Antes de começar, é sempre bom relembrar.
Os Filhos da Floresta é uma história sobre sofrimento, decadência humana e sobrevivência. Sobre pessoas presas em um lugar que não deveria existir, tentando sobreviver em meio ao medo, à exaustão e à ausência de uma saída. Algumas precisarão escolher entre aquilo que consideram certo e aquilo que precisam fazer para continuar vivas. Algumas resistirão, outras quebrarão. E algumas descobrirão que sobreviver pode ser apenas outra forma de morrer aos poucos.
Nem sempre as decisões dos personagens serão certas, heroicas ou justificáveis. Pessoas exaustas, desesperadas e encurraladas não agem como agiriam em condições normais, principalmente quando estão tentando fugir, perseguidas por algo que não entendem.
Respeite a floresta.
Tenha foco.
Guarde cada detalhe.
Siga em frente por sua conta e risco.
E, acima de tudo... aproveite a leitura!
*
Os filhos da floresta - Capítulo 4: Dívida de sangue
Ato I
Voltei para o celeiro, precisava ser rápido. O sol já começava a desaparecer atrás das árvores. Segui pela mesma direção por onde havia chegado antes, mantendo o taco preso à mão. Quando me aproximei do celeiro, vi os moradores, eram os mesmos dois que eu havia encontrado antes. Eles estavam parados perto da entrada, e pelo jeito, eram somente eles.
— Você de novo? — um deles apontou para mim assim que me viu.
— Eu mandei você ficar longe daqui — o outro colocou a mão sobre a faca presa à cintura.
Olhei para o celeiro, precisava entrar e rápido.
— Vai embora — disse o homem que segurava um revólver.
Ele a levantou, meu corpo se moveu antes que eu tivesse tempo de pensar. Arremessei o taco em direção a ele, acertou a cabeça com força. O outro puxou a faca, avancei sobre ele e golpeei, ele tentou recuar, mas tropeçou, acertei outro golpe.
Observei os dois caídos, não senti pena, não havia tempo para isso. Peguei o revólver que havia caído no chão e guardei a munição, depois joguei a arma longe entre as árvores. Entrei no celeiro, por sorte, não havia mais ninguém. Fechei a porta atrás de mim e atravessei o corredor escuro, o cheiro voltou imediatamente. A carne misturada a sangue e podridão. Mas dessa vez não parei, encontrei a porta que levava ao espaço principal do celeiro e a abri.
A criatura estava no mesmo lugar, a Mãe, como a chamavam. Ela ergueu a cabeça quando me viu, um grunhido baixo saiu de sua garganta. Agora conseguia enxergá-la melhor, conseguia enxergar os braços e pernas finos e deformados movimentando-se sobre o chão, com longas garras afiadas.
A criatura se mexeu, dei um passo para trás. Se chegasse perto demais sem cuidado, ela poderia muito bem me partir ao meio. Precisava terminar aquilo rapidamente. Encostado na parede havia um machado, o peguei e segurei firme. A Mãe começou a se contorcer. Levantei o machado, o primeiro golpe atingiu um dos ombros, a lâmina entrou na carne, a criatura grunhiu. Puxei o machado de volta, golpeei novamente, dessa vez, no outro braço.
Continuei, cada golpe arrancava um dos membros, tirando a única arma que ela tinha, as garras. A criatura se debatia no chão, tentando se afastar de mim. Seus grunhidos ficaram cada vez mais agudos, levei uma das mãos ao ouvido. Parecia que meus tímpanos iam explodir.
Agora conseguia chegar perto o suficiente, levantei o machado acima da cabeça, desci a lâmina diretamente contra o crânio. O impacto fez o corpo inteiro estremecer, retirei o machado, golpeei novamente. O grunhido cessou. Ela parou de se mexer.
E se ela se regenerasse? Eu havia visto aquilo acontecer, talvez esmagar a cabeça não fosse suficiente. Precisava fazer alguma coisa, alguma coisa...
