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Dêem o cu mas não dêem intimidade | A Batida, Parte 4

Da série A Batida
Um conto erótico de Dominisub
Categoria: Gay
Contém 3424 palavras
Data: 30/09/2026 22:16:03
Última revisão: 30/09/2026 22:39:57

Se não conhecem a história, recomendo voltar uns capítulos pra entenderem como chegamos até aqui. Se conhecem, vocês já devem estar cansados de ouvir o Gabriel. Que tal um pouco do meu lado da história, pra variar?

Sexta-feira, cinco da manhã. Já fazem seis dias desde o acidente. A cafeteira pingava, o resto do bairro ainda dormia, e eu já estava de pé, encostado no balcão, esperando o café coar pra começar o dia.

Foi fácil. Quebrar o Gabriel foi fácil pra caralho. Bastou um chinelo, um pouco de jogo de cintura e um carro. Um carro inteiro, é bom lembrar. Não vou fingir que não doeu no bolso. Mas valeu cada centavo ver aquele cara gemendo alto e ficando com vergonha de se ouvir, com meu pezão na boca e a cara mais vermelha que um pimentão.

— Ai eu sou homem, porra. Tá achando que eu sou viado? — Com a boca ainda melada.

Cara desse tipo é sempre a coisa mais patética que existe. Sabe o que é, sente o que sente, mas ainda gasta fôlego negando alguma coisa enquanto tá engasgando com uma rola entalada na garganta. Por que não se assume logo e aproveita?

Peguei o celular em cima do balcão. Algumas notificações no Instagram, alguns grupos do WhatsApp enchendo o saco. Abri o chat com o Gabriel. Nada. A semana inteira, nada. Geralmente, depois de uns três dias eles já mandam mensagem querendo mais. "Opa, bora se encontrar? Sgl" Isso é clássico desse tipinho. Só que já tinha passado três, quatro, seis dias. Nada de Gabriel. E não só no celular. Não o vi mais na academia, pelo centro. O garoto desapareceu!

Fiquei olhando a tela um tempo, o cursor piscando onde eu não escrevi nada. Será que eu deveria mandar? Não. Não é assim que funciona. Quem tem que implorar é ele.

Desci o dedo e vi o outro chat, o do meu irmão. Segunda-feira ele mandou mensagem pedindo desculpa pelas merdas que ele me falou no domingo. Não respondi. As pessoas realmente adoram cuidar da vida dos outros.

Domingo

— Eu vou ver o que consigo fazer com o parachoque. Martelo, lixa, primer. Fica feio mas dá pro gasto.

— Mas e o vazamento de óleo?

— Aí que mora o problema. O cárter rachou e já vazou mais da metade do óleo. Se rodar assim o motor vai fundir e aí sim, o prejuízo vai ficar feio. Esse serviço ficaria uns mil reais, mas porque você é meu irmão, eu faço por R$ 975.

— Certeza? Você falou ontem que ia ficar cinco mil. O carro nem tá ligando.

— Ah, é, bem lembrado. É que eu pensei que ele não estava ligando por um motivo mais grave. Mas olhe aqui. — Celso abriu o capô, enfiou a cabeça no compartimento, mexeu em uns cabos e apertou alguma coisa. — Pronto! Era o borne da bateria. Mas já está ligando normal agora, pode testar.

— Você jura? Cara, e eu ainda falei pro cara que isso ficaria uns cinco mil. Celso, valeu mesmo. E obrigado por ter trazido o carro aqui pra casa ontem. Aquele cara resolve furar o cruzamento logo antes da minha aula.

— Aula? Pensei que você tava bêbado.

— Bêbado? Por que eu estaria bêbado? Era 10h da manhã.

— Por nada.

— Hm. E quando você consegue pegar ele pra consertar.

— Eu podia começar agora. Mas não vai dar tempo. Estou escalado pra ser diácono na igreja hoje à noite e não posso me atrasar. Também tenho que levar as crianças na escola domini…

— Ah, você voltou pra igreja?

— Graças a Deus!

— Tá certo. Vem cá, não dá tempo nem de ir tomar uma breja? Tá geladassa no freezer.

— Cerveja? Não bebo mais, meu irmão. E não dá tempo, preciso me arrumar ainda.

— Um café então? Eu passo um pra gente rapidinho.

— Tá, vai!

Entramos para a cozinha. Celso se sentou nos bancos da ilha e eu peguei as coisas para preparar o café. Passamos um tempo em silêncio até eu puxar qualquer assunto.

