Capítulo XLIII – Resultados
Parte I
— Potro! Maldição, onde você estava?
Como havia combinado com minha Senhora, retornaria para o canil, lá deixaria o sabujo e lhe entregaria a planta... Só não imaginava que ela chegaria primeiro que eu. Será que tínhamos demorado tanto assim?
— Estava fazendo o que a Senhora ped...
— Por que você deixou o cutelo, seu burro?! Como você cortou a planta?...
Não sabia como explicar que havia falhado em tudo o que Epona pedira.
— E você levou o Hex? Cadê a planta?
— Perdão, Senhora...
A chuva lavou meu corpo e o de Rex; sem a proteção do barro, Epona não teve nojo de me estapear.
— Acho muito bom você ter uma explicação para a merda que você fez, e que, de algum modo, você esteja com a planta... Você não sabe como eu me ferrei hoje...
— ...Perdão, Senhora, é que o Rex era o único que topou ir comigo...
— O Hex não é cão para farejar... Ele era meu cão de tortura, seu burro! E está velhinho... Carajo, Potro, me dá uma notícia boa...
Estendi-lhe a caixa. Epona olhou para os vidros quebrados dentro dela e pude perceber sua fúria.
— Perdão, Senh...
Algo estranho aconteceu: Epona apoiou a caixa na parede e começou a mexer em meio aos temperos e cacos de vidro e, de repente, tirou um frasco minúsculo... um frasco que eu nem havia botado lá... Ele estava quase completamente vazio, a não ser pelo fundinho. Da raiva, a cara da minha Senhora mudou para a alegria de uma maneira muito rápida... rápida demais para um ser humano... ou melhor, para uma presa.
— OK, Potro, uma boa notícia... vai, desembucha tudo!
Expliquei para minha Senhora tudo o que havia ocorrido: que os outros cães não queriam ir comigo, que Rex fora o único que aceitou — ela riu bastante nessa parte — e que, no caminho, percebi que tinha deixado o cutelo, e que realmente havia esquecido de considerar que a planta podia ser venenosa... Contei que, como tinha esquecido disso e achado que o cutelo era apenas minha arma, eu me virei com um pau que achei no caminho — voltara a rir; na sua visão de Predadora, com meu condicionamento físico e com Rex ao meu lado, eu estaria seguro contra os "porquinhos" de Noga, o que também não entendi muito bem... Às vezes, achava que a Senhora do Estábulo projetava suas capacidades em seus Potros...
— Hex achou um cadáver ou fez um cadáver... Potro?
— Achou, Senhora, mas eu não deixei que tocasse nele quando eu o vi; afastei Rex com o pau...
— Você não bateu no meu velhinho! Bateu?
— Não... bati no cadáver...
— "Cadáver"?
Balancei a cabeça afirmativamente. Epona ria, satisfeita...
Contei que entrei no casebre perigoso, sem luz, comecei a pegar várias coisas e, percebendo que não iriam caber na primeira sacola que eu enchia, peguei a caixa que trazia comigo... Epona concluiu que Noga iria acender seu fogaréu e queimar o vestígio da sua sordidez; por isso havia colocado aquilo dentro da caixa... Mas, em meio à escuridão, eu nem percebi o pequeno frasquinho; apenas peguei a caixa, deixando a tampa para trás para conseguir acomodar mais frascos. Quando saí e fui ao encontro de Rex, ele já não estava mais lá, e então vi que ele tinha entrado na casa...
— Claro, todos os porquinhos fedem o fedor da sua dona, e foi Noga quem fez as roupinhas de todos os escravos esse ano...
Não quis contradizê-la; falei apenas que fui para dentro da casa proteger meu amigo e que golpeei a criatura de Noga com um pau da mesma forma que tinha feito com Notau. Rex depois me ajudou a escapar, e fugimos...