Um galão estava encostado perto de algumas ferramentas. Ao lado dele havia uma caixa de fósforos. Não pensei duas vezes, peguei a gasolina e comecei a despejá-la sobre a criatura e sobre a parede de madeira em torno dela. Peguei os fósforos, acendi e joguei. O fogo se espalhou imediatamente. As chamas subiram pela madeira e envolveram o corpo da Mãe, o celeiro começou a estalar. Não esperei para descobrir o que aconteceria, corri para a saída. Peguei o machado e atravessei a porta e entrei na mata. Corri o mais rápido que consegui, atrás de mim, o fogo começava a consumir o celeiro.
A Mãe estava morta, tarefa cumprida.
E eu precisava voltar para a minha cabana o mais rápido possível, olhei para o relógio e estava perto do horário, já estava anoitecendo.
Ato II
Entrei na cabana, fechei a porta. Fiquei alguns segundos parado, olhando para a madeira à minha frente. Eu ainda conseguia ouvir o vento passando entre as árvores. Depois de tudo o que havia acontecido naquele dia, aquele som parecia quase familiar. Quase tranquilo.
Quase.
A noite já consumia a floresta por inteiro. Por algum motivo, eu não sentia a mesma sensação do que nas primeiras noites, aquela presença opressora da escuridão ainda estava ali, eu sabia, eu sentia. Era impossível não perceber. Mas eu não tinha mais medo, ou talvez tivesse. Talvez eu simplesmente estivesse me acostumando ou fingindo normalidade. Deixei o machado de lado e conferi minhas coisas. A arma estava comigo. O restante dos objetos que eu havia conseguido pegar também estava seguro.
Eu havia sobrevivido a mais um dia.
Me sentei na cama, fiquei ali por alguns minutos, encarando a parede, não sentia sono, nunca sentia. Mas havia uma espécie de cansaço no meu corpo. Não era exatamente vontade de dormir. Era como se meus músculos simplesmente pedissem que eu parasse por algum tempo. Então me deitei, fechei os olhos e pisquei.
...
Quando os abri novamente, não estava mais na cabana, sequer estava deitado.
Agora, estava de pé. Havia um corredor diante de mim, um corredor escuro. Não era a escuridão comum de uma noite sem lua. Era como se aquele lugar tivesse sido construído dentro da própria ausência de luz.
De repente, algumas luzes das lâmpadas piscaram até acenderem por completo.
Olhei para trás, não havia nada além de portas dos dois lados. Uma do lado da outra, todas fechadas. Não sabia onde estava, também não sabia por que não estava assustado. Talvez porque aquilo parecesse um sonho. Ou porque, naquele lugar, coisas absurdas já haviam deixado de parecer tão absurdas.
Comecei a andar, meus passos produziam um eco baixo, que desaparecia lentamente na escuridão. As primeiras portas não tinham trancas, maçanetas, tentei empurrar algumas, mas nem se mexeram.
Conforme andava pelo corredor, percebi que algo nas portas mudava. Algumas apresentavam rabiscos. Pareciam rabiscos desajeitados com giz. As próximas portas tinham o mesmo rabisco. Andei mais um pouco passando pelas portas rabiscadas tentando formar palavras desconexas, até que uma tinha uma palavra muito clara.
“saia”
Passei para a próxima.
“você”
A outra.
“precisa”
Olhei para trás, encarando a infinita escuridão daquele corredor macabro. Voltei a olhar para a frente e a andar. Algumas mensagens pareciam ter sido escritas às pressas por pessoas desesperadas. Outras eram apenas riscos tortos, como se alguém tivesse usado as unhas contra o ferro. Continuei andando, as mensagens ficaram maiores, mais agressivas.
CASA.
DAQUI.
SAIA.
SAIA.
SAIA AGORA.
CASA.
VOLTE.
PARA.
CASA.
SAIA.
Tinha a estranha sensação de que alguma coisa naquele lugar parecia muito desesperada para me fazer ir embora. Mesmo assim, continuei.
O corredor parecia não terminar nunca, até que, finalmente, enxerguei uma porta diferente, ela estava no final, sozinha. Não havia outras ao lado, não havia rabiscos espalhados, apenas um número.
Oitenta e nove.
