Quatro meses depois da premiação de Ribeirão Preto, meu nome começou a circular de verdade.
A visibilidade veio rápida e pesada. Usinas concorrentes de outros estados, empresas de etanol do interior de São Paulo, até consultorias de Campinas e Ribeirão passaram a me procurar. Ligavam no celular pessoal, mandavam e-mail pelo LinkedIn, pediam reunião em horário de almoço. Ofereciam cargo de gerente de produção, coordenador regional, salário trinta, quarenta por cento maior, carro da empresa, bônus por meta, plano de saúde top. Nenhuma proposta me agradava de verdade. Todas exigiam a mesma coisa: mudar de cidade, largar a casa que eu tinha comprado, abandonar a rotina que eu conhecia. Eu ainda gostava da usina onde tinha crescido. Gostava do silêncio da minha rua. E gostava, mais do que admitia em voz alta, da possibilidade de ver Márcia de vez em quando, mesmo que fosse escondido.
Foi num motel na estrada, numa sexta-feira de chuva fina, que eu contei pra ela.
A gente tinha combinado rápido, como sempre. Ela inventou desculpa de reunião de calibração de equipamentos fora do horário. Eu peguei o carro e fui. O quarto era simples, parede fina, ar-condicionado barulhento, cama de casal com lençol meio áspero. Assim que a porta fechou, ela me beijou com fome. Tinha sentido falta. Eu também.
Tirei a roupa dela sem pressa. O uniforme caiu no chão, depois o sutiã, depois a calcinha. Fiquei olhando o corpo que eu já conhecia de memória: seios pesados, barriga macia, quadril largo. Empurrei ela na cama, abri as pernas e chupei até ela gozar na minha boca, gemendo baixo pra não chamar atenção das paredes. Depois ela me montou, enfiou o pau devagar e começou a cavalgar olhando nos meus olhos.
— Conta o que tá acontecendo — ela pediu, ainda em cima de mim, o movimento lento, a voz rouca. — Eu vi seu nome sendo comentado no laboratório essa semana. Falam que as empresas tão te caçando de verdade.
Eu segurei o quadril dela e meti pra cima, sentindo o aperto quente.
— Tão mesmo. Ligam quase toda semana. Oferecem cargo melhor, salário maior, carro, bônus… mas todas exigem que eu mude de cidade. Mudar de vida inteira. Largar a casa, o carro, a rotina.
Ela parou de se mexer. Ficou olhando pra mim, o cabelo caindo no rosto, a respiração ainda acelerada.
— E você? Tá pensando em ir embora de verdade?
— Ainda não. Nenhuma proposta me convenceu até agora. Mas eu sei que um dia pode aparecer uma que não dá pra recusar. O método que eu uso na produção tá chamando atenção. Eles veem o resultado e querem levar junto.
Os olhos dela encheram de água devagar. Ela desceu o corpo, deitou o peito no meu e falou baixo, a voz embargada:
— Se aparecer… vai. Não fica por minha causa, Lucas. Você é novo, inteligente, trabalha de um jeito que as outras usinas não têm. Eu não quero ser o motivo de você perder chance. Eu já sou casada, já tenho uma vida montada aqui. Você ainda tem o mundo inteiro na frente.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho dela. Eu limpei com o polegar.
— Márcia… eu te amo. Não é só foda. Nunca foi só foda. Mas eu também não quero te perder.
Ela me puxou pelo pescoço e beijou com gosto de choro e desejo. A gente fodou devagar daquela vez. Sem pressa, sem putaria alta. Só os corpos se encontrando, os olhares presos, o silêncio quebrado só pelos gemidos baixos. Quando gozei dentro dela, ela segurou meu rosto com as duas mãos e falou, a voz quase quebrando:
— Eu te amo demais pra te segurar. Mas também tenho medo, Lucas. Medo de largar tudo por um homem mais novo e acabar com a cara no chão. Medo de o meu filho me olhar diferente. Mesmo ele morando longe, eu ainda penso nele. Eu fico nesse dilema todo dia… separo ou não separo. Continuo ou não continuo. E no fim eu não largo. Por causa dele. Por causa do que a gente construiu. Por causa do medo de me jogar e você um dia cansar de mim.
