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Capítulo 2: O que levo comigo

Um conto erótico de Leo
Categoria: Heterossexual
Contém 2085 palavras
Data: 29/09/2026 12:42:40

Acordei mais tarde do que de costume na manhã do dia 16. Por alguns segundos, fiquei deitado sem lembrar exatamente o que tinha acontecido no dia anterior. O quarto estava silencioso, e a luz que entrava pela janela já era forte o suficiente para avisar que eu tinha passado da hora de levantar. Peguei o celular na mesa de cabeceira e vi que já eram quase nove da manhã.

Foi só então que lembrei de tudo.

Eu tinha passado em Arquitetura.

São Paulo.

Marta ia para Madri.

Fernanda ficaria em Salvador.

Fiquei alguns segundos olhando para a tela do celular, tentando organizar tudo aquilo na cabeça. A sensação da noite anterior ainda estava ali, mas diferente. Ontem tinha sido felicidade, comemoração, choro, abraços e aquela sensação boa de finalmente saber o que ia acontecer. Naquela manhã, pela primeira vez, comecei a pensar no que significava de verdade ir embora.

Eu nunca tinha morado fora de casa.

Levantei, coloquei uma roupa qualquer e saí do quarto. Quando abri a porta, ouvi vozes vindo do andar de baixo. Eram muitas. Parei por um instante, tentando reconhecer quem estava ali, porque não esperava encontrar tanta gente em casa logo pela manhã.

Desci as escadas devagar e encontrei a casa muito mais cheia do que deveria estar àquela hora. Minha avó estava sentada à mesa conversando com meu pai, meu avô estava perto da janela falando com um amigo antigo dos meus pais, e minha mãe ia e voltava da cozinha carregando pratos, enquanto outras pessoas que eu conhecia desde criança estavam espalhadas pela sala.

Parei no meio da cozinha.

— O que está acontecendo?

Minha mãe olhou para mim e abriu um sorriso.

— Bom dia, Leo.

— Bom dia. Mas o que está acontecendo?

Meu pai riu.

— É só um café da manhã.

Olhei para a mesa. Tinha pão, bolo, frutas, tapioca, queijo, suco, café e mais comida do que eu conseguia imaginar que algumas pessoas seriam capazes de comer.

— Isso não é só um café da manhã - disse rindo.

Minha avó estendeu os braços.

— Vem dar um abraço na sua avó antes de reclamar.

Fui até ela e recebi um abraço apertado. Quando me soltou, ela segurou meu rosto por alguns segundos, como sempre fazia.

— Está ficando grande demais.

— Eu sempre fui desse tamanho.

— Não estou falando da altura.

Meu avô riu do outro lado da sala.

— Deixa o Leo comer.

Sentei à mesa ainda tentando entender a surpresa. Meus pais não tinham falado nada sobre aquilo na noite anterior. Talvez tivessem planejado tudo enquanto eu estava ocupado comemorando com Marta e Fernanda. Era bem a cara deles fazer uma coisa dessas, principalmente em uma época em que qualquer encontro parecia ganhar um significado diferente. Eu estava prestes a ir embora, meus amigos também, e talvez meus pais tivessem percebido antes de mim que aqueles últimos dias na cidade seriam cheios de pequenas despedidas.

O café da manhã foi passando entre conversas sobre a faculdade, sobre São Paulo e sobre Madri. Meus avós tinham vindo da capital especialmente para passar alguns dias comigo antes da viagem, e os amigos dos meus pais aproveitavam para me dar os mesmos conselhos que eu provavelmente ouviria das pessoas pelos próximos meses. Que eu precisava tomar cuidado, que São Paulo era enorme, que eu precisava aprender a me virar sozinho, que não podia gastar todo o dinheiro no primeiro mês e que deveria ligar para casa. Minha mãe, principalmente, parecia determinada a garantir que eu não esquecesse de ninguém quando estivesse longe.

— Todo dia é exagero — falei.

— Não é.

— Mãe, eu vou tá estudando numa cidade nova.

— Você vai ter cinco minutos.

— Talvez.

— Então cinco minutos.

Meu pai riu.

— Você não vai ganhar essa discussão, Leo.

