Oi, gente. Vanessa aqui. Essa é a última. Juro. Mas a essa altura vocês já sabem quanto vale juramento de puta.
A última terça no flat foi há quase dois anos.
A vida voltou. Escola, pediatra, consultório, reunião de condomínio. O Guilherme continua vindo ao churrasco de domingo lá em casa, com a Carina e os meninos. Na primeira vez, ficou um clima estranho, os dois na churrasqueira sem falar direito. Na segunda, o Pedro abriu uma cerveja, entregou pra ele e disse "obrigado", e o Guilherme só fez que sim. Hoje eles riem de novo. O Pedro me disse, uma noite, que nunca vai conseguir pagar o que o amigo fez. Que ele estava a dois meses de fazer uma bela cagada e nem via.
A Carina serve a salada, linda, rindo, sem saber de nada. Eu olho pra ela às vezes e penso que nós duas fomos salvas pelo mesmo par de amigos, num bar e numa boate, com cinco anos de diferença. E que nenhuma das duas foi consultada.
Naquele primeiro ano, a Nat eu não vi. Minha amiga da clínica de estética me contou, sem eu perguntar, que tem uma menina nova lá, loiro-escuro, que aprende rápido, que os clientes adoram e que sai pra fumar escondida no estacionamento. Eu sorri e mudei de assunto. Mas toda quinta, lá pelas onze, eu penso que ela está em casa, dormindo do lado do filho, sem cheirar a cigarro. E que isso a gente conseguiu. Eu e o Pedro. Foi a única coisa que a gente deu pra ela sem cobrar.
De vez em quando, na cama, de luz apagada, o Pedro pergunta de um jeito torto. "Aquela noite. Teve mais alguma coisa?" Eu digo que não. Ele fica um tempo olhando pro teto. E deixa. Eu acho que ele sabe que eu menti. E acho que ele escolheu não saber o quê. Casamento também é isso.
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A nossa cama nunca mais foi a mesma.
A mulher que dizia não morreu naquele flat. Quem voltou pra casa fui eu. E a Bia veio junto, escondida na mala.
Às sextas, as crianças dormem na casa da minha mãe, em Santana. E a gente vai pro Marquês, um motel na Marginal Pinheiros feito pra isso: cruz de madeira, argola de couro, gancho no teto, suíte com nome de livro. O Pedro queria o mesmo endereço de sempre. Eu escolhi outro. A sexta virou a noite da Bia.
A luz agora fica acesa. Ele aprendeu a me lamber do jeito que ela lambia. Demorou, mas aprendeu. Às vezes, no meio, ele me vira de bruços e diz "agora é minha vez", e eu empino antes de ele terminar a frase. Nós dois sabemos de onde veio aquela frase. Nenhum dos dois fala.
E eu viro ele de bruços quando eu quero, e lambo o cu do meu marido com a fome que eu aprendi num quarto de motel, e ele dá aquele gemido grave, e agora o gemido é meu.
A mão, ele aprendeu naquela noite, eu de vermelho e com três vodcas na cabeça. Semanas depois, numa terça, sóbria, eu pedi de novo. De joelhos na nossa cama, olhando pra cima.
— Bate.
Não era a vodca. Nunca tinha sido. Ele bateu sem pedir desculpa, e eu disse "eu gosto", e gostava mesmo. Ele aprendeu a mão.
E tem a gaveta.
Um mês depois da última terça, eu comprei uma cinta. Preta. Do mesmo tamanho. Deixei na gaveta da mesinha de cabeceira sem falar nada. Uma semana depois, num sábado de manhã, com as crianças no futebol, eu abri a gaveta na frente dele. Ele me olhou. Eu olhei pra ele. E ele riu, e ficou de quatro na nossa cama, e disse: "vai com calma, doutora".
Eu não fui com calma.
Eu comi o meu marido na nossa cama, com a luz acesa, segurando a cintura dele, do jeito que eu vi ela fazer. E descobri que não precisava dela pra sentir aquilo. Aquela coisa de estar dentro de alguém que você ama e que se entrega. Aquele poder. Aquele tesão que escorre pela perna. Ele gozou sem eu encostar nele. E depois me virou, arrancou a cinta de mim e me comeu tão forte que a vizinha de baixo reclamou no grupo do prédio no dia seguinte.
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Isso tudo foi o primeiro ano. O segundo foi mais calmo, e é nele que eu estou agora. As crianças estão na casa de praia da mãe do Pedro, a viagem inteira, a avó pediu e a gente deixou. O Pedro está na China a trabalho, onze horas de fuso, uma fábrica, um contrato, dezoito dias. E eu estou sozinha no apartamento do Itaim pela primeira vez desde que casei. Sozinha de verdade. Sem ninguém pra acordar, sem ninguém pra chegar.
Eu preciso contar uma coisa antes.
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Pouco depois da última terça, eu fiz uma bioimpedância e achei que estava sem músculo. Estava, um pouco. Fui numa médica que eu não conhecia, indicada por uma colega do hospital, dessas que fazem "modulação" num consultório de piso claro na Vila Nova. Ela me receitou testosterona. Pra massa magra, ela disse. Dose baixa, ela disse. E na terceira consulta, quando eu contei o resultado, ela subiu.
