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Capítulo 14 – O Protocolo Ônix, a Volta à Linha de Fogo e as Sombras de Gibraltar | Parte 3 – A Reativação do Protocolo Ônix | Parte 4 – O Estreito de Gibraltar e o Salto na Tempestade

Um conto erótico de Normal
Categoria: Heterossexual
Contém 4410 palavras
Data: 10/09/2026 03:38:26
Última revisão: 10/09/2026 18:22:48

Parte 3 – A Reativação do Protocolo Ônix

A calmaria tensa do apartamento temporário de Fred foi estourada na noite seguinte.

O visor de seu aparelho funcional criptografado piscou em uma sequência rápida. A chamada vinha de uma linha fantasma da Inteligência.

Ao atender, a voz de Helena Costa surgiu revestida de um tom de urgência severa:

— Fred, temos novidades. E não são nada boas. — disparou Helena.

— Mauro terminou o processamento dos dados do celular e do notebook que o Renato usava. Descobrimos que ele não usou e nem chegou a tocar na infraestrutura de transporte da Alves Participações, mas ele já tinha um planejamento logístico inteiramente montado e estruturado para isso. O plano dele e do deputado Brazino era assumir o controle absoluto da distribuidora em paralelo com a destruição do seu casamento. No instante em que você fosse afastado por Beatriz devido à traição, o Renato assumiria a presidência e colocaria toda a malha logística da empresa a serviço de uma célula de terroristas árabes indicada pela máfia russa de Viktor Kovalenko.

Fred sentiu a queimação nas duas costelas quebradas, quase completamente curadas, pulsar com força enquanto ouvia o relatório técnico:

— E a ameaça iminente, Helena? Qual o alvo deles?

— O deputado Brazino abriu a boca no interrogatório — revelou Helena.

— Ele confessou que apresentou um intermediário desses grupos árabes para o Renato e, semanas depois, ouviu os comentários sobre os detalhes de um ataque. Eles estão acelerando os preparativos para um atentado bombardeio de grandes proporções contra a Embaixada dos Estados Unidos em Rabat, no Marrocos, utilizando exatamente o mesmo método marginal empregado nos mesmos moldes do ataque catastrófico que destruíra as embaixadas americanas em Nairóbi, no Quênia, e em Dar es Salaam, na Tanzânia, anos atrás. O General Vance acionou o conselho. Como a Alves Participações recebe convites constantes do mercado para expandir as rotas legítimas na costa marroquina, o seu disfarce de CEO é a única peça limpa do tabuleiro para aproximar a equipe sem acionar os sensores de contra-vigilância do inimigo. O Protocolo Ônix foi reativado. Precisamos de você na linha de frente.

Menos de duas horas depois, Fred ativou o terminal de vídeo de seu apartamento.

As telas de alta resolução abriram o link via satélite com toda a Força-Tarefa internacional em Berlim, enquanto Helena Costa e Mauro coordenavam os logs operacionais da sala comercial em Brasília.

Do outro lado da transmissão digital, na base avançada da Virgínia, a silhueta imponente do General Arthur Vance dividia o enquadramento com uma presença que não aparecia em cena há anos: o General aposentado Avi Ben-Gal, um dos célebres membros fundadores da Força-Tarefa Janus.

Ben-Gal permanecera afastado dos circuitos operacionais nos últimos tempos devido ao gerenciamento de uma grave crise de vazamento de dados de inteligência no Mediterrâneo Oriental, mas a iminência de um ataque diplomático o trouxera de volta à mesa de comando.

— Frederico, o tempo de descanso acabou — ditou Avi Ben-Gal, a voz linear roçando o microfone com a crueza de um veterano do Mossad.

— Eu retornei para coordenar essa extração e garantir que a assinatura tática da Janus permaneça invisível. O Lucas Beaumont e o Ilan Mizrahi já estão se deslocando de Marselha e vão se infiltrar com você como consultores de riscos portuários. O Tom Sterling e o Alejandro Vargas darão o suporte de perímetro ocultos na malha urbana de Algeciras. A abordagem de validação com os intermediários árabes ocorrerá estritamente em movimento, durante a travessia marítima.

— O plano de infiltração exige precisão milimétrica — ditou o General Vance através do canal seguro.