Eu já estava acostumado. Minha mãe sempre tinha sido assim, principalmente quando alguma coisa envolvia nós dois. Ela gostava de saber onde eu estava, com quem estava e se tinha chegado bem, mesmo quando eu só tinha ido até a casa da Marta. Naquele momento, porém, eu sabia que as coisas seriam diferentes. Pela primeira vez, ela não estaria perguntando por alguém que morava a poucos minutos dali. Eu estaria em outra cidade, a mais de mil quilômetros de casa, e talvez fosse por isso que ela estivesse tentando aproveitar qualquer oportunidade para deixar claro que eu ainda teria que dar notícias.

Depois de algum tempo, percebi que meus pais trocavam olhares entre si de vez em quando. Não era nada muito evidente, mas conhecia os dois o suficiente para saber quando estavam combinando alguma coisa sem falar.

— O que o Sr. Theo e a Srta. Flora estão aprontando?

Minha mãe fingiu não entender.

— Como assim?

Meu pai tentou disfarçar o sorriso.

— Não estamos.

— Estão, sim.

— Come seu pão, Leo.

— Isso confirma.

Minha mãe começou a rir.

— Você é muito curioso.

— Vocês que estão estranhos.

Meu pai apoiou os braços sobre a mesa e olhou para minha mãe antes de voltar a olhar para mim.

— Na verdade, tem uma coisa que a gente queria conversar com você.

— Sabia!

Minha mãe riu.

— Não é nada ruim.

— Então o que é?

Meu pai fez uma pausa curta, como se estivesse pensando em como explicar.

— A gente sabe que você vai precisar morar em São Paulo, pelo menos durante a faculdade. E a gente também sabe que aluguel lá não é barato.

— É verdade...

— Então, desde que você começou a falar em faculdade, a gente vinha pensando em uma coisa.

Olhei para os dois.

Minha mãe continuou:

— Comprar um apartamento pra você.

Eu demorei alguns segundos para entender.

— Oi? Comprar um apartamento?

— Um studio — meu pai explicou. — Pequeno, mas suficiente pra você morar sozinho.

Fiquei olhando para os dois, esperando que alguém completasse a frase e dissesse que era uma brincadeira.

— Vocês estão falando sério?

— Estamos.

— Mas quando vocês fariam isso?

Minha mãe sorriu.

— A gente já queria fazer isso há bastante tempo. O problema é que você podia acabar estudando em qualquer lugar. Não fazia sentido comprar um apartamento antes de saber para onde você iria.

Meu pai continuou:

— E São Paulo acaba sendo uma cidade que faz sentido pra gente também.

— Como assim?

— Por causa do nosso trabalho. Você sabe que, de vez em quando, a gente precisa viajar pra lá. Tem exposição, reunião, evento, projeto... Às vezes a gente passa alguns dias, às vezes mais tempo. A cidade acaba fazendo parte da nossa rotina de trabalho, mesmo a gente morando aqui.

Minha mãe estava segurando um riso de felicidade e de confirmação.

— E a gente sempre acaba ficando em hotel ou alugando algum lugar por alguns dias. Se você vai morar lá, ter um espaço nosso também seria bom.

Fiquei olhando para os dois.

— Então o apartamento seria pra mim e pra vocês?

— Pra família — meu pai respondeu. — A ideia é que você more lá durante a faculdade, claro. Mas, quando a gente precisar estar em São Paulo, também seria uma base pra nós. E, no futuro, continua sendo um imóvel da família.

Aquilo fazia mais sentido do que eu tinha imaginado.

— Então vocês já estavam pensando nisso antes de eu passar?

— Sim — minha mãe respondeu. — A gente já tinha decidido que queria te ajudar com alguma coisa pra quando você fosse estudar fora. Só não sabíamos se seria um apartamento ou um carro, dependendo da cidade.

— Um carro?

Meu pai deu de ombros.

— Se você fosse estudar em uma cidade onde ter carro fizesse mais sentido, seria outra conversa.

Minha mãe completou:

— Mas em São Paulo, um apartamento acaba sendo muito mais útil.

Olhei para os dois novamente.

— Então vocês estavam esperando eu passar?

— Exatamente.

Meu pai explicou que agora que São Paulo estava decidido, eles poderiam começar a procurar com calma. Não queriam fazer uma compra apressada e também não seria algo que aconteceria imediatamente. Durante o primeiro semestre, eu ainda teria que morar de aluguel, e eles continuariam procurando um studio que fizesse sentido para mim e para o que eles podiam pagar. A ideia era que, quando encontrassem o lugar certo e tudo estivesse resolvido, eu pudesse me mudar para ele no segundo semestre.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Vocês já tinham pensado nisso antes mesmo de eu saber onde ia estudar?

