Mais um sábado com um festinha básica na casa de Marquito, com tios jogando dominó na sala, primas na cozinha, e crianças assistindo desenho na sala. Benício e Verena tinham acabado de chegar, era ainda uma 17 horas. Verena conhecia os pais de Marquito já, e conheceria alguns outros familiares. Ainda tava cedo, Benício e Leandro costumavam chegar bem antes pra ajudarem com a cerveja, preparativos, ir ao mercado caso faltasse algo, essas coisas.Mas ele foi puxado para resolver um problema técnico. Uma prima de Marquito estava aflita com uma situação.
- Benício, pelo amor de Deus, você pode dar uma olhada no meu notebook? A gente estava vendo umas coisas e de repente ele travou. Eu e minha amiga temos que apresentar um trabalho na segunda e a gente não tá conseguindo resolver!A gente vai perder tudo!
- Hum, deixa eu ir lá ver… Amor, vou subir um minutinho pra dar uma olhada. Fica aqui, tá?
- Tá, vou na cozinha ver se a mãe de Marquito precisa de alguma ajuda
Prestativo que era, lá foi ele. Já tinha configurado aquele aparelho anteriormente, não era coisa nova pedir pra ele dar uma forcinha.
Benício subiu as escadas com Carla e a amiga dela, e se deparou com um aparelho em estado lastimável - telas de erro, pop-ups infinitos, lentidão extrema. O trabalho estava num arquivo corrompido, e ele sabia que ia levar tempo para recuperar.
- Vai demorar um pouco, mas vou tentar salvar. Nem vou perguntar o que vocês queriam ver aqui.
As meninas riram sem graça, mas suspiraram aliviadas com a possibilidade de conserto. Começaram a trazer cerveja e petiscos para ele, enquanto ele digitava, concentrado. De vez em quando, algum parente subia com mais comida, comentando que Marquito e Leandro tinham saído para comprar algumas coisas que a mãe de Marquito tinha pedido . Nisso, Verena enviou mensagem “Jéssica apareceu aqui, me chamou pra ir na casa de Andreza. Vou lá conhecer o cafofo dela. Quando terminar, me liga”
O tempo passou. Uma hora. Uma hora e meia. Benício finalmente conseguiu recuperar o arquivo, limpar o sistema e fazer o programa funcionar novamente. Carla e a amiga saltaram de alegria, agradecendo efusivamente.
- Você salvou a gente, Benício! Muito obrigada!
- Demorou, viu? Cuidado com esses sites perigosos que vocês estavam acessando aí, viu?
Mas quando chegou ao andar térreo, a casa estava mais vazia. Alguns parentes já estavam lá, mas Marquito e Leandro não tinham voltado. As compras já tinham sido deixadas na cozinha havia quase cinquenta minutos, segundo uma tio.
- Ah, eu tava vindo pra cá e encontrei eles na saída do mercado. Apareceram umas meninas, peguei as coisas pra trazer e deixei eles lá.
Benício pegou o celular e ligou para Verena. Nada. Chamou no WhatsApp. Nada. Uma pontada de preocupação e irritação começou a crescer. Já passava das 19 horas.
Ele saiu da casa, andando pelas ruas próximas, até que avistou uma mesa num barzinho aberto. E ali estavam eles - Marquito, Leandro, Andreza, Jéssica e Verena. Gargalhando alto.
A cena o paralisou por um momento. Verena estava na ponta da mesa, o rosto vermelho de tanto rir, as mãos batendo na mesa enquanto Jéssica fazia gestos exagerados, mímicas dramáticas, contando alguma história que parecia ser hilária. Verena ria tanto que quase chorava, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto ela se dobrava de tanto se divertir. Pra piorar, ela bebia caipirinha. Pra quem só bebia um vinhozinho em casa, e na companhia dele, aquilo era um sinal de destrave total.
Jéssica: Aí minha amiga viu aquele cara peladão e perguntou “nossa, você não tem pinto não?”. Ai o cara responde (Jéssica engrossa a voz)”pinto eu tenho, o que eu não tenho é a perna esquerda”
A mesa inteira explodiu em risadas.Verena quase se dobrou sobre a mesa.
Verena: kkkkkkk… para, eu não aguento mais!
Andreza: ahahahahahahahah… Nossa, Verena, seu rosto tá todo vermelho
Verena: Meu Deus, tô aqui quase me urinando. Vocês não prestam! Kkkkkk...
