— Eu não me lembro de muita coisa — Gillian estava sentada ao meu lado no sofá. Ainda segurava minha mão, como se também tivesse medo de que eu desaparecesse. — Depois que saí do apartamento com aquela desgraçada da Eva, era como se eu estivesse dormindo. Eu conseguia ouvir algumas coisas ao meu redor, sabia que estava acontecendo alguma coisa, mas não conseguia fazer nada. Não conseguia abrir os olhos, não conseguia controlar meu corpo.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Então, de repente, eu simplesmente desliguei.
— Desligou?
— Não sei, foi como dormir, sabe? — ela olhou para o chão. — Quando percebi novamente, eu estava em um lugar completamente branco. Havia nuvens por todos os lados. Eu não conseguia enxergar nada além delas.
— Você estava sozinha?
— Não sei — ela apertou minha mão. — Eu só lembro que não conseguia respirar. Sentia como se estivesse sufocando, mas não havia nada me prendendo. Eu tentava respirar e não conseguia.
Ela respirou fundo.
— Então acordei.
— Onde?
— Na cabana, estava tudo queimado. As paredes, o chão... tudo. Eu estava deitada no meio das cinzas — ela fechou os olhos por um instante. — E a primeira coisa que pensei foi em você.
Não consegui dizer nada.
— Eu não sabia se você estava vivo. Não sabia o que tinha acontecido depois que eu fui embora. Só sabia que precisava encontrar você. Eu não pensei em mais nada.
— E seus poderes?
— Acabaram.
— Você tem certeza?
— Tentei usar.
— Quando?
— Depois que acordei — ela deu uma pequena risada. — Foi estranho. Eu tentei fazer algumas coisas que eram tão naturais para mim quanto respirar.
Ela abriu a mão.
— Nada aconteceu.
— Nada?
— Absolutamente nada — Gillian olhou para os próprios dedos. — Acho que virei uma pessoa normal.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— E o vínculo?
— Acho que também acabou.
Por algum motivo, aquela resposta me trouxe uma sensação de alívio. Não porque eu quisesse me afastar dela. Mas porque, pela primeira vez, estaríamos juntos sem que alguma coisa sobrenatural decidisse isso por nós. Gillian pareceu perceber o que eu estava pensando.
— Você ainda me ama? — a pergunta veio tão baixa que quase pareceu um sussurro.
— Sim — olhei para ela.
— Mesmo agora? — ela continuou me encarando.
— Principalmente agora.
Seus olhos começaram a se encher de lágrimas.
— Eu jamais amei tanto alguém na minha vida quanto amo você.
— Mesmo sem os meus poderes? — uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
— Com poderes ou sem poderes — segurei seu rosto entre as mãos. — Eu não quero mais maldições. Não quero mais o vínculo. Não quero nenhuma força esquisita obrigando você a ficar comigo ou me obrigando a ficar com você.
Ela ficou em silêncio.
— Quero ficar ao seu lado porque eu escolho isso.
— Mesmo se eu for apenas uma mulher normal agora? — Gillian sorriu através das lágrimas.
— Então eu vou amar uma mulher normal.
— E se eu não souber mais fazer aquelas coisas?
— Ótimo.
— Ótimo?
— Nunca gostei muito quando você fazia aquelas coisas.
— Mentiroso.
— Sempre me dava dor de cabeça — sorri.
— E o que você quer fazer agora? — ela encostou a cabeça no meu ombro.
Pensei por alguns segundos.
— Quero uma vida normal com você.
— Uma vida normal? — ela levantou os olhos.
— Sim, sem vínculo. Sem precisar lutar contra alguma coisa toda vez que tentamos simplesmente ficar juntos — passei os dedos pelo cabelo dela. — Quero acordar ao seu lado. Tomar café com você. Ir trabalhar e voltar para casa sabendo que você está aqui. Quero caminhar com você. Ir à praia. Assistir filmes ruins. Comer pizza. Quero discutir por coisas idiotas.
— Parece uma vida muito simples — ela riu.
— É exatamente isso que eu quero — fiquei alguns segundos olhando para ela. — Você passou séculos sem ter a chance de escolher como viver. Eu não posso devolver todo esse tempo.
Minha voz falhou.
— Mas posso tentar compensar o que você perdeu.
