Sofy apareceu na casa da Nicole do nada, foi uma surpresa enorme para mim e, provavelmente, para todas as pessoas que estavam ali. Meu cérebro estava a mil, tentando entender o motivo daquela visita, de como ela havia chegado até ali e, principalmente, por quê. Mas, quando ela disse que já sabia onde todas nós morávamos antes mesmo de me conhecer pessoalmente e que já nos conhecia, eu simplesmente parei de tentar entender. Nada fazia sentido; acho que meu cérebro bugou e meu raciocínio parou de funcionar. Voltei para o sofá, me sentei e a única coisa que me veio à cabeça foi: estava muito bom para ser verdade.
Antes que eu ou as meninas pudéssemos fazer outra pergunta, depois do choque do que ela disse, Sofy continuou:
Sofy— Antes que vocês pensem que eu investiguei vocês ou algo do tipo, quero que saibam que não fiz isso. Eu estava investigando outra pessoa e vocês estavam ligadas a ela, por isso sei algumas coisas sobre vocês. Não vim aqui para brigar ou pedir explicações, pelo contrário, vim para me explicar, e me desculpar, principalmente para você, Camila.
Olhei para Sofy e percebi que ela estava com medo. Suas mãos tremiam, e se tudo que ela demonstrou nos dias que passei com ela fosse realmente verdade, estar ali falando aquilo estava sendo muito difícil para ela. Porém, eu não sabia mais quem ela era, nem se tudo que me disse era verdade. Talvez estivesse apenas atuando. A única coisa que consegui fazer, foi dizer: pois bem, explique-se.
Sofy— Acho que vocês estão em uma reunião importante; podem terminar, eu posso esperar.
Raquel— Não, pode falar o que tem a dizer. Estou muito curiosa sobre como você sabe tanto sobre nós e, o mais importante, qual pessoa você estava investigando?
Sofy— Minha esposa. Na verdade, não somos casadas no papel, mas era assim que vivíamos e nos tratávamos, então, ela era sim minha esposa.
Nicole— Sua esposa? Quem é sua esposa?
Sofy— A Laura.
Raquel— Como é? A Laura, nossa ex-amiga?
Sofy— Sim, essa mesma.
Quanto mais Sofy revelava sua verdade, mais eu ficava em choque. A pessoa que a traiu durante dez anos era a Laura, a mulher com quem eu fiquei. Na verdade, todas ali naquela sala já tinham se envolvido com a Laura. Porém, acho que ninguém sabia ou sequer imaginava que ela era casada.
Sandra— Como assim? A Laura nunca foi casada! O que você está falando não faz sentido.
Sofy— Eu sei que não faz, mas posso provar o que estou dizendo.
Camila— Então tudo não passou de uma vingança? Tudo que vivemos era uma mentira?
Sofy— Não, nada do que vivemos foi mentira. Eu me apaixonei por você e quero ficar com você, mas não posso fazer isso sem te contar a verdade. Sei que talvez você possa até me odiar, mas não vou mais esconder esse segredo de você.
Camila— E por que resolveu vir aqui, justo hoje, para contar isso?
Sofy— Porque não quero mais ser a excluída pela pessoa que amo. Sempre fui escondida, tratada como uma ferramenta para as pessoas alcançarem seus objetivos, sempre fui usada só para isso. Deixei de viver por medo, e as pessoas que amava me escondiam do mundo. Estou cansada disso; só quero fazer parte de algo, ser mais do que apenas a pessoa útil, mas sim a pessoa que também é amada, cuidada e incluída. Eu só quero…
Sofy não conseguiu mais falar; começou a chorar e, por mais que tentasse segurar as lágrimas, não conseguia. Provavelmente, ela havia ultrapassado todos os seus limites e desabou. Deixou o corpo cair e ficou ali, de joelhos, no meio da sala, sem parar de chorar. Meu instinto foi ir até ela, mas demorei um segundo a mais para agir e, quando percebi, Sandra já estava abaixada à sua frente, segurando suas mãos e pedindo para ela se acalmar.