— Fred, sua identidade empresarial será o álibi para o encontro de validação de carga. Se a inteligência de sinais falhar, a extração tática entra em modo de combate imediatamente.

Fred Alves revisava as cartas táticas projetadas na tela quando o ruído de passos no assoalho o fez girar o tronco com rapidez.

Jonathan estava parado no vão da porta do quarto do apartamento.

O jovem viera trazer uma pasta de documentos corporativos para Fred analisar e parara estático ao testemunhar a videoconferência militar.

Seus olhos verdes cruzaram com os de Fred, tomados por um choque profundo ao ver os rostos dos generais estrangeiros, dos membros da Força Tarefa e de Helena e Mauro na tela.

Fred cortou imediatamente o áudio e a recepção do terminal tático, voltando-se para o filho:

— Jonathan, você não deveria estar aqui. Essa conversa exige isolamento.

— Você vai viajar de novo, pai? Vai cruzar o oceano para se enfiar em mais uma operação? — perguntou Jonathan, com a voz embargada de um jovem de que via o lar desmoronar, despido de qualquer jargão técnico.

— Jonathan, você quebrou o protocolo de segurança entrando aqui. Essa missão é confidencial de segurança internacional.

— Eu não me importo com o protocolo agora! — rebateu Jonathan, dando um passo à frente, o peito sacudindo sob a camisa de lona.

— A minha mãe está definhando no sofá do Lago Sul com as náuseas da gravidez e destruída por causa da separação de vocês, dos tiros e do flagrante da cesta, e você vai cruzar o oceano para caçar terroristas árabes? Você vai mentir para ela de novo?

Fred deu dois passos lentos, segurando os ombros do filho com firmeza paterna, a fisionomia marcada por uma seriedade dolorosa:

— Escuta bem, Jonathan. Eu preciso que você me ouça e entenda o motivo desse silêncio.

— Eu não vou mentir. Eu vou omitir os detalhes táticos para protegê-la, como sempre procurei fazer. — respondeu Fred, a voz linear e gélida de quem mantinha a disciplina de campo.

— A sua mãe está grávida. O corpo dela está frágil, debilitado pelo trauma de ter levado aqueles tiros no estacionamento para me salvar e pelo sofrimento dessa separação. Se ela receber a notícia de que eu estou entrando em uma missão de alto risco contra terroristas árabes no Norte da África, o estresse emocional e o pânico vão fazê-la abortar. Ela pode perder essa criança, Jonathan! Independentemente de quem seja o pai desse bebê, aquela vida que cresce ali dentro é inocente e não pode pagar o preço ou sofrer pelas nossas crises. Eu vou dizer para a sua mãe que preciso fazer uma viagem administrativa rápida para a Europa para assinar os papéis finais da minha aposentadoria da Força-Tarefa. Ela vai acreditar que é apenas um rito burocrático e vai manter a calma.

Jonathan travou os dentes, os olhos fixos nos do pai, processando o peso do argumento. A segurança da mãe e do bebê era a única variável que importava.

— Eu discordo totalmente desse método, pai... é o mesmo circuito que nos trouxe até essa ruína.

— Eu preciso que você concorde com isso e me dê a retaguarda no Brasil. Faça isso pela segurança dela e da criança.

Jonathan engoliu em seco, olhando fixamente nos olhos verdes do pai.

A crueza humana daquele argumento desarmou a sua resistência.

Ele percebeu o peso do fardo que Fred carregava nas costas para poupar quem amava.

— Tudo bem, pai... eu guardo o segredo — respondeu Jonathan, a voz baixa, abraçando o pai com uma urgência comovida. — Mas volta vivo. A mamãe não vai aguentar se alguma coisa acontecer com você. E só estou concordando única e exclusivamente pela saúde do bebê e da mamãe.

Na manhã seguinte, Fred compareceu brevemente à residência do Lago Sul. Diante de Beatriz, que o recebeu com o colar de safira no pescoço e a palidez estampada no semblante, decorrente do momento emocional em que passava por conta da separação, tiros e da gestação, ele manteve a fisionomia perfeitamente controlada.

Contou apenas que precisava fazer uma viagem rápida e burocrática para a Alemanha para assinar os documentos de sua saída da Força-Tarefa e encerrar o vínculo institucional.