Ele nunca tinha visto Verena daquele jeito - tão solta, tão animada, tão entregue àquela alegria contagiante. Benício sentiu um aperto no peito, uma mistura de surpresa e estranheza por ela estar ali daquele jeito, enquanto ele se desdobrava em uma ocorrência técnica. Caminhou até a mesa com o rosto fechado, cara de poucos amigos. Quando o viu, Verena se levantou animada para recebê-lo
Verena: Benício!Amor! Você terminou!Que bom! Nossa, demorou! Foi ruim assim?
Benício: Oi.
Verena: Poxa, eu ia te avisar, mas esqueci o celular na casa de Andreza. A gente encontrou os meninos, a Jéssica estava contando umas histórias, e a gente acabou vindo pra cá.
Benício: É. Eu percebi.
Marquito: Chegou o cara da assistência técnica!Mandei mensagem pra você há uns vinte minutos, Bené. Mas você não visualizou.
Benício: Não vi.
Jéssica: Então… a minha amiga falou “credo, não respeita nem uma donzela”. E ele “minha perna esquerda não está fazendo isso?”
E o grupo continuou na gargalhada. Mas Benício estava bem chateado. Verena percebeu logo
Verena: Ai… Benício, tá tudo bem? Por favor, esquece esse problema, vai, agora você tá aqui com a gente.
Benício: Cheguei no meio de uma conversa que não tenho a mínima idéia do que é
Marquito: Calma, ela pode retomar, é sobre...
Benício: Tava ocupado salvando o trabalho de uma pessoa que me pediu um favor, enquanto vocês estavam aqui na porra da gandaia!!
O grupo sentiu o clima mudar. Os sorrisos começaram a desaparecer.
Leandro: Relaxa aí, Bené… A gente ia voltar, mas você tava demorando, e a Jéssica começou a contar umas histórias, aí a gente veio pra cá, não íamos demorar.
Benício: Descontrair… Enquanto eu tava lá em cima, suando, resolvendo um problemão, vocês estavam aqui se divertindo. Vocês esqueceram de mim, caralho!
Andreza: Benício, não foi por mal… Se encontrou todo mundo no caminho e viemos pra cá, só pra dar um tempo. Estávamos já de retorno. Só não queríamos ficar parados, foi apenas uma concentração.
Jéssica: Pois é. Faz o seguinte: senta aí, a gente pede mais umas cervejas e a noite é nova, se acalme.
Benício: Tô totalmente por fora aqui. Pra mim a noite já envelheceu!
Verena: Ai, amor, que é isso! Não fica assim, por favor
Marquito: Manera aí, homem. Fica de boa
Benício: Porra, tô me sentindo um peixe fora d’água!Também queria tá me divertindo com vocês,mas fiquei num quarto um tempão e todo mundo aqui “kikiki,kakaká”!!
Marquito: Fica calmo!A noite tá começando, Bené, entendo seu lado, mas fica frio.
Jéssica: É, cara,sua namorada finalmente tava se soltando. Deveria agradecer, não ficar de cara feia.
Benício: O que você tá insinuando?
Jéssica: Nada, nada… Só tô dizendo que a Verena tava se divertindo pra valer. Coisa que, pelo visto, não é tão fácil quando você tá por perto.
Marquito: Que porra é essa, Jéssica!!!
Jéssica: É verdade, ué! Olha a cara dele, todo fechado. Chegou bronqueando, de mau humor, reclamando. A gente só tava contando uns casos, nada demais, e ele chega com quatro pedras na mão, estragando a noite.
Benício: Estragando a noite? Eu perdi uma hora e meia fazendo um favor, enquanto vocês estavam aqui, curtindo sem nem me avisar!
Leandro: Bené, a gente só dava dando um tempo,não sabíamos quanto tempo você ia demorar! Compreendo você, as coisas não foram pensadas pra isso.
Benício: E não podiam ter esperado? Não podiam ter me chamado? Não podiam ter feito o mínimo?
O grupo ficou em silêncio. Algumas pessoas em outras mesas começaram a olhar.
Verena: D-des-desculpa, amor, é- que- é- me distraí e…
Benício: Tô pirado com você também, Verena., nem vem!!
Andreza: Ô, não fala assim com ela!
Jéssica: Sabe o que é isso, Benício? Você é um babaca, isso sim! Sua namoradinha finalmente tá se divertindo pra valer, coisa que na sua presença ela não consegue! E você vem com essa autoridade moral?