— Gosto do jeito que fala, Potro... me lembra um pouco, bem pouquinho de mim! Bem mais covarde e delirante, mas ainda assim consigo me reconhecer — disse, ao apertar meu braço... um pouco forte... com um pouco de desejo. — Mas agora eu tenho que ir. Não dei alta ainda para Clara porque precisava ganhar tempo para que você fizesse sua parte... Você não a fez bem, fez tudo do seu jeito atabalhoado e "rebelde" às minhas ordens... mas deu certo. Fica aí dentro da casinha; deixei água, comida, toalha e algumas gazes e fita; cuida aí das suas feridas. Amanhã cedo, na hora em que a audiência recomeçar, você volta para o Estábulo...
— ...A senha apagou, Senhora...
— Eu a deixei escrita num papel nas coisas que estou deixando com você, mas, depois de usar, dá um fim no papel... sei lá... come ele!
— Certo, Senhora... eu só não entendi uma coisa. Não que eu não tenha gostado de lhe servir... mas, com as roupas, você não poderia pedir para Ártemis investigar Noga?
— Poderia, Potro, o problema é que invadir o território de outra Senhora é uma violação muito grande! Lembra que você só viu Ártemis uma vez no Estábulo? Eu teria que ter certeza de que Ártemis votaria comigo, ou que ao menos ela não se voltaria contra mim, se eu quisesse resolver pessoalmente as coisas com Noga. Só que eu sei que, para Ártemis, usar só as roupas iria soar como ressentimento, como se eu quisesse escapar das minhas responsabilidades; ou, ainda pior, Noga poderia usar as roupas contaminadas para virar a acusação contra mim, dizendo que era óbvio que havia algo de errado nelas. Por isso, enquanto ainda tinha o controle da situação, eu decidi queimar a maioria... Minha única chance seria mudar o jogo: discutir não a minha falha, mas sim a possível invasão de Noga em meu território. E, para isso, eu precisava da fonte do agente tóxico ou, ainda melhor, dele próprio. Com isso, eu posso alegar que um Porquinho da Noga esqueceu a "arma" do crime aqui e cobrar passe livre para meus sabujos entrarem em todos os territórios para garantir que não houve sabotagem e, principalmente, que não houve invasão de território!
A política do Templo parecia tão difícil como a da Sociedade da Humanidade... Epona me deixou; estava tremendo de frio, mas alegrar o coração da minha Senhora me esquentou!
Parte II
Virei a noite, o que acabou sendo bom, porque pude ir para o Estábulo no momento exato em que a guarda acompanhava e garantia a segurança de Epona e Clara para irem à mansão de Ártemis... Estava completamente eletrizado; havia vivido uma missão digna de um herói... Claro, cometi pequenos erros, dependi mais de Rex do que de mim mesmo, mas talvez todo o primeiro trabalho seja desse tipo... Havia lutado contra um monstro e sobrevivido... Podia vê-lo contra Rex; como ousou mexer no cachorro idoso de minha Senhora, criatura terrível... Se bem que tenho de ser justo: Noga vestia a todos de maneira ridícula...
Um pensamento sombrio passou pela minha cabeça quando quase pegava no sono... Se Epona não estava mentindo, Rex só não me atacou porque eu tinha me empapado com aquela pomada antialérgica — e, como todos os outros escravos a tinham passado, afora os de Noga... podia ser verdade. E se eu não tivesse passado a pomada, Rex podia também ter saltado em mim?
Contudo, a verdade é que, como presa, era muito difícil separar o que fiz com Notau do que fiz com o monstro. Notau tinha de fato me humilhado perante Epona, mas ele era uma presa como eu e eu precisei matá-lo para aprender a lutar contra... contra um monstro... De certa forma, tentava ver no sacrifício de Notau um sacrifício, um rito de passagem, que, como no dia anterior, poderia salvar vidas, compensando o mal original... talvez...
Enfim, fiquei na minha cocheira eletrizado e sem conseguir dormir por bastante tempo, dividido entre o herói que fui e o demônio que precisei ser... Como não há muito para declarar aqui, aproveito para adiantar coisas que aconteceram nesse dia e que eu só vim a saber muito tempo depois, em minhas conversas silenciosas com Clara.
