Ouvir a voz da Sofy novamente me trouxe uma alegria tão grande que meu coração disparou. Eu não sabia explicar de onde vinha aquela sensação de pura felicidade; apenas sentia.
Ela disse que estava no RJ novamente e queria me ver, se fosse possível. Eu confirmei que era possível e perguntei se ela estava no mesmo hotel. Ela respondeu que sim, no mesmo quarto, que iria me esperar, e já tenha autorizado minha entrada. Não esperava que o convite fosse para aquele momento e disse a ela que precisava de tempo para me organizar antes de ir. Ela disse que eu poderia organizar tudo com calma, pois iria ficar me esperando o tempo que fosse preciso. Perguntei se ela não iria trabalhar, e ela respondeu que não, que não veio a trabalho, veio porque queria me ver de novo.
Ouvir isso fez meu coração quase sair pela boca. Sinceramente, eu não estava me reconhecendo; nunca tinha sentido nada assim. Será que Tamires tinha mesmo razão? Não, eu apenas fui pega de surpresa e também estava com saudades dela. Não havia como eu estar apaixonada, não era possível.
Disse a ela a verdade: que estava feliz por ela ter vindo me ver e que iria encontrá-la o mais rápido possível. Nos despedimos e, logo que a ligação se encerrou, liguei para Tamires e contei o que tinha acontecido. Ela perguntou se eu realmente iria vê-la; confirmei que sim e pedi a ajuda dela. Tamires perguntou se era para ela ficar com Manu, eu confirmei e. Ela disse que não seria um problema. Disse a ela que a levaria para sua casa o mais rápido possível.
Chamei Manu, que estava distraída brincando com suas bonecas, e perguntei se ela queria ir para a casa da Tia Helena. Ela se levantou rapidamente, dizendo que sim. Eu já esperava por isso; ela adorava ficar com Helena e Tamires. Peguei-a pela mão e saímos do apartamento, sem precisar pegar nada; Manu tinha tudo que precisava na casa da Helena, que, na verdade, era como sua segunda casa.
Deixei Manu com Tamires e voltei ao meu apartamento, tomei um banho demorado e me arrumei para ver Sofy.
Cheguei ao hotel no início da tarde, deixei meu carro com o manobrista e fui para o saguão. Fui até a recepcionista e expliquei o que estava fazendo ali. Ela disse que a srtª Sofy já estava me esperando. Segui para o elevador e logo cheguei à porta do quarto. Quando levantei a mão para bater na porta, percebi que ela estava tremendo. Eu estava muito ansiosa para vê-la. Respirei fundo, tentando me acalmar, e ri de mim mesma por estar daquela forma. Eu já começava à acreditar que Tamires tinha razão. Estava mesmo sentindo algo diferente por Sofy, era um sentimento novo que eu nunca tinha experimentado antes. Talvez fosse uma paixão, mas eu não tinha certeza. Finalmente, bati na porta e fiquei esperando ela abrir.
Infelizmente, a porta não se abriu e isso me deixou ainda mais ansiosa. Bati novamente, desta vez com mais força, e esperei, mas nada. Decidi ligar; talvez ela estivesse no banho ou até mesmo dormindo, já que provavelmente tinha chegado naquele dia.
Quando peguei o celular para ligar, ouvi o barulho do trinco da porta. Quando olhei, a porta estava se abrindo e a imagem de Sofy surgiu na minha frente. Ela vestia um roupão, provavelmente do hotel, e seus cabelos estavam molhados, grudados na pele. Ela provavelmente tinha acabado de sair do banho. Seu rosto estava corado, mas vi um pequeno sorriso se formando em seus lábios. Ela disse "oi" e pediu para eu entrar. Ao passar por ela, senti o cheiro do sabonete que vinha do seu corpo. Ela disse que estava no banho, pediu para eu me sentar na poltrona que indicou com o dedo e me disse para ficar à vontade, pois já voltava.
Minha vontade era dar um abraço nela, mas não tive coragem. Ela começou a sair, mas parou no meio do caminho, virou-se e veio em minha direção. Aproximou-se de mim e, sem olhar nos meus olhos, perguntou se podia me dar um abraço. Parecia que ela tinha lido meus pensamentos. Eu nem respondi, apenas me aproximei um pouco mais e a abracei. Ela envolveu seus braços ao meu redor com certa timidez. Não sei o motivo, mas apertei o abraço e sussurrei perto do seu ouvido que senti muito a falta dela. Nessa hora, senti-a apertar seus braços com mais força e um leve suspiro saiu de sua boca. Logo ouvi ela dizer que também sentiu minha falta e por isso veio me ver.
Ficamos um bom tempo abraçadas. Eu podia sentir o coração dela batendo rápido contra meu peito, assim como o meu também pulsava acelerado.
Sofy afrouxou os braços e eu fiz o mesmo. Nos afastamos, e quando a olhei, vi que ela estava olhando para o chão. Perguntei por que ela não me olhava nos olhos, se estava com vergonha. Ela disse que não era vergonha, embora estivesse com um pouco, mas tinha medo de me olhar nos olhos e tentar me beijar novamente. Naquele instante, percebi que ela lembrava do que tinha feito e que o desmaio provavelmente foi um ato desesperado.
Camila— Você se lembra?
Sofy— Lembro, na verdade, isso não saiu da minha mente desde aquela noite.
Camila— Por que desistiu de me beijar e fingiu desmaiar de sono?
Sofy— Me faltou coragem e eu travei. Mesmo com o álcool, não fui corajosa o suficiente.
Camila— Tudo bem, não se preocupe com isso. De qualquer forma, o beijo não iria acontecer.
