Tamires chegou mais cedo do que o normal e, assim que ela entrou, percebi que estava com um semblante bem alegre. Ela me disse que teve uma aula a menos e, por isso, apareceu mais cedo. Eu a chamei para a sala, e nós nos sentamos no sofá. Manu estava no quarto brincando, mas, assim que ouviu a voz da Tamires, veio correndo e foi direto para o colo da tia.
Ficamos ali as três por um tempo. Perguntei a Tamires como seus pais estavam, e ela disse que o pai estava melhor, mas percebeu que, apesar de disfarçar bem, sua mãe andava meio triste. Tamires comentou que isso provavelmente era por causa de Tânia, que estava envolvida no plano de Rogério, o que causou minha saída de lá. Eu tive que concordar, Helena estava passando por uma situação muito difícil, já que, apesar de tudo, Tânia é sua filha e Helena a ama. Tamires também disse que não estava feliz com a situação; pelo contrário, mesmo não se dando muito bem com Tânia, ela ama a irmã.
Eu sabia que toda essa situação não era ruim apenas para mim; Tamires e Helena também estavam sofrendo com tudo isso. Principalmente Helena, pois eu sinceramente não queria estar passando pelo que ela estava passando. Deve ser extremamente doloroso saber que a filha tomou atitudes tão ruins.
Nossa conversa prosseguiu, e Tamires disse que tinha algo importante para me contar, mas achava melhor não fazê-lo na frente da Manu. Falei que tentaria distraí-la, fui até o quarto, peguei os brinquedos e os coloquei no tapete da sala. Tamires se sentou com Manu e ficou brincando um pouco. Logo Manu se distraiu, e Tamires se levantou e voltou para o sofá. Manu estava em seu próprio mundinho, e eu disse a Tamires que ela poderia me contar o que precisava, pois Manu não daria a mínima atenção ao que estávamos falando.
Tamires— O pai do Rogério apareceu no domingo na hora do almoço lá em casa. Ele foi visitar meu pai, e claro, Tânia e Rogério vieram juntos. Meu pai e ele conversaram por um bom tempo, e todos nós estávamos na sala participando da conversa.
—Foi quando, do nada, o pai do Rogério virou-se para minha mãe e perguntou sobre Manu. Minha mãe disse que ela estava com você na casa dos avós. Ele elogiou Manu, dizendo que adorou conhecê-la e que ela era uma menina linda e muito bem educada. Acho que minha mãe viu uma brecha para te ajudar e comentou que isso era porque Manu era muito bem educada por você, que, apesar de você não ser a mãe, a tratava como se fosse filha e fazia tudo por ela.
—O pai do Rogério disse que a educação de uma criança é algo muito importante e viu que Manu tinha isso em casa, porque ela é um amor de criança. Minha mãe disse que você recebeu isso dos seus pais adotivos e estava apenas passando o que aprendeu para Manu, criando-a com muito carinho e dedicação. Mesmo vindo de um lugar que não te favoreceu, você se tornou uma mulher incrível, honesta, trabalhadora e nunca se envolveu com nada errado.
—Quando minha mãe disse aquilo, parece que mexeu com a curiosidade do pai do Rogério, que quis saber mais sobre você. Minha mãe começou a contar sua história. Eu olhei para Rogério e só pela cara dele dava para ver que ele não estava nada feliz com aquilo. Em um momento, ele resolveu intervir, chamou o pai e disse que já era tarde e que precisavam ir, que em outra hora falariam mais com minha mãe. Porém, o pai dele disse que tinha o domingo todo para ouvir o que Helena estava dizendo, pois não tinha nada importante para fazer e adorava boas histórias. Rogério apenas fechou a cara e ficou sentado onde estava.
—Camila, minha mãe contou sua história toda, as nossas histórias, a de Manu e a de sua irmã. Ela te elogiava a todo momento e, o melhor, meu pai, mesmo sem saber, ajudava. Ele sempre concordava com o que minha mãe falava e muitas vezes ainda acrescentava algo positivo a seu respeito ou sobre Manu. Sei que o pai do Rogério ouviu tudo com muita atenção e depois elogiou muito sua história de vida. Eu sinceramente duvido que Rogério tente inventar algo para o pai ou, se inventar, duvido que o pai acredite cegamente.
—Essa conversa demorou bastante tempo, e o pai do Rogério, ao ir embora, disse que, se possível, gostaria de conhecer você pessoalmente a qualquer hora e também rever Manu.
Camila— Sua mãe foi muito esperta; ela contou a verdade antes de Rogério contar a mentira. Provavelmente, se eu ainda estivesse lá, isso não teria acontecido. Rogério teria inventado a história de que eu mexia com drogas para conseguir o apoio do pai para tirar Manu de mim. Provavelmente, ele não fez isso ainda por achar que eu estou de férias e só voltaria para casa em um mês. Não sei, mas é possível que Tânia vá dar um jeito de colocar drogas lá na minha casa na minha última semana de férias, e, quando eu voltar, eles coloca quem o resto do plano em ação.
