Dio
Eu só passei em casa e peguei umas roupas em uma mochila, e meus materiais escolares, então peguei um táxi e fui pra casa do meu tio, era a escolha mais lógica, longe o suficiente para não me encontrarem, perto o suficiente para ainda ir para a escola.
Eu ia apertar a campainha quando a porta se abriu e dei de cara com meu tio à minha espera, é claro que meu pai tinha ligado para avisar ele. Ele abriu os braços e me joguei nele chorando.
‘Ele abusou de mim tio.’ choro, umas fungadas, meu nariz realmente escorria quando eu chorava, nojento. ‘E o Eric me enganou, ele mentiu pra mim, ele me fez…’
Uma meia hora depois com um relato detalhado estávamos sentados no sofá com minha cabeça em seu colo.
Tio Raí era nosso tiozão, ele sempre recebia a gente no fim de semana, ele adorava Eric e Samuel, eu desconfio que ele foi a maior inspiração para os dois praticarem esportes, ele era dono de uma academia e quando ficávamos com ele era onde passávamos boa parte do tempo.
‘Isso é loucura, eu conheço Sam desde que ele nasceu.’ Meu tio disse incrédulo.
‘Ele não faria isso, só pode ser um mal entendido…’ eu completei.
‘ Olha tico de gente, eu já acompanhei pessoas vítimas de violência sexual no centro comunitário, o trabalho voluntário lembra? Enfim, pessoas que passaram por isso e ainda nutrem fortes sentimentos pelo abusador tendem a criar desculpas, sabe? Maneiras de perdoar o abusador.’
Violência sexual, abusador. Essas palavras, nenhuma delas combinava com o Samuel, não era esse estigma que eu queria para ele.
‘ Seja lá o que você decidir eu estou aqui por você amigão, por todos vocês, mas você precisa me avisar se precisar que eu mate o Samuel ou só quebre as pernas dele, ok?’
Eu abracei meu tio, era bom saber que podia confiar em alguém que me amasse incondicionalmente e que estaria do meu lado não importava as circunstâncias, o tipo de amor que só um membro de uma família amorosa pode proporcionar, mesmo amando Sam e Eric nem meu pai nem ele me questionaram nenhuma vez.
Aquela noite foi uma das mais difíceis para mim, dormir sozinho, sem o calor dos meus irmãos, meu calor não era o suficiente para esquentar a cama, não era o certo, meu corpo doía, aquela fome que parecia apertar meu estômago por dentro, um sentimento de vazio lá no fundo do meu… E isso era provavelmente culpa de Sam, ele estava mesmo socando tudo aquilo dentro de mim toda noite? Que tipo de aberração arrombada eu tinha me tornado para dormir enquanto ele fazia isso comigo?
Meu pai apareceu para almoçar no dia seguinte.
‘ O doutor William convenceu a gente a não fazer nenhuma denúncia contra o Sam ou Eric, envolver a polícia pode gerar registros e ele acabou por nos convencer que é melhor esconder você de gente poderosa por enquanto.’
‘ Ah pai, por favor, isso é exagero dele, não tem nada de interessante em mim’ eu falei enquanto tirava os pratos da mesa. Eu estava de costas quando meu pai e meu tio trocaram olhares preocupados.
‘E mais uma coisa… o pai do Samuel brigou feio com ele ontem.’ eu voltei pra mesa e me sentei na cadeira, chocado com as noticias.
‘O tio Gabriel?! Ele nunca nem sequer levantou a voz pra nenhum de nós…’
‘Foi feio… ele… ele expulsou o Sam de casa.’
‘Ai meu deus!!!’ eu levantei com a mão na cabeça e comecei a caminhar pela cozinha, hiperventilando, meu estômago revirou, eu ia vomitar, eu ainda podia vomitar? ‘Ele tá na rua, pai, a gente precisa ir encontrar ele!’
‘Ele não está na rua… ele está na sua cama, lá em casa.’ Meu pai me disse fazendo uma careta, achando que tivesse feito algo errado. Sam estava seguro. Meu alívio foi tanto que me joguei no colo dele e abracei forte. ‘Eu te amo pai, você é o melhor pai do mundo!’
