A festa de formatura ocupava o salão de eventos inteiro. Eu tinha sido contratado pela escola para cobrir a cerimônia — trabalho legítimo, do tipo que paga as contas e mantém a fachada em ordem. Cheguei cedo, montei o equipamento no canto do salão e comecei a fotografar. Formandos entrando, discursos, entrega dos diplomas, abraços, lágrimas de mães.
Foi num intervalo entre a cerimônia e o jantar que eu a vi.
Ela estava num canto, sozinha, com o celular na mão. Cabelo castanho na altura dos ombros, preso com um prendedor simples. Vestido azul-marinho discreto, um pouco acima do joelho, marcando o corpo de forma elegante. Uns quarenta anos, talvez menos. O olhar dela estava longe. Cansado. Não era cansaço físico — era o cansaço de quem carrega um peso sozinha há muito tempo.
Continuei fotografando. Em determinado momento, a filha dela recebeu o diploma e correu para abraçá-la. Foi a única vez na noite inteira que vi aquele rosto se iluminar de verdade.
Terminei o trabalho por volta das onze. Comecei a desmontar o equipamento, guardando flashes, lentes, o tripé. Foi aí que ela apareceu.
— Boa noite.
Virei. Era ela. Bolsa no ombro, celular na mão, sorriso educado no rosto. De perto, o cansaço era mais visível.
— Boa noite — respondi.
— Você é o fotógrafo contratado, né?
— Sou. Lucas.
— Mônica. — Estendeu a mão. Apertou rápido, sem firmeza. — Minha filha é a Karen, do terceiro ano.
— Parabéns. Ela parece muito feliz.
— Está. — Ela olhou para o salão por um momento, depois voltou para mim. — Você trabalha com isso há muito tempo?
— Alguns anos. Eventos, formaturas, ensaios. Principalmente ensaios.
— Ensaio de quê?
— De tudo um pouco. Moda, retrato, campanhas. — Fiz uma pausa. — Por quê?
Ela hesitou. O sorriso educado deu lugar a uma expressão mais séria.
— Eu estava pensando... — A voz mais baixa. — Faz um tempo que eu queria fazer umas fotos. Só pra mim. Nada profissional. Só... fotos minhas.
Eu a encarei. Ela não estava pedindo indicação. Estava pedindo coragem.
— Que tipo de fotos?
— Não sei. — Ela riu de si mesma. — Nunca fiz isso. Mas vi umas fotos de um ensaio que uma amiga fez, e achei tão bonito. Ela disse que se sentiu outra pessoa. Eu queria sentir isso.
— Eu faço esse tipo de ensaio. Se quiser, posso te mostrar meu portfólio.
— Ah, não sei se agora... — Ela olhou para o salão. — A festa ainda está rolando.
— Amanhã ou depois. Ou pode ser no meu estúdio, na Zona Sul.
Ela ficou em silêncio. Vi o conflito no olhar — a vontade de fazer algo por si mesma lutando contra a imagem de mãe responsável. Não insisti.
— Você cobra quanto? — perguntou por fim.
— Um ensaio básico, com uma hora de sessão e edição das fotos, fica trezentos. Mas eu faço um valor especial. Duzentos. — Deixei o número no ar, sem pressa.
Ela pensou mais um pouco. Olhou para a filha, que continuava dançando, depois voltou para mim.
— Tá. — Respirou fundo. — Vou querer sim. Quando você pode?
— Sábado de manhã. Me manda uma mensagem que eu te passo o endereço.
— Combinado.
Ela guardou o celular na bolsa e me olhou mais uma vez. Havia algo diferente no olhar agora. Uma mulher que tinha acabado de tomar uma decisão.
— Até sábado, Lucas.
— Até sábado, Mônica.
Ela voltou para o salão. Terminei de desmontar o equipamento e fui embora.
Sábado de manhã. O estúdio estava arrumado desde cedo. Passei a semana organizando o espaço, deixando tudo com cara mais profissional. Paredes brancas limpas, piso de madeira encerado, cama de casal com lençóis novos, poltrona no canto, fundos de tecido pendurados, luzes de estúdio montadas nos tripés. Não era luxo, mas era um espaço de trabalho bem cuidado.
Recebi a mensagem dela às nove e meia. Respondi com o endereço. Ela disse que chegaria em quarenta minutos.
Chegou pontualmente. Ouvi o interfone, atendi, e alguns minutos depois ela apareceu na porta. Estava diferente da formatura. Blusa de seda cor de creme, calça bege, sapatilha nude, bolsa pequena. Cabelo solto, maquiagem leve. Parecia mais cuidada, mas ainda com aquele ar de cansaço.