Beatriz, fragilizada e exausta pelo inverno emocional, aceitou a resposta com um aceno triste, vendo-o partir rumo ao aeroporto.

Parte 4 – O Estreito de Gibraltar e o Salto na Tempestade

Quarenta e oito horas depois, o cenário mudou para as águas escuras e violentas que dividiam a Europa e a África.

O encontro tático de validação com os intermediários do grupo extremista fora marcado para ocorrer a bordo de um imenso ferry-boat de passageiros e veículos que realizava a travessia regular do Estreito de Gibraltar, cortando a rota marítima entre o porto de Algeciras, na Espanha, e o porto de Tânger, no Marrocos.

A noite caíra sob o açoite de uma tempestade violenta do Mediterrâneo. Ondas massivas de mais de seis metros de altura sacudiam o casco do navio com solavancos brutais, enquanto a chuva torrencial e o vento de quarenta nós castigavam o convés superior descoberto.

Fred Alves, Ilan Mizrahi e Lucas Beaumont operavam camuflados como executivos de logística em uma cabine privativa da primeira classe, mantendo os fones de escuta passiva sintonizados com Tom Sterling na retaguarda.

O planejamento corria de forma precisa, pois após um breve encontro com o homem que transportava os planos do ataque, que estava acompanhado de seguranças, Fred conseguiu acesso ao computador sob a desculpa de refazer as rotas planejadas por Renato, que havia falecido, e já extraía os pacotes de dados das cargas de armas e explosivos que seriam utilizados no ataque do notebook do alvo, quando a segurança da missão colapsou de revés.

Um dos seguranças, que era um guarda de elite árabe, um veterano de combates periféricos que operara em uma zona de conflito no Oriente Médio anos atrás, fixou os olhos na fisionomia de Ilan Mizrahi, que estava observando à distância, ao passar por ele através do corredor do navio.

O reconhecimento foi instantâneo e preciso; o extremista identificou pelas cicatrizes no braço o major israelense de um engajamento antigo na Cisjordânia:

— Yahudi! É o Mossad! É uma armadilha! — gritou o terrorista em árabe, puxando uma pistola por baixo do casaco pesado.

O outro segurança correu em seu auxílio, também sacando sua arma, juntamente com o portador do notebook, que havia caído na armadilha criada por Fred.

O tiroteio explodiu violento e ensurdecedor no corredor estreito do navio.

Os estalos de pólvora e os estilhaços de madeira das divisórias transformaram o habitáculo em uma zona de engajamento letal.

Fred Alves, agindo com precisão cirúrgica, desferiu dois disparos no tórax do terrorista, enquanto Lucas Beaumont aplicava uma torção de contenção contra o segundo sentinela, que veio a ser baleado por Ilan, que já havia acertado o segurança que o reconhecera.

Em frações de segundo, todos os terroristas árabes presentes no corredor foram completamente abatidos e neutralizados pela reação rápida da equipe.

No entanto, a cobertura tática fora totalmente comprometida pelo ruído dos disparos.

— Protocolo de evasão agora! Limpar o perímetro! — comandou Fred através do transceptor do relógio.

Para evitar um embate armado direto contra a equipe de segurança civil do ferryboat, o que resultaria na retenção dos agentes pelas autoridades portuárias marroquinas, filmagens em câmeras e a exposição mundial do disfarce de Fred, os três agentes correram em direção à amurada traseira do convés descoberto, sob o açoite da chuva fria.

Diante do abismo de metal e das águas escuras e revoltas de Gibraltar que rugiam trinta metros abaixo, Fred, Ilan e Beaumont não hesitaram: ajustaram os coletes de flutuação e saltaram sincronizados na imensidão da tempestade noturna, mergulhando no oceano para salvar a integridade da Alves Participações e da Força Tarefa.

Antes de saltar, conseguiram informar Sterling do que havia acontecido e Chicca, que permanecera em Berlim, entrou em contato com o General Vance para que a CIA apagasse remotamente os registros de vigilância do navio para preservar a identidade dos agentes, em especial de Fred.

O impacto contra a superfície gelada foi brutal, jogando os agentes na escuridão dos canais de sucção das turbinas.

