Capítulo 14 – O Protocolo Ônix, a Volta à Linha de Fogo e as Sombras de Gibraltar
Parte 1 — O Que Ainda Cabia entre os Dois
A tarde começava a perder a força quando Fred parou o carro diante da casa de Beatriz.
Desligou o motor, mas não saiu imediatamente.
A mão esquerda ainda descansava sobre as costelas.
O movimento tinha se tornado quase automático.
Os tiros de Renato haviam deixado marcas que não apareciam quando ele estava vestido. Por fora, parecia inteiro. Por dentro, cada respiração mais profunda lembrava que ainda não estava.
Inspirou devagar.
A dor respondeu.
Fred esperou alguns segundos.
Depois saiu do carro.
Não havia planejado ficar.
Precisava apenas pegar algumas coisas de Jonathan.
Cinco minutos.
Talvez dez.
Nada além disso.
Bateu à porta.
Nenhuma resposta.
Bateu novamente.
Dessa vez ouviu passos.
A porta se abriu.
Beatriz estava ali.
Cabelos presos de qualquer jeito, rosto sem maquiagem, uma blusa larga e clara. A aparência frágil não combinava com a mulher que ele conhecia.
Ou talvez combinasse demais.
Havia uma pequena rigidez em seus movimentos.
Ela não abriu a porta completamente de imediato.
Fred percebeu.
— Como você está?
A pergunta saiu antes de qualquer cumprimento.
Beatriz sustentou o olhar dele por alguns segundos.
— Melhor.
Fred não pareceu convencido.
— Melhor de verdade?
Ela respirou fundo.
— Estou dolorida.
— Onde?
— Fred...
— Onde?
Ela baixou os olhos, quase sorrindo.
— Na lateral. E um pouco nas costas. Quando me levanto ou me sento, parece que alguém está puxando tudo por dentro.
Fred ficou sério.
— E os curativos?
— Troco duas vezes por dia. A enfermeira vem de manhã e à tarde eu mesma faço o restante.
— Sozinha?
— Consigo.
— Consegue ou está fazendo sozinha porque não quer depender de ninguém?
Beatriz ergueu os olhos.
Por um instante, aquele homem diante dela parecia o Fred de antes.
O mesmo que perguntava se ela havia tomado o remédio.
O mesmo que reclamava quando ela tentava carregar uma caixa pesada.
— Você continua mandão.
— E você continua dizendo que está bem quando não está.
Ela quase sorriu.
— Eu estou bem.
Fred observou a maneira como ela mantinha o braço junto ao corpo.
— Está doendo agora?
— Um pouco.
— Muito?
— Fred...
— Bia.
O apelido saiu baixo.
Ela desistiu de esconder.
— Cinco.
— De zero a dez?
— Mais ou menos.
Ele assentiu.
— Então é seis.
— Você sempre foi péssimo com escala de dor.
— E você sempre mentiu sobre ela.
Ela abriu a porta.
— Entra.
Fred entrou.
O cheiro da casa o atingiu antes de qualquer lembrança concreta.
Café.
Sabonete.
Alguma coisa doce.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Fred olhou discretamente para o sofá.
Havia uma manta dobrada sobre o braço.
Uma almofada apoiava um dos cantos.
— Você está dormindo aqui?
— Às vezes.
— Por causa das costas?
— É mais fácil levantar.
Fred assentiu.
Não comentou.
Mas ficou olhando para a almofada.
— O médico deixou você ficar sozinha?
— Ele recomendou que eu evitasse esforço.
— Isso não responde.
— Eu tenho o Jonathan.
Fred passou a língua pelos lábios.
— É justamente sobre ele que eu vim falar.
Beatriz esperou.
— Ele pode ficar comigo esses dias.
Ela franziu a testa.
— Com você?
— Sim.
— Por quê?
— Porque você precisa descansar.
— Eu consigo cuidar dele.
— Eu sei.
— Então?
Fred deu um passo mais perto.
— Não estou dizendo que você não consegue.
— Parece.
— Estou dizendo que não precisa.
A frase ficou entre os dois.
Beatriz desviou o olhar.
— Ele pode ficar com vocês.
Fred corrigiu imediatamente:
— Com a gente.
Ela olhou para ele.
Fred pareceu perceber o que havia acabado de dizer.
Não voltou atrás.
— Se você estiver de acordo — completou.
Beatriz sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
Não era a ferida.
Era outra coisa.