— Oi, Lucas.
— Oi Monica. Chegou na hora certa. Entra, fica à vontade.
Ela entrou devagar, olhando o espaço. Vi o olhar percorrer o estúdio, a cama, as luzes, os fundos.
— Que lugar bonito.
— Tô montando ainda. Senta um pouco. Quer água?
— Quero.
Peguei um copo, servi, entreguei. Ela bebeu devagar, olhando ao redor. Sentou na poltrona, ajeitou a bolsa no colo, cruzou as pernas.
— Eu tô nervosa — admitiu, rindo de si mesma. — Não sei por quê. Não é nada demais, né? Só fotos.
— É só foto — concordei. — Mas entendo. A maioria fica nervosa no começo. Me fala uma coisa: por que você quis fazer esse ensaio?
Ela pensou um pouco.
— Faz tempo que eu não faço nada por mim. Eu me separei há um ano e pouco. Desde então, minha vida virou trabalho, casa, filha. Às vezes eu me pego olhando no espelho e não reconheço a mulher que está ali. Parece que só sobrou a mãe. A profissional. A dona da casa. Mas a Mônica mesmo, eu não sei mais onde foi parar.
Eu ouvi sem interromper.
— Vi umas fotos de uma amiga que fez um ensaio, e ela falou que se sentiu poderosa. Que se reconectou com ela mesma. Eu queria sentir isso. Não pra ninguém. Pra mim.
— Entendi. E é exatamente isso que a gente vai fazer hoje. Nada de pose de revista. Só você, do jeito que você é. Eu te guio, mas quem manda é você. Se em algum momento não se sentir confortável, a gente para. Combinado?
— Combinado.
— Tem alguma coisa que você quer evitar?
— Não quero nada vulgar. Não quero parecer... puta. Quero algo bonito, elegante. Mas que também seja sensual. Sem ser vulgar.
— Perfeito. Vamos trabalhar nessa linha.
Peguei a câmera.
— Começamos com roupas normais. Poses simples, só pra você se acostumar com a câmera. Depois a gente evolui conforme você se sentir confortável.
Ela assentiu.
— Fica em pé, aqui nessa luz. Relaxa os ombros. Respira fundo. Olha pra mim e sorri de verdade.
Ela obedeceu. Os primeiros cliques foram tímidos, o sorriso forçado. Os ombros tensos, as mãos sem saber onde ficar.
— Você tá tensa. Fecha os olhos. Respira fundo. Imagina que você tá num lugar que gosta. Só você. Ninguém olhando. Ninguém cobrando nada.
Ela fechou os olhos. Vi o corpo dela relaxando aos poucos.
— Isso. Agora abre os olhos bem devagar. E me olha como se eu fosse uma pessoa que você gosta.
Ela abriu. O olhar estava diferente — mais suave, mais presente. O sorriso que veio depois não era forçado.
— Perfeito. Agora mantém isso.
Os cliques seguintes foram melhores. Ela foi se soltando, o corpo mais leve, os movimentos mais naturais.
— Você tá indo muito bem. A maioria demora mais pra relaxar. Você tem uma presença forte, Mônica.
Ela riu, sem graça.
— Nunca ninguém me falou isso.
— Então tá na hora de ouvir.
Depois de uns vinte minutos, parei.
— Vem cá ver uma coisa.
Ela se aproximou. Virei a tela na direção dela e comecei a passar as fotos. Vi os olhos dela se arregalarem, a boca entreabrir.
— Essa... essa sou eu?
— É você.
— Mas... eu não sou assim.
— Você é exatamente assim. Só não estava acostumada a se ver desse jeito.
Ela ficou em silêncio, olhando as fotos. Passou o dedo pela tela, devagar, como se estivesse tocando uma coisa que não sabia que existia.
— Eu tô bonita — disse, baixinho.
— Você tá linda. E a gente pode ir além. Se você quiser.
— Além como?
— Um ensaio mais sensual. Nada vulgar, como você mesma disse. Mas algo que explore mais o seu corpo, a sua feminilidade.
Ela hesitou.
— Eu não trouxe roupa pra isso.
— Eu tenho algumas coisas aqui no estúdio. Peças que comprei pra ensaios, pra clientes que vêm despreparadas. Não é lingerie, é mais... camisolas, robes. Se você quiser, eu te mostro.
Ela me olhou com uma expressão que eu não soube decifrar de imediato.
— Você tem essas roupas aqui?