A massa veio. Quase dois anos de massa. A bunda veio, enorme, dura, alta, de um jeito que fez o Pedro parar na porta do banheiro com a escova na mão e ficar olhando. A coxa veio, grossa, encostando uma na outra quando eu ando. O braço veio, com veia. Nenhuma calça de antes passa da coxa, e as que passam sobram na cintura. Eu troquei o armário duas vezes, dois números acima, e ainda mandei apertar a cintura de todas. Eu fiquei linda. Eu sei que fiquei porque eu me olho no espelho como médica, e a médica aprovou.
E o grelo cresceu. Isso ninguém conta na consulta da "modulação", mas eu sou dermatologista, eu conheço androgênio: hipertrofia clitoriana, irreversível, dose-dependente. O capuz não esconde mais. Ele aparece, inchado, exposto, do tamanho de um grão de café, e quando eu passo o dedo por cima eu sinto que ele está ali de um jeito que não estava antes. O Pedro achou antes de eu contar. Desceu a boca, parou, levantou a cara e disse: "O que é isso?" "Sou eu", eu disse. E ele voltou a lamber com uma fome que eu não via desde a primeira semana da Nat.
E veio o resto. Um tesão que não desliga. Que acorda comigo, que atende paciente comigo, que dirige comigo. Eu me toco no banheiro do consultório de novo, como naquela primeira semana da Nat, só que agora todo dia. Eu gozo à noite do lado do Pedro e não conto. E, com ele na China, sozinha, piorou.
Eu sei que é o hormônio. Eu sou médica, eu sei ler um exame. E eu sei que "é o hormônio" é a desculpa que eu conto pra mim mesma quando quero fazer alguma coisa. Ninguém enfia um plug de aço no cu antes de sair de casa por causa de exame de sangue.
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As duas primeiras semanas passaram assim. Sozinha.
Na primeira noite, deitada no meio da cama, eu sonhei com o corredor. Não com o homem. Com aquilo na minha mão que não fechava. A cabeça, e depois o alargamento. Acordei às três com a buceta latejando e fiz o que eu tinha passado dois anos sem coragem de fazer. Procurei. Trancada no banheiro, de madrugada, com o celular, medindo com os dedos a foto de cada pica de borracha, como uma louca. Todas grossas iguais do começo ao fim, ou de cabeça grande e corpo reto. Nenhuma alargava depois da cabeça. Achei às cinco da manhã, num site gringo. Vinte centímetros, cabeça exposta, sem pele, e logo abaixo o corpo de 747, do jeito certo. Paguei o frete expresso e um imposto absurdo, que ia aparecer no extrato. Chegou em seis dias, numa caixa discreta. Eu guardei na segunda gaveta da mesinha. Não na da cinta. Na de baixo.
E, de dia, o plug. Eu saí de casa com plug todos esses dezoito dias, de jaleco, atendendo paciente com aquilo dentro de mim. Comecei com o pequeno, o que eu tinha comprado no primeiro ano "pra dilatar" e usava de vez em quando "pra lembrar". Na terceira noite eu pedi mais dois. Chegaram juntos, num envelope, três aços de tamanhos crescentes, como um jogo de dilatadores de consultório — porque é exatamente o que são, e eu sei o nome técnico de cada um.
O pequeno saiu de circulação em dois dias. O médio virou o de rua: eu punha de manhã, depois do banho, e tirava de noite. Pesa, lembra, e ninguém vê. Eu andava pelo apartamento vazio sentindo ele se mexer, subia escada no hospital sentindo, receitava ácido pra dona de sessenta anos sentindo.
O maior eu só consegui deitada, de noite, na minha cama, com tempo e lubrificante. Com aquilo dentro eu não subo escada, não dirijo, não atendo ninguém: ele manda em mim, não o contrário. Meia hora na primeira noite. Uma hora na segunda. Na quarta noite, ele já entrava com o peso do próprio aço, sem eu empurrar, e era assim que eu media o progresso, como se fosse exame de controle. Não era tesão só. Era treino. Eu estava abrindo uma porta, com método, todo dia, do jeito que eu faria com uma paciente. E a porta tinha uma medida.
Dali em diante, todas as noites, eu abri a segunda gaveta. Na buceta ela não cabia. Eu forçava, gritava sozinha no apartamento vazio, e cabia. No cu, com o plug tirado, ela entrou sem eu forçar: a cabeça, a parte larga, tudo, como quem volta pra casa. Cu mágico. Eu gozei todas as noites com o corredor. E cada noite o corredor ficou um pouco mais parecido com uma foto do que com um lugar. Eu ainda via a luz azul no chão. Mas era como ver de fora.
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Dois dias antes do Pedro chegar, numa terça, eu fui me depilar.
A testosterona tem esse lado. O pelo engrossa, aparece onde não aparecia, e eu, que sempre fiz laser e nunca tive um fio fora do lugar, estava com a virilha, a bunda, tudo, precisando de mão. Eu queria estar lisa quando ele chegasse. Cu, buceta, tudo. Como a Nat.
Eu não fui na clínica da minha amiga em Moema, onde eu me depilo há anos. De propósito. Eu nunca mais pisei lá, desde que ela me contou da menina nova que fuma no estacionamento. Escolhi uma clínica nova, em Pinheiros, num prédio de vidro, que eu tinha visto no Instagram. Marquei na véspera, de última hora, no único horário que tinha, dez da manhã. Dei só "Vanessa" e o celular. Nem pensei.
A moça me depilou inteira. Deitada de lado, de quatro, de pernas abertas, com a luz branca e a conversa profissional de quem faz aquilo vinte vezes por dia. A virilha, os lábios, e depois ela pediu pra eu segurar a bunda aberta com as duas mãos e passou a cera no rego, em volta do cu, puxando em tiras curtas. Doeu mais que tudo. Eu não reclamei.