— Você acha que ele vai querer?
— Ele já perguntou se poderia.
— E você disse?
— Que eu precisava falar com você.
Beatriz assentiu lentamente.
— Então pode.
Fred respirou fundo.
A dor nas costelas voltou.
Ele disfarçou.
Beatriz percebeu.
— Você também está machucado.
— Estou bem.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Cinco?
Fred sorriu de canto.
— Seis.
Ela riu.
Foi uma risada pequena, mas verdadeira.
— Hipócrita.
— Aprendi com você.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio.
Dessa vez, o silêncio não machucou.
Fred passou a mão discretamente pelas costelas.
Beatriz acompanhou o movimento.
— Ainda dói?
— Quando respiro fundo.
— Você deveria estar descansando.
— Estou.
— Fred.
— Estou descansando.
— Você veio até aqui.
— Isso não conta.
— Claro que conta.
Ele olhou para ela.
— Eu precisava ver você.
A frase saiu simples.
Sem preparação.
Sem intenção de causar efeito.
Mas causou.
Beatriz segurou a respiração.
Fred percebeu.
— Para saber se estava mesmo bem — acrescentou.
Ela assentiu.
— Estou.
— Eu sei.
Ela franziu a testa.
— Como sabe?
— Porque você está reclamando.
Beatriz sorriu.
— Isso é algum tipo de diagnóstico?
— Para você, é.
Ele sorriu também.
A tensão diminuiu.
Por alguns segundos, eram apenas Fred e Beatriz.
Não o casal separado.
Não as duas pessoas tentando sobreviver ao estrago.
Apenas eles.
— Quer café? — ela perguntou.
Fred hesitou.
— Você deveria estar descansando.
— Fazer café não vai me matar.
— Você acabou de levar um tiro.
— E sobrevivi.
Ele não respondeu.
Aquela palavra pareceu pesada demais.
Beatriz caminhou até a cozinha.
Fred a acompanhou.
Ela fez um movimento um pouco mais brusco ao alcançar o armário.
Parou imediatamente.
Fechou os olhos.
Fred segurou seu braço.
— Devagar.
Ela ficou imóvel.
— Eu consigo.
— Eu sei.
Ele não soltou imediatamente.
A mão dele permaneceu em seu braço por um segundo a mais.
Depois se afastou.
Beatriz abriu o armário.
— O café está aqui.
Fred pegou o pacote.
— Você mudou.
— O quê?
— A marca.
— Faz meses.
— Você gostava da outra.
— Você lembra?
Ele olhou para ela.
— De algumas coisas.
Beatriz apoiou a mão na bancada.
— Algumas?
— Das importantes.
Ela não respondeu.
Fred começou a preparar o café.
O movimento era familiar.
Água.
Filtro.
Pó.
A medida exata.
Beatriz observou.
— Você continua colocando demais.
— Você continua reclamando.
— Porque fica forte.
— Você sempre tomou.
— Porque você fazia.
Fred parou por um instante.
Olhou para ela.
A frase havia saído novamente sem que Beatriz planejasse.
Ela desviou o olhar.
O café terminou.
Fred serviu uma xícara para ela.
Não colocou açúcar.
Beatriz segurou a xícara.
— Você lembrou.
— Você não usa mais.
— Não.
— Eu sei.
Ela tomou um pequeno gole.
— Está bom.
Fred sorriu.
— Mentira.
— Um pouco.
Ele serviu o próprio café.
Tomou um gole.
Fez uma careta.
Beatriz riu.
— Forte?
— Muito.
— Eu avisei.
— Você avisou depois que eu fiz.
— Detalhes.
A risada dos dois desapareceu devagar.
Mas deixou alguma coisa no lugar.
Uma familiaridade.
Uma lembrança de como era estar juntos sem precisar medir cada palavra.
Beatriz caminhou até a sala.
Sentou-se devagar no sofá.
Fred acompanhou o movimento com atenção.
— Cuidado.
— Eu sei.
— Você está fazendo força.
— Porque se eu não fizer força, eu não me sento.
Fred balançou a cabeça.
— Vem.
Ele ajeitou a almofada atrás das costas dela.
Beatriz não protestou.
Quando terminou, Fred percebeu que havia feito aquilo exatamente como fazia anos antes.
Apoiou a almofada.
Abaixou um pouco o encosto.
Testou com a mão.
— Melhor?
Beatriz recostou-se.
— Melhor.
Fred assentiu.