Gillian permaneceu em silêncio.
— Quero que você tenha a vida que nunca teve. Quero que seja feliz. Não porque alguma maldição decidiu que você deveria ser feliz. Não porque existe um vínculo nos mantendo juntos — apertei sua mão. — Quero que você seja feliz porque escolheu estar aqui, comigo.
— Você realmente quer isso? — ela começou a chorar novamente.
— Mais do que qualquer coisa.
Gillian se aproximou e me abraçou. Eu a envolvi com os braços e fechei os olhos. Depois de tudo, finalmente não havia nada nos obrigando a ficar juntos.
Por alguns minutos, continuamos abraçados, sem conseguir dizer absolutamente nada. Eu ainda tinha medo de soltá-la. Parte de mim continuava esperando que aquilo fosse outra ilusão, outro sonho criado pela minha própria mente.
Ela riu, e só aquilo já expulsou esses pensamentos da minha cabeça. Ela estava ao meu lado, rindo enquanto um mar de lágrimas escorriam pelo seu rosto. E, pela primeira vez, aquele riso não parecia pertencer a uma bruxa que havia sobrevivido a séculos de sofrimento.
Parecia apenas o riso de uma mulher que finalmente estava livre.
Depois de tudo o que havia acontecido, começamos a construir uma rotina juntos. Não foi algo planejado. Simplesmente aconteceu. Nossas manhãs passaram a começar lado a lado.
O despertador tocava, eu levantava e preparava meu café, junto com o chá de Gillian enquanto ela aproveitava seus vinte minutos a mais na cama. Ela continuava preferindo chá adoçado, exatamente como eu me lembrava. Era uma coisa pequena, quase insignificante, mas sempre que a via segurando aquela xícara, eu sentia uma estranha sensação de familiaridade.
Depois do café, eu me arrumava para trabalhar. No começo, Gillian ficava em casa. Ela parecia não saber muito bem o que fazer com a própria liberdade e o tempo livre. Durante séculos, sua existência havia sido marcada por maldições, poderes, obrigações e coisas que estavam muito além da vida de qualquer pessoa comum. Agora ela simplesmente podia acordar e decidir o que faria naquele dia.
E, aparentemente, isso era mais difícil do que parecia. Ela passava horas assistindo televisão, mexendo nas coisas do apartamento ou tentando entender algumas das tecnologias que haviam surgido enquanto ela estava presa naquela existência. Às vezes me fazia perguntas sobre coisas que eu considerava completamente óbvias.
Com o tempo, percebi que ela estava apenas descobrindo o mundo.
Até que decidiu que queria trabalhar.
A princípio, achei estranho. Ela poderia simplesmente ficar em casa, mas Gillian parecia determinada a experimentar aquela vida comum em todos os seus detalhes. Então arrumou um emprego.
No primeiro dia, voltou para casa completamente indignada. Eu nem precisei perguntar o que havia acontecido. Bastou olhar para a expressão em seu rosto. Ela começou a contar sobre alguma pessoa do trabalho que havia conseguido irritá-la profundamente. Falava com tanta indignação que, em determinado momento, deixou escapar que tinha tido vontade de matar alguém.
Comecei a rir, Gillian parou, olhou para mim. Depois percebeu o que tinha acabado de dizer. Ela também começou a rir. Talvez fosse a primeira vez que conseguíamos achar graça naquilo tudo. A antiga Gillian ainda estava ali. Só que agora não havia uma maldição obrigando-a a ser quem era. Ela podia simplesmente ser Gillian.
Uma mulher com um emprego, uma casa, uma rotina e um marido que achava graça quando ela ameaçava matar alguém por causa de uma discussão no trabalho. E, estranhamente, aquilo parecia perfeito.
Foi em uma dessas noites comuns que decidimos pedir pizza. Para mim, era apenas pizza. Para Gillian, parecia uma descoberta científica. Ela ficou alguns minutos olhando para as caixas abertas sobre a mesa, observando os diferentes sabores como se estivesse diante de alguma coisa extraordinária.
