O portão de ferro dos fundos do Batalhão rangeu com um baque abafado quando empurramos a tranca. O ar da manhã estava pesado, carregando o cheiro úmido de grama cortada e óleo de motor. Ajeitei a gola da gandola camuflada, sentindo o tecido grosso roçar no pescoço. Ao meu lado, Gustavo caminhava com a cabeça erguida, mantendo a jaqueta de apoio civil alinhada e a pasta de documentos pressionada contra o peito.
Senti o peso do rádio comunicador que Rocha havia escondido no bolso interno da minha farda. O microfone estava aberto, transmitindo nossas vozes diretamente para a viatura do sargento e para os agentes da Corregedoria posicionados do lado de fora do perímetro.
A orientação de Rocha havia sido clara: deveríamos seguir até o alojamento, recolher meus pertences e aguardar sua chegada. Caso encontrássemos qualquer movimentação suspeita, precisaríamos avisá-lo imediatamente.
Avançamos pelo pavilhão secundário, evitando a praça d'armas central. Ao nos aproximarmos do bloco dos alojamentos de recrutas, o silêncio do corredor era perturbador. Não havia o burburinho habitual de coturnos batendo no piso de taco ou o som de fardas sendo arrumadas.
Ao dobrar a esquina do corredor de armários de aço, a porta do nosso alojamento estava encostada, deixando passar apenas um facho de luz amarelada.
Aproximei-me devagar, indicando para Gustavo recuar um passo.
Espiei pela fresta.
No centro da sala, o Sargento Mello estava em pé, com a farda entreaberta e suada, a pistola Glock 9mm na mão direita, apontada para o chão.
Sentados nos beliches inferiores, encolhidos e pálidos de pânico, estavam Morales e Emiliano.
Morales tinha um corte no lábio e os olhos vermelhos de choro. Emiliano mantinha as mãos sobre os joelhos, o peito subindo e descendo em uma respiração curta e descompensada.
— Ele vai voltar... — Mello sibilava, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado, os coturnos estalando contra o piso. — Aquele recruta viado vai voltar pra buscar as coisas dele. E quando ele pisar nessa porta, vocês dois vão calar a boca e deixar eu resolver essa porra. Se um de vocês der um pio, eu acabo com a vida da família de vocês antes de ser transferido.
Meu coração disparou.
Levei a mão discretamente ao bolso da gandola e pressionei o botão do rádio.
— Rocha... — sussurrei, quase sem mover os lábios. — O Mello tá no alojamento. Ele tá armado. O Morales e o Emiliano estão aqui.
Um chiado baixo respondeu.
— Michel, não entra. Repito: não entra. Estamos a caminho.
Olhei novamente pela fresta.
Mello agarrou Morales pela gola da camiseta e o puxou para cima.
— Eu tô falando com você, porra! Onde tá o Michel?!
— Eu não sei, senhor! — Morales respondeu, chorando. — Eu juro que não sei!
Mello ergueu a pistola.
Meu corpo se moveu antes que eu conseguisse pensar.
Troquei um olhar rápido com Gustavo, que tentou segurar meu braço.
— Michel, espera o Rocha — ele sussurrou.
— Ele vai matar o Morales.
Empurrei a porta de madeira com força, fazendo-a bater contra o batente de ferro.
— Chega de ameaçar quem não tem nada a ver com a sua sujeira, Mello! — gritei, dando três passos para dentro do alojamento e me colocando no centro da sala.
Mello deu um salto para trás, girando o corpo num reflexo violento, erguendo o cano da pistola diretamente para o meu peito. Os olhos dele estavam injetados, completamente fora do eixo.
— Michel! — Emiliano gritou em pânico, mas Mello gesticulou com a arma para que ele ficasse quieto.
— Você veio... seu desgraçado! — Mello rosnou, o dedo tremendo sobre o guarda-mato da arma. Ele deu dois passos na minha direção, a respiração ruidosa. — Onde tá o Valente?! O que você conversou com o Rocha no serviço externo, seu merdinha?!
— O jogo acabou, Sargento — falei, tentando manter a voz firme. — O inventário do Depósito B já tá na mão da Corregedoria de Brasília. O senhor e o Tenente Brito rasgaram as planilhas, desviaram mais de trezentas caixas de munição! Agora você quer ameaçar recrutas?
— Cala a boca! — Mello gritou, a voz ecoando pelas paredes de concreto do alojamento.
Ele deu mais um passo, colando o cano frio da pistola contra a minha testa.
Senti o metal pressionar minha pele.
Minhas pernas começaram a tremer.
— Eu cumpria ordens do Brito! Eu fiz a logística porque o comando mandou! Se eu for preso, eu levo todo mundo comigo, mas você não sai vivo daqui pra ver isso!