As correntes marítimas violentas do estreito, agudizadas pelo mau tempo severo, arrastaram os três operadores para longe de qualquer rota de navegação comercial padrão.

Eles sumiram no vácuo dos radares, dando início a um hiato de agonia que paralisou as centrais de inteligência em Brasília e na Virgínia.

Parte 5 – O Desespero Oculto no Lago Sul

Em Brasília, já passava das três horas da manhã quando o telefone de Jonathan Alves vibrou em seu quarto na cada da família no Lago Sul.

Ele atendeu com pressa, ouvindo a voz trêmula de Helena Costa através da linha segura:

— Jonathan... nós temos uma situação grave em campo — revelou Helena, a aflição explodindo no microfone.

— A cobertura em Gibraltar foi comprometida. O Ilan foi identificado, todos os terroristas foram abatidos, mas o seu pai e os outros precisaram saltar do navio no meio do oceano para não expor a missão. Eles estão à deriva nas águas do estreito há mais de doze horas. Os dispositivos de localização passivos e os GPS dos três estão falhando devido à interferência da água e da tempestade. A escuridão da noite e o mau tempo severo estão dificultando completamente as buscas pelas equipes de resgate da Marinha espanhola. Estamos operando no escuro.

Jonathan sentiu as pernas vacilarem, a caneca de café caindo e quebrando-se contra o piso.

O que ele não percebeu, devido ao choque do pânico, foi que Beatriz acordara com os enjoos da gestação e caminhara lentamente até o portal da biblioteca. Ela permanecera imóvel na penumbra, ouvindo cada palavra do desabafo de Helena através da fresta da porta.

A revelação de que o marido estava perdido no meio de um oceano violento, lutando pela vida em uma missão de guerra, perfurou o restante das defesas estruturais de Beatriz. Ela soltou um grito sufocado, horrorizado, e desabou desmaiada no corredor, o corpo batendo inerte contra o tapete persa.

— Mãe! — gritou Jonathan, largando o telefone e correndo para ampará-la.

— Jonathan! O que houve! — gritou Helena do outro lado da linha, sem obter resposta.

O clamor acordou Maria e Larissa, que correram pelo corredor, encontrando Jonathan tentando reanimar Beatriz na penumbra.

Elas ergueram o corpo desfalecido da executiva com cuidado, deitando-a na cama de casal vazia da suíte principal.

Maria trazia panos com álcool, enquanto Larissa monitorava a pulsação dela.

Quando os olhos azuis de Beatriz finalmente se abriram lentamente, o terror da situação desabou em seu peito.

Ela começou a chorar de forma compulsiva, descontrolada, soltando urros de aflição que faziam o colar sacudir contra o pescoço:

— O Fred vai morrer por minha causa, Larissa... ele foi para aquele inferno porque eu destruí a nossa casa! Ele se jogou no mar! — gritava Beatriz, em meio a espasmos de puro pânico.

Larissa manteve-se firme ao lado do leito. Ela preparou um copo com água e dissolveu o medicamento ansiolítico leve para acalmar os nervos da gestante em situações de estresse extremo.

Segurou a cabeça de Beatriz com delicadeza e a induziu a engolir a dose:

— Bebe isso, dona Beatriz... por favor, faça isso pelo bebê — pediu Larissa, a voz calma tentando estabilizar o ambiente.

— O Fred vai sobreviver, ele sempre volta. Agora nós sabemos que ele tem treinamento para esse tipo de coisa. Concentre-se somente na vida da criança agora.

O medicamento fez efeito de forma gradual.

O choro compulsivo de Beatriz deu lugar a uma letargia pesada, e ela adormeceu aos prantos contra os travesseiros vazios, mergulhada em um suspense angustiante que duraria o restante daquela madrugada, forçando-a a aguardar o retorno dos fatos.

Parte 6 – O Cerco em Campo e a Nova Consciência

Enquanto a frota naval espanhola cortava as ondas sob as primeiras luzes da manhã para resgatar Fred, Ilan e Beaumont vivos das correntes de Gibraltar após o atraso do mau tempo, a outra ponta da Força-Tarefa desfechava o golpe final em solo europeu.

Tom Sterling e Alejandro Vargas, acompanhados de uma equipe tática da Interpol, montaram uma campana de vigilância avançada nos arredores de um galpão industrial isolado na costa espanhola, monitorando a rota final das armas traficadas.