Ele me abraçou forte de volta. ‘A gente faz o que pode, e o que não pode também…’ Meu tio ergueu a lata de cerveja que ele estava tomando concordando. Meu tio tinha três filhas que tiravam a paciência dele dia e noite, se alguém sabia algo sobre sacrifícios em nome dos filhos era ele mesmo.
Eu coloquei as mãos nos ombros do meu pai e fiz ele prestar atenção em mim, eu queria que ele entendesse o que eu ia falar em seguida. ‘Pai, o Sam não é culpado, ele não é um estuprador, um abusador ou sei lá o que estão dizendo, ele quebrou minha confiança sim, mas não cometeu nenhum crime.’
Meu pai acenou com a cabeça, uma lágrima escorrendo dos olhos. ‘Eu não consigo voltar ainda, eu não consigo encarar os dois, mas cuida deles por mim, por favor?’
‘Eu amo eles como amo você, você sabe disso.’
‘E eu te amo por isso também pai.’
Foi a vez do meu pai ficar sério. ‘Filho, quanto ao que está acontecendo entre vocês…’
Eu interrompi ele ‘Não está acontecendo nada, pai. A gente é novo, só estamos experimentando.’
‘Mas Dio, você sabe que isso vai piorar, você leu os panfletos! Ai meu filho, eu tenho medo de você não estar entendendo a gravidade da sua situação…’
Na noite anterior eu não tinha dormido bem, nessa dormi ainda pior, o problema não era a casa do meu tio, o problema era a ausência deles na cama, é provável que nessa semana eu tenha dormido mais sozinho do que já dormi minha vida inteira, eu sentia falta de usar o peito do Eric de travesseiro, a gente zoava que já tinha uma marca do meu rosto no peito dele, era difícil dormir sem ouvir o coração dele bater. E eu sentia falta do outro, Sam que dormiu a vida inteira com a pélvis colada a minha até decidir que queria dormir dentro de mim. Pensar nisso fez minha barriga e minha área inferior doer ainda mais que na oite anterior, pensar naquilo que ele carregava entre as pernas me fazia queimar por dentro. Minha mão alcançou minha bunda e eu passei o dedo no meu anel. Extremamente sensível, totalmente molhado com o líquido lubrificante, mas não parecia arregaçado, não tinha como ele estar normal se o Sam tivesse entrado nele, ele foi gentil? Ele meteu forte? Esses pensamentos fizeram meu anel pulsar forte e expelir mais líquido. Eric disse que havia ouvido ele urrar toda vez que ele gozava, por que eu não acordei, por que eu não participei? Por que Sam me negou isso? Eu estava com raiva dele, e eu estava com raiva dele por não estar naquela cama comigo.
No dia seguinte antes de ir para a escola eu decidi passar na casa do tio Gabriel, ao lado da minha casa e quando eu passei por ela eu fiquei olhando para a janela do meu quarto no andar de cima, Sam estava lá, jogado na minha cama…
Eu podia entrar na casa do tio, mas decidi bater na porta, eu não tinha certeza de como estava o humor dele então era melhor não invadir o espaço dele. Assim que abriu a porta e deu de cara comigo tio Gabriel deixou o jornal que segurava cair no chão e seus olhos lacrimejaram, ele me puxou para seus braços me erguendo no ar.
‘Me desculpa filho, me desculpa! Se eu soubesse o que ele estava fazendo… Eu deveria ter te protegido!’ Com muito custo eu consegui acalmar ele, fui até a cozinha e trouxe um copo de água para ele. ‘Você está tão forte… com tudo que está acontecendo contigo ainda está aqui cuidando desse velho idiota.’
Eu me sentei ao lado dele no sofá, tio Gabriel me lembrava bastante Sam, só que um pouco mais alto e muito mais magro, com uns fios brancos no cabelo e na barba, mas tudo muito parecido com Sam, não dava pra negar a paternidade ali. Eu me aproximei dele e ele passou o braço no meu ombro, me puxando para mais perto, aquilo era o mais próximo que eu havia ficado de Sam em dias..