Andreza: Não, Jéssica, chega!!
Jéssica: Não, Dreza, deixa eu falar! Você tá nervosinho porque, se você demorasse mais, ela ia descobrir o que é uma boa diversão de verdade! Você sabe disso, né? Sabe que ela fica mais solta aqui com a gente do que com você!Por isso que você tá nervosinho, não venha com esse papinho de me “deixaram sozinho” não, que a verdade não é essa...Nunca viu ela tão animada assim estando a seu lado,não é mesmo?
Benício sentiu o rosto queimar de raiva. As palavras de Jéssica acertaram em cheio um ponto que ele até considerou, pelas curiosidades despertadas em Verena desde que ela conheceu o grupo.
Benício: COMO VOCÊ SE ATREVE, SUA PUTA!
Jéssica: Me atrevo, sim! Porque é a verdade, e você sabe! Ela tava rindo, se soltando, se divertindo, sem amarras! Com você, ela trava! No fundo, ela quer mais, mas você impossibilita tudo!
O silêncio foi absoluto. Verena estava com os olhos arregalados, pálida, sem saber onde se enfiar. Marquito e Leandro estavam petrificados. Andreza tentava puxar Jéssica, mas ela não se movia.
Benício olhou para Verena, depois para o grupo, e sentiu algo se partir dentro dele.
Benício: Bem… se eu estou estragando a noite, então é melhor eu ir. E deixar vocês se divertirem e gargalharem até o fígado de todos estourarem!!
Verena: Amor, não...
Benício: Não, nem me toque! Fica aqui. Se diverte! Descubra aí a tal "boa diversão" que eu não posso te oferecer.
Ele se virou, com a fúria estampada no rosto, e começou a andar em direção à rua. O grupo ficou em silêncio, sem reação, enquanto ele se afastava.
Verena ficou parada, olhando para a figura de Benício sumindo na noite, e sentiu o coração apertar. Ela não sabia se devia correr atrás dele, se devia ficar, ou se deveria fazer alguma coisa. Naquele momento, nada parecia ocupar sua mente. Deveria haver um turbilhão de emoções em seu corpo. Mas o que predominava era um vácuo.
O silêncio que se seguiu à saída de Benício foi pesado, quase palpável. Os cinco ficaram imóveis por um longo momento, olhando para a direção em que ele tinha desaparecido, como se esperassem que ele voltasse. Mas ele não voltou.
Verena foi a primeira a quebrar o silêncio, com um soluço abafado que logo se transformou em lágrimas. Ela colocou as mãos no rosto, os ombros tremendo.
Verena: Eu nunca vi ele assim,nunca. Ele ficou tão bravo, tão... eu não reconheci ele. Temos apenas cinco meses de namoro, mas esse jeito dele não sabia que vivenciaria...
Andreza: Calma, calma, amiga, ele vai se acalmar, vocês vão se resolver.
Verena: Mas ele tinha razão! Ele tava lá, ajudando uma pessoa, e a gente aqui, se divertindo, sem nem avisar. Ainda deixei o celular na Andreza… meu Deus, quanto vacilo!
Leandro: Não, Verena, a culpa não é sua. A gente que não devia ter saído sem combinar direito. E a Jéssica resolveu pegar pesado demais, hein, dona Jéssica?!
Jéssica: Tá, eu fui muito direta, eu sei. Mas também falei o que pensei. E não vou pedir desculpas por falar a verdade.
Marquito: Puta que pariu, Jéssica...
Jéssica: Mas é a verdade mesmo!A Verena tava se divertindo, tava solta, tava rindo. E o Benício chegou com aquele cara fechada, reclamando de tudo. Alguém tinha que falar.
Andreza: Não daquele jeito, criatura! Você praticamente humilhou ele na frente de todo mundo.
Jéssica: Tá, eu exagerei. Desculpa, Verena. Não era minha intenção te deixar assim.
Verena: Eu sei que você não fez isso pra me magoar, mas ele ficou tão magoado... eu não sei como vou resolver isso.
Marquito: Vocês se acertam, vai por mim. O Bené é meu amigo há quase dez anos. Ele é cabeça dura, mas ele vai relevar, vai ouvir você.
Leandro: E a gente tem que ajudar. Se precisar, a gente fala com ele, explica que a gente chamou você, que você não fez nada de errado.