A equipe passou horas em um silêncio absoluto de rádio, aguardando pacientemente na escuridão até que os sensores confirmaram a aproximação do objetivo.

Um imenso caminhão de carga de placas estrangeiras cruzou o perímetro portuário, estacionando em frente ao galpão. No instante em que os comparsas do falecido Renato rompiam os lacres para descarregar a mercadoria, as equipes da Interpol e da Força-Tarefa fecharam as saídas com SUVs pretas e armas em punho, realizando a captura em flagrante de uma quantidade massiva de fuzis e explosivos plásticos C-4, neutralizando em definitivo a célula terrorista.

No dia seguinte, os principais jornais digitais de Brasília estamparam a notícia com chamadas de grande repercussão:

“Operação internacional com auxílio da Interpol intercepta carregamento massivo de armas no Mediterrâneo e impede atentado planejado contra representação diplomática na África.”

Na biblioteca do Lago Sul, Jonathan Alves lia os desdobramentos na tela do tablet.

Ele olhou para Larissa, que organizava os relatórios sobre o aparador, e comentou com uma voz firme, cheia de um orgulho juvenil genuíno, imaginando que a mãe continuava descansando no quarto:

— Olha isso, Lari... o meu pai conseguiu de novo. Ele saltou daquele navio no meio da tempestade para proteger a nossa empresa, passou a noite inteira flutuando no oceano e ainda assim pegaram todo o carregamento dos caras. Eu tenho um orgulho imenso do homem que ele é. O trabalho dele salva milhares de pessoas que sequer sabem o nome dele.

O que Jonathan não percebeu foi que Beatriz já se levantara da cama, caminhara devagar pelo corredor e estava parada atrás da divisória de mogno, ouvindo cada palavra do filho.

Ela estancou na penumbra, a mão direita subindo para apertar o colar de safira, as lágrimas escorrendo livres enquanto uma clareza absoluta e definitiva assentava em sua alma.

Beatriz deu-se conta, com uma lucidez dolorosa, de que a sua família jamais seria a mesma.

Compreendeu que tentar privar Fred de participar da Força-Tarefa ou exigir a sua saída definitiva da Força Tarefa como condição de perdão seria um erro: isso não apenas não traria o marido de volta para a rotina civil, mas o afastaria ainda mais de seu eixo de equilíbrio. Ela tinha, agora, a perfeita consciência do papel monumental que o silêncio de Fred desempenhava na segurança do mundo, e de como era vital para a alma dele continuar combatendo monstros em campo para honrar a memória da mãe Cristina, que a impunidade tirara dele. Beatriz recuou em silêncio para o quarto, sentando-se na borda do leito. Não havia mais a raiva da mentira ou o orgulho ferido da separação; havia apenas o amadurecimento de uma esposa que aceitara o peso de amar um espião.

Ela acariciou o ventre de doze semanas e decidiu que, independentemente do tempo que levasse, ela aguardaria o retorno de Fred para casa de braços abertos, pronta para tentar reconstruir o lar Alves sobre a fundação da verdade nua e crua, pois algo dentro de si lhe dizia que a história dos dois ainda não havia acabado.

Parte 7 – O Confronto das Máscaras Caídas

O utilitário descaracterizado da Polícia Federal atravessou o portão principal da residência do Lago Sul algumas horas depois do encerramento da operação.

Fred Alves estava no banco traseiro.

Não havia mais vestígio da hipotermia aguda que quase o matara no Mediterrâneo. Depois do resgate, passara por avaliação médica, recebera hidratação, fora mantido em observação e somente embarcara para o Brasil depois de ser considerado estável para a viagem.

O voo de volta da Europa durara aproximadamente nove horas.

Nove horas em que Fred quase não dormira.

A água gelada de Gibraltar já estava longe. A hipotermia havia sido controlada. Mas o corpo ainda carregava as marcas daquilo que acontecera: as duas costelas machucadas, dores musculares, exaustão profunda e a sensação persistente de que ainda conseguia ouvir o mar quando fechava os olhos.

Helena estava sentada ao lado dele.

— Você deveria descansar antes de enfrentar isso.

Fred olhou pela janela.

— Não consigo.