Parei diante dela. Levei a mão até o pescoço, a chave ainda estava ali, a mesma chave velha e gasta que carregava aquele número. Aquela porta tinha fechadura, tinha maçaneta, tinha os trejeitos de uma porta normal.
Encaixei a chave na fechadura, ela entrou perfeitamente, então girei, a porta abriu. Do outro lado havia apenas escuridão, peguei a lanterna e acendi, o facho de luz atravessou o quarto e revelou...
...os corpos, pessoas, seres humanos...
Havia muitos. Corpos espalhados pelo chão, dezenas, talvez centenas.
Fiquei parado na entrada, por um instante, pensei que fossem cadáveres. Mas em alguns, havia respiração, havia o movimento dos pulmões se enchendo e se esvaziando.
Havia pessoas deitadas umas sobre as outras, algumas encolhidas abraçando bonecos de pano, algumas estendidas de qualquer maneira. Algumas pareciam simplesmente dormir. Algumas riam, eram risadas baixas, quase infantis, que vinham de pessoas que pareciam estar completamente inconscientes.
Em outro canto, alguém chorava, o choro era contínuo e abafado, mas a pessoa sequer parecia perceber que estava fazendo aquilo.
O chão estava encoberto por um carpete de pessoas. Eu precisava tomar cuidado para não pisar em ninguém, a cada passo, o facho de luz revelava um novo rosto. Homens, mulheres, pessoas de idades diferentes, de jovens adultos até idosos.
Algumas pareciam tranquilas, outras contorcidas. Algumas sorriam, outras tinham lágrimas escorrendo pelo rosto. Uma delas abriu os olhos quando passei, olhou diretamente para mim. Mas não disse nada, fechou os olhos novamente.
Continuei, não sabia o que estava procurando. Ainda assim, sentia que precisava chegar ao outro lado daquele quarto. Foi então que percebi uma luz pequena e distante no meio de toda aquela escuridão. Fui até ela, quanto mais me aproximava, mais estranho aquilo parecia.
Era um abajur, um simples abajur.
Estava ligado no meio do quarto, a luz era quente, amarelada, acolhedora. Completamente diferente de tudo naquele lugar.
Pela primeira vez desde que acordei naquela floresta, eu senti paz.
Esqueci a floresta.
Esqueci a amnésia.
Esqueci a Raiz Negra.
Esqueci o Velho, a Caçadora, a Bruxa, os Selvagens, os lobos, os habitantes da Vila, a Mãe e tudo o que havia acontecido.
Eu só queria ficar ali, envolto naquela sensação acolhedora, tão sensivelmente boa.
O abajur piscou algumas vezes, a luz ficou mais forte e eu pisquei também.
...
Abri os olhos, estava de volta à cabana. Olhei para o teto, para as paredes.
De volta à velha cabana. Passei a mão pelo rosto.
Eu havia dormido? Mas eu não sentia sono.
Olhei para minhas mãos, depois para a chave pendurada no meu pescoço, a apertei entre os dedos.
Se tinha sido um sonho, por que parecia tão real?
Se eu havia dormido, quanto tempo tinha passado?
E por que eu havia encontrado aquela porta?
Por que o número oitenta e nove estava nela?
Fiquei sentado na cama, tentando organizar os pensamentos, foi então que ouvi as vozes, baixas e distantes. Quase como sussurros atravessando as paredes. Havia também um chiado constante por trás delas, uma estática irregular, como se uma transmissão de rádio estivesse tentando atravessar alguma interferência.
— Passagem...
— Passagem...
O chiado aumentou por um instante.
— Negra...
Uma pequena interferência cortou a palavra.
— Raiz...
O som parecia vir de algum lugar distante, misturado à estática.
— Lado...
— Ao lado...
— Passagem...
— Túnel...
— Fogo...
Fiquei parado no centro da cabana, as vozes não pareciam vir de um único lugar. Elas estavam em todos os lugares. Dentro da parede, do chão, atrás da porta, acima do teto. E, às vezes, parecia que estavam dentro da minha própria cabeça.
O chiado permanecia ao fundo, falhando e voltando, como uma transmissão antiga com o sinal fraco.
