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A última cadeira do barco

Da série Encontros Gays
Um conto erótico de Mike Jordano
Categoria: Gay
Contém 664 palavras
Data: 09/09/2026 06:04:13

A última cadeira do barco

Mike Jordano

Eu só fui no terminal porque o ar-condicionado do ônibus da orla tinha quebrado e o calor de Vila Velha àquela hora não pedia conversa. Queria vento. Queria água. Queria sumir dez minutos da própria cabeça.

O barco para travessia paralelo à Terceira Ponte estava quase vazio. Sete da noite. O céu ainda claro demais para ser noite de verdade. Sentei na última cadeira, encostei a nuca no vidro e fechei os olhos.

Alguém sentou do meu lado.

Não no banco da frente. Não dois lugares depois. Do meu lado. No barco vazio.

Abri um olho.

Homem. Uns trinta e cinco. Camisa clara aberta no primeiro botão, calça de linho amassada, pulseira simples. Cheiro de sabonete barato e sal. Barba feita pela manhã e já nascendo. Olhos escuros demais para aquele horário.

Não pediu licença.

O motor ligou. O casco bateu na água. O vento entrou pela janela e colou a camisa dele no peito.

— Você sempre senta no fundo? — ele perguntou, sem olhar para mim de frente.

— Só quando quero que ninguém sente do lado.

Ele sorriu de canto.

— Então eu escolhi errado.

— Escolheu certo — eu disse, e me arrependi na hora.

O barco saiu. A cidade foi ficando baixa. As luzes da orla acenderam uma por uma, como se alguém fosse acendendo fósforo na costa. O joelho dele encostou no meu. Não tirou. Eu também não.

A conversa foi curta e inútil. Trabalho. Calor. O preço da cerveja. Tudo desculpa para o silêncio que vinha no meio e doía gostoso. Em algum momento ele olhou minha boca quando eu falei. Eu senti. O tipo de olhar que a gente reconhece mesmo fingindo que não.

Quando o barco diminuiu na outra margem, ele não se levantou.

— Eu desço aqui só se você descer comigo — falou baixo.

— E se eu não descer?

— Aí eu volto no mesmo banco. E a gente finge que isso aqui foi só vento.

Eu desci.

Não fomos para motel. Não teve aplicativo. Não teve foto antes. Fomos andando pela areia ainda quente, longe dos quiosques, até o trecho em que a iluminação da orla falha e o mar fica mais alto que a conversa. Ele parou. Tirou o primeiro botão que ainda restava. O vento fez o resto.

Beijamos como quem não combinou nada e mesmo assim já sabia o ritmo. Boca salgada. Mão na nuca. O corpo dele era firme sem ser vitrine. O meu respondeu rápido demais, sem licença da cabeça. Ele riu no meio do beijo, aquele riso baixo de quem percebe.

— Calma — disse. — A gente tem a volta do barco.

Não tivemos calma.

Foi ali mesmo, entre a sombra de um barranco e o barulho da água, que a roupa desceu só o suficiente. Não foi espetáculo. Foi urgência quente, areia na canela, respiração presa para não chamar farol. Ele me virou de frente para o mar. Eu segurei o antebraço dele. O corpo entrou no meu tempo sem pressa falsa, fundo, certo, como se aquela cadeira vazia já tivesse anunciado o encaixe. O prazer veio grosso, quase raivoso, e os dois gozamos rápido demais para quem fingia que era só uma travessia.

Depois ele ajeitou a camisa. Eu sacudi a areia da calça. Voltamos andando sem se agarrar.

No terminal, o barco da volta já estava lá.

Ele parou na rampa e falou:

— Semana que vem, mesma cadeira.

Eu ia dizer que sim.

Foi quando o celular dele vibrou. Ele olhou a tela, a cara mudou um milímetro, e atendeu:

— Estou saindo do trabalho. Peguei o barco. Daqui a pouco estou em casa.

Olhou para mim enquanto falava. Não pediu desculpa. Não inventou romance.

Desligou.

— Você ainda senta no fundo? — perguntou.

Eu olhei o casco batendo na água. O banco vazio no fim. A cidade acesa do outro lado.

— Depende — eu disse. — Se a cadeira continuar vazia.

Ele entrou no barco primeiro.

Eu fiquei três segundos na rampa.

Aí subi e sentei do lado dele de novo.

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Foto de perfil de Mike JordanoMike JordanoContos: 20Seguidores: 12Seguindo: 5Mensagem Escrevo como vivo: com intensidade. Cada cena, cada parceiro, eu me entrego como se estivesse ali. Sinto sempre a voracidade juvenil para o erotismo, descrevo sexo em todas as formas — hétero, gay, bissexual — com instinto, suspense e finais diferentes.

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