Eu estava tão focada na história de Sandra que nem prestava muita atenção em como meu corte de cabelo estava ficando; só ouvia sua voz e o barulho da tesoura. Eu já imaginava como a história terminaria, mas minha curiosidade sobre como tudo aconteceu prendia minha atenção.
Entre os movimentos calculados que Sandra fazia para ter o melhor ângulo para seu próximo corte, ela continuou falando.
Sandra— Quando terminei de falar, estava totalmente desesperada. Eu jurava que Raquel se levantaria e sairia, ou talvez me chamasse de louca ou doente antes de ir embora. Porém, sua reação foi me abraçar e tentar me acalmar, dizendo que estava tudo bem, que enfrentaríamos aquilo juntas e iríamos tentar resolver da melhor maneira possível. Eu mal podia acreditar que ela estava ali me confortando. Mas me agarrei a ela, como se fosse minha tábua de salvação naquele oceano de incertezas.
—Quando parei de chorar, Raquel disse que precisaríamos de ajuda. A primeira coisa era tentar entender o que estava acontecendo comigo, mas, pelo que sabia, era algo normal. Precisávamos compreender o problema antes de tentar solucioná-lo, e nem eu nem ela tínhamos conhecimento suficiente para isso. Então, decidimos procurar uma psicóloga ou um especialista no assunto. Naquele dia, conversamos muito sobre isso; Raquel falava comigo sem me julgar, e isso fez com que, pela primeira vez na vida, eu falasse sobre o assunto com alguém.
—Na semana seguinte, fomos a uma psicóloga, que era nossa primeira opção. Por sorte, ela me ajudou a entender que não havia nada de errado comigo, que ter fetiche é algo normal e que muitas outras pessoas, assim como eu, passam pela mesma situação. Foram várias sessões, e até hoje vou, nem que seja uma vez por mês. Não para lidar com esse assunto, mas com outros que a vida trouxe. Depois que me abri com Raquel e comecei as sessões, as coisas melhoraram logo no início. Nossa vida sexual e nossa relação como parceiras voltaram ao normal; as coisas começaram a fluir bem de novo. O desejo ainda estava lá, mas aprendi a lidar melhor com ele. Nunca escondi isso de Júlia; até as vezes que me masturbava sozinha, imaginando-a com outra mulher, eu contava. Ela nunca se importou que eu fizesse isso, mas percebia que, de alguma forma, algo a incomodava no início, embora depois isso tenha mudado. Sempre que conversávamos, ela pedia detalhes do que eu imaginava, e essas conversas sempre terminavam em sexo.
—Depois de uns seis meses daquela conversa, ela me disse que tinha pensado muito em tudo e que, se eu quisesse, toparia realizar meu fetiche. Mas enfatizou que era só se eu quisesse, que tinha imaginado como seria e que, no início, parecia estranho, mas com o tempo começou a excitá-la. Ela só toparia se fosse de comum acordo e se isso não destruísse o que tínhamos de mais valioso: nosso relacionamento. Ela pediu que eu pensasse com calma e que, da parte dela, era algo possível, já que sabia que me amava o suficiente para transar com outra mulher sem que isso mudasse o que sentia por mim. Pediu para eu pensar no assunto e que poderíamos ir conversando até chegarmos a uma decisão.
—Não vou negar que aquilo mexeu muito comigo. No início, fiquei receosa; eu amava Raquel mais que tudo nesta vida e ela era minha prioridade sempre. Só de pensar em perdê-la, meu coração doía. Mas continuamos conversando, especulando como seria, onde e com quem seria. Algo que ela falava sempre era sobre regras, e algumas eram inegociáveis para ela. A primeira era que nada poderia ser feito sem que a outra estivesse de acordo; essa era absoluta para ela. A segunda era nunca fazer algo sem que a outra estivesse presente. A terceira pessoa tinha que ser de confiança, sem riscos emocionais para nenhuma das três. Isso não poderia se tornar rotina, mas sim algo que faríamos às vezes, quando ambas estivessem a fim. Ela também disse que, mesmo que meu fetiche fosse olhar, eu estava livre para decidir se queria participar ou não, que os direitos tinham que ser iguais; se ela podia ficar com outra mulher junto comigo, eu também tinha esse direito. Perguntei se ela tinha certeza do que estava falando. Ela respondeu que já tinha pensado muito sobre isso e não tinha dúvidas; não seria um problema para ela me dividir com alguém, desde que dentro do que combinamos.