O resto eu já tinha feito sozinha. Clareamento anal. Eu receito isso toda semana no consultório, pra mulher que vem pedir baixinho, com vergonha, olhando pro chão: ácido, creme, paciência. Mais de um mês antes da viagem, eu receitei pra mim mesma. Toda noite, trancada no banheiro, com o Pedro vendo televisão do outro lado da porta, de pernas abertas na frente do espelho, passando a fórmula em volta do cu com a ponta do dedo, como quem faz um procedimento. Com ele na China, eu passei a fazer no quarto, no espelho do armário, antes da gaveta. Quase dois meses. Na mesa da clínica, com a luz branca batendo, a moça comentou, profissional: "Teu clareamento tá lindo. Quem fez?" "Uma dermatologista", eu disse.
Eu queria um cu que desse pra olhar. De luz acesa. Clarinho, liso, rosado, sem um fio, pra receber língua e pau com a luz em cima, bem aberto, sem eu ter vergonha de nada. Eu fiquei lisa como nunca. Saí de lá com a pele ardendo e o corpo pronto.
E, entrando no carro, no estacionamento, eu vi.
A Nat. Chegando pra trabalhar.
De uniforme branco da clínica, tênis, cabelo preso, uma mochila no ombro. Bonita. Mas comum. Uma moça de vinte e quatro anos chegando pro turno das onze, sem o vestido, sem o salto, sem a luz vermelha na cara. Se eu olhasse como olho uma paciente, era até um pouco rala: magrinha demais, o cabelo com raiz, a pele de quem dorme pouco e cria filho sozinha. Uma moça que eu, a Vanessa dos Jardins, nunca olharia duas vezes numa fila de padaria. E é isso que me envergonha e que eu vou escrever mesmo assim.
Ela parou antes da porta. Tirou um cigarro do bolso do uniforme, acendeu, deu três tragadas rápidas, olhando pro nada. Apagou pela metade na lixeira. Guardou a metade no maço. E entrou.
Ela não me viu. Eu estava dentro do carro, a vinte metros. O carro é novo, blindado, comprado há uns meses, com um vidro que de fora é um espelho preto. A Nat nunca viu esse carro. De dentro eu via tudo. De fora, nada.
Depois eu soube, pela minha amiga, sem precisar perguntar duas vezes: a menina tinha terminado o curso em Moema, pedido as contas e ido pra uma clínica nova. Pinheiros. Prédio de vidro. Foi o prédio que eu vi no Instagram e marquei na véspera, de última hora, no único horário que tinha.
Só ali, com as mãos no volante, eu pensei no nome na agenda da clínica. "Vanessa, dez horas." Se ela abrisse o sistema, ia ver. Um nome comum. A Nat sabia meu nome, sabia minha cara, sabia meu gosto. Sobrenome, eu nunca soube se ela sabia. O do Pedro ela lia em todo Pix; o meu não é o dele. O dela eu sabia desde o primeiro dia, do extrato: N. Ribeiro. Ela nunca teve extrato meu. Meses de terça, e uma sabia o sobrenome da outra e a outra não. É assim quando um lado paga.
Eu fiquei com as mãos no volante e o vaso quebrou. Ela mesma tinha me dito, numa mesa de churrasqueira, com a mão tremendo: "eu sou a Nat da Velour, e às vezes, nas terças, eu fingia que não era". Eu achei que era modéstia. Era a verdade.
A Nat da Velour, fora da Velour, não tinha mais o brilho de puta. Aquela mulher que fazia o salão virar, que me fez gozar na cama dela em cinco minutos, que o Pedro queria tirar de lá só pra ele, não sai pela porta. Fica lá dentro, com a luz vermelha. O que saiu pela porta foi uma moça de uniforme com um filho pra jantar em casa. E foi pra essa que eu entreguei o papel dobrado em quatro.
Eu não chorei. Eu liguei o carro, saí do estacionamento e fui pra casa lisa, ardendo, com a segunda gaveta esperando. E naquela noite eu não abri. Foi a primeira noite, desde que a caixa chegou, que eu não abri. Nunca mais voltei naquela clínica. Nem pra retoque.
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Quinta-feira. O voo do Pedro pousava em Guarulhos às nove.
Eu fiz a conta de manhã, no papel de receita, como se fosse posologia. Pousa às nove. Imigração, esteira, mala, uma hora, que voo da China nunca chega sozinho. Guarulhos até o Itaim, uma hora, uma e meia com a Marginal. Ele chega em casa entre onze e onze e meia. Eu risquei o papel e joguei no lixo do consultório, e no caminho de casa eu já sabia o que ia fazer com aquela janela.
Antes, a chuca. Cinco vezes, com o chuveiro ligado por hábito, mesmo sozinha em casa. Puta que leva no cu faz chuca, a Nat dizia. A noite ia terminar no meu cu, de um jeito ou de outro.
Vestido preto, curto, colado, sem calcinha. O plug — o médio, não o maior, porque eu ia dançar de salto e o maior não sai de casa. Pesado, frio, que eu não comprei mais "pra lembrar" de nada. Salto. O batom vermelho da farmácia do hospital, o da noite da quinta, que eu nunca joguei fora.
Dez e dez no relógio do micro-ondas quando eu fechei a porta. Ele podia já estar pegando a mala.