Sandra— Raquel, traz um copo de água para ela, por favor. Sofy, tenta se acalmar. Vamos ouvir o que você tem a dizer, mas precisa se acalmar para poder contar. Não sei as outras, mas estou curiosa e não vou te julgar antes de te ouvir. Imagino que você passou por muita coisa ruim e prometo tentar te ajudar no que puder. Não sei se seremos amigas no futuro, mas pelo menos hoje, você pode contar com meu apoio, ok?
Quando ouvi Sandra dizer aquilo, foi como levar um tapa na cara. Eu estava nervosa com toda aquela situação, sem saber no que acreditar, sem saber quem era a mulher à minha frente. Mas Sandra tinha razão. Sofy tinha o direito de se explicar sem ser julgada. Eu deveria ter dado apoio a ela, mesmo sem saber se merecia. Mas não fiz isso, e ela desabou. Para entender de vez o que estava acontecendo, eu precisava saber de tudo e sem meu apoio, talvez Sofy não conseguisse nem começar a falar.
Levantei-me e fui até ela, abaixei-me ao lado de Sandra e, quando Sofy me viu, soltou uma das mãos que Sandra segurava e esticou o braço em minha direção. Estava pedindo socorro, e não podia negar, não antes de saber a verdade. Segurei sua mão com as duas mãos e apertei, demonstrando apoio, algo que havia negado antes.
Camila— Sandra tem razão, você merece a chance de pelo menos contar o que aconteceu sem ser julgada. Vou te ouvir, prometo, mas precisa se acalmar para poder explicar tudo.
Sofy me olhou e fez um sinal positivo com a cabeça. Raquel chegou com o copo de água e deu a ela. Ajudamos Sofy a se levantar e a sentamos no sofá. Ela ainda chorava, mas, aos poucos, foi se acalmando e o choro diminuindo. Com alguma dificuldade, ela bebeu um pouco da água que Raquel trouxe. Sandra perguntou se queria ir ao banheiro lavar o rosto, mas ela disse que não precisava e que provavelmente iria chorar de novo.
Sofy— Prefiro contar tudo a vocês e depois faço isso.
Sandra— Tudo bem, quando você estiver pronta, pode falar que vamos te ouvir.
Sofy limpou as lágrimas mais uma vez com as mãos, e foi então que Nicole tirou da bolsa um pacote de lenços umedecidos e entregou a ela. Naquele momento, percebi que o choro de Sofy havia sensibilizado todo mundo; até mesmo Raquel, que era a que menos demonstrava suas emoções, estava com uma expressão de pena.
Sofy agradeceu a Nicole, usou um dos lenços para enxugar o rosto, respirou fundo e começou a falar.
{...}
"Sofy:"
Vou contar minha história a vocês de forma resumida, mas com fatos que vão ajudar a entender quem sou, o que passei e por que vim parar exatamente aqui na frente de vocês. Para vocês compreenderem, vou começar desde a minha infância até chegar no dia de hoje. Mas fiquem tranquilas, não vai ser uma grande novela, já que minha vida não teve grandes momentos importantes; eu não tive a chance de vivê-la corretamente por vários motivos, alguns deles por culpa minha.
Não conheci meu pai; quando ele faleceu, eu tinha pouco mais de seis meses de vida. Fui criada pela minha mãe, que sempre foi bastante rigorosa comigo. Ela não é do tipo que dá carinho ou demonstra amor. Isso ficou claro desde que eu era pequena.
Quando eu tinha uns onze anos, minha mãe se casou novamente, e seu marido, meu padrasto, era um empresário importante na cidade. Ele tinha uma empresa, e na época eu nem sabia que tipo de empresa era. Logo depois do casamento, minha mãe praticamente me obrigou a estudar administração e economia. Eu tinha acabado de entrar no colegial, e mesmo assim, ela fazia eu estudar livros destinados a quem estava na universidade.