— E então? Como tá a Raissa? Vocês tão sumidos.

— Tá bem! Muito bem!

— E as crianças? Pietro e Duda. Encontrei Duda voltando da escola esses dias. Comprei um sorvete pra ela.

Entreguei uma xícara de café para Celso. Outra para mim.

— É, ela me falou.

— A loja?

— Bem.

Tomei um gole do café. A conversa estava mais amarga que ele. E eu, sem paciência. Por que ele não quer conversar?

— E a mãe? Tem falado com ela? A gente precisa marcar uma viagem pra ver como eles estão, né? Já faz quanto tempo que não vamos lá?

— Eu fui ano passado.

— Ah sim! Mas temos que ir juntos.

— Você sabe que o pai não te quer lá enquanto você seguir com esse estilo de vida.

— O que? Que "estilo de vida"?

— Você sabe do que eu tô falando.

— Não sei não. Fala.

— Todo mundo fala, Carlos. O pessoal da igreja. Você tá famoso por aí.

— Famoso como? — Puxei a banqueta e sentei de perna aberta, a xícara apoiada na coxa. — Fala o que eles falam. Eu quero ouvir da sua boca.

— Por ser um cafajeste! Carlos, você tá sempre por aí. Sai com qualquer uma. Solteira, casada, viúva. Bebe. Todo final de semana está em um bar. Só anda com gente torta. — Ele mexeu o café sem tomar. — O pastor até me falou que você estava — Gesticulou uma foda com as mãos — com um casal!

Eu não acreditei no que eu tava ouvindo.

— Tava.

Celso parou de mexer a colher.

— Com um casal — repeti. — Ela em cima de mim e ele atrás dela. Depois os dois de joelhos, bem aí perto de onde você tá. Mamando no meu pau. Um na cabeça, e outro nas bolas. Depois a gente foi pro quarto. Quer saber quem ficou no meio?

— Carlos, p...

— Pergunte ao seu pastor. Ele deve saber mais detalhes já que está tão por dentro do assunto, né? Será que ele foi o dessa semana, ou o da outra? É um calvo, baixinho?

— Eu não fiquei aqui pra isso.

— Ficou sim. Tá querendo me falar alguma coisa desde a hora que suspeitou que eu tava bêbado às 10h de um sábado, só que não tem culhão de perguntar. — Me inclinei pra frente. — Então vai, sou todo ouvidos. Pergunta se eu gosto. Pergunta se eu dou ou se eu como.

— Chega.

— Eu como, Celso. Quase sempre. Mas tem umas noites que…

— QUE POUCA VERGONHA, Carlos! Isso é adultério e sodomia! Com que cara você acha que eu fico? E outra, isso não faz bem pra sua alma. Deus tem um p…

— FODA-SE o que isso é, Celso. Foda-se! E se o pai tá sabendo do meu "estilo de vida", é porque tem algum boca aberta falando pra ele, né?

— Vai mentir para seus pais agora?

— Não preciso mentir. Quer saber? Esquece. A hora que eu quiser eu vou lá vê-los. Com ou sem você. Eu sei que MINHA mãe vai querer me ver.

— Carlos, é pro seu bem.

— Hora de ir, você não tinha compromisso? — Cortei Celso enquanto ia até a porta. — Tenha um bom culto!

Abri a porta e apontei a saída. Minha xícara de café na outra mão.

— Você é sempre bem-vindo na igreja, meu irmão.

— Tentem falar mais de Deus e menos de mim.

Fui atrás de Celso até o portão. Não trocamos mais uma palavra sequer. Era como se tivéssemos perdido qualquer ligação que um dia tivemos. Ele acelerou e desapareceu entre os lotes vazios. Ninguém na rua. Ninguém nunca vê nada nessa rua e todo mundo sabe de tudo.

Sodomita. Cafajeste. O que mais? Alcoólatra?

Tomei o último gole do café. Estava quente demais e descia queimando, e eu deixei queimar. Meu braço sobiu sozinho numa fração de segundos. A xícara saiu e voou antes de eu decidir qualquer coisa e bateu no capô com um estouro seco. Explodiu. Os cacos brancos voando pela garagem, o resto de café manchando a lataria amassada do carro, escorrendo em pequenas gotas pelas frestas. Minha mão continuou fechada do mesmo jeito. Segurando nada. Nada. Esse café era a única coisa que ainda me deixava próximo de tudo. Da minha mãe, minha infância. De mim.