Atrás de mim, Gustavo deu um passo para dentro da sala, mantendo a voz pausada e serena:
— Se o senhor puxar esse gatilho, Sargento, a sua pena triplica. A minha declaração como testemunha civil já tá assinada e arquivada fora deste Batalhão.
— Gustavo, sai daqui! — gritei, sem desviar os olhos de Mello.
— Eu não vou te deixar sozinho!
Mello olhou de relance para Gustavo, a paranoia queimando o resto de lucidez que lhe sobrava.
— Outro civil no meu alojamento... Vocês acham que armaram um circo pra mim?!
O dedo dele começou a pressionar o gatilho.
Fechei os olhos por um instante.
No mesmo segundo, um chiado estourou no rádio.
— POLÍCIA DO EXÉRCITO! LARGA A ARMA!
A voz do Sargento Rocha ecoou pelo corredor.
A porta lateral do alojamento foi aberta violentamente. Rocha e três agentes da Polícia do Exército, vestindo coletes táticos e portando armamento, entraram na sala.
— Mello! Solta essa arma agora! — Rocha ordenou.
O sargento virou a cabeça na direção da porta.
Por uma fração de segundo, o cano da pistola se afastou da minha testa.
Rocha avançou.
Ele agarrou o pulso armado de Mello, desviando a pistola enquanto os dois se chocavam contra um dos armários de aço.
Um disparo ensurdecedor atingiu o teto, espalhando poeira e pequenos fragmentos de reboco pelo alojamento.
Gustavo me puxou pelo braço.
Caímos atrás de um dos beliches.
Rocha projetou o peso do corpo contra Mello, derrubando-o no piso de concreto. Um dos agentes se aproximou e conseguiu retirar a pistola da mão do sargento, enquanto os outros dois mantinham a sala sob controle.
— Acabou a palhaçada, Mello! — Rocha sibilou no ouvido dele, puxando seus braços para trás e travando as algemas de aço nos pulsos do sargento. — Você tá preso em flagrante! Ameaça, coação, desvio de patrimônio militar... Você vai responder por tudo que fez!
Mello se debatia no chão, cuspindo poeira, pálido e completamente derrotado enquanto era levantado pelos agentes da PE.
Morales e Emiliano choravam abraçados no beliche.
Eu permaneci sentado no chão por alguns segundos, tentando compreender que ainda estava vivo.
Gustavo segurou meu rosto com as duas mãos.
— Michel! Olha pra mim!
— Eu tô bem...
— Você tá tremendo inteiro!
— Eu tô bem, Gustavo...
Mas não estava.
Se Rocha tivesse chegado alguns segundos depois, talvez eu não estivesse mais ali.
O silêncio voltou ao alojamento, quebrado apenas pelo chiar dos rádios comunicadores no corredor.
Rocha se ergueu, ajustando a jaqueta de paisana, a respiração acelerada pela ação. Ele caminhou até mim, deu dois tapas firmes no meu ombro e olhou para Gustavo.
— Vocês seguraram a onda direitinho — Rocha disse, o olhar demonstrando um respeito rústico e genuíno. — O rádio pegou a confissão do Mello inteira. O desvio, a cumplicidade com o Brito, a coação aos recrutas... Tá tudo gravado.
Ele fez uma pausa.
— Mas você desobedeceu uma ordem direta, Michel. Eu mandei esperar.
Baixei os olhos.
— Ele tava apontando a arma pro Morales, senhor.
Rocha olhou para o recruta, que ainda chorava no beliche.
— Eu sei. Mas você quase morreu por causa disso.
Não respondi.
— E o Brito, Sargento Rocha? — perguntei, limpando a poeira da testa.
— O Brito rodou junto — Rocha respondeu, cruzando os braços. — Duas equipes da Corregedoria bateram no Hospital Militar ao mesmo tempo em que a gente entrava aqui. Apresentaram o mandado de prisão preventiva. Ele tentou dar carteirada, mas tava acuado. Como ainda tá sob cuidados médicos por causa do ferimento na cabeça, ficou custodiado no quarto com dois homens da PE na porta. Assim que os médicos derem alta, ele vai ser transferido para uma unidade prisional militar.
— Então acabou? — Gustavo perguntou.
Rocha respirou fundo.
— O esquema do Depósito B, pelo menos, acabou. Agora a investigação vai atrás de quem mais tava envolvido.
Gustavo soltou o ar que prendia no peito, segurando minha mão e apertando com força.
Olhei para Emiliano e Morales.
Pela primeira vez em semanas, tive a sensação de que poderíamos sair daquele batalhão sem precisar olhar por cima dos ombros.
Instantes depois, o som de coturnos cadenciados ecoou pelo corredor do alojamento.
Dois oficiais superiores da Polícia do Exército abriram passagem na porta, prestando continência.
Entre eles, caminhava um homem de postura ereta, uniforme operacional impecável, cabelos grisalhos cortados rente e as insígnias de Coronel nos ombros.