— Muito antes — minha mãe respondeu.

— E vocês nunca me contaram?

— Porque não queríamos criar expectativa antes de saber se daria certo.

Meu pai sorriu.

— Agora que sabemos que você vai para São Paulo, podemos começar a procurar de verdade.

Eu não sabia muito bem o que responder. Era estranho pensar que, enquanto eu passava meses preocupado com vestibular, notas e com a possibilidade de não conseguir entrar em lugar nenhum, meus pais já estavam pensando em como seria a minha vida depois disso. Fiquei muito feliz em perceber, mais uma vez, que eles confiavam em mim mais do que eu mesmo.

— Vocês não precisam fazer isso.

Minha mãe olhou para mim.

— A gente sabe.

— É muita coisa.

— Também sabemos.

Meu pai deu de ombros.

— Você vai começar uma vida nova. A gente só quer ajudar a deixar as coisas um pouco mais fáceis. E nós dois sabemos que isso é um privilégio. Poder fazer uma coisa dessas por você também é uma felicidade muito grande pra gente.

Fiquei olhando para os dois, tentando processar tudo aquilo. Eu estava feliz, claro. Muito feliz. Mas junto com a felicidade vinha aquela mesma sensação que tinha aparecido quando vi o resultado na noite anterior.

Tudo estava ficando real.

Eu não estava apenas indo estudar em São Paulo.

Eu estava começando uma vida que, de certa forma, meus pais já vinham imaginando antes mesmo de mim.

Terminei de tomar café com o resto do pessoal e fiquei mais um tempo conversando, ouvindo histórias dos meus avós e respondendo às perguntas dos amigos dos meus pais sobre a faculdade. Aos poucos, a mesa foi ficando mais vazia e as conversas se espalhando pela casa. Quando percebi que já não tinha mais nada para fazer ali, subi novamente para o meu quarto.

Assim que entrei, peguei o celular e abri o grupo que eu tinha com Marta e Fernanda. Contei para as duas sobre a surpresa do café da manhã, falei dos meus avós terem aparecido e, principalmente, contei sobre o apartamento. As duas ficaram tão surpresas quanto eu e começaram a brincar sobre eu já estar ganhando um lugar em São Paulo antes mesmo de sair de casa. A conversa logo mudou para os planos dos próximos dias e foi aí que descobri que o pessoal da nossa sala estava organizando uma festa de despedida para o sábado, dia 20. A ideia era reunir todo mundo que estava indo embora da cidade antes das viagens começarem de verdade. Marta e Fernanda já sabiam e estavam animadas, e eu percebi que provavelmente aquele seria um dos últimos momentos em que a nossa turma inteira estaria junta daquele jeito.

Depois de um tempo conversando com elas, larguei o celular na cama e fui para o banheiro tomar banho. Enquanto a água caía, comecei a pensar na mudança de verdade. Até aquele momento, eu tinha pensado em São Paulo como faculdade, cidade nova, apartamento e todas aquelas coisas maiores, mas ainda não tinha parado para pensar em algo muito mais simples: como eu ia levar todas as minhas roupas? Eu tinha roupa demais. Muito mais do que precisava, provavelmente. Será que eu tinha malas suficientes para levar tudo? Talvez tivesse que escolher o que realmente queria levar e deixar algumas coisas em casa. E meus pais iriam comigo para ajudar? Eu não conseguia imaginar chegar em São Paulo sozinho, com malas, caixas e tudo mais. Provavelmente eles iriam, pelo menos nos primeiros dias. Depois pensei na festa de sábado e em uma questão ainda mais urgente: que roupa eu ia usar?

Era engraçado como, no meio de tantas mudanças importantes acontecendo ao mesmo tempo, eu conseguia ficar preocupado justamente com a roupa de uma festa.

No sábado, passei boa parte da tarde no quarto escolhendo o que vestir. Espalhei algumas opções sobre a cama, troquei de camisa mais de uma vez e fiquei alguns minutos parado na frente do espelho tentando decidir se estava exagerando ou se ainda precisava pensar melhor. Tomei banho, arrumei o cabelo e me vesti com mais cuidado do que normalmente faria para sair com Marta e Fernanda. Antes de descer, olhei mais uma vez para o quarto, conferi o celular e respirei fundo. Depois peguei a chave, saí de casa e fui encontrar meus amigos para aquela que seria a nossa festa de despedida.

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