Verena: Eu não quero que vocês fiquem no meio disso. Eu também tenho minha parcela de culpa.
Jéssica: De jeito nenhum! Você só tava se divertindo,tava à vontade, e a gente te trouxe. Se alguém errou, fomos nós.
Marquito: Garçom! Mais uma rodada, por favor. Tá todo mundo precisando
As cervejas chegaram, e aos poucos o clima começou a se acalmar. Verena ainda estava abalada, mas as lágrimas tinham parado. Chegou mais uma caipirinha pra ela. Seria bom pra dar uma relaxada ainda maior.
Leandro: Olha, pelo menos agora a gente sabe que o Bené pode ficar bravo. O homem pegou ar!
Verena: Ele sempre foi equilibrado, moderado… Nossa, espero mesmo que as coisas se acomodem.
Jéssica: é, o homem ficou uma fera! Mas eu gosto dele, mesmo que ele seja cismado pro meu lado que eu sei.
Verena: E ele gosta de vocês. Ele fala do equilíbrio entre ele e vocês.
Marquito; Porra, ele é nosso irmão! Por isso que a gente não queria te deixar sozinha, Verena. Você é importante pra ele, e por extensão, é importante pra gente.
Verena sentiu um calor no peito. Aquelas palavras, vindas de pessoas que ela conhecia há tão pouco tempo, tinham um peso que a surpreendeu.
Foi então que Jéssica, com aquela franqueza assustadora, que colocou o elefante na sala.
Jéssica: Olha, vou ser sincera… A gente percebeu que você tem uma... curiosidade. Sobre a gente. Sobre como a gente funciona.
Depois de tudo aquilo, Verena estava exposta. Não tinha ninguém ali pra deixar ela contida, ressabiada. A verdade que ela estava se sentindo bem com o grupo e se viu decifrada com o apoio que eles estavam querendo passar.
Verena: É... é verdade. Eu fico observando vocês, tentando entender. Vocês são tão à vontade uns com os outros... É diferente de tudo que eu já vi.
Andreza: E você queria saber como é, não é? Queria entender como a gente se conecta. Veja… quando os conheci, eu era a “filhinha do papai”, quer dizer, mais ou menos, morei fora, então não era uma tonta de playground… Senti essa energia deles. Simpatizei com Jéssica. Ou seja, quero que você perceba que curiosidade com essa galera não é algo inédito
Verena: Eu nunca vivi nada assim. Minha vida sempre foi tão previsível... e vocês são tão intensos. Eu fico curiosa sim.
Marquito: Curiosidade é normal. A gente não se importa que você observe. Só não sei como você tá trabalhando isso com Bené...
Verena: Não estamos em sintonia quanto a isso…mas também não quero que ele mude. Gosto dele como o conheci.
Leandro: Pô, e ele gosta de você, a gente vê como ele te olha, como ele te trata. Só que... porra, difícil dizer isso depois que você confessou… talvez ele precise aprender a confiar mais em você. A deixar você voar um pouco.
Verena ficou pensativa. As palavras de Leandro ecoaram dentro dela, e ela sentiu que havia verdade ali.
Verena: Ele é meu porto seguro. Temos apenas cinco meses, mas dá pra sentir isso... no entanto… tenho medo de ficar com sentimentos aprisionados...
O grupo ficou em silêncio, processando aquela frase. Jéssica foi a primeira a reagir.
Jéssica: Você tem que colocar na cabeça que é livre. Se sente que precisa se conhecer melhor, precisa ficar à vontade pra que isso aconteça. E não se sinta confusa. Isso pode piorar as coisas. Você tem nuances, existe complexidade aí. É por isso que gostamos de você. Porque a gente enxerga isso em você.
Verena sentiu um sorriso genuíno surgir em seu rosto. As lágrimas tinham secado, e algo novo estava nascendo - uma sensação de pertencimento, de ser aceita em suas dificuldades de lidar com o novo.
O papo fluiu a partir dali. Jéssica contou mais histórias doidas, agora com menos drama e mais comédia. Leandro e Marquito entraram no ritmo, contando casos do SENAI, das trapalhadas com as mulheres, das noites malucas. Andreza se juntou, com suas observações afiadas e seu senso de humor irônico. Marquito começou a contar uma história absurda sobre uma viagem que tinha feito com Leandro. Leandro interrompia a cada trinta segundos para corrigir detalhes.
Leandro: Você está mentindo!
