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A empreitada contra o empreiteiro - 2

Um conto erótico de Ricardo_xes
Categoria: Gay
Contém 3198 palavras
Data: 28/09/2026 12:14:33

O Peso da Assinatura

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Marcelo força Paulo a encarar a pasta com provas de corrupção e lhe dá uma escolha brutal: assinar um contrato de submissão de 30 dias ou ver sua mãe presa. Na propriedade isolada, Paulo espera, vestindo roupas escolhidas por outro homem, enquanto o contrato sobre a mesa de vidro aguarda sua assina…

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Marcelo empurrou a cadeira para trás. O atrito das pernas de metal contra o porcelanato da cozinha soou como um tiro abafado. Paulo permaneceu imóvel, os olhos fixos na pasta de couro marrom aberta sobre a ilha de quartzo — a mesma ilha que ele medira, cortara e instalara com precisão milimétrica semanas atrás. Os dedos de Paulo ainda seguravam a planilha orçamentária amassada, mas o papel já não significava nada.

Marcelo caminhou ao redor da ilha. Seus passos eram medidos, cadenciados — o tique-tique dos sapatos italianos de couro preto contra o piso limpo marcando um ritmo funerário. Paulo ouviu o homem parar atrás dele. Sentiu a aproximação antes que qualquer toque acontecesse: o calor de um corpo próximo, o cheiro seco de almíscar e lã de um terno azul-marinho que custava mais que o salário mensal de um pedreiro. A sombra de Marcelo caiu sobre a pasta aberta, cobrindo os extratos bancários, as mensagens de WhatsApp, as fotografias de envelopes trocados com o contador.

A mão direita de Marcelo pousou sobre a cabeça de Paulo.

O toque foi deliberado — não um tapa, não um soco, mas algo pior. A palma aberta afundou sobre o cabelo curto, preto, raspado nas laterais. Os dedos longos e frios fecharam-se ligeiramente, como os de um veterinário examinando um animal de raça duvidosa. A pressão aumentou — não o suficiente para doer, mas suficiente para comunicar uma verdade inegociável: a mão que segurava a cabeça de Paulo podia fazê-lo inclinar para qualquer direção, e ele não tinha força para impedir.

Marcelo empurrou a cabeça de Paulo para baixo. O pescoço do construtor cedeu, a cicatriz visível na lateral pulsando com o batimento acelerado do coração. O rosto de Paulo desceu até ficar a poucos centímetros da pasta aberta. O cheiro do couro marrom subiu pelas narinas — aquele odor encorpado de pele animal curada, misturado com o aroma do chá de jasmim que esfriava na xícara ao lado. Os olhos de Paulo, agora forçados a olhar para baixo, registraram cada documento como se fossem pedras caindo sobre um caixão: o extrato da conta em nome de Dona Célia, as capturas de tela das conversas onde ele descrevia em detalhes gráficos o que queria fazer com Elaine, a foto granulada de um envelope pardo sendo deslizado por baixo de uma mesa de restaurante.

Marcelo inclinou-se. Sua boca posicionou-se ao lado da orelha esquerda de Paulo — perto o suficiente para que a respiração quente e controlada do promotor tocasse o lóbulo. O hálito de Marcelo cheirava a chá e a algo metálico, como se as palavras que ele pronunciasse fossem feitas de aço antes de deixarem a boca.

— De agora em diante — a voz de Marcelo desceu a um registro que mal ultrapassava o som do ar condicionado zumbindo no teto —, você tem uma escolha. Uma só. Ou cede, e o seu destino passa a ser decidido por mim, e eu vou transformar você em algo que valha o oxigênio que consome... ou você sai por aquela porta, entra na sua Hilux, dirige até em casa, dorme uma noite tranquila, e amanhã de manhã o Tenente-Coronel Bezerra recebe uma intimação do Ministério Público em nome dele e da sua mãe.