Eu não fui direto. Deixei o carro no estacionamento de um shopping a um quilômetro. Deixei o celular no porta-luvas, ligado, de propósito. O Pedro tem o meu localizador, como eu tenho o dele — a gente pôs depois da última terça, por causa das crianças, a gente diz, e nunca mais tirou. O que aquele mapinha mostra é a Vanessa fazendo hora num shopping numa quinta à noite. Não podia mostrar a esquina do Ipiranga. Não pra ele, não pra ninguém. Peguei dinheiro vivo, o suficiente pra um táxi e pra qualquer coisa. E entrei num táxi que me deixou na porta da Velour como uma cliente qualquer. Eu reconheci o ritual enquanto fazia. É o ritual de puta. É o ritual de ladrão. É o mesmo.
O segurança da porta me olhou. Era o mesmo. Demorou um segundo.
— Bia. Faz tempo.
— Faz.
— Você veio pouco. Duas, três vezes. — Ele balançou a cabeça. — Mas eu nunca vi tanto cliente perguntar de uma menina. O do cartão preto veio um mês seguido perguntando. — Aí ele me olhou de cima a baixo, sem pressa, do jeito que segurança de porta de boate olha, que é olho de balança. — E você voltou desse tamanho. Puta que pariu, Bia. Você vai parar a casa. Em dez anos aqui eu nunca vi uma mais bonita entrar por essa porta. — Ele riu, e balançou a cabeça de novo. — Já não dava pra esquecer de você antes, Bia. Agora então. Impossível.
Eu ouvi aquilo de um homem que passa a noite vendo mulher bonita entrar. É o crítico. E o crítico gostou.
— E gringo? — eu disse, rápido demais. — Tinha um gringo aquela noite. Alto. Mal falava português.
Ele fez uma cara de quem procura e não acha. Deu de ombros.
— Bia, aqui é cheio de gringo. E a clientela mudou toda. Aqui muda. Entra.
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O balcão. O mesmo banco. Vodca com Sprite, muita vodca, pouca Sprite. O barman era outro e não conhecia o pedido. Eu bebi metade num gole e olhei o salão pelo espelho do bar.
Vieram. Um de terno cinza. Um casal, ela mais interessada do que ele. Um garoto novo, de camisa aberta, que sentou e pôs a mão na minha coxa como o do cartão preto tinha feito quase dois anos antes. Eu tirei a mão dele. Disse "hoje não" com a voz da Bia. E percebi, assustada, que a voz saiu fácil demais. Não tremeu. Não precisou de nada. A Bia estava pronta, guardada, e eu tinha só aberto a gaveta.
No espelho do bar, atrás das garrafas, tem um relógio de parede que eu nunca tinha visto. Dez e quarenta. Eu fiz a conta de novo, com a vodca na mão, e a conta agora tinha um nome: quanto tempo eu tenho antes do meu marido abrir a porta de casa e não me achar. Vinte minutos, se a Marginal estivesse boa pra ele. Cinquenta, se não estivesse. Eu bebi o resto de um gole.
Nenhum era ele. Ainda. E procurei mesmo assim, no espelho, em cada homem alto que entrava.
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Eu fui pra pista. Sozinha. Dancei com o copo na mão, sentindo o plug se mexer comigo a cada passo, a buceta molhada há dezoito dias escorrendo na coxa.
E o segurança tinha razão. A casa parou pra olhar.
Eu senti antes de ver. O salão inteiro virado pra mim: os homens de terno nas mesas, o de cartão na mão, o casal do balcão, o sushiman parando a faca um segundo, o segurança que devia estar olhando a porta. Olho em cima de mim, todos, sem disfarce, do jeito que homem olha quando pagou pra poder olhar.
E as meninas também. Essa é a parte que eu não esperava. Duas na beira da pista, de vestido curto, pararam de conversar. Uma delas me olhou de baixo pra cima, demorado, na coxa, na bunda, na cara, e sorriu pra mim, um sorriso sem nada de profissional. A outra não sorriu. Puta olhando puta, medindo, e eu soube quem tinha ganhado. Dois anos antes eu tinha entrado ali de vermelho, tremendo, atrás da Nat, aprendendo a andar. Aquela pista era dela. Naquela noite era minha, e as donas do lugar estavam me olhando igual aos clientes.
Um cara chamou. De longe, com a cabeça.
Bonito. Alto, magro, sarado, camiseta preta justa, braço de academia, sorriso fácil, barba de alguns dias. Magro de um jeito recente, de quem perdeu peso há pouco e ainda gosta de mostrar. Ele falou. Falou muito. Perguntou meu nome, disse um nome, que eu esqueci na hora. Não era o Super-Homem. Não chegava perto. Não tinha o silêncio, não tinha o tamanho, não tinha o cheiro. Tinha cheiro de perfume doce, de quem passou demais.
Mas eu estava molhada há dezoito dias. E eram onze e cinco.
Eu pensei, com uma clareza que me assusta até hoje: dá tempo, se a Marginal estiver parada pra ele. Táxi, shopping, vinte minutos. Dá tempo de eu estar em casa de banho tomado, de camisola, com a luz da cozinha acesa, esperando o meu marido chegar da China.
A gente combinou o preço ali mesmo, na pista, gritando por cima da música. Eu disse o valor da casa. Ele pagou na minha mão, em dinheiro, sem passar pelo caixa, porque a gente não ia pro hotel. Eu que decidi pra onde a gente ia. Eu levei ele pela mão pelo salão, pelo balcão do japonês, até o corredor dos fundos, o que vira o túnel.
Até a viga.
Eu escolhi a viga.
