A madrugada tinha aquele silêncio pesado que só existe depois da uma da manhã. Sabe quando a casa inteira parece ter parado de respirar? A televisão já estava desligada havia horas. A luz do corredor, aquela que a gente deixa acesa por causa da Camila, entrava pela fresta da porta e desenhava um retângulo amarelado no chão. Eu estava deitada de costas, o travesseiro um pouco alto demais, tentando dormir, quando senti o colchão afundar do meu lado direito.
Era ela.
Camila entrou sem fazer quase nenhum barulho, como sempre faz quando tem pesadelo ou simplesmente não consegue dormir. Não pediu licença. Nunca pede. Só se ajeitou, puxou o lençol fino e deitou a cabeça no meu peito, o cabelo ainda úmido de banho escorrendo um pouco no meu ombro. O cheiro dela subiu na hora: sabonete de aveia misturado com aquele perfume levinho que ela usa só para dormir. Eu fiquei parada. A mão esquerda ficou pairando no ar por um segundo, como se eu ainda estivesse decidindo se podia tocar, e depois desceu e pousou nas costas dela, por cima da camiseta fina.
Do outro lado, Juliana se mexeu.
Eu senti o corpo da minha namorada se aproximar, o calor dela colando nas minhas costas. A respiração quente no meu pescoço. A mão dela, que antes estava quieta na minha cintura, deslizou devagar pela barriga e parou bem na beira da calcinha. Não desceu. Só ficou ali, o polegar fazendo aqueles círculos preguiçosos na pele. Eu já sabia o que vinha. E, ao mesmo tempo, fingia que não sabia.
Camila suspirou contra o meu peito. O peso da cabeça dela era quente, quase pesado demais. Eu conseguia sentir o formato da boca dela através da camiseta, a respiração batendo no tecido bem em cima do meu mamilo. Cada vez que ela expirava, o tecido umedecia um pouco mais. Meu peito subia e descia mais rápido do que deveria. Eu tinha medo de que ela notasse.
Juliana aproximou a boca do meu ouvido.
— Ela está dormindo de verdade? — a voz era só um fio de ar.
Eu balancei a cabeça quase imperceptivelmente. Camila se ajeitou, a perna dela subindo um pouco por cima da minha coxa. O short de dormir curto, a pele quente da coxa interna dela tocando a minha. Eu engoli em seco. O corpo reagiu antes da cabeça. Eu já estava molhada. Já estava latejando.
A mão de Juliana finalmente desceu.
Os dedos dela entraram por baixo da renda com uma lentidão deliberada, como se estivesse abrindo uma gaveta que rangia. Encontraram o clitóris já inchado, latejando, molhado demais para a hora. Ela não fez pressão ainda. Só encostou a ponta do indicador e ficou quieta, sentindo o pulso. Eu contraí o ventre sem querer. Camila murmurou alguma coisa ininteligível e enterrou o rosto mais fundo no meu peito. O cheiro do cabelo dela encheu minha cara. Eu apertei os olhos.
Juliana começou a se mexer.
Círculos mínimos. Quase inexistentes. O suficiente para eu sentir cada volta, cada mudança de direção. O polegar dela às vezes apertava a base, segurava dois segundos, soltava. Eu estava encharcada. O mel já escorria pela fenda, molhando os dedos dela e a parte interna da minha coxa. Eu tinha medo de que Camila sentisse o cheiro. Ou o calor. Ou o jeito que meu peito subia e descia mais rápido demais. Eu tinha medo de gozar e tremer e acordar ela. E, ao mesmo tempo, era exatamente isso que me deixava mais molhada.
— Você está pingando — Juliana sussurrou, quase sem voz. — Só de ter ela em cima de você.
Eu não respondi. Não podia. A boca estava seca e, ao mesmo tempo, cheia demais. Eu só conseguia sentir o peso da cabeça de Camila, o cheiro dela, a respiração quente no meu peito, e os dedos de Juliana girando devagar, cruelmente devagar, no lugar onde eu mais precisava de pressão.
Juliana aumentou um pouco a pressão. Agora o dedo girava em volta do clitóris com mais intenção, ainda lento, ainda cruel. De vez em quando ela descia até a entrada, recolhia mais umidade e voltava a espalhar tudo em cima. Eu sentia o peso da cabeça de Camila, o cheiro do cabelo dela, o calor da coxa dela contra a minha. Cada círculo de Juliana me fazia querer abrir mais as pernas. Eu não abria. Tinha medo de acordar a menina. Tinha medo de mim mesma.