— Ótimo.
Ele deu um passo para trás.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer.
A resposta veio automática.
Os dois perceberam.
Beatriz passou os dedos pela borda da xícara.
— Você lembra de quando eu machuquei o joelho na viagem?
— Naquela trilha?
— Você carregou minha mochila por três dias.
— Você fingiu que não conseguia andar.
— Eu realmente não conseguia.
— Conseguia sim.
— Não conseguia.
— Você estava rindo.
— Porque você estava reclamando.
— Porque sua mochila pesava uma tonelada.
Beatriz sorriu.
— Você reclamava, mas carregou.
Fred a encarou.
— Sempre carreguei.
A frase pareceu simples.
Mas nenhum dos dois conseguiu ignorá-la.
Beatriz baixou os olhos.
A mão dela foi até o pescoço, quase inconscientemente.
Os dedos tocaram o colar de safira.
Fred percebeu.
Não comentou.
Apenas olhou.
Ela ainda usava.
Depois de tudo.
Ele desviou o olhar.
— Jonathan vai ficar comigo então?
— Se você quiser.
— Eu quero.
— Ele também.
— Então está decidido.
Uma pausa.
— Você vai passar aqui?
Fred olhou para ela.
— Para ver vocês?
— É.
— Vou.
— Mesmo depois que ele ficar comigo?
— Mesmo assim.
Beatriz assentiu.
Não perguntou por quê.
Talvez porque já soubesse.
Fred pegou as chaves sobre a mesa.
— Eu vou deixar você descansar.
Ela levantou os olhos.
— Fred.
— O quê?
Beatriz pareceu procurar uma frase.
Não encontrou.
Então disse apenas:
— Obrigada por vir.
Ele ficou parado.
— Eu queria vir.
Silêncio.
Fred caminhou até a porta.
Beatriz o acompanhou.
Dessa vez, mais devagar.
Quando chegou perto dele, parou.
— Você está respirando melhor?
Fred sorriu.
— Um pouco.
— Mentiroso.
— Talvez.
Ela tocou de leve a lateral do corpo dele, sem pressionar.
Fred ficou imóvel.
— Aqui?
— Mais para trás.
Ela afastou a mão imediatamente.
— Desculpa.
— Não.
Fred olhou para ela.
— Não precisa.
Beatriz sustentou o olhar.
A distância entre os dois era pequena.
Pequena demais para duas pessoas separadas.
Grande demais para duas pessoas que haviam sido marido e mulher durante vinte e um anos.
Nenhum deles avançou.
Nenhum recuou.
Fred levantou a mão e, com cuidado, ajeitou uma mecha de cabelo que havia caído sobre o rosto dela.
O gesto durou apenas um instante.
Beatriz fechou os olhos.
Quando abriu, ele já havia baixado a mão.
— Descansa — disse Fred.
— Você também.
Ele abriu a porta.
Parou.
— Bia?
— Sim?
— Se precisar de alguma coisa...
Ela completou:
— Eu ligo.
Fred assentiu.
— Liga.
Saiu.
Beatriz fechou a porta.
Encostou-se nela.
Ficou ali por alguns segundos.
Depois olhou para o colar de safira.
Passou os dedos pela pedra.
Sentia dor nas costas.
Dor no braço.
Dor na lateral.
Dor quando se levantava.
Dor quando respirava mais profundamente.
Mas nenhuma delas era a que mais importava.
Ela havia acabado de perceber que ainda conhecia cada pequeno gesto daquele homem.
E, pior: ainda gostava de ser cuidada por ele.
Foi até a janela.
O carro de Fred ainda estava parado na rua.
Ele não tinha ido embora.
Estava sentado ao volante, pensando em tudo o que aconteceu. Em tudo que ambos fizeram um ao outro, as mentiras, a traição, e, por fim, no ato de Beatriz em usar seu corpo para protegê-lo em meio ao tiroteio.
Beatriz ficou observando.
Depois de alguns segundos, o carro finalmente partiu.
Ela levou a mão ao ventre.
O sorriso desapareceu.
A realidade voltou.
A gravidez.
A dúvida.
Rafael.
Fred.
Tudo aquilo que ainda não podia ser dito.
Beatriz fechou os olhos.
Talvez houvesse uma chance.
Talvez Fred também tivesse percebido.
Mas, antes de qualquer futuro, havia uma verdade que precisava ser descoberta.