O rubor subiu pelo pescoço de Paulo como tinta derramada sobre papel branco. Começou na base da garganta, espalhou-se pela mandíbula, tomou as bochechas, subiu até as orelhas. A pele morena do construtor ficou manchada de um vermelho escuro, quase roxo nas têmporas. Os tendões dos antebraços saltaram sob a pele enquanto os punhos se fechavam sobre a borda da ilha de quartzo — os mesmos punhos que haviam dado socos em paredes de obra, que haviam segurado vigas de aço, que agora tremiam como os de um alcoólatra em abstinência.

Raiva. Medo. Humilhação. Os três sentimentos corriam pelo sangue de Paulo como três venenos diferentes misturados na mesma seringa. A raiva queria fazê-lo se levantar e cravar o crânio de Marcelo contra a borda do quartzo. O medo segurava seus músculos no lugar, congelando cada fibra como se o corpo tivesse mergulhado em água gelada. A humilhação era a pior — era a que fazia o rubor avançar, era a que fazia os olhos arderem, era a que transformava cada respiração num ofego irregular e vergonhoso.

A mão de Marcelo permanecia sobre a cabeça de Paulo. Os dedos não se moveram. A pressão não diminuiu.

— Eu tenho uma propriedade no interior — continuou Marcelo, a voz no mesmo fio de navalha, cada palavra cortada com a precisão de um bisturi. — Você vai passar trinta dias lá. Se adaptando. À sua nova fase.

O silêncio que se seguiu durou três batidas do coração de Paulo. Três contrações dolorosas de um músculo que parecia ter dobrado de tamanho dentro do peito.

— E se eu não for? — A voz de Paulo saiu estrangulada, rachada no meio, como uma telha de barro se partindo sob peso.

A mão de Marcelo apertou ligeiramente. Os dedos afundaram no cabelo curto. Não foi dor — foi comunicação.

— Então você vai se preparar para ser preso. Vai perder tudo. A empresa. O dinheiro. A casa. O nome do seu pai vai pra primeira página do Correio Braziliense, junto com o da sua mãe. Setenta e um anos, aposentada, respondendo por lavagem de dinheiro. Você consegue imaginar Dona Célia numa audiência custodial? Eu consigo. Com clareza.

Paulo engoliu. O som de sua saliva descendo pela garganta foi audível na cozinha silenciosa. Os olhos permaneceram fixos na foto do envelope — o envelope que ele deslizara para o contador sob a mesa do Coco Bambu às quinze e quarenta e sete de uma terça-feira, enquanto o garçom servia uma caipirinha de maracujá que ele nem tocou.

— Trinta dias — repetiu Marcelo, como se estivesse ajustando o prazo num cronômetro. — Você chega lá, toma banho, e me espera até a noite. O contrato é de trinta dias. Com possibilidade de prorrogação.

Uma pausa. Marcelo afastou a boca da orelha de Paulo apenas o suficiente para que sua voz ganhasse um traço de algo que poderia ser confundido com humor — mas não era. Era o som de um carrasco descrevendo o formato da lâmina antes do golpe.

— Se você gostar da ideia. O que eu acho que vai acontecer.

A mão de Marcelo deixou a cabeça de Paulo. O construtor não se moveu. Permaneceu curvado sobre a pasta, os olhos fixos nos documentos, o rubor ainda pintado no rosto como uma marca de ferro quente. Os passos de Marcelo se afastaram — tique, tique, tique — até a porta da cozinha. O som de uma maçaneta sendo girada. O clique de uma porta se fechando.

Paulo ficou só.

O zumbido do ar condicionado preencheu o espaço. A xícara de chá de jasmim continuava sobre a ilha, esfumaçada, inútil. A planilha orçamentária de R$ 108 mil amassada em sua mão direita era um pedaço de papel morto. Paulo olhou para os dedos que seguravam a planilha e viu que tremiam — tremiam de verdade, não daquele tremor controlável que ele disfarçava em reuniões tensas com fornecedores, mas um tremor visceral, involuntário, o tipo que brotava do fundo da coluna vertebral e subia pelos braços como uma corrente elétrica.

Ele respirou fundo. O ar entrou cheirando a granito italiano e quartzo polido — materiais que ele escolhera, materiais que agora pareciam pertencer a outro homem, num outro mundo, numa outra vida.

