Sem querer? Com o Fernando na ponta da mesa, nada ali parecia sem querer.

— O Rafael é quieto assim mesmo, Beatriz? — o Fernando perguntou, girando o gelo no copo.

O som do vidro batendo parecia alto demais na praia.

— Ele está cansado, tio. Dirigiu a serra inteira.

— Serra não cansa homem novo. Se cansa, está com o sangue fraco.

O Paulo riu meio alto, já tocado pelo álcool.

— Deixa o garoto, Fernando. Ele trabalha. Corre atrás.

— Correr atrás de quê? — O Fernando olhou para mim. Um olhar cinza, duro, de quem passou a vida tirando vantagem de gente distraída. — O que você quer da vida, Rafael?

Senti a mão da Beatriz apertar minha coxa. E senti a ponta do pé da Helena subir pela minha canela. Devagar. O toque macio da pele dela, roçando no meu pelo. O suor frio desceu pelas minhas costas.

— Ter tranquilidade — respondi, sem piscar. — Cuidar do que é meu. E não perder o que conquistei.

A Helena tirou o pé. Engoliu um gole de vinho branco. Os lábios molhados e brilhantes na luz fraca da varanda.

— Resposta boa — o Fernando falou. Mas não sorriu. — Pena que ninguém tem nada de verdade. A gente só toma emprestado até alguém mais esperto vir e levar.

A Beatriz cansou primeiro. Misturou cerveja, viagem e o vento pesado da praia.

— Estou moída — ela disse, me dando um beijo na bochecha com gosto de maracujá e álcool. — Vou tomar um banho e deitar. Você vem?

— Vou daqui a pouco. Deixar seu pai e seu tio terminarem a conversa.

Ela subiu as escadas de madeira. O som dos passos dela no segundo andar subiu e sumiu.

O Paulo e o Fernando continuavam na varanda, falando de terras velhas em Resende e de amigos que já tinham morrido. A Helena levantou para recolher a mesa.

— Deixa que eu ajudo — falei.

— Não precisa, Rafael — disse o Paulo, sem olhar para trás.

— Faço questão.

Entrei na cozinha. O silêncio do lado de dentro era mais pesado que o mar lá fora.

A Helena estava de costas, encostada na pia, lavando a travessa do peixe. A iluminação vinha só do exaustor do fogão. Amarelada. Íntima.

Cheguei por trás. Sem fazer barulho na areia que tinha entrado da praia.

O cheiro dela me pegou antes que eu encostasse: sabão de coco, pele quente de sol e aquele perfume doce que ela usou na sua cama, comigo.

Não falei nada. Parei a meio palmo.

Ela não se virou, mas a respiração travou. Os ombros subiram um milímetro. A torneira aberta, a água correndo.

— Ele está na varanda — ela sussurrou, a voz tão baixa que parecia vento na fresta. — Ele conhece essa casa há trinta anos. Qualquer barulho...

Passei a mão pela cintura dela. Puxei o corpo para trás até a bunda bater na minha virilha. Duro. Do jeito que ela sabia que eu estava desde o carro.

Ela soltou um ar preso, jogando a cabeça para trás, no meu ombro. As mãos molhadas de espuma seguraram na borda da pia.

— Você ficou louco, Rafael...

A mão subiu pela barriga dela, por cima do vestido fino, achando a pele quente, a costela, subindo até o peito solto. O bico do peito dela já estava duro antes de eu tocar. Torci de leve entre o polegar e o indicador. Ela mordeu o lábio inferior para não gemer.

— Cento e oitenta quilômetros de estrada com você descruzando a perna no retrovisor — sussurrei no ouvido dela, lambendo a curva do pescoço. — O que você achava que ia acontecer?

— A Beatriz está lá em cima... — ela murmurou, mas arqueou o quadril para trás, empurrando contra mim por cima do pano.

O corpo dela lembrava de tudo. Do hotel. Do gozo. De dois dias atrás.

A minha outra mão subiu da barra do vestido pela frente, deslizando pela coxa, chegando na calcinha dela. Molhada. Encharcada.

Deslizei dois dedos para dentro do pano. Ela soltou um ruído abafado, colando as costas no meu peito, tremendo.

— Meu Deus... — sussurrou.

Passos na madeira da varanda.

O som do copo do Fernando batendo na mesa de centro.

— Helena? — a voz dele veio da varanda, seca, sem aviso. — Tem mais gelo aí dentro?

Puxei a mão de volta no mesmo segundo. Cheiro de buceta nos dedos. A Helena deu um pulo para a frente, pegando o pano de prato com a mão trêmula, o rosto queimando.

