Chegamos ao Studio e as trancistas já estavam lá esperando por nós. Eu e Milena fomos logo começar o processo, enquanto Kaique estava em uma ansiedade louca porque também faria as perfurações ali. Júlia foi com a gente, mas logo os dois voltariam para casa, porque sabíamos que ainda íamos demorar e Dom continuava dormindo. Juh não queria correr o risco de ele acordar e começar a procurar por um de nós quatro pela casa.
Se a gente saísse no meio do dia, provavelmente ele nem ligaria. Ia se distrair brincando com os tios e os priminhos e, quando percebesse, já estaríamos de volta. Contudo, pela manhã, ele estava preferindo o nosso denguinho. Era um tempinho que Ninho gostava de ficar mais perto da gente, então Juh achou melhor não demorar muito.
A profissional chegou com todo o material que ia usar e eu fiquei olhando para minha gatinha, que estava parecendo uma fiscal da Vigilância Sanitária, verificando se o local era apropriado para enfiarem uma agulha na orelha do menino dela.
~ Acho bonitinho esse cuidado, mas a maioria das minhas perfurações foi feita por uma pessoa que disse: "Eu sei furar", e eu respondi: "Ah, então fura aqui" (LAELE), e nunca tive problemas... É a prova que Deus protege os inocentes! 😇🤣
Enquanto estávamos ali aguardando, Milena deu uma ideia que acabou fazendo muito mais sentido: fazer primeiro de um lado e, depois de alguns dias, fazer do outro. Assim, ele não teria os dois lados sensíveis ao mesmo tempo e não ficaria incomodado na hora de dormir. Como ainda tínhamos alguns dias ali, não havia por que ter pressa e achei que não poderia ter ideia melhor.
Posicionaram Kaique na cadeira e, até aquele momento, estava tudo tranquilo. O problema começou quando Juh viu o tamanho da agulha. Eu olhei para ela e vi o rosto da minha mulher começar a perder a cor. Tinha esquecido completamente dessa parte. Na minha cabeça, ela estava preocupada, conferindo se tudo estava adequado. Nem tinha pensado no pavor que ela tem.
Pedi para a trancista parar um pouquinho e fui rindo até os dois. Sentei atrás de Juh e dei um beijinho nela.
— Vai doer não, nego — falei para Kaká, passando a mão no joelho dele.
— Vai ser rapidinho — ele respondeu, com um sorriso sem tamanho.
— Quem tá com medo é a mamãe aqui — falei, dando outro beijinho nela.
A bichinha já estava toda sem graça. Eu olhava para ela e segurava o riso, mas, sinceramente, acredito que, se eu não tivesse ficado ali, Juh teria desmaiado antes mesmo de começar o processo.
Quando finalmente fizeram a perfuração, Kaká pareceu nem sentir. Foi tudo tão rápido que a preocupação toda acabou sendo muito maior do que o procedimento. Depois, ele ainda escolheu a joia que queria. A primeira precisou ser uma reta, justamente para proporcionar uma boa cicatrização, e ficou lindo nele. Muito mais do que eu imaginava.
A trancista que estava trabalhando em Mih se encantou com ele. Ficou chamando Kaique de "nego doce" durante o processo, e meu filhote saiu de lá feliz da vida com seu brinco. Juh provavelmente estava mais aliviada do que ele.
Demoramos horas ali, mas o resultado valeu muito a pena. As tranças combinaram demais com nós duas e, olhando para mim e para Milena prontas, fiquei me perguntando por que nunca tinha feito aquilo antes. Juh nos deu uma ótima sugestão e, como sempre, mostrou que tem um gosto espetacular.
Quando chegamos em casa, Dom estranhou na hora. Assim que me viu, ficou me olhando com aquela expressão de quem estava tentando descobrir quem era aquela criatura que tinha acabado de entrar pela porta. Juh tinha me dado uma toalha para colocar na cabeça e, quando tirei, Ninho começou a chorar. Acho que, para ele, eu tinha ficado completamente diferente. Fui conversando com meu neneco, chamando pelo nome e tentando me aproximar aos poucos, até que ele foi se acostumando novamente. Não demorou muito para perceber que continuava sendo a mesma mamãe que ele conhecia.
Estávamos todos na sala, enquanto o restante do pessoal tinha ido para a praia. Como eu e Mih estávamos com um pouco de dor de cabeça, acabamos ficando em casa. Foi engraçado porque começamos a nos chamar de família das dores. Cada um tinha alguma coisa para reclamar naquele dia. Kaká, Mih e eu ficamos com compressas de gelo, enquanto Juh estava com uma morna nos seios. Ninho não estava mamando muito e, mesmo ela ordenhando, ainda sentia bastante desconforto.