— Passagem... negra... raiz... lado... lado... passagem... túnel... fogo...
As mesmas palavras, na mesma ordem, repetidas e repetidas vezes. Entre uma palavra e outra, a estática preenchia os espaços, às vezes tão alta que parecia engolir parte da mensagem.
Eu me sentei novamente na cama, esperei, esperei. As vozes continuaram, na mesma entonação, na mesma ordem. Tentei ignorá-las, a noite parecia interminável. Em alguns momentos, elas diminuíam até quase desaparecer, restando apenas um chiado baixo, mas então voltavam. Mais claras, mais próximas.
— Raiz...
A estática aumentou.
— Túnel...
Um ruído cortou a palavra.
— Fogo...
Fiquei olhando para a escuridão da cabana.
Eu não sabia se aquilo era uma mensagem, não sabia se alguém estava tentando falar comigo. Também não sabia se aquelas palavras tinham algum significado ou se minha cabeça simplesmente estava começando a enlouquecer.
Permaneci sentado até que a escuridão do lado de fora começasse a mudar.
A noite estava chegando ao fim, as vozes ainda estavam ali. Então, pouco antes do amanhecer, todas pararam, deixando apenas eu e um silêncio absoluto. Pela primeira vez em horas, não ouvi nada, levantei a cabeça. Foi quando uma única voz surgiu, dessa vez, não era um sussurro, não era distante.
Era clara, perfeitamente clara, tão clara como os raios de sol que começavam a invadir a cabana anunciando o amanhecer.
— Volta para casa...
A voz ecoou dentro da minha cabeça e por toda a cabana. E, naquele mesmo instante, o sol nasceu por completo, mandando para longe o breu da noite.
Ato III
Depois que a noite não era mais um obstáculo, estava na hora de voltar para a Bruxa e alinharmos nossos interesses.
Cheguei à cabana da Bruxa e bati na porta.
— Entre — a voz veio de dentro.
Empurrei a porta. A Bruxa estava sentada diante de uma mesa, mexendo em alguma coisa que não consegui identificar de imediato. Havia ferramentas espalhadas ao redor dela, pedaços de madeira, fios, pequenas placas de metal e alguns objetos que pareciam ter sido retirados de máquinas antigas. Ela nem sequer levantou a cabeça quando entrei.
— Fiz o que pediu — entrei e fechei a porta.
Ela continuou trabalhando.
— Eu sei — ela continuou trabalhando. — Não foi difícil ver o celeiro queimando. Não achou muito extravagante?
Não respondi, ela voltou a mexer nas coisas sobre a mesa.
— Você conseguiu criar alguns inimigos bem complicados.
— Vou dar conta.
Ela soltou uma pequena risada. Aproximei-me da mesa, foi então que percebi o que ela estava construindo. Parecia uma máscara, ou melhor, o começo de um capacete. Havia uma estrutura metálica envolvendo a parte da cabeça, com pequenos pedaços de tecido presos nas laterais. Alguns fios saíam de dentro e terminavam em pequenas placas.
— O que é isso?
— Uma das minhas tentativas de chegar próximo à Raiz Negra — ela levantou o objeto.
Uma das tentativas...
— E quantas vezes você falhou?
— A mesma quantidade de vezes que algum Perdido idiota veio até mim me implorando por ajuda — ela colocou o objeto novamente sobre a mesa. — Estou tentando construir alguma coisa que impeça o som externo de chegar até os seus ouvidos.
— E o que falta?
— Um material resistente.
— O que você já tentou?
— Quase tudo — ela apontou para uma pilha de peças quebradas num canto da cabana. — Nada funciona.
Pegou o capacete novamente e mostrou algumas partes.
— Se eu usar um material muito rígido ou muito flexível, o som passa. Se acrescentar camadas, fica pesado demais — ela colocou o objeto sobre a mesa. — Preciso de alguma coisa que consiga suportar isso.
— E você acha que existe?
— Aqui? — ela deu de ombros. — Existe de tudo, por exemplo...