Eu beijei a testa dela.
— Eu não ia cansar.
— Você não sabe disso ainda — ela respondeu, sorrindo triste. — Você é novo. Eu já não sou. Qualquer caminho que você escolher… eu vou torcer. Mesmo de longe. Mesmo se a gente não se ver mais.
Ficamos em silêncio por um tempo, ainda abraçados. A chuva batia leve no telhado. Eu passei a mão pelo cabelo dela e falei baixo, quase sem coragem:
— Então vem comigo. Quando a proposta certa aparecer, a gente vai juntos. Você larga o laboratório, o marido, a cidade… e a gente começa de novo. Eu te levo. Eu cuido de você. A gente não precisa mais se esconder.
Ela se afastou um pouco, sentou na cama e me olhou séria.
— Não, Lucas. Eu não vou.
— Por quê? A gente se ama. Isso não é mais só uma curtição. Você sabe disso.
— Eu sei. E é exatamente por isso que eu não posso. Você tem vinte e poucos anos. Eu tenho quase o dobro. Você ainda vai crescer, conhecer outras mulheres, construir uma vida. Eu já construí a minha. E ela está aqui. Com um filho que, mesmo longe, ainda precisa de uma mãe que não desmonte tudo por um homem mais novo. Eu te amo. Te amo de verdade. Mas eu não vou arriscar largar tudo e depois descobrir que você cansou de mim. Ou que a diferença de idade ficou pesada demais. Eu não aguentaria.
A voz dela não estava raivosa. Só firme. Eu sentei também, a distância de um corpo entre a gente.
— Então é isso? A gente termina agora?
— A gente termina agora. Porque se eu continuar te vendo, um dia eu vou ceder. E eu não posso ceder. Você precisa seguir. Aceitar a proposta que vier. Crescer. Viver. Eu não quero ser o peso que te segura.
Ficamos quietos. A discussão foi curta, sem gritos, sem ofensas. Só a dor de duas pessoas que se amavam e sabiam que o caminho se separava ali. Eu respirei fundo e aceitei.
— Tá. Eu vou. Mas eu não vou esquecer você.
Ela sorriu, os olhos cheios de água de novo.
— Eu também não. Mas a gente precisa tentar.
O que tinha começado como uma curtição escondida, uma foda de motel, um segredo quente no meio da rotina, tinha virado o amor da minha vida. E eu só descobri de verdade na hora de perder.
A gente se vestiu em silêncio. No estacionamento ela me beijou rápido, entrou no carro e sumiu na chuva fina. Eu fiquei olhando as luzes desaparecerem na estrada por um tempo longo demais.
Quatro meses depois a proposta que não dava pra recusar chegou.
Uma usina de celulose no Mato Grosso. Setor completamente diferente do etanol. Cargo de supervisor sênior de produção, com possibilidade real de virar gerente em menos de dois anos. Salário quase o dobro do que eu ganhava. Casa da empresa, carro, plano de carreira estruturado. Eles tinham visto meu trabalho com etanol, a forma como eu organizava equipe, processo e resultado, e acharam que a experiência servia perfeitamente. Aceitei.
A mudança foi rápida. Em menos de um mês eu estava morando a mil e quinhentos quilômetros de distância. A usina de celulose era enorme, cheiro diferente, ritmo diferente, gente diferente. Eu me adaptei. Cresci. Nos primeiros anos, enquanto ainda era supervisor e depois já como gerente de produção, fiz duas pós-graduações: uma em Engenharia de Produção com ênfase em otimização de processos industriais e outra em Gestão de Operações. Não foi por obrigação da empresa, mas porque o método que eu usava — aquele jeito de organizar equipe, fluxo e resultado que tinha chamado atenção ainda no etanol — precisava de base teórica mais sólida para ser aplicado em escala maior. As noites e os fins de semana viraram estudo. O salário subiu de novo. A vida estabilizou.