Até me senti um pouco culpada por ter apertado tanto na madrugada passada, porém, naquele momento, ela não reclamou. Pelo contrário!
Enquanto ficávamos ali, um zoando a dor do outro, Dom engatinhava para lá e para cá, brincando com Kaká. Ele pegava aquelas bolinhas da piscina de bolinhas, colocava na boca de Kaique, e ele soprava para cima. Para Dom, aquilo parecia ser a brincadeira mais divertida do mundo. Batia palminhas, dava risada e logo se apressava para pegar outra bolinha e colocar na boca do irmão.
Nesse vai e vem, não vi direito o que aconteceu, mas acredito que ele tenha perdido o equilíbrio e batido a testa diretamente no chão. O galo apareceu praticamente na mesma hora, e nosso neném começou a chorar copiosamente.
Levantei rapidamente e o peguei no colo para colocar um pouquinho de gelo no local, mas ele só se acalmou quando foi para o peito. Mamou, e Juh foi colocando o gelinho devagarinho, porque ele ficou receoso toda vez que a gente encostava na cabeça. Kaká e Mih estavam preocupados, mas, quando Ninho parou de chorar, perceberam que ele estava bem.
— Neném fez um dodói? — Juh perguntou enquanto dava alguns beijinhos nele.
Dom apontou para a própria cabeça e fez um biquinho.
— Iti malia, mãe... Ele fez um dodoizinho — falei, pegando-o novamente no colo.
— Ele estava se sentindo excluído fora da família das dores — Mih disse, e nós rimos.
Depois disso, Dom ficou todo dengoso. Não quis mais saber de chão, engatinhar ou brincar, só queria colinho, peito e beijinhos. E, sinceramente, depois de levar aquele susto, ninguém ali teria coragem de dizer não.
Saímos um pouquinho com ele e acabamos encontrando uma árvore bem baixinha.
— Olha, um ninho com ovinhos — Mih falou.
E nosso caçulinha levantou a cabeça para olhar quem o estava chamando.
— Não, amorzinho. É o ninho de passarinho, olha — falei e apontei para a árvore.
Muito provavelmente ele não entendeu nada, porque só apontou para o próprio peito, rindo.
— Ninho de mamãe — Juh disse, beijando-o.
Como ele já estava mais felizinho, sem lembrar do dodói na testa, voltamos para casa e, nesse momento, encontramos uma visita inesperada: o pai de Milena, que estava sentado em um banco da rua.
Mih correu para falar com ele e nós seguimos nosso caminho. O cumprimentamos e pretendíamos entrar, mas ele pediu que ficássemos para conversar sobre um assunto importante. Eu olhei para Mih, que também pareceu não entender muito bem o que estava acontecendo, mas ficamos ali.
— É sobre os quinze anos de Milena — ele começou.
Olhei para minha filha, que imediatamente fez uma expressão de quem já estava imaginando o que viria pela frente. O pai dela explicou que os pais estavam conversando sobre a comemoração e queriam que o aniversário dela fosse realizado da maneira tradicional da família, em uma ilha deles. Seria uma festa grande, mas, ainda assim, algo mais reservado, sem a mídia em cima. Apenas para as pessoas próximas da família. Eu sabia que era uma tradição da qual eles não pretendiam abrir mão tão facilmente.
Antes mesmo que ele terminasse de explicar, Mih já balançava a cabeça negativamente.
— Eu não quero festa — minha filha disse.
Ela foi bem direta. Já tinha combinado comigo e com ele que preferia fazer viagens em seus aniversários em vez de festas. Além disso, gostava da ideia de dividir o dia com Kaká, então não queria abrir mão disso para fazer uma comemoração que não tinha vontade de ter.
Ele olhou para mim e para Juh, procurando apoio.
— Eu não vou obrigar minha filha a fazer uma coisa que ela não quer — falei.
Ele continuou tentando nos convencer. Disse que todas as meninas da família tinham comemorado daquela maneira, que era uma tradição importante para eles e que, mesmo sendo uma festa grande, seria possível fazer tudo de maneira reservada na ilha. Queria aquilo para a filha também e achava que seria uma lembrança importante para ela.
Milena, porém, continuava irredutível.
— Eu já falei que quero viajar, papai. Não quero festa... — ela choramingou.
Eu olhava para os dois e não tinha muito mais o que acrescentar. Se ela não quisesse, não faria sentido nenhum eu pressioná-la só para agradar à família.