A Bruxa levantou-se. Caminhou até uma prateleira e pegou um pequeno frasco, colocou-o diante de mim. Dentro havia um líquido viscoso de coloração vermelha, balancei o recipiente. O líquido se moveu lentamente.
— O que é isso?
— Seiva.
— Seiva vermelha?
— É das árvores.
— Nunca vi uma árvore produzir isso.
— Porque não são árvores como as que você conhece — ela abriu o frasco.
Um cheiro estranho saiu dele. Não era exatamente ruim. Parecia uma mistura de terra molhada com alguma coisa metálica. Ela colocou uma pequena quantidade na ponta do dedo.
— Isso serve para tudo, como alimento, água — ela ergueu um pouco da máscara, revelando um pouco da pele do rosto, completamente queimado, levou o dedo com a seiva até a boca. — Ajuda a recuperar ferimentos, grandes, pequenos, ajuda até no caso de amputações, consigo colar o membro perdido de volta ao lugar com isso.
— Ah... — fiquei em silêncio por alguns segundos, ok, aprendi a não duvidar de nada dentro dessa floresta.
— Também serve para reparos em objetos — ela fechou o frasco e o guardou. — É útil para muita coisa, minha descoberta mais preciosa.
— Onde conseguiu?
Ela não respondeu imediatamente, apenas caminhou até a porta e indicou para eu segui-la. Fui atrás, contornamos a cabana. O terreno atrás da casa era diferente do restante da floresta. Havia árvores espalhadas em pequenos grupos, no começo, pareciam normais. Então percebi que havia alguma coisa errada, uma delas tinha o tronco aberto. Não partido, aberto. As bordas da abertura eram irregulares e úmidas, parecendo pele rasgada.
A Bruxa continuou andando, havia centenas de árvores na mesma situação. E dentro delas havia pessoas, ou pelo menos o que restava delas. Me aproximei de uma, havia um homem lá dentro, o tronco havia crescido ao redor do corpo, envolvendo suas pernas, o abdômen e parte do peito. O rosto estava parcialmente escondido pela madeira. Ele não se mexia.
— Eles estão vivos?
— Não.
Me aproximei, o corpo parecia completamente seco. Não havia sinais de vida. A Bruxa pegou uma faca. Caminhou até uma das árvores, enfiou a lâmina na estrutura aberta do tronco. Cortou uma pequena parte, e um líquido vermelho começou a escorrer. Ela rapidamente colocou um recipiente embaixo, algumas gotas caíram. A quantidade era pequena.
— Só isso?
— Por enquanto, sim, para conseguir um frasco daquele, leva dias — ela retirou o recipiente, havia apenas uma pequena quantidade de líquido dentro. — Preciso esperar a árvore produzir novamente.
Olhei novamente para o homem, foi então que me lembrei do cadáver. O corpo carbonizado que havia encontrado depois daquela noite, as raízes envolvendo os braços, o chão se abrindo. A floresta engolindo lentamente o cadáver.
— Eu já vi isso, uma pessoa sendo absorvida — toquei o tronco da árvore, era macio como pele. — O corpo estava morto, o chão abriu, as raízes começaram a puxá-lo.
— É assim que começa — a Bruxa não parecia surpresa, ela passou os dedos pela superfície da árvore. — Quando alguém morre na floresta, ela absorve o corpo, depois a árvore cresce.
Olhei novamente para o corpo, agora eu entendia por que aquilo parecia tão grotesco. Não eram pessoas dentro de árvores, eram árvores crescendo em volta de pessoas.
— Mas estão mortos, para que a floresta precisa deles?
A Bruxa deu de ombros. Ela cortou mais um pequeno pedaço da árvore. Outra gota vermelha caiu no recipiente.
— Só sei que ela continua usando o que sobra de nós.
O corpo que eu havia encontrado naquela manhã. Por algum motivo, eu não conseguia parar de pensar nele. Talvez aquele cadáver também acabasse assim, talvez todos que morressem ali acabassem assim.
Todos ali pertenciam à floresta.
— Vamos — ela fechou o recipiente.
Voltamos para a cabana, ela colocou a pequena quantidade de seiva junto das outras ferramentas.