Tamires— Provavelmente é isso mesmo que eles pensam em fazer. Por falar em Tânia, ela anda cada vez mais estranha. Quase não fala comigo, não pede para ficar com Manu, ou fica perto dela o tempo todo como fazia antes. Geralmente, ela só chega perto da Manu, dá um beijo na testa dela e sai. Quando demora mais, é porque Manu fala ou pergunta algo, mas mesmo assim ela não rende muito assunto e logo sai de perto. Não sei se é peso na consciência, se é para não levantar suspeitas da sua real intenção e que ela está ajudando Rogério neste plano diabólico, mas que ela mudou o comportamento com Manu, mudou. Fora que raramente vejo ela falar com alguém a não ser com meu pai. Ela anda sempre meio cabisbaixa e parece estar em um mundo à parte. Sabe quando a pessoa fica um tempão olhando para o nada? Ela tem feito muito isso, e não fui só eu que reparei, não. Você pode perguntar à minha mãe para você ver. Minha irmã está cada vez mais esquisita.
Camila— Sabe, eu nunca desejei mal para sua irmã, mesmo depois de ela ter me magoado tanto, isso até o dia em que ouvi aquela conversa. Hoje, sinceramente, quero que ela se exploda. Sinto muito em te dizer isso, mas tomara que seja o carma e que ela pague pelo mal que causou e está tentando causar.
Tamires— Você não tem que se desculpar; ela deu motivos para você dizer o que disse.
Eu estava bem mais animada depois de ouvir o que Tamires disse. Sem a ajuda do pai, Rogério com certeza teria mais dificuldades de conseguir o que queria. Até aqui, as coisas estavam dando certo. Helena provavelmente tinha razão ao dizer que juntas éramos mais espertas do que ele. Quanto a Tânia, fiquei feliz em saber que ela estava estranha e triste. Tomara que ela um dia pague por tudo, tanto ela quanto Rogério. Porém, naquele momento, meu foco era fazer de tudo para que, no fim de tudo isso, Manu continuasse comigo, e todas as pessoas que estavam me ajudando ficassem bem.
Tamires saiu logo depois que expliquei o segredo que pedi a Manu e que achava melhor já pedir isso, porque naquela semana seria difícil arrumar uma desculpa para estar no apartamento do Pedro, caso alguém soubesse. Tamires concordou, dizendo que estava sempre de olho em Manu, mas que todo cuidado era pouco para proteger nosso segredo.
O restante do dia fiquei à toa no apartamento, sem nada para fazer. Baixei um jogo no meu celular e fiquei jogando para me distrair. Isso durou até às três da tarde, quando meu jogo foi interrompido por uma chamada. Eu não tinha o número salvo, mas atendi, e era Laura com outra boa notícia. Ela disse que encontrou um apartamento que poderia me servir. Era um pouco mais longe da padaria do que o atual que eu estava morando, mas não muito longe. Era um apartamento muito bom, e o dono da imobiliária devia um favor a ela, então ele iria me cobrar apenas meio salário no primeiro ano. Depois, se eu decidisse continuar a morar lá, o preço seria um salário por mês. Ela disse que eu também tinha a opção de compra, pelo mesmo preço.
Perguntei como funcionava essa opção de compra. Ela explicou que o dono oferecia essa opção aos inquilinos, com parcelas do mesmo valor do aluguel, mas o preço do apartamento sairia bem acima do valor de mercado. Eu nem perguntei o preço, pois era algo fora da minha realidade no momento. Pedi para ela me passar o endereço para eu ir olhar o apartamento, e assim ela fez. Agradeci e disse que ligaria para dar notícias. Ela pediu para eu mandar mensagem, pois provavelmente estaria com o celular desligado devido a duas reuniões que teria no restante do dia, sem hora para acabar. Concordei e, assim que ela se despediu, saí rapidamente para a rua. Queria saber onde era o apartamento; mesmo que não desse tempo de vê-lo direito, a localização era minha maior preocupação.
Não tinha ideia de onde ficava a rua do endereço, então subi rapidamente até a avenida e parei o primeiro táxi que vi. Perguntei ao motorista se ele conhecia aquele endereço, e ele respondeu que sim. Perguntei se era longe, e ele disse que não, que era no máximo uns três minutos até lá. Pedi para ele me levar, e assim ele fez. O bairro ficava do outro lado da avenida principal, mas a rua estava apenas a uma quadra abaixo. Aquilo já me agradou. Porém, quando ele parou em frente ao prédio e apontou, eu desanimei um pouco. O prédio era bonito, parecia ter apartamentos grandes, mesmo com Laura me falando o preço, na minha cabeça, eu achava que era mais caro. Mesmo assim, decidi olhar para conferir de perto.