— Tenho. Pra usar em ensaios. É comum em estúdio fotográfico. Cliente vem, não sabe o que vestir, o fotógrafo tem algumas opções.
Ela continuou me olhando por um momento. Eu via que ela tentava processar aquilo.
— E se eu não quiser?
— A gente continua do jeito que tá. Suas fotos já estão lindas. O resto é opcional.
Ela respirou fundo.
— Me mostra.
Fui até o armário e abri. Tinha camisolas de seda, robes, tops de renda. Ela se aproximou, olhando as peças. Passou os dedos por uma camisola preta de seda, depois por um robe vinho.
— Essa — disse, pegando a camisola preta e o robe vinho.
— O biombo tá ali.
Ela foi atrás do biombo. Fiquei do lado de fora, ajustando a iluminação. A playlist instrumental continuava tocando baixinho.
Ela demorou um pouco. Quando saiu, entendi o porquê. A camisola de seda caía suavemente sobre as curvas, marcando os seios, a cintura, o quadril. O robe aberto deixava ver o conjunto. As pernas apareciam, bonitas. O cabelo tinha sido ajeitado de forma diferente, mais solto. Ela estava com os braços meio cruzados na frente do corpo, num gesto de proteção.
— Tá bom assim?
— Tá ótima. Você tá linda, Mônica.
Ela desviou o olhar, mas um sorriso escapou.
— Estou me sentindo... estranha. Diferente.
— Diferente como?
— Mais... leve. Como se eu fosse outra pessoa.
— Você é a mesma pessoa. Só tá se permitindo ser vista de outro jeito.
Ela me encarou por um momento.
— Você fala umas coisas...
— É o trabalho. Vamos continuar?
Ela assentiu.
Fotografei mais um tempo. A camisola de seda deslizava sobre a pele de um jeito que valorizava cada curva. Ela foi se soltando aos poucos, mas ainda com uma certa rigidez nos ombros.
— Vira um pouco o corpo pra esquerda. Isso. Agora levanta o braço e passa a mão pelo cabelo. Devagar.
Ela obedeceu. O movimento ficou bonito.
— Você tem um jeito muito elegante.
— Sempre me achei desengonçada.
— Não é desengonçada. É que você não tá acostumada a se ver. Mas a câmera gosta de você.
Ela riu de leve. Continuei fotografando, mudando de ângulo devagar. Poses mais suaves, mais lentas. Ela foi encontrando uma fluidez que não tinha no começo.
Num determinado momento, abaixei a câmera.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— O que você faz? Profissionalmente, digo.
— Sou professora. Ensino biologia pro ensino médio.
— Biologia. Interessante.
— Interessante é o que os alunos acham quando tem aula prática. No dia a dia, é decorar.
Eu ri. Ela riu também, mais solta.
— E a Karen? — perguntei, voltando a fotografar. — Vai fazer o quê agora?
— Jornalismo. Passou na federal.
— Você deve estar orgulhosa.
— Muito. Mais do que ela imagina.
— E você? Sempre quis ser professora?
Ela pensou um instante.
— Não. Quando era mais nova, queria ser bailarina. Mas a vida não deixou.
— A vida não deixou, como?
— Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis. Minha mãe ficou sozinha com três filhos. Eu era a mais velha. Alguém tinha que trabalhar.
Eu não respondi. Continuei fotografando. Ela foi falando, sem que eu precisasse perguntar.
— Eu tinha uma bolsa de estudo numa escola de dança. Clássico. Fiquei dois anos. Era a única coisa que eu fazia que era só minha. Aí meu pai adoeceu, as contas chegaram, e eu parei. Nunca mais voltei.
— Você sente falta?
— Sinto. Mas de um jeito estranho. Não é falta da dança. É falta da menina que dançava. Ela era mais leve.
— E hoje? Você ainda dança?
— Não. — Ela riu. — Faz uns quinze anos que eu não danço. A última vez foi no casamento de uma prima. Fiquei com vergonha de todo mundo olhando.
— Por que vergonha?
— Porque eu já não era mais ela. — Ela parou. — Aí eu fiquei olhando, e desisti.
Eu não disse nada. Deixei o silêncio. Ela mexeu no cabelo, ajeitou o robe, voltou para a pose. Mas havia algo diferente agora. O corpo dela estava mais pesado. A conversa tinha acertado um lugar que ela não esperava.
Continuei fotografando. Ela foi ficando em silêncio por um tempo, os olhos mais baixos. Aí, sem que eu pedisse, ela falou de novo.
— Depois casei. Com o pai da Karen. Fiquei casada oito anos. Aí a gente separou, e eu conheci outro. Casei de novo. Durou quatro anos.