— Ainda não consigo fazer o isolamento do som — ela pegou novamente o capacete.
— E se fizesse alguma coisa mais simples?
— Como?
— Tipo... um abafador de ouvidos.
— Um abafador?
— Sim. Alguma coisa que cubra apenas as orelhas.
Ela olhou para o capacete, depois para mim.
— Talvez.
— Você nunca tentou?
— Não dessa forma — ela começou a mexer em algumas peças sobre a mesa. — Ainda precisaria de um material resistente, alguma coisa que não deixe o som passar.
Ela parou e, por alguns segundos, ficou apenas encarando a mesa de trabalho.
— Mas eu acho que poderia funcionar — ela fez uma pausa. — Existe uma coisa que pode funcionar.
— O quê?
— A pele do Aquecedor.
O nome não me era estranho. Peguei o mapa e o abri sobre a mesa. O nome estava ali.
— O Aquecedor é um monstro? — inclinei a cabeça. — Achei que fosse só algum lugar quente.
— É uma criatura antiga — ela passou o dedo pela marca no mapa. — O sangue dele corre muito rápido nas veias. O corpo produz muito calor.
Ela voltou a olhar para o capacete.
— A pele dele é resistente. Já pensei em usar isso antes.
— E por que não usou?
— Eu não sou uma combatente — ela me encarou e abriu as mãos, apontando gentilmente para o próprio corpo debilitado. — E já sugeri a outras pessoas, os que tentaram morreram, outros só ficaram com medo e abandonaram a ideia.
Olhei novamente para a marca no mapa.
— Então eu mato essa coisa — olhei novamente para o mapa, eram alguns minutos de caminhada.
— Você nem sabe o que é — ela soltou uma pequena risada.
— Não importa.
— Então não perca tempo.
— Não vou.
— Ainda bem — ela voltou a mexer nas peças. — Porque eu não teria paciência para convencê-lo.
Guardei o mapa. Antes de sair, olhei para aquelas árvores abertas.
Quantas pessoas já tinham morrido naquela floresta?
Enfim, sem tempo para questionamentos.
Ato IV
Segui pela trilha indicada pela Bruxa. Quanto mais avançava, mais o ambiente mudava. A floresta parecia seca naquele trecho. As folhas no chão estavam quebradiças, algumas árvores tinham perdido quase toda a folhagem e havia manchas negras espalhadas pelos troncos. Não parecia que tinham sido queimadas por um incêndio. Eram marcas isoladas, como se alguma coisa tivesse passado por ali deixando calor demais para trás.
Estava perto, continuei andando. Pouco depois, comecei a sentir calor, não era um calor comum do sol, não vinha de cima, vinha da frente. O ar parecia mais pesado. Respirei fundo e senti a garganta seca. Então ouvi alguma coisa, um som grave, irregular, uma respiração estranha. Segurei o rifle com mais força e avancei devagar. A vegetação começou a desaparecer. Havia um espaço aberto entre as árvores, e no centro daquela clareira estava a criatura.
O Aquecedor.
Era maior do que eu imaginava. Tinha o corpo humanoide, mas tudo nele parecia ter sido deformado pelo próprio calor. Os braços eram compridos e grossos, as pernas pareciam pesadas demais para aquele corpo e a pele era espessa, ressecada e cheia de rachaduras. Por algumas delas eu conseguia enxergar um brilho avermelhado. Como se houvesse alguma coisa incandescente sob a pele.
Ele estava de costas para mim. Fiquei alguns segundos observando. A criatura respirou, uma nuvem de vapor saiu de sua boca.
Levantei o rifle e atirei, o disparo atingiu seu ombro. A criatura cambaleou, um líquido escuro escorreu pelo ferimento e caiu no chão. Assim que tocou a terra, começou a soltar vapor, o Aquecedor virou o corpo inteiro para mim. Eu atirei novamente, nessa vez acertei o peito. Ele soltou um grunhido profundo e avançou, disparei mais duas vezes, atingindo seu abdômen e uma das pernas.