Tio Gabriel era mais parecido comigo do que com Sam em comportamento, a gente amava passar a noite assistindo filmes antigos, a gente trocava livros e tinha começado um projeto de fazer uma biblioteca no escritório da casa dele, ia ser nossa biblioteca pessoal, a gente passava um bom tempo visitando sebos da cidade atrás de livros mais raros para adicionar a nossa coleção. Mas tio Gabriel tinha muito orgulho de Sam, seu filho dourado, o atleta de sucesso, a parede de medalhas no quarto, era o mesmo tipo de orgulho que eu tinha dele também, o orgulho de alguém que sabe que nunca vai conseguir realizar aquele feito, mas quando Sam ganha uma medalha é como se a gente tivesse ganhado também. eu não podia imaginar o quanto esse mal entendido tinha machucado ele também.
‘Tio, o Sam não fez nada disso…’
‘Você não precisa fazer isso por mim, ele confessou, você estava dormindo!’
‘Ele não me machucou , ele não me machucou!’ eu expus pro tio o que eu vinha remoendo esses dias ‘Tio, o Sam e o Eric estão extremamente frustrados, o senhor sabia que as meninas vivem dando fora neles? Eu acho que eles ainda são virgens…’
A sobrancelha do tio saltou em surpresa. ‘Oh, sério?’
‘Eu acho que tem a ver com a síndrome cavalar que o médico falou… E aí você tem que pensar bem, a gente estava dormindo juntos, grudado um no outro, pelados, no calor, algum acidente deve ter acontecido, a gente conhece o Sam melhor do que ninguém, eu e você. Ele nunca foi violento ou mal com ninguém.’ o tio se debruçou sobre os joelhos, pensativo e eu coloquei a mão no ombro dele. ‘Não houve estupro, tira isso da cabeça.’
‘Mas você saiu de casa, você não está bem com tudo isso meu filho.’
Eu dei com os ombros ‘Eu tô me sentindo traído, o que eu sei com certeza é que Eric e Sam me manipulam de alguma maneira, eu preciso de um tempo pra pensar, acho que é a primeira vez na minha vida que eu preciso ficar sozinho. Mas o Sam é a pessoa mais importante da sua vida, e da minha também, um de nós precisa estar lá por ele.’
Eu saí da casa do Sam a tempo de pegar o ônibus escolar. Logo nas primeiras fileiras estavam Sam e Eric me olhando com espanto, Sam olhava da porta de sua casa para mim, boquiaberto, ele sabia onde eu estava a pouco tempo, ou talvez ele achasse que eu estivesse dormindo na casa dele, a ironia da hipótese dele procurar refúgio na minha casa e eu ir parar na dele, mas pouco importava.
Eu passei por eles, ao me aproximar Eric primeiro abriu espaço para que eu me sentasse entre eles no lugar usual, mas eu fiz um aceno negativo para ele e passei reto, indo para o fim do ônibus, só quando eu sentei eu percebi que o ônibus estava em silêncio, todos observando a novela ao vivo, devíamos ser o tópico de toda fofoca da escola essa semana, eu nem sabia que tinha gente prestando atenção em mim, mas não era em mim, não é? Eric e Sam eram atletas renomados, os caras mais populares da escola, da cidade talvez, as pessoas estavam sedentas para saber fofocas da vida deles. Eu cobri minha cabeça com o capuz do moletom, meu melhor amigo esses dias e fiquei mexendo no celular durante toda a viagem. Logo os estudantes seguiram a conversa normalmente e tudo voltou ao normal, exceto pelo peso do olhar de Sam que estava sobre mim a viagem toda, mas eu não me atrevi a olhar em sua direção, de canto de olho eu vi Eric arrastar Sam para fora do ônibus quando chegamos na escola. Eu sai do ônibus por último, odiando meu corpo por estar agindo daquela maneira perto de Sam, meu estômago doía, meu corpo assolado por câimbras, e com certeza eu havia molhado o assento do veículo.