— E por que terminou?
— Porque eu não sabia mais quem eu era fora de alguém. — Ela me olhou. — Você entende isso?
— Entendo.
— É a coisa mais estranha do mundo. Você passa anos cuidando de marido, de filha, de casa, de aula. Aí um dia você olha e percebe que já não tem nada que seja seu. Nem uma música. Nem um hobby. Nem um desejo. Você é só a função.
Ela parou de falar. Eu continuei fotografando. O silêncio agora era diferente. Não era vazio. Era cheio.
— Foi por isso que eu quis fazer esse ensaio — falou, a voz mais baixa. — Eu queria ver se tinha alguma coisa. Se tinha sobrado alguma coisa.
— E tem?
Ela me olhou. O olhar era sério. Não era flerte. Não era jogo. Era uma pergunta de verdade, e ela queria resposta de verdade.
— Não sei ainda.
— Então vamos ter que descobrir.
Ela assentiu. Voltou à pose. Mas o corpo dela estava mais entregue agora. Não era a professora sendo fotografada. Era a Mônica. A que tinha dançado dois anos de clássico, a que tinha enterrado o pai aos dezesseis, a que tinha se casado duas vezes e continuava sem saber quem era.
Fotografei mais um tempo, mudando de ângulo. Ela respirava mais fundo. Fechava os olhos às vezes. Deixava o corpo responder sem comando.
— Você já fez terapia? — perguntei, sem malícia.
Ela riu.
— Tô fazendo. Há seis meses. A melhor coisa que eu já fiz na vida. Ninguém sabe. Nem a minha filha.
— Por quê?
— Porque eu passei a vida inteira sendo a mulher que resolve os problemas dos outros. Não sei ser a mulher que precisa de ajuda. Ainda tô aprendendo.
— E como tá sendo?
— Difícil. Mas bom. Toda quarta-feira, uma hora. É a única hora da semana em que eu não preciso ser nada pra ninguém.
Ela riu de novo, e o riso ficou mais aberto. Eu cliquei mais algumas vezes. Ela estava mais solta agora. Os ombros tinham descido. As mãos tinham encontrado um lugar. O olhar estava mais presente.
Parei de fotografar por um instante e fiquei olhando para ela. Ela percebeu.
— O que foi?
— Nada. Só tô olhando.
— Olhando o quê?
— Você.
Ela corou. Foi rápido, mas eu vi.
— Você tá me deixando sem graça.
— Não é a intenção.
— É sim.
— Tá. É sim. Mas não é maldade.
Ela ficou em silêncio por um instante. Eu continuei olhando. Ela desviou o olhar, depois voltou.
— Por que você tá me olhando assim?
— Porque você é bonita.
— Você já falou isso.
— Verdade, mais então eu falo outra coisa. Você é linda.
Ela desviou o olhar de novo. Mas dessa vez, não desviou por vergonha. Desviou pra esconder um sorriso. E eu vi o sorriso. E ela sabia que eu vi.
— Vamos continuar? — perguntei.
— Vamos.
Voltei a fotografar. Mas alguma coisa tinha mudado no ar. A tensão entre a gente agora era diferente. Não era a da profissional sendo fotografada. Era a de duas pessoas que estão começando a se ver.
Depois de uns quinze minutos, baixei a câmera de novo.
— Vem cá ver uma coisa.
Ela se aproximou. Virei a tela pra ela. E o impacto veio de novo. Ela passou o dedo pelas imagens, tocando as fotos como se fossem de outra pessoa. Ficou um tempo em silêncio numa imagem em específico — uma em que estava com o rosto virado pra câmera, o cabelo solto, o robe aberto, e havia uma expressão nela que ela não reconhecia. Não era a mãe da Karen. Não era a professora. Não era a mulher separada. Era a Mônica.
— Não parece eu. — disse, baixinho.
— Parece sim. Só que é você de um jeito que você nunca se viu.
Ela continuou olhando. Havia algo diferente no rosto dela agora. Era uma mulher que estava começando a se enxergar.
— Nunca ninguém me viu assim. Acredito que nem eu mesma, nunca me vi desse jeito.
— Assim como?
— Como se eu fosse interessante. Como se valesse a pena olhar.
— Você vale a pena, Mônica. Sempre valeu.
Ela me olhou. Havia uma mistura de emoção e incredulidade no olhar.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer. É verdade.
Ficamos em silêncio por um momento. Ela olhando pra tela. Eu olhando pra ela. A playlist continuava tocando baixinho. O estúdio estava quente.