Dê o cu mas não dê intimidade. Eu e meu irmão nunca fomos tão próximos assim. Crescemos num cafezal onde nossos pais eram caseiros e ele sempre foi mais próximo do meu pai, assim como eu era próximo da minha mãe. Quando nos mudamos juntos para Sumaré, ele pegou a mania de ficar me cercando, me vigiando. Acha que cuida de mim.

A semana continuou como se nada tivesse acontecido, tirando o fato de que estava sem carro e precisava acordar bem mais cedo pra chegar nos meus compromissos. Academia, dava aula particular às 6h e logo em seguida fazia meu treino. Depois, ia pro trabalho e lá ficava até às 18h. Ia e voltava a pé. Pelo menos fazia o cardio.

Naquela semana, o Felipe veio visitar a agência, diretor das agências da RMC (região metropolitana de Campinas). Quando ele aparece, vira um caos no escritório: faz auditoria de tudo e não deixa passar um detalhe em branco. Eu e ele temos um lance, se é que dá pra chamar de lance o que a gente faz toda vez que ele pisa na cidade. Na noite de quarta-feira, mandei uma mensagem pra ele, pra quebrar a rotina que, honestamente, já vinha me incomodando fazia uns meses. Com o Felipe é igual hot-pocket: aperta três botões, espera um pouco, e ele tá prontinho no seu portão.

Quarta-feira

O portão bateu duas vezes, como sempre bate. Felipe entrou já tirando o paletó, jogou em cima da poltrona, e eu nem cheguei a fechar a porta direito e já tinha ele contra ela, minha mão no queixo dele, virando o rosto pro lado.

— Devagar, grandão — ele riu, mas não empurrou.

Não fui devagar.

Empurrei ele de joelhos ali mesmo, no corredor, o chão frio batendo nos joelhos dele por cima da calça social. Abri o cinto sem pressa, só pra ele ver, só pra ele esperar, porque é isso que ele quer, na real — não é a rola, é a espera antes dela. Tirei pra fora e enfiei até sentir a garganta dele fechar em volta, aquele engasgo curto que vem sempre no mesmo ponto.

Puxei o cabelo dele pra trás e deixei ele respirar um segundo só pra ter o prazer de empurrar de novo. Minha pica sumia dentro da boca dele. Empurrei ele pras minhas bolas e ele já sabia o que eu queria. Colocava as duas na boca enquanto batia punheta pra mim. Puxei a cabeça dele para trás mais uma vez.

— Vou gozar

Ele ficou de boca aberta, olhos fechados, mãos nas próprias coxas, esperando. Gozei em cima da cara dele, um jato pegando a bochecha, outro o cabelo, e ele nem se mexeu até a última gota que eu espremi e deixei cair no meio da sua língua.

— Caralho — ele falou, rindo, limpando com o dedo.

— Pensei que ia me dar tudo na boca.

— É só lamber com os dedos.

Ele se levantou rindo, catou a cueca do chão, o celular da estante — sempre o celular antes da calça — e foi pro banheiro. Na pia ele ia achar a aliança onde ele mesmo largou, do lado da minha escova de dente.

Quarenta e dois anos, branco, parrudo. A gente transa desde outubro e nunca pisou fora dessa casa junto fora do escritório. Sigiloso. Se alguém descobre, ele tem muito a perder. A posição no banco, família. Mas quem vai negar 22cm?

Deitei. A sensação de orgasmo, quase mecânico, foi embora rápido e sobrou aquele zumbido de motor desligando. Felipe abriu a torneira. Maldita torneira. É sempre a mesma coisa: eu olhando pro teto, a torneira chiando escorrendo água. Depois fecha, e o portão bate. E então, nada. Nada nunca acontece nessa casa além disso.

Falei pro teto. Era mais fácil.

— Felipe

— Hum?

— Tá afim de sair amanhã à noite?

— Por que?

— Por que? Ah! Sexta-feira, vai estar quente. Geralmente as pessoas saem. A gente podia ir num bar, num restaurante, até no cinema. Depois brincar mais um pouco…

Três opções. Dei três opções pro cara, feito vendedor de loja.

— Pô, lindão. Não vai rolar pra mim. Amanhã cedo pego a estrada com a minha esposa e as crias. Vamos passar o final de semana no Thermas de Olímpia. Já foi?