— Ela vai estar com raiva.

— Eu sei.

— Muito.

— Eu sei.

Helena ficou alguns segundos em silêncio.

— Fred...

Ele virou o rosto.

— O quê?

— Você quase morreu.

Fred não respondeu.

— Se a equipe espanhola tivesse chegado algumas horas depois, talvez estivéssemos tendo outra conversa.

Ele passou a língua pelos lábios secos.

— Mas chegaram.

— Chegaram.

— Então estou aqui.

Helena olhou para ele.

— E é exatamente por isso que você precisa entender que chegar vivo não apaga o que Beatriz viveu enquanto achava que você estava desaparecido.

Fred voltou os olhos para a janela.

— Eu sei.

O carro parou.

Fred abriu a porta.

A dor nas costelas respondeu imediatamente ao movimento.

Ele respirou fundo.

— Vamos.

Helena segurou seu braço.

— Uma coisa antes.

— O quê?

— Não tente explicar tudo de uma vez.

Fred franziu a testa.

— Por quê?

— Porque ela não precisa primeiro da explicação.

Pausa.

— Ela precisa olhar para você e perceber que você voltou.

Fred assentiu.

A porta principal se abriu.

Beatriz estava na cozinha com Jonathan.

Ela havia passado as últimas horas tentando imaginar como seria aquele momento.

Não conseguira.

Agora ele estava diante dela.

Vivo.

Pálido.

Cansado.

A mão esquerda apoiada discretamente sobre as costelas.

Beatriz olhou para Helena.

Depois para Mauro.

Depois para Fred.

E a primeira emoção não foi raiva.

Foi alívio.

Um alívio tão intenso que quase a derrubou.

Ela deu um passo.

— Você está vivo.

Fred assentiu.

— Estou.

Ela se aproximou.

Parou a poucos centímetros.

— Você quase morreu.

— Sim.

— Você ficou quanto tempo naquela água?

Fred hesitou.

— Tempo demais.

— Quanto?

Helena respondeu:

— Mais de doze horas até que a localização fosse confirmada e o resgate pudesse ser concluído.

Beatriz fechou os olhos.

A informação atravessou seu corpo.

— Doze horas...

Fred tentou aproximar-se.

Ela recuou.

— Não.

Ele parou.

— Eu ainda estou com raiva.

— Eu sei.

— Eu passei a madrugada achando que você estava morto.

— Eu sei.

— Não sabe.

A voz dela começou a falhar.

— Você não sabe o que foi ficar naquela casa sem saber se eu ia acordar e descobrir que tinha perdido você.

Fred permaneceu imóvel.

— Eu estava com medo de você estar morto.

Ela respirou fundo.

— E agora você chega aqui como se tivesse voltado de uma reunião.

Fred olhou para as próprias mãos.

— Não foi como uma reunião.

— Eu sei.

Ela aproximou-se novamente.

Dessa vez, tocou de leve a lateral do corpo dele.

Fred contraiu o rosto.

Beatriz imediatamente retirou a mão.

— Está doendo?

— Um pouco.

— Mentiroso.

Ele quase sorriu.

— Bastante.

Ela ficou olhando para ele.

A raiva ainda estava ali.

Mas agora havia uma coisa diferente.

Ela conseguia enxergar o homem.

Não o agente.

Não o empresário.

Não o marido que a havia ferido.

O homem que quase não voltou para casa.

— Por que você fez isso?

Fred respondeu:

— Porque precisava terminar a operação.

— Não.

Ela balançou a cabeça.

— Isso é o que você diria para qualquer pessoa.

Pausa.

— Eu estou perguntando por que você foi.

Fred olhou para o ventre dela.

Beatriz percebeu.

— Não.

— Bia...

— Não olha para mim assim.

— Como?

— Como se já soubesse a resposta.

Ele respirou fundo.

— Eu sabia que você estava grávida.

Ela ficou imóvel.

— E sabia que a criança podia não ser minha.

O silêncio ficou absoluto.

Fred continuou:

— Eu sabia disso quando entrei naquela operação.

Beatriz levou a mão ao ventre.

— Então por que foi?

Fred respondeu sem desviar os olhos:

— Porque você e essa criança não tinham culpa de nada.

Ela começou a chorar.

— Você podia ter morrido.