Márcia e eu mantivemos contato pelo WhatsApp no começo. Mensagens de boa noite, alguma foto discreta, conversa de madrugada quando o sono não vinha. Com o tempo o intervalo aumentou. Semanas viraram meses. A gente se esfriou. Não por falta de sentimento. Por distância, por rotina, por medo de continuar alimentando algo que a vida tinha colocado longe demais. Eu saí com outras mulheres. Algumas ficaram semanas, outras só uma noite. Nenhuma ocupou o espaço que ela tinha. Nenhuma me fez sentir a mesma coisa quando tocava ou quando falava meu nome.
Anos se passaram.
Nas férias de fim de ano eu voltei pra cidade pra visitar minha mãe. A cidade era pequena. Todo mundo se conhecia. No segundo dia, andando pela praça no fim da tarde, eu a vi.
Márcia estava sentada num banco, sozinha, tomando sorvete de casquinha. Cabelo um pouco mais curto, o mesmo corpo, a mesma presença calma. Quando nossos olhares se cruzaram, ela parou no meio do movimento, a casquinha parada no ar.
Eu me aproximei devagar.
— Márcia.
Ela sorriu, a voz embargada de emoção.
— Lucas… meu Deus. Quanto tempo.
Sentei ao lado dela no banco. O sol da tarde batia de lado. O movimento da praça era leve: gente passando, crianças brincando mais adiante, o cheiro de milho cozido de alguma barraca.
— Como você tá? — eu perguntei. — De verdade.
Ela suspirou, olhando pro sorvete por um tempo antes de responder.
— Tô… bem, eu acho. Me separei há quase um ano. Foi complicado. Quando descobri que ele me traía, eu pensei em perdoar. Pensei sério. Porque eu também tinha te traído o tempo todo. Eu me sentia em dívida, sabe? Achei que a gente podia tentar de novo, esquecer os dois lados. Mas depois veio o resto. Não era só uma amante. Ele tinha outra família. Duas crianças fora do casamento. Uma vida inteira montada em outra cidade. Não era caso. Era outra casa, outro nome, outro mundo. Aí eu não consegui. Pedi a separação. Foi difícil no começo, mas passei. O filho já tá em São Paulo, fazendo faculdade, morando sozinho. Eu continuei no laboratório, ainda sou líder. Salário bom, casa só minha. Vida quieta.
Ela olhou pra mim, os olhos úmidos.
— E você? Casou? Namora? Como tá a vida aí no Mato Grosso?
— Não casei. Não namoro ninguém sério. Saí com algumas pessoas nesses anos. Tentei de verdade. Mas não deu certo com nenhuma. Sempre faltava alguma coisa. Eu nunca consegui esquecer você, Márcia. Você ficou. Mesmo longe, mesmo com o tempo passando. Eu te amava naquela época e continuei te amando depois.
Os olhos dela encheram de água de novo. Dessa vez não era só tristeza. Era alívio misturado com medo antigo.
— Eu também nunca esqueci. Fiquei sozinha esse tempo todo. Não quis ninguém. Tentei sair uma ou duas vezes, mas desisti no meio. Não fazia sentido. E eu tinha medo, Lucas. Medo de ter largado tudo por um homem mais novo e um dia você cansar de mim. Medo de o meu filho me julgar. Mesmo ele morando longe, eu ainda pensava nele. Eu fiquei nesse limbo anos. Separava ou não separava. Continuava ou não continuava. No fim o marido resolveu por mim, do jeito mais sujo possível.
Eu segurei a mão dela ali mesmo, no meio da praça.
— Vem comigo. Pro Mato Grosso. Eu ganho bem agora. Você não precisa se preocupar com dinheiro. Se quiser continuar trabalhando, a gente vê o que aparece. Se quiser ficar em casa, fica. Mas eu não quero mais ficar sem você. Eu te amo. Sempre amei. Só fui entender de verdade quando fiquei longe. E eu não vou cansar de você.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, apertando minha mão com força. Depois sorriu, ainda com lágrimas.