Eu dei dois passos para o lado, pegando um copo no armário alto como se estivesse procurando água.

O Fernando apareceu na porta da cozinha. Os olhos compridos dele foram da Helena — descabelada, respirando fundo na pia — para mim, em pé do lado da geladeira com o copo vazio na mão.

O silêncio durou três segundos.

Três segundos em que o meu coração bateu direto na garganta.

— O gelo acabou na pedra — o Fernando disse, sem tirar os olhos de mim. — Tem um saco no freezer dos fundos. Rafael. Vem buscar comigo.

O Fernando virou as costas sem esperar resposta.

Segui o homem pelo corredor lateral, fora da iluminação da cozinha. O chão de areia cedeu macio sob os chinelos. Lá fora, a noite era uma parede preta e o som das ondas no muro de contenção parecia mais alto. O cheiro de uísque e mar saía dos ombros largos dele.

No fundo da casa, debaixo de um telhadinho de madeira, ficava o freezer horizontal.

O Fernando ergueu a tampa pesado. O vapor frio subiu na escuridão, cortando o calor abafado do litoral. Ele enfiou a mão lá dentro, pegou um saco plástico rígido de gelo e não me entregou. Ficou segurando pelo nó, olhando para o nada.

— O Paulo acha que todo mundo é bom — ele falou. A voz não tinha raiva, tinha peso. Um aviso sem grito. — O Paulo olha para o mundo e vê o que quer ver. A Helena tem a cabeça fraca. E a Beatriz é menina, acha que homem é o que ela desenha na cabeça dela.

Fiquei parado a um passo dele. O ar frio do freezer batia na minha cintura.

— Você veio de onde, Rafael? — ele perguntou, virando o rosto devagar. Os olhos cinzas fixos nos meus.

— Resende. Trabalho com representação.

— Sei. Você tem cara de quem presta atenção. De quem calcula. Não gosto de homem que calcula muito perto da minha família.

— Sou namorado da Beatriz — respondi, sustentando o olhar. Minha voz saiu firme, mesmo com o sangue batendo no ouvido. — Respeito o Paulo. Respeito a casa.

Ele deu um riso curto, seco, sem abrir a boca. Batia o saco de gelo na borda de metal do freezer. Tuck. Tuck.

— Respeito é palavra bonita. Todo mundo usa antes de fazer besteira. — Ele me entregou o gelo. A sacola pesada, gelada, molhou minha mão. — Se você quebrar o coração da garota, o Paulo chora. Eu não choro. Eu resolvo.

— Não vou quebrar nada.

— Acho bom. Pega esse gelo e leva para lá.

Ele passou por mim na escuridão, dando um tapa seco no meu ombro — não um carinho, uma medição de força. Fiquei três segundos sozinho no corredor. O suor na minha testa agora era frio. Enxuguei no braço da camisa. A calcinha da Helena na minha mão ainda parecia um fantasma nos meus dedos. Aquele cheiro.

Voltei para a cozinha.

A Helena estava no mesmo lugar, mas já tinha limpado a pia. Tinha um pano limpo na mão, o cabelo ajustado num rabo de cavalo rápido. Quando entrei, o olhar dela bateu no meu, rápido como um estalo de chicote. Pavor seco.

— Ficou no fundo — falei alto o bastante para o Fernando ouvir da varanda.

Coloquei o saco de gelo no balcão. A Helena não se aproximou. Pegou um pegador de inox e começou a encher o balde sem olhar para mim.

— O Fernando é cismado — ela murmurou, sem mover os lábios, a cabeça baixa sobre o gelo. — Ele desconfia até da própria sombra.

— Ele não sabe de nada — falei baixo, encostado na geladeira. — Mas tá olhando.

— Se ele desconfiar, Rafael... ele conta para o Paulo no mesmo dia. Ele odeia a ideia de ver o Paulo de bobo.

— Então você para de me procurar no retrovisor.

Ela parou com o pegador no ar. Olhou para mim. A luz amarela do exaustor pegava no pescoço dela, na clavícula, na curva do vestido onde o peito subia rápido. Os olhos dela tinham um brilho de raiva e de fome. O cheiro do perfume doce era o mesmo de quando transamos na cama dela.

— Você gosta do perigo — ela sussurrou. — Não joga a culpa só em mim. Você veio por trás na pia sabendo que ele estava na varanda.

Não respondi porque ela tinha razão.

A Helena pegou o balde de gelo e saiu para a varanda com os passos firmes de quem não devia nada a ninguém. Mulher cascuda. Sabia atuar melhor do que eu.