— Sabe do que eu mais gosto? — a voz de Juliana era um sopro quente na minha orelha. — De imaginar que ela pode abrir o olho a qualquer momento. E ver. Ver minha mão aqui. Ver você molhada por causa dela.
Os dedos dela apertaram de verdade pela primeira vez. Seguraram o clitóris entre o indicador e o médio, pressionaram, soltaram. Eu morderam o lado de dentro da bochecha. Camila se mexeu. A mão dela, que estava frouxa na minha cintura, apertou um pouco a carne. Eu fiquei paralisada. O coração batia tão forte que eu tinha certeza de que as duas iam ouvir.
Juliana não parou.
Ela enfiou o dedo médio devagar, só até a primeira falange, enquanto o polegar continuava no clitóris. Entrava e saía quase sem movimento, só o suficiente para eu sentir a parede interna se contrair em volta. Eu estava tão molhada que o barulho úmido quase apareceu. Quase. Eu segurava a respiração. Segurava o gemido. Segurava o corpo inteiro para não tremer.
— Eu gozava assim com a minha irmã — Juliana continuou, a voz tão baixa que eu mal ouvia. — Uma de nós de olho aberto, a outra se tocando. Às vezes as duas ao mesmo tempo. O medo de alguém entrar no quarto era o que fazia a gente gozar mais forte.
O polegar dela acelerou. Ainda em círculos, mas mais firmes, mais úmidos. Eu sentia o clitóris latejar contra a pele dela, cada batida do meu coração ecoando ali embaixo. Camila respirou fundo contra o meu peito. O mamilo estava duro, sensível, e cada expiração dela era como uma língua quente através do tecido. Eu não ia aguentar. Eu sabia que não ia.
Juliana pareceu sentir. Os dedos dela mudaram de ritmo. Agora eram dois dentro de mim, curvados, enquanto o polegar esfregava o clitóris com pressão constante. Não tinha mais delicadeza. Tinha urgência. Eu contraí as coxas, tentei segurar, tentei não tremer. O peso da cabeça de Camila, o cheiro dela, a possibilidade de ela acordar e ver a mão da mãe entre as minhas pernas… tudo isso empurrava o orgasmo para cima como uma onda que não dava mais para conter. Eu estava com medo e com tesão ao mesmo tempo, os dois se alimentando um do outro.
— Goza — Juliana sussurrou. — Goza com ela em cima de você. Eu quero sentir.
Eu gozei.
O corpo travou inteiro. O esguicho saiu quente, silencioso, molhando a mão de Juliana, a minha coxa, o lençol. Eu apertei os olhos com força, a boca aberta num gemido que não saiu, só um sopro desesperado. Camila se mexeu. Levantou um pouco a cabeça, o cabelo caindo sobre o meu peito molhado de suor, e depois ajeitou o rosto de novo, exatamente no mesmo lugar. A respiração dela voltou a ficar regular. Eu fiquei parada, o coração disparado, o clitóris ainda latejando, o mel escorrendo devagar entre as pernas. Tinha medo de que ela tivesse sentido. Tinha medo de que ela tivesse acordado. E, ao mesmo tempo, uma parte de mim queria que ela tivesse.
Juliana tirou os dedos devagar. Eu senti a umidade escorrer. Ela levou a mão até a boca e chupou, sem pressa, o barulho quase inexistente. Depois passou a mão molhada na minha barriga, espalhando o que restava, e beijou a minha nuca.
— Dorme — ela murmurou. — Ela não acordou.
Camila suspirou mais uma vez, a mão ainda frouxa na minha cintura. Eu fiquei olhando o teto, o coração ainda disparado, o clitóris latejando, o mel escorrendo. O cheiro de Camila misturado com o cheiro do meu próprio orgasmo. Eu odiava o quanto aquilo me excitava. E odiava ainda mais o quanto eu já queria de novo.
Juliana abraçou minha cintura por trás e encostou a testa na minha nuca.
Do outro lado, a respiração de Camila continuava igual. Quietinha. Quente. Como se nada tivesse acontecido.