Experimentou um, depois outro. Quando percebi, ela estava chorando. Fiquei preocupado no mesmo instante, mas ela apenas continuou olhando para a mesa. Disse que era a melhor coisa que já havia comido. Então olhou novamente para todas aquelas opções, havia tantos sabores, tantos tipos diferentes. E com a boca cheia e o rosto cheio de lágrimas, ela disse que iria demorar uma eternidade para provar todos aqueles sabores.
Ela pensou em todas as coisas simples que nunca havia tido a oportunidade de experimentar. Todas aquelas pequenas experiências que para mim faziam parte da vida e que, para ela, haviam sido roubadas por séculos de existência.
Ela começou a rir entre as lágrimas, existiam sabores demais. Ela ainda dizia que provavelmente nunca conseguiria experimentar todos antes de morrer. Eu disse que não precisávamos ter pressa, nós tínhamos tempo, tempo de sobra. Gillian ficou me olhando por alguns segundos. Então sorriu.
E, naquele momento, percebi que era exatamente isso que ela nunca havia tido. Tempo, tempo para escolher, tempo para experimentar, tempo para errar. Tempo para reclamar do trabalho, tempo para comer pizza, tempo para simplesmente viver.
As noites também começaram a ganhar uma rotina própria. Depois que eu voltava do trabalho, jantávamos juntos e, quase sempre, terminávamos o dia assistindo a algum filme. No começo, era apenas uma maneira de passar o tempo. Depois virou um ritual.
Todas as noites escolhíamos alguma coisa para assistir. Gillian, porém, rapidamente descobriu que tinha opiniões muito fortes sobre cinema. Não demorou para começar a criticar atuações, roteiros, finais, personagens e praticamente qualquer outra coisa que pudesse ser criticada em um filme.
Em pouco tempo, ela já se considerava uma verdadeira especialista. Eu discordava de algumas de suas opiniões. Ela discordava de praticamente todas as minhas. E, de alguma maneira, aquilo tornou nossas noites ainda melhores. Até que certa noite assistimos a um filme particularmente ruim. Quando os créditos começaram a subir, Gillian permaneceu alguns segundos em silêncio, olhando para a televisão.
— Nossa história é mil vezes melhor, podíamos fazer um filme sobre isso.
Eu concordei, se conseguíssemos vender o roteiro para algum cineasta famoso, ficaríamos ricos e nunca mais precisaríamos trabalhar. Ela ficou satisfeita. E aquela acabou se tornando a nossa crítica cinematográfica definitiva.
Alguns anos se passaram. Em algum momento, percebi que já não conseguia imaginar qualquer futuro que não incluísse Gillian. Então pedi ela em casamento, e ela aceitou no mesmo instante. Não houve grandes discursos. Não precisei encontrar palavras bonitas para explicar o que sentia, porque ela já sabia.
Gillian apenas me olhou com os olhos cheios de lágrimas, segurou minha mão e disse que sim. Naquele momento, pensei em tudo o que havíamos vivido. Tudo aquilo parecia pertencer a uma vida completamente diferente.
Agora estávamos ali, juntos, livres.
Depois de algum tempo, Gillian me contou uma coisa que a fazia gostar ainda mais daquela nova vida. Ela gostava de não saber o que estava passando pela minha cabeça. No começo, não entendi.
— É muito melhor viver sem saber o que você está pensando.
— Porque?
— Porque você é mais imprevisível do que eu imaginei — ela sorriu e apertou minha mão. — E eu amo isso.
Durante tanto tempo, o vínculo havia nos obrigado a dividir pensamentos, sentimentos e emoções. Não existia privacidade entre nós. Eu sabia o que ela pensava e ela sabia o que eu pensava. Agora não. Agora havia coisas que eu guardava apenas para mim. Pensamentos que ela precisava descobrir. Surpresas que ela não podia prever.
E Gillian gostava disso. Talvez porque, pela primeira vez, nosso amor não estivesse sendo imposto por nenhuma força sobrenatural. Ela não estava ligada a mim porque uma maldição havia decidido assim. Ela estava comigo porque queria estar. E eu estava com ela porque também queria.
A primeira gravidez aconteceu durante a lua de mel, foi a primeira de três. Foi uma surpresa completa, daquelas que mudam todos os planos de uma vida em questão de segundos. Quando descobrimos, Gillian ficou alguns instantes em silêncio, olhando para mim como se ainda estivesse tentando compreender o que aquilo significava. Depois sorriu, e eu nunca tinha visto um sorriso tão cheio de felicidade. Estava prestes a construir uma família que, durante todos aqueles séculos, provavelmente jamais imaginou que pudesse ter.