Enquanto eu vivia a aventura que compartilhei, Ártemis, Epona e Noga tiveram um dia intenso de discussões. A culpa toda recaiu sobre Epona; afinal de contas, ela era a responsável por fiscalizar esse tipo de coisa antes de fazer a troca das roupas... Não adiantaram nada os seus protestos contra Noga. O fato é que o risco de vida a Clara perturbou muito Ártemis e, a princípio, o fato de a Égua ainda não ter ficado boa no mesmo dia podia ter dado mais tempo para Epona, mas teria sido o pior tipo de estratégia se minha Senhora não tivesse preparado uma boa resposta...
Seria impossível, contudo, que ela se livrasse de qualquer consequência; porém, havia uma lei ainda mais grave que Noga tinha violado... As Predadoras do Templo não podem fazer esse tipo de conspiração umas contra as outras; podem aliar suas Vontades ou tentar fazer uma Vontade subjugar a outra em um confronto direto... mas não esse tipo de coisa, não invadir em segredo um território que não lhe pertence. Noga, mesmo que usando um porquinho seu, não podia ter vindo espalhar seu "pó de mico". Isso era uma ofensa muito grave, e agora Epona tinha como provar que o produto era de Noga, ou ao menos tinha uma justificativa para entrar no território da Senhora da Floresta e, com seus cães, encontrar as plantas ou vestígios do refinamento.
Noga rebateu. Disse que Epona tinha entrado também em seus domínios e feito duas vítimas; mas, diferentemente de minha Senhora, ela não tinha como provar isso. Pelo contrário, deveria ser natural que seus porquinhos comessem uns aos outros quando ela não estivesse por perto... Havia ainda uma outra questão técnica, que só vim a saber em um momento ainda mais longínquo: como eu já tinha passado pelas três Domas, tecnicamente, naquele momento, eu não era mais de nenhuma delas, e sim do Templo... ou talvez fosse de Ártemis... Enfim, gozava de um status cinzento que dificultaria que Noga comprovasse que eu era uma extensão da Senhora do Estábulo.
Por fim, Epona teve de sacrificar alguns escravos seus e fornecer novos padrões de segurança para o Templo de Ártemis. Já Noga perdeu o direito de ser Senhora da Floresta por pelo menos três meses; podia continuar vivendo lá, mas não poderia usar mais do que um escravo, não mandaria em mais nada durante esse período e, inclusive, perderia o direito ao voto... o que viria a ser crucial muito em breve... O plano de minha Senhora havia sido supremo; ela havia triunfado sobre a terrível Noga e seus monstros...
Parte III
Epona veio ao Estábulo me tirar da cocheira em que me deixara. Era visível que estava feliz, e eu também estava; vê-la triunfar, salvando a vida de Clara e de todos os Cavalos e Éguas, era algo muito grande — tão grande que era compreensível que alguns tivessem que pagar um preço caro... Quem sabe, com seu avanço no Templo de Ártemis, leis menos sanguinárias fossem estabelecidas? Ao invés de tantos escravos, apenas um ou dois para coisas mais graves? Bom, filosofia não é para presas... Ainda havia a minha prova, e eu não sabia o que Epona iria de fato fazer para facilitá-la...
Entramos no seu laboratório. Epona fechou a porta e foi pegar um vinho... Me arrepiei inteiro lembrando da última vez que bebemos juntos. Ela o colocou para decantar e, então, sentando-se em sua poltrona, pediu-me para massagear seus pezinhos... O que prontamente atendi.
Epona parecia visivelmente feliz... Conseguia entender, ao menos do ponto de vista emocional, o que ela estava sentindo, ainda que não entendesse nada de suas disputas com Noga e menos ainda de seus verdadeiros planos para o Templo de Ártemis... O ponto é que a alegria de minha Senhora era contagiante, e nós sorríamos juntos... Ela percebeu isso e, usando o pé que eu não segurava, começou a apertá-lo contra meu rosto...
— É, seu vadio... Vai sorrir agora! Vai me dizer que tem parte na minha vitória de hoje?
Com a ereção de volta, respondi:
— Claro que não, Senhora, nem sequer entendi direito o que aconteceu...
Tudo estava tão bom; achei que poderia fazer a minha pergunta sem ofendê-la...