—Criamos várias regras, mas algumas eram prioritárias. Com as conversas e a segurança que Raquel sempre me passava, comecei a ver aquilo como uma possibilidade. Só de imaginar vê-la com outra mulher na minha frente me deixava muito excitada. Depois de conversar muito com minha psicóloga e me sentir segura em relação ao amor que tínhamos uma pela outra, resolvi dizer sim. Então, começamos a colocar em prática nossa decisão. A primeira coisa era achar alguém com todas as qualificações necessárias, e foi aí que percebemos que não seria fácil. Ninguém que conhecíamos tinha isso. Raquel não queria uma garota de programa, e nem eu, na verdade.
—Já havia se passado quase um mês e estávamos quase desistindo de achar alguém e partir para contratar uma GP, quando, em um belo dia, Raquel chegou do trabalho dizendo que tinha encontrado alguém que achava perfeita e, se eu aprovasse, daria certo. Perguntei quem era, e ela me disse que era uma ex-colega de faculdade que se reencontrou em uma negociação onde um cliente a havia contratado. Raquel disse que eram próximas e já tinham ficado algumas vezes durante a época em que estudavam juntas. Que ela era bonita, confiável e com certeza toparia fazer o que desejávamos. Perguntei como Raquel sabia disso, e ela me contou que conversavam muito quando eram amigas, e sua amiga contava suas aventuras com homens, mulheres e às vezes com homens e mulheres juntos. Essa amiga já até tinha convidado Raquel para participar de algumas festas assim, mas ela nunca quis. Porém, ela era discreta; na universidade nunca rolou boatos sobre ela. Para todos, ela era uma garota certinha.
—Depois de conversarmos bastante, falei para Raquel falar com ela, e Raquel disse que falaria. Dois dias depois, ela trouxe Laura ao nosso apartamento, e foi quando a conheci. De cara, achei-a linda e muito simpática. Ela foi muito legal conosco, fez eu me sentir confortável e deixou claro que só rolaria algo quando quiséssemos, mas adoraria ser a primeira a realizar nossa fantasia. Nesse dia, conversamos muito, mas não rolou nada; Laura disse que era para conversarmos antes, sem pressa, sem fazer nada apressadamente. Apesar de já termos conversado muito, resolvemos aceitar seu conselho. Mas, da minha parte, teria acontecido naquela mesma noite.
—Conversei com Raquel, mas foi mais para reafirmar o que já havíamos decidido: iria acontecer. Após duas noites, Laura voltou e, depois de alguns copos de vinho e uma boa conversa, aconteceu. Pela primeira vez, vi Raquel beijando outra mulher, despindo-a e sendo despida por ela. As duas se entregaram uma à outra e se deram prazer. Eu fiquei sentada, só olhando e me tocando. Não sei quantas vezes cheguei ao orgasmo vendo as duas juntas, mas foram mais vezes do que elas próprias. A noite foi longa e, entre conversas, beijos e muito sexo, nós três ficamos satisfeitas. Eu não toquei em Laura, mesmo com liberdade para isso, mas Raquel me chupou duas vezes enquanto era chupada por Laura.
—Quando o dia estava amanhecendo, Laura se despediu, mas antes disse que tinha um assunto sério para tratar com a gente. Não era algo para nos preocupar, provavelmente iríamos amar. Porém, disse que era uma conversa longa e precisava ir, mas assim que pudesse ligaria para combinar algo. Apesar da curiosidade, concordamos. Após sua saída, Raquel e eu conversamos bastante. Tudo tinha corrido bem; nem eu nem ela tinham algo para reclamar. Laura voltou na semana seguinte, contou sobre os encontros e explicou como tudo funcionava. Tanto eu quanto Raquel resolvemos pelo menos conhecer e fomos. Amamos tudo; conhecemos muitas pessoas novas, mas não passamos de conversas. Na outra vez, ficamos com Nicole, por minha escolha, já que a achei linda. Dessa vez, participei mais, mas o que me excitava era ver Raquel se entregando a outra mulher.
—Desde então, temos ido aos encontros ou festas que Laura organiza. Nunca tivemos qualquer tipo de problema. Conhecemos e fizemos amizades incríveis e, claro, tivemos muitos orgasmos. Minha relação com Raquel está mais forte do que nunca; sou muito feliz e tenho certeza de que ela também. Amamos dividir prazeres com outras pessoas, mas nosso amor é só nosso. Graças a Laura, temos um lugar seguro onde podemos fazer tudo isso. Bom, acho que é isso.
Camila— Foi Laura que pediu para você me contar isso?
Sandra— Sim, ela queria que você soubesse como as coisas funcionam para nós que somos frequentadores do local. Tudo que te falei é só a verdade, mas acreditar ou não é com você.