Ela levantou o olhar. Olhou pra mim.
E beijou.
Não houve pergunta. Não houve pedido. Não houve aviso. Ela simplesmente se inclinou e encostou os lábios nos meus. Foi um beijo leve, quase uma pergunta muda. Durou pouco. Mas durou.
Ela se afastou quase imediatamente. O rosto dela estava vermelho. Os olhos arregalados. Como quem tivesse acabado de se assustar com o próprio gesto.
— Desculpa — falou, a voz baixa, quase sem ar. — Desculpa. Eu não sei o que me deu. Eu... isso foi...
Ela deu um passo pra trás. Eu não avancei. Fiquei onde estava.
— Não precisa se desculpar — falei.
— Preciso. Você é o fotógrafo. Eu sou mãe. Eu nem sei quem você é. Eu nem sei o que eu tô fazendo aqui.
Eu deixei ela falar. Não interrompi. Não pedi calma. Não disse que estava tudo bem. Só deixei ela colocar pra fora. Ela está envergonhada, em choque pela atitude.
— Faz um ano e pouco que eu tô sozinha — continuou, a voz mais trêmula. — Faz um ano e pouco que ninguém me olha. E hoje você me olhou. E eu... eu não sei o que aconteceu comigo.
Ela parou. Olhou pra mim. Esperou uma resposta. Qualquer resposta.
— Eu gostei — falei.
Ela me olhou. Não entendeu de primeira.
— O quê?
— Do beijo. Eu gostei.
— Não fala isso.
— Por que não?
— Porque você não devia ter gostado. Porque eu não devia ter feito isso.
— Mônica — eu disse, devagar, sem me mover. — Eu gostei. Você é bonita. Você é interessante. E eu não me importo que você seja mãe, nem professora, nem separada. Eu me importo em vê o que você é quando você para de se esconder.
Ela ficou em silêncio. Não desviou o olhar. Ficou me encarando. Eu vi o momento exato em que as palavras acertaram algum lugar dentro dela.
— Eu não consigo entender. — falou, baixinho. — Eu não sou assim.
— Você é assim. Só não se via assim a muito tempo e outra coisa, você não precisa entender. Só precisa querer.
Ela respirou fundo. Fechou os olhos por um instante. Eu fiquei parado. Não avancei. Não peguei na mão dela. Não toquei no rosto dela. Eu deixei a decisão inteira com ela. Porque era o que eu tinha pra dar naquele momento — a porta, e a liberdade dela atravessar ou não.
Ela abriu os olhos. Me olhou por um tempo. Havia algo diferente ali agora. Não era mais vergonha. Não era mais dúvida. Era decisão.
Ela deu um passo na minha direção. Não falou nada. Só se aproximou, encostou o corpo no meu, e me beijou pela segunda vez.
Dessa vez, o beijo não foi uma pergunta. Foi uma resposta.
O segundo beijo durou mais. A mão dela subiu pro meu pescoço e os dedos se fecharam no tecido da minha camisa, me puxando mais perto. Eu deixei as mãos caídas ao lado do corpo, sem tocar nela. Ela estava conduzindo. Eu não ia tirar isso dela.
Ela se afastou por um instante, olhou nos meus olhos.
— Você tá parado — disse.
— Tô.
— Por quê?
— Porque hoje quem conduz é você.
Ela me encarou por um instante. Vi o momento exato em que ela entendeu. E vi o momento em que ela aceitou.
— Tira a camisa — falou com um sorriso leve.
Eu tirei. Ela olhou meu corpo, sem pressa. Passou os dedos pelo meu peito, pela barriga, desceu até a cintura. A mão dela era quente, e o toque era curioso — de mulher que há muito tempo não tocava um homem e estava redescobrindo como se faz.
— Você provavelmente é mais novo do que eu — falou, sem olhar pra cima.
— Provavelmente.
— Isso te incomoda?
— Não. E você?
Ela demorou um instante pra responder.
— Não.
Ela desceu a mão até a barra da minha calça. Abriu o botão. Desceu o zíper devagar, como quem prolonga. A mão dela entrou por dentro da cueca e fechou em volta do meu pau. Apertou de leve, sentindo o peso, o calor. Subiu e desceu uma vez, devagar.
— Tá duro — falou.
— Tô desde o primeiro beijo.
Ela riu baixo, satisfeita. Uma risada que eu não tinha ouvido ainda — uma risada de mulher que estava começando a curtir.
— Deita — falou.
Eu obedeci. Me deitei na cama. Ela subiu em cima de mim, ainda vestida com a camisola de seda. O robe aberto caía pelos lados. Ela me beijou de novo, mais fundo agora.