Meu dia a dia era estudar no colégio, ler livros e ter aulas particulares. Meu padrasto não tinha filhos, já estava com uma idade avançada e minha mãe parecia estar prevendo o futuro.
Então minha mãe planejou o futuro dela, sem se importar com o meu. Ela não dava a mínima se eu gostava daquilo ou não; eu simplesmente era obrigada a fazer.
Sempre fui muito tímida, não conseguia fazer amigos, pois tinha dificuldades até de conversar com as pessoas. Meu único amigo era o Marcelo, aquele que vocês conhecem, o motorista da Laura. Marcelo era filho de uma das empregadas que morava na mansão do meu padrasto, e acabamos nos tornando amigos por causa da nossa convivência diária. Meu padrasto gostava muito da mãe dele e ajudava eles em tudo, até com os estudos de Marcelo.
Quando eu tinha 18 anos, meu padrasto faleceu e minha mãe herdou uma pequena fortuna. Juntando o que meu pai havia deixado, tínhamos o suficiente para viver muitos anos sem precisar trabalhar. Porém, minha mãe tinha outros planos. Ela vendeu tudo o que meu pai deixou para ela, exceto o que era meu, porque ela não podia. O que era meu, ela me fez vender boa parte, dizendo que era para pagar meus estudos. E, sinceramente, acho que ela fez certo, só não achei justo pelo que aconteceu depois.
Eu fazia dois cursos de uma vez, administração e economia. Ambas as faculdades eram pagas e eu ainda tinha aulas particulares de inglês, espanhol, depois de alemão e italiano, por fim, Francês. Resumindo, eu sei falar cinco línguas, além do português. Me formei em administração e economia, e aos 25 anos já era presidente da empresa da minha mãe.
Eu não tive uma vida; só estudei. Saía de casa apenas para ir ao colégio e depois para a faculdade. A única pessoa com quem falava era Marcelo. Nós nos tornamos bons amigos, e os poucos momentos de felicidade que tive foram com ele. Eram momentos normais, conversas e brincadeiras bobas que me faziam sorrir. Para mim, isso, eram meus momentos especiais.
Resumindo, quando assumi a presidência, abri uma nova frente na empresa: investimentos. A empresa era de seguros e dava um bom lucro, mas eu via uma nova oportunidade surgindo no mundo dos negócios e resolvi arriscar. Deu muito certo; em dez anos, transformei uma empresa de seguros de porte médio, em uma gigante no mundo dos investimentos financeiros.
Eu era boa com números, tinha visão de mercado e era muito inteligente nos negócios. Todo o dinheiro que minha mãe investiu em mim valeu a pena. Tudo bem que o dinheiro era meu, mas na época não enxergava assim, e minha mãe conseguiu o que queria. No segundo ano em que assumi a empresa, ela vendeu tudo que podia e foi viajar pelo mundo. Nem a mansão onde morávamos ela deixou; tive que ir morar de aluguel até poder comprar meu apartamento. Meus estudos foram pagos com meu dinheiro, eu fiz ela ganhar milhões e ela basicamente me expulsou de casa.
Minha vida era trabalhar e trabalhar, mas eu gostava do que fazia e era muito boa, por sinal. Marcelo, apesar de se formar, preferiu trabalhar como meu motorista. Eu pagava um bom salário para ele; metade saía da empresa e a outra eu pagava do meu bolso. Valia a pena, pois tinha a companhia do meu único amigo todos os dias.
Bom, sempre fui muito tímida e, como vivi meio que isolada, não desenvolvi muito bem meu traquejo social. Resumindo, tinha uma dificuldade enorme de me relacionar com outras pessoas; na verdade, não gostava. Foi aí que a Laura entrou na minha vida e se aproveitou desse meu problema para se tornar a empresária bem-sucedida que vocês conhecem. Uma estagiária que hoje é uma das diretoras mais respeitadas da empresa da minha mãe, onde eu sou a presidente.