— Meu filho tá em São Paulo. Eu moro sozinha. O laboratório… eu deixo. Eu vou. Dessa vez eu vou.
A gente se beijou ali, no banco da praça, na frente de quem passava. Foi o primeiro beijo público depois de anos de segredo. Algumas pessoas olharam. Duas senhoras comentaram baixo entre elas. Ninguém se aproximou. Depois fomos até a sorveteria da esquina, pedimos outro sorvete e ficamos conversando até a noite cair de verdade. Falamos de tudo: do trabalho dela, da minha rotina no Mato Grosso, do filho, da casa, do medo que ela carregou durante anos e da vontade que agora era maior que o medo. Quando a sorveteria fechou, eu a levei até o carro.
Aquela noite a gente ficou junto. Não foi no motel de sempre. Foi na casa da minha mãe, no quarto de hóspedes, em silêncio pra ninguém ouvir. Não preciso contar os detalhes. Foi simples, longo, cheio de conversa baixa entre um beijo e outro. A gente dormiu abraçado pela primeira vez sem relógio acordando às cinco da manhã.
Em dois meses ela arrumou as coisas, pediu demissão, se despediu do filho e veio morar comigo.
A casa no Mato Grosso era grande, quieta, com quintal. Na primeira noite dela ali, a gente nem esperou chegar no quarto direito.
Ela entrou, largou a mala no chão da sala, me olhou e falou:
— Agora a gente não precisa mais esconder. E eu não tenho mais medo.
Eu a puxei pela cintura e beijei com tudo que tinha guardado durante os anos. Tirei a blusa dela no meio da sala. O sutiã caiu em seguida. Os seios pesados que eu conhecia de memória estavam ali, só meus. Chupei os mamilos enquanto ela abria minha calça. Ajoelhou no chão da sala e engoliu o pau inteiro, chupando fundo, sem pressa, olhando pra cima.
— Eu sonhei com isso tantas vezes — ela falou, a voz rouca. — Com você me comendo sem medo de ninguém ouvir. Sem relógio. Sem mentira. Sem culpa.
Eu a levantei, carreguei até o sofá e deitei ela de costas. Puxei a calça e a calcinha de uma vez. A buceta já estava molhada. Lambei devagar, depois com fome, dois dedos entrando enquanto o clitóris era chupado. Ela gozou rápido, as coxas tremendo, a voz alta, sem se importar com volume.
— Mais — ela pediu. — Me fode. Agora a gente pode gritar.
Eu entrei de uma vez. O pau sumiu dentro dela. Meti forte, a casa inteira ouvindo o som da pele batendo. Ela prendia as unhas nas minhas costas e pedia mais fundo. Virei ela de quatro no sofá. Entrei de novo. A mão no cabelo dela, puxando. Ela empurrava o quadril pra trás, gemendo alto.
— Me come o cu também — ela falou. — Hoje eu quero tudo. Sem pressa. Sem medo. Sem nada escondido.
Eu cuspi, passei no pau e enfiei devagar. Ela arqueou as costas e soltou um gemido longo. Dessa vez não precisou de tanto cuidado. Eu meti com vontade, sentindo ela apertar. Ela se masturbava ao mesmo tempo e gozou de novo, o corpo inteiro tremendo.
Saí, virei ela de frente, enfiei na buceta e gozei fundo, enchendo ela. O leite escorreu. Ela desceu, chupou o que sobrou, limpou tudo com a boca e deitou no meu peito, ofegante.
Ficamos ali um tempo longo, suados, o ventilador da sala girando devagar.
— A gente conseguiu — ela falou baixo, a mão desenhando círculos no meu peito.
— Conseguimos.
Ela beijou meu peito.
— Eu te amo, Lucas. Sem medo dessa vez.
— Eu te amo, Márcia. Sem segredo.
Naquela noite, e em todas as que vieram depois, não precisou mais de motel, de mentira, de sair às cinco da manhã. A gente dormia junto. Acordava junto. E, pela primeira vez desde o começo de tudo, o segredo tinha acabado de verdade.