— Você não vai me tocar? — perguntou, entre um beijo e outro.
— Vou. Quando você pedir.
— E se eu não pedir?
— Aí eu não toco.
Ela parou por um instante, olhou nos meus olhos.
— Você faz isso sempre?
— O quê?
— Deixa a mulher conduzir.
— Não. Mas hoje eu vou.
— Por quê?
— Porque você precisa.
Ela não respondeu. Baixou o rosto e me beijou de novo. Mas dessa vez o beijo tinha outra coisa. Não era só desejo. Era gratidão. E era uma coisa que pra muitas pessoas não tem preço.
Ela continuou sentada em cima de mim, ainda vestida, o corpo dela roçando no meu. A camisola de seda deslizava sobre a minha pele. A boceta dela, por baixo do tecido, esquentava contra o meu pau. Ela começou a se esfregar devagar, sem pressa, sentindo.
— Tá bom assim? — perguntou.
— Tá ótimo.
— Você não vai me dizer o que fazer?
— Não. Hoje não.
Ela riu baixo. Continuou se esfregando por cima de mim, devagar, sentindo. A respiração dela foi ficando mais curta. Os olhos dela fecharam.
— Tira a camisola — falei.
— Quem tá conduzindo aqui?
— Tá bom.
Ela riu de verdade. Mas tirou. Puxou a camisola pela barra, levantou sobre a cabeça, jogou no chão. Ficou nua em cima de mim. Eu parei por um instante, sem disfarçar.
O corpo dela era de mulher de verdade. Seios que já tinham amamentado, com uma leve caída que a deixava mais bonita, não menos. Mamilos de um marrom escuro, quase da cor da pele, mas um tom acima. A barriga com uma linha suave de estrias que ela não escondia. O quadril largo. As coxas grossas. A boceta com pelos aparados, escuros, brilhando de umidade.
Ela não cobriu nada. Ficou parada em cima de mim, deixando eu olhar. Não era exibicionismo. Era uma mulher que estava se permitindo ser vista, talvez pela primeira vez em muito tempo.
— Você tá me olhando muito — falou.
— Você é um espetáculo.
Ela sorriu. Um sorriso que agradecia e que também guardava a informação pra depois.
Ela se inclinou sobre mim. Me beijou. O corpo dela nu contra o meu. Eu senti o calor, o peso, o cheiro dela — perfume misturado com a pele, um cheiro que eu não ia esquecer tão cedo.
Ela desceu a mão de novo, pegou meu pau, posicionou na entrada. Parou ali.
— Tudo bem? — perguntei.
— Tudo.
Ela desceu devagar. A ponta entrou. Ela prendeu a respiração. Desceu mais um pouco. O corpo dela se abriu pra mim devagar, sentindo cada centímetro. Quando chegou no fundo, ela soltou o ar num gemido longo, rouco, quase um suspiro.
— Caralho… — falou, baixinho, quase pra si mesma.
Ficou parada. Sentindo. O corpo dela ajustado ao meu.
Depois começou a se mover.
No ritmo dela.
Devagar no começo. Rebolando por cima de mim sem pressa, sentindo cada posição, cada ângulo. Ela fechava os olhos, abria, me olhava de novo. A mão dela às vezes subia pro próprio cabelo, outras vezes descia pra própria boceta. A respiração dela foi mudando. Os gemidos ficaram mais presentes, mais honestos.
— Tá gostoso? — perguntei.
— Muito.
Ela parou por um instante, sentada no fundo. Me olhou.
— Você não vai fazer nada?
— Não.
— Por quê?
— Porque eu quero que você faça o que você quiser. O que tiver vontade. Eu to muito bem com isso.
Ela ficou em silêncio. Alguma coisa passou no rosto dela que eu não soube ler de primeira. Depois ela sorriu. Um sorriso que parecia soltar algo que estava guardado há muito tempo.
— Então tá — falou.
Ela voltou a se mover. E dessa vez, mais solta. Apoiou as mãos no meu peito e começou a subir e descer com mais vontade. Os seios balançando na minha frente. O cabelo caindo no rosto. A boca aberta.
— Ai… — gemeu, a voz mais baixa do que eu esperava. — Ai, meu Deus…
Eu deixei as mãos nas laterais do corpo dela, sem apertar. Só acompanhando. Ela estava conduzindo, e eu não ia atrapalhar.
— Eu quero que você me toque. Que fique a vontade. Pode me tocar. — falou, depois de um tempo.
— Onde?
— Onde você quiser.