— ...eu só queria saber se eu consegui lhe servir e ajudar a Clara... e também se isso vai ajudar com a questão da prova?
Epona tirou o pé da minha mão, recuou ambos e fez uma cara de brava... Mas percebia-se que estava feliz demais para aquilo; mesmo assim, fingi medo...
— Está cobrando sua Senhora, seu merdinha?
— Não, Senhora, só fiquei curioso, mas mais por você e pela Clara do que por mim...
Epona riu — devia ter percebido que eu mentia, mas, como mentíamos um para o outro, estava tudo bem:
— Depois do seu desempenho hoje, eu acho que não tem por que facilitar a prova para você...
Gelei...
— ...você não acha?
Respirei fundo; era um teste, tinha que me manter servil:
— Claro que sim, Senhora, é que...
Mas e se o teste fosse do Cavalo rebelde e não do gentil?
— ...é que eu acho que eu mereço ao menos uma dica de como vai ser essa prova, que tal?
Não percebia ainda, mas Epona estava se despindo...
— Seu problema, Potro, é que você pensa demais; quando para de pensar, melhora muito — encostou seu pé esquerdo no meu abdômen.
Tinha que ficar quieto, era isso que ela queria... e, bom, ela estava me possuindo com seus toques...
— Olha o que você fez ontem... Quando não pensou e seguiu meu plano... Primeiro, você encarou a desgraçada da Noga, correu o risco de ser pego, se feriu, fez tudo isso pela sua Senhora e pelas preocupações de sua Senhora como o bom Cavalo gentil que é...
Ia subindo com o pezinho em direção à minha boca.
— ...quando as partes mais simples acabaram e você teve que improvisar, você começou a agir da maneira mais burra e insuportável, que só você sabe agir e que me irrita tanto... Estava sendo Cavalo rebelde, quebrando meus comandos e depois ousando mentir para mim... tentando escapar da surra...
Epona alcançou-me a boca e foi enfiando o pezinho dentro dela... fundo, para provocar ânsia...
— ...essa é a sua verdade: gosta tanto de apanhar, de ser humilhado, que fica até difícil conseguir fazer isso sem lhe colocar em risco de vida... Mas então você fez o que deveria ser feito; de algum modo deu seu jeito e me trouxe justamente aquilo de que eu precisava. Não teve dó dos porquinhos da Noga e, principalmente, conseguiu fazer tudo isso sem ser pego em meio a uma chuva tão severa... Tudo isso enquanto eu podia me focar nos assuntos políticos do Templo, para os quais vocês, presas, não têm capacidade... Você foi meu Cavalo companheiro...
Ela tirou o pé babado da minha boca e o esfregou em mim; depois, levantou-se e foi pegar uma taça de vinho... Dessa vez, todavia, não me ofereceu.
Mas, ao olhá-la de pé, vestindo apenas calcinha e sutiã, fiquei extasiado...
— Levanta, Potro!
Levantei-me.
— Você, hoje, foi meu Cavalo gentil, meu Cavalo rebelde e meu Cavalo companheiro... Passou na prova; por mim, já é um Cavalo!
Estava desacreditado: ela havia dado a entender que a prova envolvia sexo... Sem me dar conta, perguntei:
— Mas, Senhora, você nem me usou para sentir satisfação...
— Para uma Predadora, Potro, o tesão não é um ápice, mas uma linha contínua; e hoje você me deu muito tesão!
Epona deixou a taça vazia na bancada e saltou em cima de mim!
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"Como curador dos cadernos, vejo-me obrigado a fazer alguns comentários... O Caderno Vermelho não é uma obra bem-comportada... o que apresento é a versão esculpida por mim, um trabalho meticuloso para encontrar as vozes entre diferentes caligrafias. De todo modo, existem momentos em que consigo entregar um trabalho melhor sem violar o texto e outros em que a melhor entrega seria uma violação... O que, de fato, é narrado nestes capítulos finais é uma pergunta que não posso responder sem passar de curador a autor. Vou fazer algumas revisões e volto na sexta, com o último Capítulo do primeiro Volume."