E ela ainda não sabia se aquela criança seria a ponte que os aproximaria novamente...
ou a última coisa capaz de destruí-los.
Parte 2 – A Revelação Destrutiva da Cesta
Os dias seguintes à alta hospitalar de Beatriz arrastavam-se sob um céu cinzento e opressor, carregado pela poeira em suspensão que sufocava Brasília no início de fevereiro de 2026.
Fred Alves se dirigia à residência do Lago Sul unicamente para buscar Jonathan, que havia passado para ver a mãe, e alinhar algumas pendências da Alves Participações.
Sim, era uma desculpa para ver Beatriz, ele pensava. Parecia coisa de adolescente, mas dentro dele era um movimento válido.
Ele ainda se movia com dificuldade, apesar de já ter se passado algum tempo, sentindo a cicatrização das duas costelas quebradas que Renato cravara em seu peito, mas a dor física era completamente anestesiada pelo tormento psicológico que o consumia.
Os tiros que ela levou tentando lhe proteger, a conversa com Beatriz no dia anterior, um início de reaproximação, mexiam positivamente com ele, porém, ele ignorava completamente o segredo que ela guardava a sete chaves com Larissa.
Ele caminhava lentamente pelo caminho de pedra do jardim, a mão espalmada contra o tronco, quando estancou próximo ao hall de entrada.
O portão lateral estava aberto.
Cláudia estava de pé junto à soleira da porta principal, segurando nos braços uma enorme cesta decorada com fitas brancas, flores delicadas, pequenas roupinhas neutras de recém-nascido e sapatinhos minúsculos de lã. Preso ao vime, um cartão timbrado trazia letras cursivas vistosas.
Beatriz abrira a porta de madeira maciça segundos antes, o semblante empalidecendo bruscamente ao dar de frente com a amiga.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Beatriz, a voz saindo em um sussurro tenso, os olhos azuis arregalados de pânico.
Cláudia tentou sorrir, nervosa.
— Eu soube da notícia e... eu queria vir pessoalmente.
Beatriz ficou imóvel.
— Que notícia?
Cláudia ergueu a cesta.
— O bebê.
O silêncio que se seguiu foi devastador, um impacto mais violento do que os projéteis do fuzil atingindo o carro no dia do atentado, mais forte do que os tiros a queima roupa disparados por Renato.
Fred, que ainda não havia sido notado por Beatriz até aquele momento, parado na penumbra da varanda logo atrás delas, ouviu cada palavra e foi então que ela o avistou.
Beatriz virou-se lentamente, o peito subindo e descendo com violência sob o tecido claro de sua blusa.
— Fred... — sussurrou ela, as lágrimas brotando instantaneamente.
Ele olhou para a cesta.
Depois para ela.
A dor que atravessou seu rosto foi pior do que qualquer ferimento físico ou trauma de combate que ele já sofrera em sua vida secreta de agente.
— Você está grávida?
Cláudia percebeu tarde demais o que havia feito. O display de pânico travou em seu rosto.
— Eu achei que ele soubesse...
Beatriz fechou os olhos.
— Cala a boca, Cláudia.
Fred deu um passo para trás, a fisionomia perdendo completamente a cor.
— Por que eu não sabia?
— Porque eu descobri no hospital, Fred, logo após a cirurgia dos tiros... — revelou Beatriz, a voz trêmula roçando o colar de safira que ainda apertava no pescoço.
— Mas estando grávida, o primeiro sinal seria o atraso da menstruação e você sempre foi um relógio, com relação a isso. Há quanto tempo ela está atrasada? – Disse Fred, considerando todos os cenários e informações possíveis.
— Quase dois meses.
Beatriz foi ficando cada vez mais pálida.
— E não me contou.
— Eu ia contar.
— Quando? Ontem estivemos juntos, sozinhos, e você poderia ter falado.
Ela tentou se aproximar, as mãos estendidas em um gesto frágil de súplica:
— Fred, eu precisava entender e digerir o diagnóstico antes. E ele só foi confirmado no hospital.
Ele ficou imóvel, a mente analítica operando com uma precisão matemática cruel sobre os carimbos de datas e a esteira de eventos que Renato orquestrara na empresa.
— Entender o quê?
Beatriz não respondeu rápido o suficiente.
A ausência de uma resposta imediata e convicta foi a resposta final. O tempo de atraso da menstruação, o hotel com Rafael, as contas sendo feitas enquanto olhava para ela e sentindo o chão faltar sob seus pés.