Mas não o fizeram parar, ele vinha na minha direção como um animal enfurecido. Corri para o lado, o Aquecedor passou por mim e golpeou uma árvore. O impacto fez o tronco estremecer, fiquei alguns metros distante e atirei outra vez. A criatura se virou, as rachaduras em sua pele estavam mais abertas.
O brilho vermelho havia aumentado, parecia que quanto mais eu o feria, mais quente ele ficava. Ele avançou novamente, dessa vez consegui esperar até o último instante antes de sair do caminho. A mão dele passou perto do meu rosto, senti uma onda de calor. A pele da minha bochecha ardeu imediatamente, rolei pelo chão e me levantei. A criatura já estava atrás de mim, decidi correr. Não pretendia enfrentá-la de frente enquanto ainda tivesse espaço para fugir.
Ouvi seus passos pesados atrás de mim, atirei enquanto recuava. Um no pescoço e outro no rosto. Ele levou as mãos à cabeça e gritou, o som fez meu peito vibrar. Continuei recuando, olhei para o rifle, tinha poucas balas. Precisava terminar aquilo logo, a criatura ergueu o rosto, uma parte da pele havia se rompido e deixado exposta uma massa avermelhada por baixo.
Ela veio novamente, disparei. O último tiro acertou sua cabeça. O Aquecedor cambaleou, o rifle estava vazio. Joguei-o de lado e puxei o revólver. Ele me viu e veio correndo. Apertei o gatilho, o disparo acertou seu peito, ombro e perna. A criatura caiu sobre um joelho, por um instante achei que tivesse terminado. Mas se levantou.
Maldita coisa feia desgraçada, por que não morria?
O calor ficava cada vez mais intenso, não queria, mas precisava enfrentá-lo no mano a mano. Peguei o taco e o esperei. Ele partiu para cima, quando tentou me atingir, me abaixei e golpeei sua perna, o arame farpado rasgou um pouco da pele, um líquido escuro escorreu pelo taco. O calor atravessou a madeira e chegou até minha mão, soltei um grito e recuei. Minha palma ardia, o Aquecedor tentou me acertar novamente. Dessa vez não consegui desviar completamente, o golpe atingiu meu ombro e fui lançado contra o chão. Senti o impacto antes da dor, rolei para o lado quando ele tentou me esmagar com o pé. Me levantei cambaleando, a criatura estava cada vez mais instável.
Ele veio na minha direção. Esperei até o último segundo, desviei, golpeei a lateral da cabeça. O arame entrou na pele, a criatura gritou, puxei o taco de volta. Ela virou o rosto, um dos olhos estava quase destruído. Me aproximei novamente e dei outro golpe. Dessa vez acertei a mandíbula, a cabeça virou violentamente para o lado, a criatura caiu, mas ainda respirava.
Minha mão tremia pela dor da queimadura, o Aquecedor tentou se levantar. Eu puxei o revólver, apontei para o rosto e atirei tudo o que tinha. A cabeça recuou, mas ele ainda não morreu. Fui até ela, o calor era insuportável, mesmo parada parecia irradiar o calor de uma fornalha. Levantei o taco, segurei com as duas mãos com força, mesmo a palma ardendo. Golpeei exatas três vezes até aquela coisa parar.
Fiquei alguns segundos olhando para ela, nenhum movimento, nenhuma respiração. O corpo continuava quente, soltando pequenas colunas de vapor pelas rachaduras da pele. Precisaria esperar para tentar arrancar algum pedaço de pele, o Aquecedor estava morto, mas ainda parecia uma fornalha. Sentei a alguns metros de distância e esperei o calor diminuir.
A floresta permanecia completamente silenciosa ao redor. Por alguns minutos, fiquei apenas observando aquele cadáver. Até que finalmente tive coragem de me aproximar, cortei uma parte da pele que estava menos quente e a envolvi em um pedaço de tecido.
Voltei pela trilha em direção à casa da Bruxa, o caminho mais rápido passava novamente pelo celeiro. Eu já sabia que não seria uma boa ideia, ainda assim, precisava passar por ali. Quando me aproximei, avistei algumas pessoas do lado de fora. Elas estavam espalhadas perto do celeiro, algumas sentadas, outras conversando em voz baixa. Assim que me viram, se levantaram imediatamente.