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O mesmo chão azul. O mesmo espelho escuro. O mesmo canto onde a luz não chega. Eu encostei as costas no espelho no mesmo lugar e fechei os olhos por um segundo pra ver se vinha.
Não veio.
A mão dele entrou por baixo do vestido e achou o plug. Ele riu alto, disse "puta que pariu", e puxou, e empurrou, e girou, com a cara de quem achou um brinquedo. Eu pensei: tarada que nem uma puta. E a puta sou eu. E empinei pra mão dele, porque o corpo não pergunta quem é o homem. Com a outra mão ele achou a minha buceta, e eu gozei ali, de pé, contra o espelho, com os dedos de um estranho, do mesmo jeito que tinha gozado da outra vez.
Eu abri o zíper dele. Só o zíper. E na minha mão veio um pau maior do que o do meu marido. Mais grosso, mais pesado, e a mão fechava nele. Com pele ou sem, eu não quis olhar. Olhar ia estragar. Não era o do corredor. Nem perto: aquele a minha mão não fechava, e depois da cabeça alargava. Esse era só maior que o do Pedro. Eu ajoelhei no chão azul, rápido, com um ouvido no corredor, e chupei a cabeça. Só a cabeça, como da outra vez, porque ali não dá pra mais que isso: passa garçom, passa puta indo pro túnel, passa segurança. Olhando pra cima, babando, a língua na pele, a mão na base. Ele gemeu. Baixo. Segurou meu cabelo sem puxar. Eu procurei na língua o pulso que muda, o segundo antes, a lição da Nat.
Quase veio. E foi ele que tirou. Segurou a minha cabeça e tirou, com o pau pulando na frente da minha boca, e eu fiquei de joelhos olhando pra cima sem entender.
Ele guardou o pau. Duro. Inteiro. Fechou o zíper. E não gozou.
Não gozou. Que nem o outro. Ele tinha falado a noite inteira, na pista, no caminho pelo salão. Na viga, depois do "puta que pariu", não disse mais uma palavra. Dois homens na mesma viga, com dois anos de diferença, os dois duros, os dois sem gozar, os dois mudos na hora de guardar. Eu fiquei olhando pra ele ainda de joelhos e pensei que já tinha visto aquele silêncio em algum lugar.
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Eu peguei o dinheiro dele na bolsa, contei, e devolvi metade.
— Por quê?
— Metade foi minha. A outra metade você levou embora.
Ele riu, sem entender e entendendo, e guardou. E eu fiquei com a outra metade na mão, olhando pra ela.
A Bia cobrou. Pela primeira vez. Quase dois anos depois de ter devolvido o dinheiro na porta de um elevador, a Bia pegou dinheiro por dois minutos atrás de uma viga. Metade. Eu guardei as notas na bolsa e saí pelo salão sem olhar pra ninguém.
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Táxi. Onze e quarenta no painel do táxi, e eu com o dinheiro de um estranho na bolsa e a boca inchada. Shopping. O carro no mesmo lugar. O celular no porta-luvas com duas mensagens do Pedro. "Pousei", às nove e dez. "Banho tomado. A sala VIP de Guarulhos tem chuveiro melhor que o nosso", às dez para as dez. E uma foto das crianças na praia, mandada pela avó, os dois de boia, rindo.
Nada depois das dez para as dez. Duas horas de silêncio de um homem que manda mensagem do avião. Eu li as duas de novo, com o dedo tremendo, e comecei a escrever "tô voltando do mercado" e apaguei, porque nenhum mercado abre a essa hora e porque eu já era uma mulher que precisava de desculpa.
Eu fiquei sentada no escuro, com o motor desligado, a bolsa no colo e a metade das notas dentro.
Quinze minutos depois um carro de aplicativo parou duas vagas pra frente. Ele desceu. Camiseta preta justa, dois números menor, que eu tinha comprado pra ele antes da viagem e que agora servia. Tirou a mala do porta-malas, com a etiqueta da companhia ainda na alça, pôs no meu banco de trás, abriu a porta do carona e sentou. O cheiro doce de duty free encheu o carro.
— Maior trabalhão pra caber essa mala no guarda-volumes da boate — ele disse, puxando o cinto. — O cara olhou a etiqueta e perguntou se eu tinha vindo direto do aeroporto. Eu disse que tinha.
Eu não olhei pra ele. Olhei pra frente, pro pilar de concreto com o número da vaga.
— Fui tão puta quanto a Nat?
Ele demorou.
— Mais.
— E a performance? Gostou?
Ele riu. O riso da viga, alto, o do "puta que pariu". Tirou do bolso as notas que eu tinha devolvido e deixou no painel, na frente do volante.
— Você me devolveu metade.
— Metade foi minha. A outra metade você levou embora.
— Tá aqui. — Ele pôs a mão no zíper da calça. — Guardei.
Ele não perguntou por que a viga. Eu não disse.
Atrás da viga, de joelhos, eu tinha medido aquele pau na mão e achado maior que o do meu marido. Era o do meu marido.
A gente tinha combinado. Não os detalhes. Da China, por mensagem, de madrugada no fuso dele: a quinta, a Velour, e que ele ia ser um estranho. Depois disso ninguém tocou mais no assunto. E eu, que sabia, fiz a noite inteira como se não soubesse. A conta no papel de receita, o celular no porta-luvas, o relógio atrás das garrafas, o medo de ele abrir a porta de casa antes de mim, a desculpa do mercado que eu escrevi e apaguei no escuro. Era a Bia que tinha medo. Puta que foge de casa pra boate só é puta de verdade se tiver um marido pra pegar ela no pulo. Eu entrei na personagem inteira, com o medo junto, porque sem o medo não ia ser tão bom. E ele entrou na dele.