Foi então que ele teve outra ideia.
— E se o príncipe fosse seu irmão? — o pai dela perguntou.
Mih ficou em silêncio na mesma hora e eu quase consegui enxergar a chavinha virando na cabeça dela.
— Kaká? — ela quis confirmar, sorrindo.
— Ele pode ser seu príncipe. Vocês dois juntos na festa... — ele reforçou.
A ideia claramente mexeu com ela. Até aquele momento, Mih estava recusando tudo, porém, quando percebeu que poderia ter o irmão ao lado dela, começou a considerar a possibilidade de verdade. Perguntou como seria, se poderia escolher as coisas do jeito dela, como seriam os ensaios e o que poderia mudar.
A partir dali, ela já não estava mais dizendo que não queria. Estava tentando descobrir como poderia ser.
Eu não ia forçar nada. Se ela tivesse continuado dizendo que não queria, para mim estava encerrado. Contudo, como percebi que ela estava ficando à vontade com a ideia, apoiei.
— Se você quiser fazer, Mih, eu topo. Mas vai ser tudo do seu jeito. Você vai escolher as coisas que quiser e não vai fazer nada só porque alguém acha que precisa ser assim — falei e dei um beijinho na testa dela.
Milena concordou.
— Kaká, você que já é meu príncipe, aceita ser meu príncipe também na festa? — minha filha perguntou, feliz.
— Claro que aceito — meu filho disse, carregando-a e girando ali mesmo.
Eu ainda não estava muito animada com a ideia de passar tantas horas no mesmo ambiente que algumas pessoas que já tinham me feito mal, muito menos de estar no meio de uma festa daquele tamanho. Não era exatamente o programa que eu escolheria para mim. Mas era minha filha. Se aquilo fosse importante para ela, eu estaria lá.
E, dessa vez, eu ainda teria Juh e toda a nossa família comigo. Só de saber que não estaria sozinha naquele lugar já tornava tudo muito mais fácil.
Já era noite quando finalmente estávamos todos em casa. Kaique, Milena, Dom, Tiago e Alice já tinham dormido, e a casa estava naquele silêncio raro que só aparecia quando as nossas crias estavam todas apagadas. Eu e Juh ficamos contando para Lorenzo, Loren, Sarah e Victor sobre a conversa que tínhamos tido com o pai de Milena e sobre a possibilidade de fazermos os quinze anos dela na ilha.
Eu ainda estava explicando que, apesar de não ser exatamente o que eu escolheria, estava disposta a fazer tudo por Mih, quando Lorenzo começou a rir.
— Você vai voltar para a ilha? — meu irmão perguntou.
Olhei para ele sem entender a graça.
— Vou ter que ir, ué. Por quê? — perguntei, sabendo a resposta.
— Você tem certeza que quer voltar para aquele lugar? — Loren questionou, e já estava rindo também.
— Gente, vocês não prestam... — falei, revirando os olhos.
Eu sabia exatamente onde eles queriam chegar. Aquela ilha não era apenas o lugar escolhido para a festa. Foi ali que eu me casei com o pai de Milena.
— O problema não é a ilha, são as pessoas que vão estar lá — falei, tentando me defender.
— Aham... — meu irmão ironizou.
Juh começou a rir ao meu lado, e Sarah e Victor acompanharam. Eu olhei para minha mulher, esperando algum apoio, mas ela parecia estar se divertindo tanto quanto os outros.
— Eu só acho que a história tem um certo simbolismo — Lorenzo continuou, gargalhando.
— Simbolismo porra nenhuma. Eu vou por meus filhos! — exclamei.
Juh encostou a cabeça no meu ombro, já sem forças de tanto rir.
— Amor, deixa eles. Quanto mais você explica, pior fica — ela disse.
— Você deveria estar do meu lado — fingi lamentar.
— Eu estou. Mas que é engraçado, é — minha gatinha concluiu.
Comecei a rir também, porque realmente não havia muito o que fazer. Eu sabia que eles estavam me zoando porque conheciam toda a história e sabiam exatamente o quanto aquele lugar carregava de lembranças que eu não fazia questão nenhuma de revisitar.
— Nós vamos ressignificar essa ilha — Juh falou, e isso fez com que ela ganhasse todos os meus beijinhos.
Eu não podia mudar o que aconteceu naquela ilha, muito menos apagar as lembranças que existiam ali, mas poderia criar outras completamente diferentes. Se fosse para voltar, que fosse para viver um momento bonito com minha filha, com meus filhos e com todas as pessoas que fazem parte da minha vida.