— Podia.

— Por mim.

— Sim.

— Você mentiu para mim de novo, Fred! — disparou Beatriz, a voz subindo em um tom cortante que ecoou pelo granito.

— Você cruzou a porta dizendo que ia assinar uma papelada burocrática de desligamento em Berlim, e eu passei a madrugada de joelhos neste chão, desmaiada e tomando remédio porque descobri que você tinha se jogado no meio de um oceano congelante para caçar terroristas árabes! Você transformou a nossa vida em uma farsa outra vez! Você e o Jonathan montaram uma mentira pelas minhas costas dentro da minha própria casa!

Fred demorou alguns segundos.

— Eu não menti para te enganar, Beatriz... eu omiti o perigo porque precisava proteger você e a vida que cresce aí dentro! — revelou Fred, o tom firme roçando a crueza dos fatos.

— Quando o General Ben-Gal e o Mauro me acionaram para interceptar a carga de explosivos que o Renato ajudou a montar a logística no Marrocos, o meu primeiro e único pensamento foi você. Você acabara de levar dois tiros no estacionamento para salvar a minha vida e estava sob um estresse terrível. Eu tomei a decisão de te manter completamente às escuras para que você não corresse o menor risco de se preocupar e perder esse bebê!

Fred aproximou-se mais um passo, e as suas próximas palavras perfuraram as últimas defesas daquela cozinha com o peso de um sacrifício profundo:

— Eu fiz isso, Beatriz... mesmo sabendo que a contagem daqueles dois meses de atraso bate com o calendário da sua noite no hotel com o Rafael! Eu fiz isso ignorando se essa criança que você carrega pode ser o meu sangue ou o filho do seu ex-namorado! Eu escolhi flutuar exausto a cinco graus no Mediterrâneo para não expor a segurança da sua casa, porque, independentemente de quem seja o pai dessa criança, eu tomei a decisão de que ela não iria pagar com a vida pelo caos que o Renato plantou entre nós! Eu preferi carregar o peso do silêncio sozinho de novo do que ver você correr o risco de perder esse bebê!

A frase atingiu Beatriz como um impacto físico no peito, deixando-a completamente sem ar.

— Você fez isso por uma criança que talvez não fosse sua.

Fred respondeu:

— Mesmo que não fosse minha, eu teria feito a mesma coisa.

Beatriz fechou os olhos.

A frase não apagou a dor.

Não apagou Rafael.

Não apagou as imagens falsas.

Não apagou as mentiras.

Mas abriu uma rachadura na certeza de que Fred havia simplesmente deixado de amá-la.

Ela enxugou as lágrimas.

— Eu ainda não consigo perdoar você.

Fred assentiu.

— Eu não estou pedindo.

— Ainda não.

Ele levantou os olhos.

— “Ainda” não é diferente de “nunca”.

Beatriz não respondeu.

Mas também não mandou que ele fosse embora.

Fred percebeu.

Ele girou os calcanhares com dificuldade, recolheu as chaves e deixou a antiga residência acompanhado por Mauro e Helena, instalando-se isolado em seu apartamento no centro de Brasília.

Naquela tarde, não houve reconciliação.

Houve apenas uma trégua.

Uma mulher que ainda estava furiosa.

Um homem que finalmente entendia que sua intenção de proteger não anulava o sofrimento que causara.

E uma criança de aproximadamente dois meses que, sem saber, havia se tornado o centro silencioso da decisão mais difícil da vida daqueles dois.

Beatriz permaneceu na cozinha deserta, chorando em silêncio contra o peito de Jonathan, iniciando o hiato de tortura que testaria os limites daquele lar.

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Comentários

Foto de perfil de Ramses

Me impressiona de uma tal maneira a sua imaginação que eu fico de queixo caído!!

Vc já leu os livros do personagem Dirk Pitt?

Leia urgentemente se vc não conhece!!!

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Não li. Vou procurar conhecer. Vi que fiz besteira e subi a parte 7 errada.

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Meio brutal a reposta do Fred.

Mas ele está abalado. Em todos os sentidos.

Vejo-o remoendo as falas se perguntando se precisava ser tão duro...

Ou não.

Ou ele já passou do ponto de se questionar...

Enfim, mais um excelente capítulo!

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