Ele estava mais magro. Eu passei a mão nas costelas dele por baixo da camiseta: a barriga que não estava, o osso do quadril. Dezoito dias de fábrica, fuso e reunião, ele disse, e corrida em Shenzhen à noite, porque à noite só tinha o que os fornecedores ofereciam, e ele não gosta de puteiro chinês. Disse assim, "não gosto de puteiro chinês", como quem diz que não gosta de frutos do mar. Eu não perguntei de que puteiro ele gosta. Eu sabia. A gente tinha acabado de sair dele.
E aí ele me beijou.
Foi a primeira coisa da noite que não tinha regra. Na pista ele não beijou. No corredor ele não beijou — ele era o cliente, e cliente não pede beijo, nem quando a puta é a mulher dele, e ele respeitou isso a noite inteira com uma disciplina que eu não sabia que ele tinha. Segurou dezoito dias e mais três horas.
Aqui não. Aqui ele pegou a minha cara com as duas mãos, no escuro do estacionamento, e me beijou de boca aberta, com saudade, com língua, sem pressa nenhuma, do jeito que se beija depois de dezoito dias e não do jeito que se paga. Eu senti a barba raspar. Ele estava tremendo um pouco. Eu também.
— Tava com saudade — ele disse na minha boca.
Aquela boca tinha acabado de chupar um estranho atrás de uma viga. Um estranho mais pauzudo que o meu marido, eu juro que era. Ele sabia. Beijou mesmo assim, fundo, e eu deixei, e a gente ficou ali uns minutos só nisso, de mãos no rosto um do outro, como dois namorados num carro emprestado.
E eu fiquei com aquilo. Foi a vodca? Foi o escuro, a pressa, o barulho, dezoito dias sem? Foi ele ser um estranho, que é a única coisa que aquele pau tinha de diferente? Ou é que pau de marido, quando você pega pela quinhentésima vez, encolhe — não ele, a sua régua? Ou o pau do Pedro cresceu mesmo, com dezoito dias guardado, cinco quilos a menos e a mulher dele cobrando por dois minutos? E o pau do Super-Homem, será que era daquele tamanho mesmo, ou era a vodca?
Eu não perguntei. Não tem pergunta que caiba nisso sem estragar. Eu sou médica, tenho fita métrica em duas gavetas, e não vou medir. Prefiro ficar sem saber: assim, uma vez por semana, eu consigo achar o pau do meu marido maior do que ele é.
Eu liguei o carro. Ele pôs o cinto e olhou pra mim.
— Marquês?
— Casa.
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Eu dirigi pra casa devagar, com a mão dele na minha coxa.
E entendi, sem drama, no farol da Juscelino, que o corredor nunca mais ia acontecer. Não porque eu não fosse voltar. Eu ia. Eu sou capaz. Eu tinha acabado de provar. Mas não tinha o que encontrar. O segurança não lembrava dele. Ninguém lembrava dele. Eu tenho uma noite, três vodcas e a minha própria mão como testemunha, e é tudo que eu tenho. E o homem que eu levei pra viga fez tudo certo, me fez gozar com a mão, deixou eu chupar a cabeça e foi embora duro, e estava sentado do meu lado, com a mão na minha coxa, no farol. Porque o problema nunca foi fazer certo. O Pedro era o máximo que dava. E o máximo que dava era muito. Era mais do que eu tinha sabido pedir por sete anos.
Em casa, ele foi direto pro banho, o segundo da noite, pra tirar o doce. Eu tirei o plug, guardei as notas enroladas na segunda gaveta, do lado da borracha, e deixei a gaveta aberta. Não sei por quê. Sei, sim.
Ele saiu do banheiro de toalha e parou. Olhou a gaveta. Tirou a borracha de lá, olhou, olhou pra mim.
— Isso aqui é de quem?
— É meu.
— Eu sei que é teu. Eu tô perguntando de onde veio a medida.
Eu não respondi. Ele ficou um tempo com aquilo na mão, comparando sem querer. Eu subi na nossa cama, fiquei de quatro com a luz acesa, joguei o tubo de lubrificante do meu lado, deitei a cara no travesseiro e abri a bunda com as duas mãos. Bem aberta. Pra ele ver.
Ele viu. Largou a borracha no lençol e chegou perto, com a cara a um palmo do meu cu, como quem olha uma coisa nova na própria casa.
— O que você fez aqui?
— Pra você. Luz acesa.
Ele não disse mais nada. Enfiou a cara. Lambeu o meu cu clarinho, liso, ainda meio aberto do plug, com a língua larga primeiro, de baixo pra cima, e depois com a ponta, entrando, do jeito que ele aprendeu com ela, e eu segurei a bunda aberta pra ele com as duas mãos até os braços tremerem. Depois ele desceu pra frente, e a língua achou o grelo. Parou. Chupou devagar, com os lábios em volta, e eu senti ele sorrir com a boca ali, porque aquilo não tinha aquele tamanho quando ele saiu pra China. Ficou ali, chupando, até eu puxar o cabelo dele e dizer "chega, que eu não quero gozar agora". Ele levantou a cara, molhada, e olhou pra mim.
— Hoje é você que põe.