A estrada vicinal terminou num portão de madeira de demolição com mais de três metros de altura, sustentado por pilares de pedra goiás cravados em concreto. Paulo desceu da Hilux preta e empurrou o portão, que cedeu sem resistência — trancas abertas, como se esperassem por ele. A picape avançou por um caminho de terra batida ladeado por ipês-amarelos cujas copas formavam um túnel dourado contra o céu azul de abril.

A propriedade surgiu por trás de uma curva do caminho. Não era uma casa — era uma extensão. Um bloco horizontal de pedra e madeira que se esparramava pelo terreno como se tivesse nascido dele, os telhados verdes de grama fundindo-se com a vegetação que subia pelas encostas ao redor. A piscina apareceu primeiro — uma lâmina de água azul-turquesa que refletia o céu como um espelho sem borda, aparentemente infinita, fundindo-se com a linha das árvores ao fundo. Espreguiçadeiras de teca vazio. Um pergolado de cumaru coberto de glicínias roxas. Um deck de madeira que circundava a piscina como uma plataforma de navio.

Paulo estacionou a Hilux sob uma cobertura aberta ao lado de um Mercedes preto e duas motos de água. Desligou o motor. O silêncio que o recebeu foi absoluto — não o silêncio urbano do Lago Sul, pontilhado por cachorros e conversas de vizinhos, mas um silêncio rural, grosso, feito de insetos distantes e folhas movidas por vento.

Ele viu os empregados antes que eles o vissem. Dois homens de uniforme branco — camisa de linho abotoada até a gola, calça de sarja — cruzavam o gramado na direção oposta, carregando cestas de frutas e toalhas dobradas. Não olharam para Paulo. Um terceiro homem surgiu da porta principal da casa, andando na sua direção com passadas curtas e eficientes. Era baixo, moreno, de cabelos grisalhos e rosto inexpressivo.

— Senhor Bezerra? — A voz era neutra, profissional, sem calor.

— Sim.

— O senhor Vilar deixou instruções. O senhor pode ficar à vontade até ele chegar. O quarto principal está preparado. Toalhas e roupas no banheiro. — O empregado fez um gesto vago na direção da porta aberta da casa. — Ele pede que o senhor tome banho e o aguarde.

Paulo ficou parado junto à Hilux, as mãos nos bolsos da calça jeans, a mandíbula travada. O sol de abril batia na nuca dele, quente, pesado. Ele olhou para a piscina, para as espreguiçadeiras vazias, para o gramado impecável cortado em linhas paralelas perfeitas. Tudo ali cheirava a dinheiro — muito dinheiro, o tipo de dinheiro que não precisava gritar para ser ouvido.

— A que horas ele chega? — perguntou Paulo.

— À noite. — O empregado não acrescentou mais nada. Virou-se e caminhou de volta para dentro da casa, desaparecendo por uma porta lateral.

Paulo ficou só. O sol desceu lentamente, projetando sombras longas dos ipês sobre o gramado. Ele caminhou até a borda da piscina e ficou olhando para a água — a superfície imóvel, turquesa, refletindo seu próprio rosto deformado pela leve ondulação de um sistema de filtragem silencioso. O rosto que o encarava de baixo era o de um homem que ele mal reconhecia: olhos fundos, maxilar cerrado, a cicatriz no pescoço mais visível do que nunca sob a luz natural.

Ele respirou. O ar entrou cheirando a cloro, capim cortado e algo adocicado — talvez as glicínias do pergolado.

Virou-se e entrou na casa.

O banheiro do quarto principal era maior que o quarto de Paulo em sua própria casa. Pedra natural nas paredes, uma banheira de imersão escavada num bloco de mármore, um chuveiro de parede sem box — aberto, exposto, como se a privação de barreira fosse parte do projeto. Toalhas brancas dobradas em triângulos perfeitos sobre uma prateleira de cumaru. Roupas dobradas ao lado: uma camiseta branca de algodão pima, uma calça de sarja leve cor de areia, um par de chinelos de couro.

