Preparada, mas não sabia! - Cap 18 - Quinze dias cabem uma vida inteira!
Herança, Transformação, Mudança sexo, Hormonização, Crossdresser.
(Esta série é uma obra de ficção cientifica, não contem pedofilia, nem crimes. Os personagens são adultos e livres. Passagens relacionadas ao passado, são apenas para contextualização das atividades seguintes. Nomes e detalhes identificáveis foram modificados para a preservação dos envolvidos.
Os resultados demorariam cerca de quinze dias. Quinze dias. Nunca um prazo tão pequeno pareceu tão longo. Voltei à empresa.
Ou melhor...
Voltei tentando fingir que nada tinha mudado. O problema é que tudo tinha mudado. Na reunião da segunda-feira eu usava camisa social masculina. Relógio. Sapato. Cabelo penteado exatamente como sempre. Por dentro, porém, parecia estar interpretando um personagem. Durante uma apresentação do financeiro, me peguei olhando para uma diretora.
Não para ela. Para o jeito como ela segurava a caneta. Como cruzava as pernas. Como prendia o cabelo enquanto explicava um gráfico. Antes eu reparava se uma mulher era bonita. Agora eu estudava gestos. Isso me assustava. No almoço encontrei Alexandre. Ele continuava igual. Ou talvez eu fosse quem estivesse diferente.
— Tá com uma cara estranha.
Ri.
— Últimos meses.
Ele respirou fundo.
— Achei que fosse empresa.
Pensei em contar. Quase contei. Mas não consegui. Ainda não. À noite continuei dormindo na casa da Samantha. Sem perceber, aquela casa começou a ganhar rotina. Fernandinha já deixava algumas roupas lavadas.O cachorro passou a dormir na porta do meu quarto.
E Samantha...
Parou de perguntar se eu queria experimentar roupas. Ela simplesmente deixava o guarda-roupa existir. Curiosamente isso fez diferença. Quando ninguém esperava nada de mim… Eu mesmo começava a abrir aquelas portas. Uma noite aconteceu algo pequeno. Mas inesquecível.
Estava escovando os dentes. De frente para o espelho. Sem maquiagem. Sem vestido. Só camiseta larga. Olhei meu reflexo. Por impulso falei:
— Boa noite.
Depois ri. Porque percebi outra coisa. Eu já não dizia "boa noite, Marcos". Também não dizia "boa noite, Kelly". Só dizia boa noite. Talvez fosse pouco. Talvez fosse enorme.
Dois dias antes dos resultados, Samantha encontrou uma caixa esquecida no armário inferior. Dentro havia cadernos. Desenhos. Croquis. Todos feitos pela mamãe. Modelos de roupas. Vestidos. Casacos. Conjuntos. Em cada folha havia uma pequena anotação.
"Acho que esse azul ficaria lindo nela."
"Quando ela tiver vinte anos..."
"Talvez prefira um corte mais moderno."
Parei na última página. Não havia desenho. Só uma frase.
"Mesmo que eu nunca veja, espero que ela um dia se enxergue."
Fechei o caderno. Chorei baixinho. Dessa vez não por culpa. Mas porque comecei a acreditar que talvez aquela esperança nunca tivesse exigido pressa. Na véspera da consulta, quase não dormi. A pasta dos exames ficou na cadeira ao lado da cama. Olhei para ela umas dez vezes. Era engraçado. Os resultados ainda nem tinham sido abertos. Mesmo assim pareciam capazes de dividir minha vida em antes e depois.