Era o Coronel Fontes, Chefe do Estado-Maior da Região Militar.
A presença dele fez os militares presentes assumirem a posição de sentido. Rocha prestou continência imediatamente.
O Coronel Fontes deu dois passos para dentro do alojamento, observando o teto perfurado pelo tiro, os recrutas assustados e, por fim, cravando os olhos cinzentos sobre mim e Gustavo.
— Descansem — o Coronel disse, com a voz grave e solene.
Ele caminhou devagar pelo espaço, olhando para Morales e Emiliano, e depois parou diretamente na minha frente.
— Recruta Michel.
— Pronto, Senhor Coronel! — respondi, assumindo a posição de sentido.
— A operação de hoje estancou uma sangria que envergonhava esta unidade há anos — o Coronel disse, em tom sério. — O esquema do Tenente Brito e do Sargento Mello com o Depósito B foi interrompido. No entanto, pela gravidade das acusações e pela cadeia de acontecimentos, a Corregedoria assumiu a condução das apurações.
Ele virou o rosto para Gustavo.
— O depoimento formal deste civil e as provas físicas que vocês coletaram precisam ser incorporados ao inquérito. Recruta Michel, você e o senhor Gustavo deverão comparecer ao gabinete responsável pelo Inquérito Policial Militar, às quatorze horas.
— Sim, Senhor Coronel!
— Vocês vão narrar cada detalhe, cada linha e cada nome desde o início da Pasta A-10 até este momento. Sem omissões.
O Coronel voltou a olhar para mim.
— Sua colaboração foi importante, recruta. Mas existem procedimentos que precisam ser esclarecidos. Espero que compreenda a seriedade do que estou dizendo.
— Sim, Senhor Coronel!
O Coronel Fontes fez um breve aceno de cabeça para Rocha e deu meia-volta, saindo do alojamento acompanhado pela sua escolta.
Quando os passos dos oficiais desapareceram pelo corredor, olhei para Gustavo, Emiliano e Morales... A tempestade finalmente tinha passado.
O alojamento foi esvaziando aos poucos.
Mello já havia sido levado pelos agentes da Polícia do Exército. Morales e Emiliano foram encaminhados para prestar os primeiros esclarecimentos, enquanto Rocha acompanhava o Coronel Fontes pelo corredor, discutindo alguma coisa sobre documentos, depoimentos e horários.
Eu e Gustavo ficamos para trás.
Às quatorze horas teríamos que comparecer ao gabinete responsável pelo inquérito. Até lá, Rocha havia pedido que não saíssemos do Batalhão.
Gustavo me levou até uma pequena sala de apoio ao lado da enfermaria. O lugar estava vazio, com apenas duas cadeiras de plástico, uma mesa de metal encostada na parede e uma janela basculante aberta para o pátio dos fundos.
Assim que a porta fechou, sentei.
Minhas pernas ainda tremiam.
Olhei para minhas mãos e percebi que também não conseguia mantê-las paradas.
Gustavo permaneceu de pé por alguns segundos, me observando.
— Você tá bem?
— Sim...
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Você acabou de ficar com uma Glock encostada na testa, Michel. Para de responder que tá bem.
Passei as duas mãos pelo rosto.
— Eu não sei como eu tô.
Gustavo se aproximou.
— Então não precisa saber agora.
Ele se abaixou na minha frente e segurou minhas mãos.
Aquele toque me desmontou mais do que a arma de Mello.
Olhei para Gustavo.
Durante semanas, tudo o que eu queria era aquilo. Poder ficar perto dele sem olhar para os lados, sem Brito, sem Mello, sem Rocha, sem ninguém tentando nos separar.
Agora ele estava ali.
E eu só conseguia pensar em Morales.
Gustavo se levantou e me puxou delicadamente para perto.
— Vem cá.
Ele abriu os braços, por instinto, avancei.
Encostei o rosto no ombro dele e senti seus braços fecharem ao redor das minhas costas, fechei os olhos e por alguns segundos, deixei....Então a lembrança veio inteira. O vestiário, o acordo, aquela noite, as mãos de Morales, o beijo, e eu correspondendo....Afastei Gustavo
Ele fez uma cara de assustado.
— Que foi?...— Disse Gustavo, cruzando os braços.
— Não.
— Não o quê?
Levantei da cadeira e caminhei até a janela.
— Não faz isso comigo agora.
— Fazer o quê, Michel?
— Me abraçar.
O silêncio atrás de mim durou alguns segundos.
— Você quase tomou um tiro na cabeça e tá me pedindo pra não te abraçar?
— Não é isso.
— Então é o quê?
Apoiei as duas mãos na mesa e eu não conseguia olhar para ele.
— Tem uma coisa que eu não te contei.
Gustavo ficou quieto.
— Sobre o quê?
Engoli em seco.
— Sobre o Morales.