Paulo tirou a roupa sem olhar para o espelho. Não queria ver o próprio corpo — os ombros largos que costumavam carregar confiança como se fossem armadura, o peito largo que respirava fundo em obras e reuniões, agora encolhido, de uma forma que não tinha nada a ver com postura e tudo a ver com o que acontecia por dentro. Ele abriu o chuveiro. A água quente caiu sobre a cabeça raspada, escorreu pela cicatriz do pescoço, desceu pelos ombros. O vapor subiu e embaçou o teto de pedra.

Ficou debaixo da água por muito tempo. Tempo suficiente para o sabonete de ervas lavar o cheiro de medo que ele sabia que estava impregnado na pele. Tempo suficiente para os dedos pararem de tremer. Tempo suficiente para construir, tijolo por tijolo, uma parede interna entre o que ele sentia e o que ele deixaria que Marcelo visse.

Vestiu as roupas que encontrou. A camiseta branca ajustava-se ao tronco largo de forma impessoal — não era sua, não era dele, era de Marcelo. A calça de sarja caía sobre os quadris com um comprimento que não era o seu. Os chinelos de couro eram meio número maior. Cada peça era um lembrete silencioso de que ele estava usando o que outro homem escolhera para ele.

A luz do dia diminuiu. A janela do quarto dava para o lado leste da propriedade, onde o sol descia por trás de uma serra de contornos suaves. O céu passou de azul para laranja, de laranja para púrpura, de púrpura para um cinza azulado que parecia fumaça. Os ipês perderam o dourado e se tornaram silhuetas pretas contra o horizonte. As luzes do jardim acenderam automaticamente — pontos quentes de LED embutidos no gramado, projetando sombras geométricas nas paredes de pedra da casa.

Paulo sentou-se no deck da piscina. As pernas esticadas, os braços apoiados atrás do corpo, o rosto virado para o céu que escurecia. Os insetos noturnos começaram a zumbir. Um sapo coaxou ao longe, perto de algum lago ou represa invisível. O som da água da piscina caindo pela borda infinita era o único ruído humano — ou quase humano — que se ouvia.

Ele esperou.

O motor do Mercedes quebrou o silêncio como uma pedra atirada contra vidro. Faróis varreram o gramado, projetando sombras dos ipês em movimento sobre a fachada da casa. Paulo ouviu o som dos pneus na terra batida, o estalo do cascalho sob os pneus, o clique da porta do carro se abrindo e fechando. Passos na pedra. O tique-tique familiar dos sapatos italianos.

Não se levantou. Permaneceu no deck, os olhos fixos na piscina onde a água escura agora refletia apenas as luzes do jardim. Ouviu Marcelo parar atrás dele. O cheiro do homem era o mesmo — almíscar, lã, aquele algo metálico que parecia fazer parte da química da pele dele.

— Bezerra. — Não era uma pergunta. Era um chamado.

Paulo se levantou. As pernas estavam pesadas, como se o tempo de espera tivesse solidificado o sangue nas veias. Virou-se. Marcelo estava ali, de pé, o terno azul-marinho escuro na penumbra, a camisa branca aberta no colarinho, a gravata preta frouxa. Os olhos cinzentos absorviam a luz do jardim sem devolver nada — dois buracos negros cravados num rosto comprido de maçãs do rosto altas.

— Vem comigo. — Marcelo virou-se e caminhou em direção à casa. Não esperou. Não olhou para trás.

Paulo seguiu. Os chinelos de couro bateram contra o piso de pedra da varanda. Atravessaram uma sala de estar vazia de mobília — apenas um sofá de linho cru e uma estante com livros de direito e arquitetura. Subiram uma escada de madeira cujos degraus não rangiam. Chegaram a um corredor iluminado por sancas de LED embutidas no teto. Marcelo parou diante de uma porta de madeira escura e a abriu.

O salão era retangular, com uns trinta metros quadrados. As paredes eram da mesma pedra natural do banheiro. O piso era de madeira escura — ipê roxo, polido até brilhar como vidro. Uma mesa de reuniões de vidro ocupava o centro, com seis cadeiras de couro preto ao redor. Sobre a mesa, uma única folha de papel. Um abajur de latão aceso projetava uma luz quente e circular sobre a folha. Nada mais.