Eu subi as mãos devagar. Passei pelos quadris dela, sentindo a curva, o calor. Subi pela cintura. Cheguei nos seios. A mão dela continuou em cima do meu peito, apoiada. Ela queria ser tocada de um jeito específico, e ela ia me mostrar.
— Assim — falou, quando encontrei a pressão certa. — Devagar.
Eu obedeci. As mãos nos seios dela, devagar, sentindo o peso. Ela fechou os olhos e jogou a cabeça pra trás. O corpo dela continuou se movendo por cima do meu, agora mais lento, mais profundo.
— Mais forte — falou, depois de um tempo.
Eu apertei um pouco mais.
— Assim.
Ela se movia com uma confiança que crescia a cada minuto. Em determinado momento, mudou a posição. Sentou no fundo, se inclinou pra frente, me beijou. Ficou ali um tempo, os lábios colados nos meus, o pau dentro dela, sem se mover. Depois começou a mover só a cintura — pra frente e pra trás, um movimento curto e preciso, o pau entrando e saindo devagar.
— Eu tô perto — falou, entre um beijo e outro.
— Goza.
— Ta gostoso.
Ela continuou no mesmo ritmo, sem pressa. A respiração dela foi ficando mais curta. Os gemidos mais frequentes. As unhas dela cravando no meu peito.
Ela gozou com um gemido longo, rouco, abafado contra a minha boca. O corpo dela se contraiu em volta do meu pau. As pernas tremeram. Ela ficou parada por um instante, sentindo.
Depois se levantou. Saiu de cima de mim devagar. Ficou de quatro na cama ao meu lado, apoiada nos cotovelos, e olhou por cima do ombro.
— Agora desse jeito — falou.
Eu me ajoelhei atrás dela. A mão dela desceu e se abriu, mostrando a entrada. Molhada, vermelha, quente.
— Devagar — falou. — Ainda tô me acostumando.
Entrei devagar. Ela soltou o ar num gemido longo. Ficou parada, deixando o corpo se ajustar.
— Agora — falou.
Comecei a me mover no ritmo que ela tinha escolhido. A mão dela continuava ali, entre as pernas, se tocando enquanto eu metia. Os gemidos dela eram baixos, contidos, mais honestos que os gritos dos outros encontros. Ela estava se descobrindo em silêncio.
— Mais forte — pediu.
Aumentei um pouco.
— Mais.
Aumentei mais.
— Assim — falou. — Assim. Meu Deus, assim!
Eu metia no ritmo que ela pedia. Ela empinava a bunda de encontro a cada estocada, os dedos trabalhando no clitóris. O corpo dela foi ficando tenso. A respiração curta. A pele suada brilhando na luz do estúdio.
— Tô perto — falou. — Não para.
Não parei. Meti firme, no ritmo que ela tinha escolhido, deixando ela chegar. Ela gozou com um gemido longo, abafado contra o próprio braço. O corpo inteiro tremeu. As pernas dela quase cederam. Segurei a cintura firme, continuei metendo devagar, prolongando, até ela amolecer.
Fiquei parado dentro dela por um instante. Ela ainda ofegante, o corpo mole sobre a cama.
— Você ainda não gozou — falou, a voz rouca.
— Não.
Ela saiu devagar. Se virou. Me empurrou de costas na cama, subiu em cima de mim de novo, de frente novamente. Sentou no meu pau devagar, me engolindo inteiro, os olhos fixos nos meus.
— Agora eu quero ver você gozar.
Ela começou a cavalgar. O corpo dela por cima do meu, os seios balançando, o cabelo solto caindo pelo rosto. Ela me olhava o tempo todo — sem vergonha, sem desviar. Era uma mulher que tinha acabado de se reencontrar e não ia mais se esconder.
Eu levantei a mão e toquei o rosto dela. Ela virou a cabeça e beijou a palma.
— Goza — falou. — Pode gozar.
Ela voltou a me olhar, repetiu a fala olhando nos meu olhos, mais agora sua sentada estava diferente, está com mais determinação e desejo. Eu não aguentei, gozei. O corpo tensionou, os jatos quentes, o gemido que saiu do fundo do peito. Ela continuou sentando devagar, prolongando, apertando a boceta em volta do meu pau até eu terminar. Depois desabou sobre o meu peito, ofegante.
Ficamos ali um tempo. O coração dela batendo rápido contra o meu. A respiração dos dois voltando ao normal aos poucos.
— Caralho… — murmurou ela, por fim, a voz baixa, quase sem ar.
— Foi bom?
Ela riu, um riso curto, de dentro.