Fred empalideceu ainda mais, e suas palavras cortaram o restante das defesas dela:
— Você não sabe se é meu.
As lágrimas surgiram nos olhos dela, escorrendo livres pelas bochechas pálidas.
— Eu não tenho certeza absoluta, Fred... A minha mente entrou em curto-circuito na noite do hotel com o Rafael. Eu não consigo lembrar com clareza dos detalhes. Eu tenho quase certeza de que ele usou preservativo, mas não posso garantir, porque as lembranças daquela noite... – Ela parou de falar antes que dissesse que se lembrava de ter visto o membro de Rafael sem preservativo após ele ter ejaculado fartamente sobre ela, mas que não lembrava se algum jato fora dado dentro dela antes disso.
A frase o atingiu como um novo disparo no peito. Só que dessa vez não havia colete balístico ou blindagem de nível superior fornecida pela agência para protegê-lo. Fred respirou fundo, mas o ar parecia não entrar em seus pulmões.
— Entendi.
— Não, você não entendeu.
— Entendi perfeitamente.
— Fred, por favor...
Ele olhou para Cláudia, depois para Beatriz, assumindo a máscara rígida e gélida de um operador que isolava o perímetro.
— Eu vim buscar o Jonathan.
— Ele ainda está se arrumando no quarto.
— Diga a ele que eu espero no carro.
Fred virou-se de costas. Beatriz correu e segurou o seu braço com a ponta dos dedos.
— Não vai embora assim.
Ele olhou para a mão dela em seu braço.
Depois fixou os olhos verdes nos dela.
— Eu sobrevivi a tiros de pistola no estacionamento por causa do seu sacrifício, Beatriz. Achei que o pior já tinha passado e que o sangue que você derramou por mim zeraria o nosso tabuleiro e poderíamos tentar reconstruir a nossa vida, agora, sem mentiras e segredos.
Ela soltou o braço dele, destruída, sentindo o peso daquela condenação silenciosa.
— Fred...
— Eu preciso sair antes de dizer alguma coisa que nós dois não consigamos esquecer pelo resto da vida.
Ele caminhou até o utilitário com passos firmes e travados.
Beatriz ficou parada na porta, chorando de forma compulsiva, vendo o homem que ainda amava se afastar mais uma vez.
Só que agora não havia missão secreta internacional. Não havia sigilo de inteligência.
Não havia Renato.
Havia apenas uma dúvida que ela não conseguira impedir por causa do torpor que sofrera.
Fred não esperou Jonathan.
Esqueceu completamente do filho naquele momento.
Quando o carro de Fred desapareceu rua abaixo, Beatriz virou-se para Cláudia. O rosto dela não tinha mais tristeza. Tinha fúria, os dentes travados.
— Você destruiu tudo.
Cláudia começou a chorar, recuando diante da violência contida na voz da amiga.
— Eu não sabia que ele não sabia. O Gabriel me contou o flagrante do corredor, eu pensei que...
— Você pensou? Foi pensando que ajudou o Renato? Foi pensando que encheu os meus ouvidos sobre as ausências do Fred e trouxe o Rafael de volta para a minha vida quando eu estava desestabilizada? — perguntou Beatriz, e a crueza de suas palavras desfez qualquer álibi.
— Você queria se sentir importante, Cláudia. Queria participar das decisões e corrigir os erros que você mesma ajudou a criar. E agora veio aqui, com essa cesta ridícula de vime, anunciar uma gravidez que nem eu tive coragem de processar ainda.
— Bia...
— Não me chama assim. Sai da minha casa.
— Por favor...
— Sai.
Cláudia pegou a cesta com as mãos trêmulas, mas Beatriz a impediu com um gesto brusco, segurando a alça de vime:
— Deixa.
Cláudia ficou sem entender.
— Eu não quero que você leve isso porque não quero que você use esse bebê como desculpa para tentar voltar a frequentar esta casa e simular um apoio que eu não quero.
Cláudia baixou a cabeça e saiu em silêncio pelo portão lateral.
Beatriz fechou a porta de madeira maciça com um estrondo definitivo.
A casa mergulhou em um silêncio sufocante.
Ela olhou para as roupinhas infantis sobre o aparador e colocou a mão espalhada sobre o ventre, desabando em um choro descontrolado.
Chorou como ainda não havia chorado desde a chácara.
Porque, pela primeira vez, compreendeu que talvez Renato estivesse morto, mas algumas das mentiras que ele plantara ainda continuavam produzindo tragédias.