Mais alguns anos se passaram. Nosso amor não esfriou. Continuávamos juntos. Continuávamos nos desejando. Algumas noites terminávamos alucinados após uma intensa sessão de sexo. Outras terminavam apenas com nós dois deitados na cama, abraçados, porque Gillian estava cansada demais depois de um dia inteiro de trabalho.
Nossa vida havia se tornado comum. E talvez essa fosse justamente a melhor parte. Não havia mais nada extraordinário acontecendo.
Às vezes eu ficava observando Gillian em silêncio. Ela podia estar fazendo qualquer coisa completamente banal. Cozinhando alguma coisa na cozinha. Assistindo televisão. Reclamando do trabalho. Rindo de alguma coisa idiota. Ou simplesmente dormindo no sofá, exausta demais para chegar até a cama.
E, nesses momentos, eu inevitavelmente pensava naquela noite na cabana. Pensava na mulher que havia encontrado ali. Na bruxa que havia passado séculos presa à própria maldição. Na criatura que parecia pertencer a outro mundo. Era difícil conciliar aquela lembrança com a mulher que estava diante de mim.
Eu olhava novamente para Gillian. Agora ela parecia apenas uma mulher normal. Uma mulher vivendo a própria vida. Amando e sendo amada. E vivendo todos aqueles pequenos momentos que, durante séculos, lhe foram negados.
Às vezes ainda me perguntava se aquela mulher era realmente a mesma bruxa que eu havia encontrado naquela cabana. Então Gillian percebia que eu estava olhando demais para ela. Fazia alguma reclamação e eu respondia com um sorriso bobo e apaixonado. Talvez aquela mulher diante de mim realmente fosse a mesma criatura que havia passado séculos presa naquela cabana. Talvez ainda existisse alguma parte daquela bruxa dentro dela. Mas, naquele momento, isso já não importava.
Porque ela não era mais uma maldição. Não era mais uma bruxa. Não era mais um destino que alguém havia escrito por nós. Era apenas Gillian.
A mulher que eu amava.
A mulher que escolheu ficar comigo.
A mulher que finalmente teve a chance de viver a própria vida.
A própria história.
O próprio conto de fadas.
E aquele era o nosso felizes para sempre.
...
Nota do autor: talvez alguns de vocês olhem para este final e pensem que ele é simples demais para uma história como esta. Depois de maldições, bruxas, poderes, séculos de sofrimento e tudo o que Gillian enfrentou, terminar com uma vida comum pode parecer um final leve, talvez até fraco.
E, sinceramente, foi exatamente esse contraste que eu quis. Quando comecei a escrever esta história, eu tinha outro final em mente. Um final trágico, sombrio... talvez até um pouco sádico. Eu sabia desde o princípio que poderia levar os personagens para um caminho completamente diferente e, durante muito tempo, achei que esse seria o destino deles.
Mas a história foi mudando enquanto eu escrevia. Gillian mudou junto com o protagonista e, principalmente, a relação entre os dois mudou. Quando cheguei ao fim, percebi que não queria mais puni-los. Depois de tudo o que eles passaram, eu simplesmente não conseguia mais tirar deles aquilo que nunca tiveram a oportunidade de experimentar, uma vida simples, feliz e comum.
Então foi isso que eu escolhi dar a eles. Apenas uma casa, um emprego, uma xícara de café, uma xícara de chá, uma família e muitos anos juntos. Não é o final mais grandioso para uma história tão extraordinária, eu sei.
Obrigado a todos que acompanharam esta história até aqui. Obrigado a quem comentou, criticou, elogiou, teorizou e, principalmente, a quem continuou lendo até o último capítulo.
E, se você não gostou de alguma coisa, critique à vontade. Faz parte da experiência de escrever e eu gosto de saber o que funcionou e o que não funcionou para quem leu. No fim das contas, estou muito feliz com o que esta história se tornou. Estou feliz com o começo, estou feliz com o meio e, principalmente, estou feliz com o fim.
Obrigado por terem acompanhado a história de Gillian até aqui.