— Foi diferente.
— Diferente como?
Ela levantou a cabeça, o cabelo bagunçado caindo no rosto. Me olhou.
— Faz tempo que eu não me sentia eu. Não lembro a última vez ou se houve uma única vez, que fiz isso porque eu quis de verdade.
Eu não respondi. Não precisava.
Ficamos ali um tempo. O coração dela batendo rápido contra o meu. A respiração dos dois voltando ao normal aos poucos. O cheiro no ar, o suor na pele, a luz do estúdio ainda acesa, como se nada tivesse mudado.
Depois de um tempo, ela se mexeu. Levantou a cabeça devagar, o cabelo bagunçado caindo no rosto, e me olhou. Havia algo diferente nos olhos dela. Não era mais a mulher que chegou hesitante, se desculpando por existir. Também não era uma mulher transformada, de nariz empinado. Era uma Mônica que tinha se reencontrado em algum lugar entre a primeira e a última vez que gozou.
— Preciso me levantar — falou.
— Claro.
Ela saiu de cima de mim devagar. Sentou na beirada da cama, de costas por um instante. Ficou olhando pra frente, sem pressa, como quem está se acostumando com o próprio corpo de novo.
— Quer água? — perguntei.
— Quero.
Eu me levantei, peguei um copo na mesinha lateral, servi. Levei até ela. Ela bebeu devagar, olhando pra mim por cima do copo. Depois me devolveu o copo e se levantou.
— Vou me vestir.
— Claro.
Ela foi até o biombo, pegou as roupas que tinha trazido e começou a se vestir. Eu fiz o mesmo, pegando a calça e a camisa do chão. Nos vestimos em silêncio.
Enquanto eu abotoava a camisa, ela saiu de trás do biombo. Já estava com a blusa de seda cor de creme e a calça bege. O cabelo ajeitado com as mãos, a maquiagem um pouco borrada, mas nada que um retoque rápido não resolvesse. Pegou a bolsa, olhou ao redor do estúdio, depois pra mim.
— O valor do ensaio — falou, abrindo a bolsa.
— Duzentos, como combinamos.
Ela contou as notas devagar. Colocou na mesinha lateral, ao lado do copo.
— As fotos, como eu posso paga-las?
— Mando por e-mail.
Ela assentiu. Ficou parada por um momento. Havia algo nos olhos dela que eu não conseguia decifrar. Não era vergonha. Não era culpa. Era uma mistura de surpresa consigo mesma e de uma decisão que ela estava prestes a tomar.
Ela deu um passo na minha direção. Parou. Ficando de frente comigo por um instante.
— Na verdade — falou, a voz um pouco mais baixa —, prefiro pegar as fotos em mãos.
Eu a encarei.
— Em mãos.
— É. — Ela sustentou o olhar. — Você edita, marca um dia, e eu passo aqui pra pegar. Se você não se importar.
Não era sobre as fotos. Nós dois sabíamos. Ela sabia que eu sabia. E eu sabia que ela sabia que eu sabia. Mas ninguém falou nada. Não precisava. Era entre-linha. Era a porta que ela estava deixando aberta do lado dela agora.
— Sem problema — respondi. — Eu te aviso quando estiver pronto.
— Tá bom.
Ela ajustou a bolsa no ombro. Dessa vez, o gesto era diferente. Não era o gesto da mulher que chegou aqui se desculpando. Era o gesto de uma mulher que sabia que ia voltar.
Foi até a porta. Parou com a mão na maçaneta. Olhou pra trás uma última vez.
— Lucas.
— Oi?
— Obrigada. Não pelas fotos. Pelo resto.
Eu assenti. Não falei nada. Não precisava.
Ela abriu a porta e saiu. O som dos passos dela ecoou no corredor até sumir.
Eu fiquei parado no meio do estúdio. O dinheiro na mesa. O cheiro no ar. A cama desarrumada. A playlist instrumental que continuava tocando baixinho, como se nada tivesse acontecido.
Fui até a janela e abri. O ar frio de São Paulo entrou. Olhei pra rua lá embaixo. Alguns carros, alguns pedestres. A vida seguindo normal.
Fechei a janela. Peguei o dinheiro na mesa, guardei na carteira. Arrastei o lençol pra lavar depois. Olhei o estúdio, agora vazio.
A Mônica que entrou aqui hoje não é a mesma que saiu. Ela não virou outra pessoa. Ela voltou a ser ela. E eu fiquei com uma coisa que não estava no combinado: o interesse dela. Não pelas fotos. Por mim.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS, MAS OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL PODEM NAO SER MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.