— Ah… Tá. Não, nunca fui…

Felipe veio até mim, já vestido, subiu na cama e se apoiou no meu colo.

— O que foi, hein, grandão? Tá carente, é?

Carente. Com a minha porra ainda secando no queixo dele, cheirando ao meu sabonete, traindo a mulher. E a palavra que ele escolheu foi essa.

Tirei ele de cima de mim.

— Já se limpou?

— Engoli tudo.

— Pode ir embora.

…

E finalmente chegamos hoje, na sexta-feira. Já tomei todo o café, mas ainda não acordei. Deus ajuda quem cedo madruga. Quem foi o idiota que inventou esse ditado?

Na garagem, chutei o parachoque que o Celso encostou na parede no domingo, amassado, esperando a peça chegar. Apesar de todos esses ocorridos, essa semana foi como qualquer outra. Uma mesmice sem fim. E pra piorar, sem a droga do carro. E o filho da puta do Gabriel nem me deu uma moral.

Quando cheguei na academia, Jéssica já estava na recepção esperando. Ela é a melhor aluna que eu tenho. Chega na hora, faz a série do jeito que eu passo, anota o que come, pergunta. Parceirona. Além disso, tenho ela como minha amiga. Dá pra conversar com ela sobre tudo. Quase tudo.

— Finalmente!

— Me erra, tô sem carro. E você podia ter começado seu treino já, mandei sua ficha pra quê?

— Ih, que que foi, hein? Tá estranho hoje.

— Nada. Cansado.

Ajeitei o peso e o assento na cadeira extensora para ela. 65kg. Ela apontou pra placa de 70kg. Coloquei.

— Cansado, é? Cadê? Fez o que de bom essa semana? Algum esquema novo? — Ela riu, mas continuou olhando. — Já sei. Rolou algum BO com o carinha do acidente? Foi o assunto da semana aqui. Depois de sábado ele su-miu!

Larguei o celular virado pra baixo no apoio da máquina.

— Um. Dois. Desce mais.

— Fala!

— Rolou.

— Sabia. Rolou o quê? — Ela soltou o peso no meio da série, levantou, mão no meu braço. — Não vai me dizer que...

— Rolou que o carro tá uma merda e ele sumiu. Quase uma semana. E ainda não mandou mensagem.

Peguei uma anilha que já estava no lugar e coloquei no mesmo lugar de novo.

Passei o olho pelo salão. Seis e pouco, meia dúzia de gente. O Fábio no espelho, de fone, contando sozinho. Ainda não tinha falado com ele hoje. O amigo do moleque, o grandão, não estava lá. Nenhum sinal de Gabriel.

Virei o celular. Nada. Virei de volta.

— Carlos, qual foi? Eu te conheço. Você não deixaria um carinha daquele fugir.

Ela esperava uma reação. Não dei. Mais por ele do que por mim. O silêncio já entregou mais do que eu queria.

— Tá bom, guarda seu segredo aí. Só não reclama se eu descobrir sozinha.

— Oito. Nove.

Bati de leve na máquina com a mão aberta. Era pra ele ter mandado mensagem já. Eles sempre mandam. Segunda, terça no máximo, chega aquele "oi" sem nada antes e sem nada depois, e a gente já sabe o que é. Será que eu não tô mais com essa bola toda? Jantar recusado de um, sumiço do outro, na mesma semana. Não. É melhor assim. Já causei destruição demais.

Peguei o celular. Abri a conversa. Digitei. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei. Guardei no bolso, que é mais longe.

— Ai Carlos, sabe o que eu acho?

Ela ainda não terminou uma série. É isso que eu acho.

— Você precisa conhecer alguém. É, sei lá. Um lance sério, sabe? Não que você não possa contar comigo. Você pode! Mas você tá sempre aí tão… sozinho.

— Onze. Doze. Isometria de 10 segundosEla sussurrou enquanto buscava forçar para o exercício.

— Esses caras aqui da academia são tudo uns lambe bolas. Quantos perguntaram se você tava bem depois do acidente? Hein?

— Um, Dois.

— Nem fodendo.

Ela soltou o peso com tudo. Os atendentes da recepção nos fitaram.

— O que eu to querendo dizer, Carlos, é que alguém do seu lado iria te apoiar. Estar com você. Conselho de amiga.

— 100 burpees. Agora.