— Senta. — Marcelo indicou a cadeira voltada para a porta.

Paulo sentou. A cadeira de couro era fria contra suas costas. A folha de papel estava a meio metro de seus olhos. O abajur iluminava o texto datilografado em fonte serifada, espaçada, formal.

Marcelo caminhou ao redor da mesa e ficou de pé, do outro lado, as mãos apoiadas no vidro, os dedos longos espalmados sobre a superfície transparente.

— Isto é um contrato. — A voz de Marcelo preencheu o salão sem esforço — o espaço era pequeno e a acústica devolvia cada sílaba como uma câmara de eco. — Não é um documento jurídico. Não tem testemunhas. Não tem cartório. É um acordo entre você e eu. Você assina, e a partir do momento em que assinar, você me pertence. Pelos próximos trinta dias.

Paulo olhou para a folha. As palavras estavam ali, pretas sobre branco, inegáveis. Ele as leu — os olhos percorrendo as linhas da mesma forma que um homem lê a sentença de um juiz: sem respirar.

O contrato descrevia, em termos secos e cirúrgicos, a transformação de Paulo Bezerra num escravo casto e obediente. As palavras não eram eufemísticas. Não havia metáfora, não havia subterfúgio. Castidade. Obediência. Submissão. O documento estipulava que Paulo não teria controle sobre seu próprio corpo durante o período de trinta dias — que seu prazer, sua vontade, sua autonomia seriam transferidos para Marcelo Vilar, que os administraria como bem entendesse.

O rubor voltou. Subiu pelo pescoço de Paulo como uma maré vermelha. As mãos que descansavam sobre os joelhos fecharam-se em punhos. A cicatriz no pescoço pulsava visivelmente — o sangue correndo mais rápido sob a pele morena, o coração batendo como um martelo contra uma parede que começava a rachar.

Marcelo observava. Os olhos cinzentos não piscavam. Absorviam cada micro-expressão do rosto de Paulo — o apertar da mandíbula, o franzir da testa, o tremor quase imperceptível do lábio inferior. A boca de Marcelo permanecia fechada, os lábios finos traçando uma linha reta que podia ser um corte de bisturi.

— Você tem duas opções — disse Marcelo, a voz baixa, cada palavra medida como uma dose de veneno. — Assina, e começa agora. Ou levanta, sai por aquela porta, e amanhã o delegado responsável pelo caso da Alpha Vesta recebe um pacote com tudo que está nesta pasta. Escolha.

O silêncio que se seguiu era tão espesso que Paulo conseguia ouvir o próprio sangue correndo nas orelhas. O abajur zunia suavemente. Um grilo cantava lá fora, alheio a tudo.

Paulo olhou para o contrato. Olhou para as próprias mãos. Olhou para Marcelo — para aqueles olhos que não refletiam nada, que não davam nada, que apenas tomavam.

Ele não disse sim. Não disse não. Permaneceu imóvel, o corpo rígido na cadeira de couro, o rubor ardendo nas bochechas, o medo e a raiva e a humilhação girando dentro do peito como três correntes de água turbulentas se chocando no mesmo ponto de encontro.

Marcelo esperava. A paciência dele era uma coisa sólida, tangível — um muro de concreto armado que Paulo sabia que não conseguiria derrubar nem com todas as ferramentas de obra que já possuíra.

O grilo cantou de novo. O abajur continuou quente e amarelo sobre a folha branca. E Paulo Bezerra, o construtor que erguera mansões no Lago Sul, o homem que nunca baixara a cabeça para ninguém desde os sete anos de idade quando o Tenente-Coronel Antônio Bezerra lhe ensinara o que era posição de sentido, ficou sentado naquela cadeira de couro preto, olhando para um contrato que pedia tudo que ele era em troca de nada que ele pudesse ver.

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Comentários

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Votei. Está muito bom o conto, espero que não demore a continuação.

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