Camila— Você me contou uma história longa sem tropeçar nas palavras uma vez sequer. Não vejo falsidade nas suas palavras. Posso estar enganada, mas eu acredito em cada palavra que você disse.
Sandra— É muito bom ouvir isso e espero te ver de novo. Quero que você conheça Raquel, sem segundas intenções, mas gostaria muito que ela visse o quanto você é linda.
Camila— Apesar de achar que ela vai se decepcionar se você disser que sou linda, espero conhecê-la algum dia. A história de amor de vocês é linda; apesar de ser algo surreal para mim, se vocês são felizes assim, é o que importa.
Sandra— Gostei muito de suas palavras e da sua sinceridade. Mas agora olha como ficou seu corte e me diga se você não está linda.
Até então, eu não tinha reparado, mas, olhando meu reflexo no espelho, amei o que ela tinha feito no meu cabelo. Passei a mão entre os fios, puxando-os para trás, e o efeito cascata dos fios caindo ficou perfeito. Sandra realmente era ótima no que fazia, e quando eu disse que tinha amado, ela abriu um sorriso lindo. Depois do corte, achei que estava pronta, mas me enganei. Sandra lavou meu cabelo novamente, passou alguns cremes, secou e penteou. Depois chamou alguém; era um rapaz que se aproximou e Sandra pediu para ele fazer uma maquiagem em mim. Explicou que era algo leve, para o dia a dia, mas que desse um certo destaque para os meus olhos. Quando ele me olhou, foi engraçado. Ele levou as mãos ao rosto e deu uns três pulinhos, dizendo que meus olhos eram lindos. Na hora percebi que ele era gay; era algo visível.
Sandra se despediu, dizendo que só ia resolver algumas coisas, mas voltaria para se despedir. Ela saiu, e o rapaz me arrastou para outro canto do salão. No local, havia várias cadeiras e mais um enorme espelho que percorria toda a parede. Ele pediu para eu me sentar e logo começou a me maquiar. Não demorou; pelo jeito, ele tinha muita prática, e quando terminou, ficou muito bom. Pelo menos eu gostei. Realmente era uma maquiagem leve, mas conseguiu deixar meus olhos mais expressivos. Não sei o que ele fez; se foi por causa da sombra ou do delineador que usou, mas parecia que meus olhos estavam com as cores mais vivas.
Depois de agradecer ao meu maquiador, fui em direção à recepção. Durante o trajeto, não deixei de notar alguns olhares curiosos na minha direção, mas fingi que não vi. Quando cheguei à recepção, a mesma garota que me recebeu disse que Sandra tinha pedido para eu esperar um pouco. Eu disse que tudo bem; esperaria. Ela saiu, mas antes de ir, disse que eu estava linda. Agradeci, ela sorriu e saiu em direção ao que imaginei ser a porta do escritório da Sandra. Fiquei ali olhando o salão; ele realmente era muito grande e bonito.
Sandra apareceu alguns minutos depois, já com um sorriso no rosto. Ela disse que a maquiagem tinha ficado perfeita. Concordei e perguntei se eu tinha que pagar algo. Ela disse que não, que era tudo por conta de Laura, mas que não iria cobrar nada dela; então era um presente de ambas. Agradeci, e ela perguntou se eu tinha alguma pergunta. Respondi que não, que sua história foi bem esclarecedora e eu estava satisfeita. Ela me entregou dois cartões de visita, dizendo que era para eu voltar quando quisesse, e faria um preço especial para mim. Agradeci; ela comentou que no cartão estava o número pessoal dela e, se eu precisasse, poderia ligar. O outro cartão era do spa da empresa. Quando eu precisasse relaxar com uma boa massagem, era para ir naquele endereço e falar com Raquel, que foi ela que me indicou. Agradeci e imaginei que Raquel tinha conseguido realizar o sonho de sair do escritório e investir na empresa da Sandra. Aquilo me arrancou um sorriso involuntário.
Depois de trocar um abraço, saí dali em direção ao meu apartamento. Tinha conhecido uma história de amor que não pensava que poderia existir, e ainda ganhei um corte de cabelo que amei e uma maquiagem que de alguma forma, eu queria aprender a fazer sozinha.
Segui meu caminho pensativa e com algumas dúvidas. Porém, com um sorriso no rosto, estava agradecida pela ajuda de Laura, pelas novas pessoas que conheci e por ter ouvido histórias interessantes. Mas eu queria mesmo era melhorar minha própria história; não dava para ficar escondida a vida toda. Algo precisava ser feito; depender só da sorte não parecia ser minha única opção.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