A droga dos pitacos da Jéssica ficaram na minha cabeça o dia todo. "Sozinho". Ela não estava errada. Mas como eu ia resolver isso? O viadinho não me mandou mensagem, os outros caras que eu conheço já são todos casados. A verdade é que pra sexo todo mundo vem até mim. Mas ninguém fica.

...

Meio-dia. Se eu quisesse me resolver eu ia precisar da minha hora de almoço inteira. E, se eu ia mexer no que tava me sufocando, ia precisar de carro — o meu ainda tava encostado, amassado, esperando peça.

Desci a avenida a pé, de camisa social e crachá, na hora mais quente do dia. Doze minutos de ida, doze de volta, sobrava meia hora. Parei na calçada e fiquei olhando os carros alinhados na vitrine, o sol batendo nos para-brisas, a camisa colando nas costas. Cinco minutos ali, parado, ensaiando.

Eu já apanhei de três ao mesmo tempo, num quintal de terra batida. Doeu menos do que atravessar aquela porta.

Atravessei o salão com os carros e cumprimentei os vendedores de longe. Não queria papo com ninguém. Na parede do fundo, a mesma foto de sempre: o Celso de camisa social no dia de inauguração da loja, o dedo apontado pra cima. Bati na porta do escritório.

— Carlos? Carlos! Que bom que você veio. Entra aí.

Que bom que você veio. Como se ele tivesse me chamado.

— Com licença.

— Fala, meu irmão. Veio do banco? — Olhou o crachá, depois o relógio na parede.

— Sim. Preciso ser rápi...

— A gente acabou se desentendendo semana passada.

Se desentendendo.

— Eu não vim aqui falar so...

— Não, deixa eu falar. Eu passei dos limites, Carlos. Não devia ter falado de você daquele jeito, na tua casa. — Juntou as mãos em cima da mesa. — Eu orei por você a semana toda, Carlos. Todo dia. E isso não muda nada, viu? Você é meu maninho. Independente de tudo.

Independente de tudo. É assim que ele fala o que ele não fala.

— É que eu me preocupo com você. Quero te ver bem, casado, com uma família. É só disso que um homem precisa.

Eu tinha uma resposta pronta. Tava na ponta da língua, quentinha, e acabava com o almoço dos dois. Engoli.

— Se preocupa? — Foi o máximo que escapou.

— É claro! Se tem uma coisa que eu aprendi na fazenda foi que a família vem sempre em primeiro lugar!

— Eu vim aqui te pedir um favor.

A minha voz saiu diferente. Mais fina, mais limpa. Voz de quem atende cliente na boca do caixa. Ouvi ela sair e não deu pra puxar de volta.

— E o que seria?

— Eu...

Celso tirou os olhos das notas fiscais e me encarou.

— Eu preciso de um carro. Emprestado. Aquele branco que tá na vitrine. Um dia só. Por... favor.

— O 320i. — Ele encostou na cadeira. — E vai pra onde com ele?

— Campinas.

— Campinas?

Se arrependimento matasse.

— Campinas!

— Campinas. Sexta à noite, carrão. — Ele foi baixando o tom. — Vai com quem, Carlos?

Não respondi.

— É mulher?

Ele não perguntou por perguntar. Ele esperou. Ficou ali com as duas mãos paradas em cima da pilha de nota.

— Quer saber, deixa pra lá, Celso. Deixa pra lá.

Me levantei. Eu sabia que ia dar nisso. Não sei nem por que vim, nem por que gastei meu almoço com isso. Ter que ficar dando satisfação.

Celso abriu a gaveta.

— Devolve amanhã.

Me virei. Ele jogou a chave na minha direção.

— O quê?

— Devolve amanhã. E cuidado, esse acabou de chegar.

O carro tinha acabado de ser lavado. Sentei, ajustei o banco, o retrovisor, o encosto de cabeça. Fiquei um tempo com as duas mãos no volante, parado no pátio da loja do meu irmão, sem ligar o motor. Foi só aí, com a chave ainda fria na mão, que eu me dei conta de que gastei o almoço inteiro engolindo sermão do Celso pra fazer exatamente a coisa que eu jurei que não ia fazer essa semana. Ir atrás. Peguei o celular. Gabriel.

"Oi." Apaguei.

"E aí." Apaguei.

"Vamos se ver hoje?" Li três vezes. Parecia pedido. Apaguei tudo.

Te pego na sua casa às 19h.

E aí pessoal? Será que Gabriel vai responder a mensagem de Carlos?

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