Paguei a corrida e fui até o porteiro. Expliquei o motivo da minha visita e disse meu nome. Ele olhou em um caderno e depois pegou uma chave, me entregando. Disse que o apartamento ficava no térreo, no final do corredor à direita. Entrei e vi algo que me agradou: algumas câmeras de segurança em pontos estratégicos. Ali, com certeza, era um lugar onde eu poderia ficar mais tranquila.
Segui as indicações do porteiro, e segui pelo corredor até encontrar o número indicado no final dele. Abri a porta e gostei do que vi: o apartamento era amplo e tinha cheiro de tinta nova. Entrei e olhei todos os cômodos. Havia três quartos, dois menores e um maior com suíte. A cozinha tinha um bom tamanho, com área para lavar roupas e até um espaço gramado nos fundos. O banheiro da suíte era grande e o outro, de um tamanho menor, porém era suficiente. A sala e a copa eram conjugadas; eu amei. Porém, o preço não fazia sentido. Provavelmente, havia algo errado com o apartamento. Olhei tudo, testei as lâmpadas e as torneiras, e não havia nada de errado. Resolvi sair, precisava voltar logo para não deixar Tamires me esperando com Manu do lado de fora.
Saí, devolvi a chave ao porteiro e o agradeci. Ele perguntou se eu iria ficar com o apartamento. Eu disse que provavelmente sim, mas estava com um pé atrás, pois o preço parecia de um apartamento com algum problema. Ele sorriu e disse que eu poderia ficar tranquila, pois não havia nenhum problema, apenas o preço era menor por ele ficar no térreo. Agradeci pela informação e disse que provavelmente me mudaria naquela mesma semana. Ele sorriu e disse que ficaria no aguardo e avisaria o síndico sobre a nova moradora no prédio. Sorri de volta, mais uma vez agradeci e saí.
O apartamento era muito melhor do que eu esperava. A localização era boa; poderia ser mais perto, mas estava à uma distância aceitável. A vantagem era que ficava perto da avenida, o que facilitaria a locomoção de Manu, já que era caminho para Tamires ir ao colégio e à faculdade no ano seguinte. Na avenida, havia ônibus passando o tempo todo e vários pontos. Táxi era super fácil de conseguir e até mais fácil para ir e vir de carro.
Eu havia gostado do apartamento; conseguia pagar, pelo menos no primeiro ano. A localização era boa, mas o que eu mais gostei foi da segurança. Aquelas câmeras poderiam me salvar se Rogério descobrisse onde eu estava morando. Estar perto da avenida tinha vantagens e desvantagens: ajudava na locomoção, o acesso ao comércio era fácil, mas também aumentava a chance de eu ser vista por alguém. Contudo, colocando tudo na ponta do lápis, havia muito mais vantagens. Eu iria aceitar morar ali e me mudaria o mais rápido possível.
Voltei para casa o mais rápido que pude, mas passei em um mercado antes e comprei um saco de sonhos de valsa; eu iria precisar. Quando cheguei, tomei um banho rápido e aguardei minha sobrinha chegar. Tamires chegou com Manu no início da noite. Conversamos um pouco, e eu contei as novidades para ela antes dela voltar para casa. Assim que Tamires saiu, Manu já veio cobrar seu sonho de valsa. Eu sabia que isso iria acontecer, mas antes perguntei se alguém tinha perguntado algo sobre o segredo e ela disse que não. Depois perguntei se ela tinha jantado, e ela disse que sim. Então fui buscar um dos chocolates que tinha comprado. Ela ficou toda feliz.
Manu dormiu um pouco antes das nove, e assim que ela adormeceu, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Laura, contando que tinha gostado muito do apartamento e que iria ficar com ele. Também agradeci pela ajuda. Depois fui me preparar para dormir, mas meu celular tocou, e eu atendi rapidamente para evitar que o barulho acordasse Manu. Era Laura.
Ela disse que ficou feliz por ter dado certo, e eu ter decidido ficar com o apartamento. Agradeci mais uma vez pela ajuda. Laura não perdia uma oportunidade e comentou que gostaria que eu demonstrasse essa gratidão na cama dela. Ela riu e eu acabei rindo com ela, respondendo que talvez isso poderia se providenciado. Ela demorou alguns segundos a responder e, depois, disse que queria muito, mas não por gratidão. Eu disse que não era, que realmente tinha interesse que isso acontecesse, nem que fosse uma vez, para a gente matar a vontade. Ela disse que adoraria, e se eu estivesse disponível, poderíamos nos ver no dia seguinte. Eu disse que estaria livre entre meio-dia e quatro, e ela falou que para ela estava perfeito, que me buscaria às treze horas. Eu confirmei que estaria esperando.
Não falei muito mais, e ela logo disse que precisava desligar e que nos veríamos no dia seguinte. Despedimo-nos e desliguei.
Eu realmente achava Laura uma mulher linda e muito interessante. Eu estava precisando me divertir um pouco e, naquele momento, não vi problemas em ficar com ela. O que eu não sabia era que aquilo iria render e muito!
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