O Pedro pegou a borracha como quem pega uma coisa que não é dele. Encheu a mão de lubrificante, passou nela inteira, devagar, e passou em mim com dois dedos, por fora e por dentro, olhando, sem pressa.
Encostou a cabeça no meu cu. Empurrou. Parou.
— Mais — eu disse, com a cara no lençol.
A cabeça entrou. E ele sentiu, na mão, o que eu sinto no corpo: o largo vindo. Eu vi pelo espelho do armário ele franzir a testa, como quem acha um defeito, e empurrar mais. O meu cu abriu, abriu mais, e engoliu a parte larga com um estalo que eu ouvi. Depois do largo, o resto foi sozinho. Vinte centímetros de borracha no cu da mulher dele, pela mão dele, até a base encostar na minha bunda.
— Porra, Vanessa.
— Mexe.
Ele mexeu. Tirava até a cabeça, até eu sentir o largo passar de volta, e enfiava tudo de novo. Cada vez que o largo passava eu gemia mais alto. Ele pegou o ritmo. Pegou a minha cintura com a outra mão. Me comeu de borracha como come de pau, com força, com o quadril, e eu gozei a primeira vez assim, com a cara afundada no travesseiro e o cu apertando aquilo como se quisesse ficar com ele.
Aí ele tirou. Devagar, inteiro. E ficou olhando.
Eu sabia o que ele estava vendo, porque eu tinha visto no espelho do armário, de madrugada, sozinha, a semana inteira: o cu aberto, redondo, sem fechar, piscando devagar. Um buraco onde cabia um punho.
— Tira a aliança — eu disse.
Ele tirou. Pôs em cima do criado-mudo, do lado do tubo. E eu estiquei a mão pra trás, peguei o braço dele e puxei, do mesmo jeito que tinha puxado no Orquídea.
Ele juntou os dedos em bico, os cinco, encharcados de lubrificante, e entrou. Quatro dedos, até os nós, igual naquela noite. E parou ali, onde tinha parado da outra vez. Os nós dos dedos na porta. A parte larga. Igual o 747. Igual o meu maxilar no corredor.
— Não para — eu disse. — Não dessa vez.
Ele não parou. Eu empurrei pra trás, ele empurrou pra frente, e a parte mais larga da mão dele passou. E, depois do largo, tudo é fácil. O punho escorregou pra dentro de mim, e o meu cu fechou em volta do pulso do meu marido.
Eu fiquei parada. Ele ficou parado. Eu sentia a mão dele inteira dentro de mim, fechada, quente, cada dedo, e sentia o coração dele pulsando no pulso, encostado no meu cu. Ninguém falou nada.
E a minha mão desceu sozinha pro grelo. Maior, mais duro, mais fora — o hormônio fez dele um botão que não se esconde, e a pressão vem mais rápido agora, toda vez, como se o corpo tivesse encurtado o caminho. Do jeito do motel: rápido, forte, de um lado pro outro, com os dedos esticados. A mão sabe esse caminho desde aquela noite, e não pede licença. Veio na hora aquela pressão embaixo, na frente, igual vontade de fazer xixi, só que subindo, e eu já sabia o nome dela e não segurei. Esguichei. Com o punho dele parado dentro de mim, um jato atrás do outro, claro, quente, sem cheiro, molhando o lençol, o colchão embaixo do lençol, o braço dele até o cotovelo. Eu senti a poça quente debaixo da minha barriga e continuei esfregando, e continuou saindo.
Depois ele mexeu, só um pouco, a mão lá dentro, e eu gozei chorando e rindo ao mesmo tempo, tão alto que a vizinha de baixo bateu no teto com o cabo da vassoura. A segunda reclamação dela. A primeira tinha sido a cinta.
A gente riu junto, ele com o braço dentro de mim. Ele tirou a mão devagar, com o mesmo cuidado com que tinha tirado a borracha, e deitou do meu lado. Ficou olhando a própria mão. Depois pôs a aliança de volta.
— Um dia você me conta — ele disse, olhando a borracha em cima do lençol.
— Um dia.
Eu não vou contar.
Ele lavou as mãos, e eu chupei o meu marido de olho aberto, e pedi. "Me dá leitinho, dá." Ele deu. Muito. De dezoito dias e de uma viga. Eu engoli tudo. E na terça seguinte, a terça continuou sendo nossa. Terça é em casa, de luz acesa, marido e mulher. Sexta é no Marquês, e na sexta eu sou a Bia.
A terça é só nossa.
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E agora a moral. Porque toda história de puta tem uma, e essa é minha.
Você aí, casada, que diz não. Eu sei quem você é. Eu fui você por sete anos. Você diz não pro cu porque dói, não pra engolir porque é nojento, não pra luz acesa porque tem a barriga, não pra tapa porque você não é dessas. E você acha que o não te protege. Que o não é respeito.
Eu também achava. Sabe o que o não me deu? Sete anos de papai e mamãe de luz apagada, um marido pagando Pix toda terça pra uma menina de vinte e poucos anos, e um gozo por mês, se tanto, que eu nem lembro.
Sabe o que o sim me deu? Eu gozo pelo cu. Vocês leram direito. Pelo cu, gritando, com a vizinha de baixo batendo no teto. Eu gozo engolindo. Eu gozo de joelhos, com a cara ardendo de tapa que eu pedi. Eu comi o meu marido de cinta na nossa cama e ele gozou sem eu encostar nele, e naquela hora eu entendi o que é poder. Não é o homem que manda na cama. Nunca foi. É quem sabe o que quer. E quem sabe o que quer é a puta.