Marquito: Mentindo o que, velho?!
Leandro: pelo menos metade você tá inventando
Marquito: A metade inventada é justamente a melhor parte.
Verena ria cada vez mais, o rosto vermelho de tanto rir, as lágrimas de tristeza substituídas por lágrimas de alegria. Ela se sentia à vontade, solta, como se tivesse encontrado um lugar onde podia ser ela mesma sem medo de julgamento.
Verena: Vocês não conseguem ficar cinco segundos sem competir!
Leandro: Sério? Tudo isso??
Marqutio: Já temos quatro minutos e meio sem competição!
Leandro: Caramba! Garçom, traz nossa taça! Somos campeões!
Verena: KKKKKK, vcs não prestam!!
Andreza: Tive a mesma sensação, Verena, quando os conheci
Jéssica: De mim também?
Andreza: Não, porque nos tornamos iguais
Jéssica: Olha só como está essa patricinha metida!
Leandro: Chama o cara que sua amiga encontrou
Jéssica: Nossa, ele vai aparecer aqui pulando na “perna esquerda”
A risadaria era total. Já estavam no mesmo clima de antes, quando Benício interrompeu, o que parecia que aquela noite nasceu praqueles cinco mesmo.
Começaram a cantar no karaokê do bar. Jéssica foi lá cantar, depois Marquito. Verena foi incentivada, e lá estava ela, com a ajuda de três caipirinhas,cantando alegremente, acompanhada dos outros quatro e boa parte do bar, um famoso samba
“Erga essa cabeça, bote o pé e vai na fé,manda essa tristeza embora…”
E os cinco cantavam abraçados, em círculos, a alegria genuína de uma noite que quase termina, mas recemeçou praticamente do zero. Festinha na casa de Marquito? Nem lembravam mais. E foram mais algumas rodadas de cantorias até se sentarem de novo,continuando a noite.
A conversa ficou cada vez mais franca. Falaram de relacionamentos, ciúmes, festas, diferenças de personalidade e das situações absurdas que já haviam vivido.
Verena contou algumas coisas sobre si que nunca tinha contado a ninguém. Sentiu-se surpreendentemente segura.
Verena: Sabe de uma coisa? Eu nunca tive amigas como vocês. Sempre fui a filha única, a exemplar, a que não se mete em confusão. Mas com vocês, eu sinto que posso ser mais.
Jésscia: Acho que essa é a chave mestra da sua curiosidade. De que algo pode ser libertador, sair de si mesma, não estar receosa em lidar com algo que a aflige e perceber que isso não é um monstro que vai lhe devorar.
Quando a noite já ia alta, e o bar começava a esvaziar, os cinco se levantaram. Verena estava mais relaxada, mas ainda hesitante sobre o que fazer.
Jéssica: Vem pra casa de Andreza com a gente. A noite ainda não acabou.
Verena: Ah, não sei… Já tá tarde, e eu preciso pensar no que vou dizer pro Benício amanhã.
Andreza: Saiba que você é uma das nossas. Não vai atrapalhar, vai se divertir. E amanhã você resolve as coisas com ele. Por favor, pense que essa pode ser uma noite onde você pode refletir e a partir daí saber encarar as coisas com mais altivez. Se permita!
Verena ficou pensativa. “Uma das nossas”, pensou. Estava confusa, com a cabeça cheia de emoções conflitantes. Nunca tinha vivido uma noite tão agitada, tão intensa. A ideia de ficar sozinha em casa, remoendo tudo, parecia assustadora. Mas ali, com aquele grupo, ela se sentia protegida, acolhida. Olhou o celular. Nenhuma ligação de Benício, nenhuma mensagem. Ele tava muito bravo, nenhum sinal. Isso queria dizer "amanhã é um outro dia, hoje é hoje".
Verena: Ok… vou com vocês. Ir pra casa vai me deixar… muito pra baixo.
O grupo ficou feliz com a decisão e os cinco caminharam juntos pela noite, as risadas ecoando pelas ruas. Aquele grupo iniciou a noite e com ela terminaria. Nada mais justo. Se a lua e as estrelas lhe sorri, não pode virar as costas. A natureza oferece o caminho. Embora ainda estivesse preocupada com Benício, havia uma certeza começando a se formar em Verena: ela já não conseguia olhar para aquele grupo como simples amigos do namorado. Agora eram pessoas que começavam a fazer parte da sua própria história.
(continua...)