Fui para o segundo andar. O corredor de madeira rangia fraco. Entrei no quarto.

A Beatriz estava deitada de lado, coberta até a cintura por um lençol fino. A janela aberta deixava entrar o vento com cheiro de sal e o barulho ritmado do mar. A respiração dela parecia calma, mas quando tirei a camisa e sentei na ponta da cama, a estrutura de madeira deu um estalo seco.

A Beatriz não estava dormindo.

Ela virou o corpo devagar, puxando o lençol para baixo. Estava só de calcinha de renda e uma regata curta. Os olhos brilhavam na penumbra do quarto.

— Demorou na cozinha... — ela murmurou, a voz manhosa, cheia de intenção.

— O gelo estava no fundo. O tio Fernando deu aula de moral.

— Esquece o Fernando. — Ela se arrastou pelo colchão, esticando a mão por trás da minha cintura até achar o cós da minha bermuda. A mão dela desceu direto, sem curva, prensando o pau ainda ereto contra o pano. — Caramba, Rafael. Você tá assim por causa da praia?

Engoli em seco. O corpo dela encostou no meu, quente, macio.

— Pensei que você estivesse moída de sono — falei.

Ela deu um sorriso sapeca, mordendo o lábio. Puxou minha bermuda para baixo junto com a cueca, sem me dar tempo de pensar.

— Tô moída, mas não sou cega. Vi você o dia inteiro tenso. Vem cá.

Deitei do lado dela. Ela se virou de costas para mim, colando a bunda na minha virilha. O encaixe perfeito de ladinho. Levantou a regata até as costas e puxou a calcinha de lado só o suficiente para liberar o caminho.

— Bem quietinho — ela sussurrou no meu ouvido, segurando meu punho e levando minha mão até o peito dela. — Sem fazer barulho. Essa cama de madeira é um perigo. Se ranger muito, o tio escuta lá da varanda e meu pai se liga.

Ela deu uma empurradinha para trás, guiando a cabeça do pau na entrada da buceta molhada. Entrou de uma vez, macio e quente. A Beatriz soltou um suspiro abafado, cravando as unhas na minha mão.

O desafio era a madeira. Qualquer movimento mais forte fazia a cabeceira de jatobá estalar contra a parede de tabuado da casa.

Tive que segurar no quadril dela com força, firme, controlando o ritmo milímetro a milímetro. Nada de estocadas fundas ou rápidas. Era um jogo de pressão contínua, deslizando lento, quase sem mover o colchão. O ranger da estrutura ameaçava começar a cada arfada dela. Um estalo fraco da madeira ecoou. Ela travou o corpo no mesmo segundo, mordeu a ponta do travesseiro para abafar um gemido e deu um tapinha leve na minha coxa.

— Cuidado... mais devagar... — ela murmurou contra o pano.

​Ajeitei o ângulo. O suor brotou na minha nuca, não pelo esforço, mas pela corda bamba. No andar de baixo, o Fernando bebia mais um uísque; a Helena talvez estivesse na sala, ouvindo o teto ranger. E ali, com a filha dela prensada contra mim de lado, o cheiro de suor doce da Beatriz se misturava com a lembrança do perfume da mãe na minha pele.

​A Beatriz começou a contrair a musculatura por dentro, apertando com força, num ritmo curto e contínuo que me levou ao limite sem precisar chacoalhar a cama. Ela gemeu baixinho, um som sufocado no tecido do travesseiro, o corpo todo tremendo na minha frente.

​Gozei fundo, segurando o quadril dela travado contra o meu, dentes cravados no próprio lábio para não soltar um som. A estrutura de madeira nem se mexeu.

​Ficamos congelados por alguns segundos, ouvindo apenas o vento lá fora e a nossa própria respiração descompassada.

​Ela soltou o travesseiro, respirando fundo, e virou o rosto para trás com um sorriso vitorioso.

​— Viu? Profissional — ela sussurrou, passando a mão no meu rosto. Puxou a calcinha de volta e se ajeitou no meu peito. O leite todo lá dentro. — Agora sim você pode relaxar esse ombro.

​A Beatriz encostou a cabeça na minha clavícula e, em menos de dois minutos, o peso do sono pegou ela de verdade.

​Abracei a filha com o cheiro do perfume da mãe ainda impregnado no meu braço. Passei a mão no cabelo da Beatriz, os olhos fixos no teto de madeira que não tinha entregado nada.

Lá embaixo, uma porta bateu fraca.

​A noite em Angra apenas começava...

(continua)

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