Então fica a receita da doutora. Eu sou médica. Anota.
Chuca: água morna, nunca quente, nunca fria. Pressão baixa. Encosta o bico, não enfia. Enche, conta até vinte, solta. Repete até sair limpa, quatro, cinco vezes. Liga o chuveiro, que tem barulho. Faz antes de sair de casa e vai pro jantar sabendo, sentada na cadeira do restaurante, sabendo. Não tem nada mais puta que isso.
Cu: lubrificante, muito, e mais do que você acha. Primeiro um dedo, o seu. Depois o dele. Depois dois. Você que manda o ritmo, você que empina, você que empurra pra trás. Doeu, para, respira, e volta. Não é pra sofrer, é pra abrir. E ele abre. Tem mulher que nasce com cu mágico. Tem mulher que descobre. E anota essa, que ninguém te conta: cu tem vontade própria. Tem dia que não vai dar. Você fez a chuca, passou lubrificante, quis, tava molhada, e não entra — ou entra e dói de um jeito que não é o dói bom. Não é frescura, não é cabeça, não é falta de vontade. É o corpo. Sono ruim, intestino, TPM, briga no trabalho, ou nada, nenhum motivo. Fecha e pronto. Nesse dia não tem posição, não tem lubrificante, não tem paciência que faça acontecer. Não insiste. Não se culpa, não pede desculpa pra ele, e não deixa ele achar que é castigo. Vira e fala: hoje não é o dia dele, é o dia da boca. E na semana que vem o cu volta, manso, como se nada tivesse acontecido. Quem apanha de teimosia com o próprio corpo passa três dias sentando de lado e uma semana com medo. Eu já passei. Regra da doutora: do cu pra buceta, nunca, sem lavar. Do cu pra boca, é por sua conta. Eu fiz.
Boca: de joelhos, olhando pra cima. Sempre olhando pra cima. Baba, que baba é bonito. Garganta se aprende, respirando pelo nariz. E, quando ele avisar, não tira. Engole. Olha pra ele engolindo. Depois mostra a língua vazia. Você nunca mais vai ver aquela cara que ele faz em outro lugar.
Cinta: compra. Preta. Deixa na gaveta sem falar nada. Um dia, abre a gaveta na frente dele. Ele vai rir, nervoso, e vai ficar de quatro, e vai pedir calma. Não vai com calma. Segura a cintura dele e come o teu marido do jeito que ele sempre comeu você. Depois me conta quem é que manda naquela casa.
Tapa: pede. Na cara. Ele vai bater como quem pede desculpa. Ri na cara dele. Na terceira ele aprende.
Luz: acesa. A barriga ele já viu. O que ele nunca viu foi você de quatro, abrindo a bunda com as duas mãos e pedindo.
Posologia: toda semana. Uso contínuo. Não tem contraindicação.
E agora a parte feia, que é verdade.
Homem é tudo idiota. Todos. O meu fecha contrato com fábrica na China, e quase tirou uma puta de vinte e poucos anos da boate com uma planilha. E, quando teve a mulher dele de volta, de joelhos, fazendo chuca e pedindo tapa, pegou um voo de vinte e quatro horas, com conexão em Dubai, e foi direto do aeroporto pro puteiro pagar pra ela chupar a cabeça do pau dele atrás de uma viga. Idiota. O meu idiota. E o seu é igual, só não teve a oportunidade ainda.
Mulher tem que ser puta em casa. Senão o marido vai buscar puta na rua. Não é bonito, não é moderno, não é o que a gente aprendeu. É o que é. Eu tenho a prova no extrato.
Como dizia a Dercy: que adianta você dar o amor e a alma, se vem uma vadia e dá o cu?
Então, mulherada casada, fica o recado da doutora. Dá logo o cu. Chupa. Engole. Come ele de cinta. E faz bem feito, olhando pra cima, pro seu marido não ir atrás de uma Nat. Porque ela existe, ela é boa no que faz, e ela cobra por hora. Você faz de graça, goza mais que ela, e ainda acorda do lado dele.
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PS do Pedro: Gui, se você ler isso algum dia: obrigado. Eu te odiei por uma semana. Vou te agradecer pelo resto da vida. E a Carina não precisa ler. E, sobre a China: os cinco quilos foram de corrida mesmo. Trouxe um perfume do duty free, doce demais. Usei uma vez. Ela guardou na primeira gaveta. Na primeira.
PS da Vanessa: Nat, se você ler isso algum dia: toda sexta tem uma suíte no Marquês com o nosso nome. A culpa é tua.
No estacionamento eu achei que a Nat da Velour tinha ficado lá dentro, com a luz vermelha. Errei. E aprendi uma coisa te vendo de uniforme branco, com a mochila no ombro, fumando metade de um cigarro na porta de uma clínica em Pinheiros: puta é puta. Não tem ex-viado, não tem ex-puta. Você pode bater cartão, fazer curso, tirar o salto, largar o vestido e nunca mais pisar num salão de luz vermelha, e continua. Não é xingamento, e você sabe que não é: na minha boca virou elogio há dois anos.
Puta de mentirinha é a Vanessa. Essa que escreve aqui. Puta de sexta, com hora marcada, filhos na escola, marido pagando o motel e segunda-feira de jaleco receitando ácido pra dona de sessenta anos. Eu brinco de ser você uma noite por semana e acordo no Itaim. Você é de verdade, e é o dia inteiro, e não tem gaveta pra guardar.
A diferença entre nós duas nunca foi moral. Foi extrato.