Todos ficaram em silêncio, um deles se levantou, olhou para mim.
— O capeta comeu a porra da tua mãe!
— Você é um demônio — outro homem esbravejou enquanto se levantava.
Continuei andando, não queria outra briga. Não naquele momento, mas eles começaram a se aproximar.
— Você condenou todos nós a morrer de fome!
— Precisamos nos alimentar!
— E agora vamos comer você!
Parei e percebi que eram poucos, mas estavam armados. O primeiro tentou me atacar com uma faca, mas desviei e acertei sua cabeça com o taco. Os outros avançaram juntos, mas consegui derrubá-los um por um, usando o taco reforçado com arame farpado.
O combate se espalhou pela frente do celeiro. Alguns tentaram me cercar, outros recuaram, mas continuei avançando até alcançar todos. Quando terminou, havia um rastro de corpos espalhados pelo chão, todos com a cabeça esmagada.
Respirei fundo, tudo limpo... em excessão de um. Ele largou a arma e levantou as mãos.
— Espera...
Não, eu não esperei, não tinha tempo.
O acertei antes que pudesse tentar alguma coisa.
Quando tudo terminou, fiquei parado no meio daquele lugar, o silêncio havia voltado. Olhei para o celeiro, as paredes ainda estavam marcadas pelo fogo. O corpo da mãe não estava onde deveria estar. Agora aquelas pessoas também não tinham mais nada.
Talvez a Bruxa tivesse razão, eu realmente havia criado inimigos complicados. Guardei o taco e continuei meu caminho, não olhei para trás. Alguns minutos depois, a casa da Bruxa apareceu entre as árvores.
Ato V
— Conseguiu — a Bruxa abriu o pano e examinou a pele durante alguns segundos. Passou os dedos pela superfície grossa e ressecada, puxando um pequeno pedaço para testar a resistência.
Enquanto ela começava a separar algumas ferramentas, percebi que ela havia olhado para minha mão. Ela segurou meu pulso antes que eu pudesse afastá-lo. A Bruxa pegou um pequeno recipiente e abriu a tampa. Dentro havia uma quantidade mínima daquela substância vermelha que eu já tinha visto antes. Ela despejou algumas gotas sobre a queimadura.
Olhei para minha mão. As áreas avermelhadas perderam a cor, as pequenas fissuras desapareceram e, pouco depois, não havia mais nada além da pele normal. Mexi os dedos, nenhuma dor.
A Bruxa voltou para a mesa. Ela começou a trabalhar na pele daquela coisa. Olhei ao redor, vi uma fotografia no canto de uma prateleira. Era pequena e estava amarelada pelo tempo. Peguei-a com cuidado, havia três pessoas na imagem. Um homem, uma mulher e uma garotinha que sorria para a câmera. Alguma coisa cobria o rosto dos dois adultos, era uma mancha preta, irregular, parecia tinta espalhada.
No fundo, havia uma estrada atrás daquelas três pessoas, uma estrada comum, asfalto comum com árvores comuns. Alguma coisa naquela imagem me parecia familiar.
— Quem são eles? — levei a fotografia até a Bruxa.
Ela interrompeu o trabalho e olhou para a imagem, ela não falou nada. Vi ela cerrando os punhos, as mãos tremeram. Ela estendeu a mão, entreguei a fotografia. A Bruxa a observou com atenção.
— Isso foi tirado no lugar onde a Raiz Negra surgiu — a Bruxa me entregou de volta a fotografia.
Guardei-a comigo, aquela estrada era muito familiar, se eu pudesse descrever com poucas palavras, eu diria “estrada para casa”.
A Bruxa continuou trabalhando no protótipo do abafador de ouvidos, enquanto eu permanecia em silêncio, pensando em quantos Perdidos haviam chegado àquela floresta antes de mim.
E quantos deles tinham tentado fazer exatamente aquilo que eu estava prestes a fazer.
Olhei para o relógio no pulso, estava próximo do anoitecer.
Saí sem falar nada.