E, naquele instante, Beatriz teve certeza de que Cláudia acabara de destruir de vez qualquer chance imediata de reconciliação entre ela e Fred.
Não porque o amor tivesse acabado.
Mas porque a dúvida voltara a ocupar o lugar onde a confiança tentava renascer.
O som do carro do pai sumindo na rua deixou um vazio pesado no ar.
Jonathan terminou de descer as escadas e parou no meio da sala, encarando a mãe.
Seus olhos verdes estavam fixos nela, tomados por uma mistura de choque e mágoa.
— Mãe... o que é tudo isso? Que cesta é essa? — perguntou Jonathan, a voz saindo firme, mas visivelmente abalada.
— O que foi que a Cláudia veio falar que deixou o meu pai daquele jeito? Que história de bebê é essa que eu acabei de ouvir?
Beatriz recuou, levando as mãos trêmulas ao ventre, desabando em um choro sofrido:
— Jonathan, por favor... eu ia contar para vocês. Eu soube no hospital, logo depois da cirurgia por causa dos tiros...
— Você soube no hospital e escondeu isso de nós esse tempo todo? — interrompeu o rapaz, a respiração pesada sacudindo seus ombros largos.
— O meu pai passou a tarde inteira de ontem aqui com você, conversando na cozinha, tentando achar um caminho para nós voltarmos a ser uma família, tentando deixar para lá a sua traição, assumindo os erros dele, e você preferiu guardar essa resposta no escuro? Você agiu igualzinho ao meu pai, mãe! A gente passou a vida inteira sofrendo com os silêncios dele, com as viagens sem explicação... e agora você faz a mesma coisa com a gente? Você não confiou em mim. Não teve coragem de dividir esse peso com o seu próprio filho.
— Jonathan, não me julgue assim! Eu estava com medo, eu não tinha certeza de nada... — soluçou ela, sem conseguir encarar o filho. Em total desespero, Beatriz pegou o telefone e ligou para Larissa.
A chamada foi atendida rapidamente, e a voz de Larissa surgiu no viva-voz, sentindo na hora a gravidade do que acontecia, após uma rápida explicação por parte de Beatriz.
Jonathan se aproximou do aparelho, desabafando toda a sua frustração:
— Larissa! Você sabia disso? Você estava comigo no hospital no dia da alta e guardou esse segredo? Você virou confidente da minha mãe e me deixou totalmente por fora de tudo? Eu achei que entre nós dois não existissem segredos, Larissa! Como você escondeu de mim que a minha mãe está grávida?
Do outro lado da linha, Larissa manteve a voz calma, mas firme, tentando conter o desespero do namorado:
— Jonathan, respira e me escuta, por favor — pediu Larissa, com carinho, mas sem recuar.
— Eu sou sua namorada e te amo mais que tudo, mas eu sou mulher e entendi o sofrimento da sua mãe. A dona Beatriz quase morreu naquele estacionamento para salvar a vida do seu pai. Ela estava destruída, lidando com o trauma do que o Renato fez e com o pânico de não lembrar direito daquela noite no hotel por causa da bebida. Ela não escondeu isso de você por maldade ou por falta de amor, Jonathan! Ela guardou isso porque precisava de um tempo para digerir a notícia antes de encarar o Fred com essa dúvida. O seu pai foi embora agora magoado e ferido no orgulho, é um direito dele! Mas você precisa ser o apoio da sua mãe nessa casa. A sua função agora não é julgar a sua mãe; é ficar ao lado dela e ajudá-la a se acalmar enquanto vocês esperam o tempo certo para fazer o exame de DNA. Fica calmo, Jhonny. Estou indo para aí agora.
O silêncio voltou a tomar conta da sala após o clique do telefone.
Jonathan passou a mão pelo rosto, o peito subindo e descendo devagar conforme o bom senso das palavras de Larissa desarmava a sua raiva.
Ele olhou para Beatriz, encolhida e chorando muito no sofá.
A mágoa por ter sido deixado de fora ainda machucava, mas o amor pela mãe falou mais alto.
Ele deu dois passos, sentou-se ao lado dela e a acolheu em um abraço apertado e silencioso, dando início ao longo e doloroso período de espera que os manteria unidos e em silêncio durante as semanas seguintes.
Todavia, essa espera não seria tranquila, já que os feitos de Renato voltariam para assombrar a família mesmo depois de sua morte.