Quando entrei na empresa, era estagiária. Laura já era advogada contratada; ela fez estágio na empresa e o presidente da época, por algum motivo que hoje eu duvido que tenha sido por competência, a contratou. Ela ainda não atuava muito; ficava mais levando e trazendo documentos de um setor para o outro. Poucas pessoas ali sabiam quem eu era, e eu praticamente não fazia nada; estava ali para aprender. Vagava de setor para setor de forma silenciosa, tentando entender como tudo funcionava. Mas tinha minha própria sala e Laura começou a aparecer cada vez mais. Às vezes, trazia um café; outras, me chamava para reuniões a mando do presidente. Hoje, tenho quase certeza de que ela sabia quem eu era e obteve essas informações diretamente com o presidente, mas na época isso nem passou pela minha cabeça.
Com o tempo, ela começou a puxar assuntos comigo, primeiro coisas banais ou sobre a empresa. Eu mal respondia, mas ela era legal e acabei perdendo a timidez aos poucos. Depois de uns seis meses, já conversávamos bastante. Laura sabia o que fazia, e fui deixando ela se aproximar, chegamos até trocamos números de telefone.
Eu sabia que gostava de mulheres, desde minha adolescência, mas ninguém sabia, a não ser Marcelo. Ele era a única pessoa que conhecia tudo sobre a minha vida. Nem Laura fazia ideia disso e foi aí que ela começou a me chamar para sair, conhecer pessoas, e eu recusava. Acho que sua intenção era arranjar um namorado para mim, ou algo do tipo. Ela nunca tentou nada comigo; me tratava como amiga, mas eu ja tinha uma queda por ela, mas guardava isso só para mim. Um dia, ela disse que tinha um amigo muito bonito e achava que nós dois nos daríamos bem. Já tinha quase um ano que eu estava na empresa e tinha criado muita liberdade com Laura.
Nesse dia que ela queria que eu conhecesse seu amigo, eu disse que não e ela ficou insistindo. Para evitar mais situações assim, e por achar que finalmente tinha feito uma amiga, acabei confessando que era perda de tempo ela ficar fazendo aqueles convites, pois não tinha interesse em homens. Ela reagiu super bem; na verdade, parecia ter ficado feliz, algo que adorei, porque, no fundo, tinha medo que ela se afastasse de mim quando soubesse. Porém sua reação foi melhor do que eu esperava.
A partir dali, ela mudou comigo; nunca mais me convidou para conhecer homens, nem para sair. Mas os contatos, como pegar na mão, abraçar ou arrumar meu cabelo com os dedos, só aumentaram. Eu gostava daquilo; além de ter uma queda por ela, era bom sentir contato humano, algo raro na minha vida.
O fim do ano chegou e fui a uma festa da empresa, meio que obrigada a ir com minha mãe. Foi nesse dia que Laura aproveitou um momento em que estávamos sozinhas e me levou até uma sala vazia. Eu não fazia ideia do que ela queria. Quando entramos, ela disse que estava apaixonada por mim, que não parava de pensar em mim um minuto sequer. Eu não sabia o que dizer, fiquei toda vermelha de vergonha. Foi aí que ela me beijou; eu já tinha 24 anos e foi nesse dia que aconteceu meu primeiro beijo. Eu nem sabia beijar direito, mas achei tão bom que senti minhas pernas perderem a força e quase caí.
Laura foi perfeita comigo; não riu de mim, me ajudou a me manter de pé e foi extremamente carinhosa. Naquele dia, me apaixonei por ela; ela era perfeita e pensei que, pela primeira vez na vida, eu seria feliz. Nem que fosse por alguns momentos.
Mal sabia eu que ela me daria dez anos de felicidade falsa e que eu só fui um peão que ela usou para conseguir o que queria.
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