Sofy— Eu imaginei, foi por isso que travei. Uma mulher como você não iria beijar uma mulher como eu, ainda mais no estado em que eu estava.
Camila— Eu e você não somos diferentes, não o suficiente para eu não querer te beijar. Na verdade, eu também queria, mas o problema foi realmente seu estado. Você estava bêbada e vulnerável; eu não iria me aproveitar disso.
Sofy— Você também queria?
Camila— Para ser sincera, queria sim, mas até aquele momento eu não sabia disso. Depois que você se foi e comecei a lembrar de tudo que aconteceu, tive certeza de que queria ter te beijado.
Nesse instante, Sofy levantou o rosto e olhou nos meus olhos. Segurou minhas mãos e seu rosto foi se aproximando do meu. Eu sentia suas mãos tremendo e sua respiração ficando mais pesada. Quando estava quase encostando os lábios nos meus, percebi que ela travou. Segurei suas mãos com mais força, aproximei meus lábios e a beijei. Foi um beijo suave, carinhoso, que durou o tempo suficiente para derrubar aquela primeira barreira entre nós. Quando nos separamos, meu coração quase saiu pela boca e pude ver que ela ainda permanecia de olhos fechados, como se estivesse saboreando aquele momento.
Acho que se eu tivesse beijado qualquer uma das outras mulheres que já beijei, aquele beijo teria terminado na cama e aquele roupão já estaria no chão, mas para mim Sofy era diferente. Ela era sensível, tímida e, pelo jeito, tinha dificuldades em lidar com as pessoas. Provavelmente já tinha passado por muitas coisas ruins na vida; pelo menos, eu imaginava isso depois do que ouvi dela na primeira vez que nos encontramos. Eu queria muito tê-la por completo, mas tive a sensibilidade de ir devagar, de deixá-la se soltar aos poucos. Aquele beijo provavelmente já superou seus limites. Eu com certeza era a mais nova ali, mas precisava agir como a experiente, se não quisesse estragar as coisas.
Soltei uma de suas mãos e toquei seu rosto com a palma da mão. Quando ela sentiu meu toque, abriu os olhos e inclinou o rosto em busca do contato com minha mão. Disse para ela ir terminar seu banho, que eu a esperaria. Ela sorriu e disse que só iria secar o cabelo e vestir algo mais apresentável. Falei que a esperaria para conversarmos. Ela sorriu, me deu um selinho, algo que me surpreendeu e saiu em direção ao quarto.
Sentei na poltrona e tentei organizar meus sentimentos, mas só conseguia lembrar dos lábios de Sofy nos meus. Aquilo me arrancava pequenos sorrisos bobos. Eu parecia uma adolescente apaixonada depois do primeiro beijo.
Sofy demorou um pouco no quarto, mas logo que o som do secador cessou, ouvi-a chamar meu nome. Fui em direção ao quarto e, quando entrei, ela estava sentada na cama, com as costas encostadas na cabeceira. Caminhei até ela, que pediu para eu sentar ou me deitar para conversarmos um pouco. Tirei meu sapato e subi na cama. Pedi para ela abrir as pernas, e ela me olhou meio assustada, mas acabou fazendo o que pedi. Eu me deitei entre suas pernas e apoiei a cabeça em uma de suas coxas. Ela parecia não saber o que fazer naquela situação, mas logo colocou uma mão sobre meu ombro e sorriu.
Sofy— Você deve ter um monte de perguntas para me fazer, não é?
Camila— Tenho algumas, mas a mais importante— como você descobriu meu número?
Sofy— Naquele dia, antes de sair, eu abri sua bolsa, peguei seu celular, liguei para o meu, depois apaguei o registro da chamada e o guardei novamente. Te juro que não mexi em nada, nem olhei. Fiz isso porque foi uma medida desesperada para ter como te achar se precisasse.
Camila— Tudo bem, foi até bom você me contar isso. Preciso colocar uma senha no meu celular.
Sofy— Desculpe, eu não olhei nada, juro.
Camila— Não estou brava, na verdade, estou agradecida por você ter feito isso e me procurado.
Sofy— Ainda bem, estava morrendo de medo de você brigar comigo.
Camila— Eu não vou brigar, pode ficar tranquila. Agora me explica: por que você me ligou de um número com o DDD do Rio, sendo que você disse que mora em São Paulo?
Sofy— Eu não uso redes sociais, nunca gostei. Uso meu número pessoal no trabalho, e meu celular geralmente toca muito por causa disso. Quando decidi vir te ver, não queria ter que ficar atendendo ligações nem resolvendo problemas de trabalho, então comprei um chip novo para me comunicar com você. Estou usando os dois, mas desativei o outro chip. Também queria criar um WhatsApp para a gente poder fazer chamadas de vídeo ou trocar fotos. Se eu usasse meu número, não teria paz.
Camila— Entendi, te compreendo perfeitamente. Por que você saiu sem se despedir naquele dia?
Sofy— Eu estava assustada com o que sentia e com vergonha de você. Me desculpe.
Camila— O que você estava sentindo?
Sofy— Não sei explicar. Na verdade, ainda não tenho certeza. Até aquela noite, eu jurava amar outra pessoa, mas depois de conhecer você, já não tinha certeza de mais nada. Resolvi vir te ver por causa disso. Você não saiu dos meus pensamentos todos esses dias; meu coração não doía mais por causa das traições, e sim de saudades de você.
Camila— Eu também não parei de pensar em você. Até tentei, mas não consegui te encontrar em lugar algum.
Sofy— Você jura que tentou me encontrar?
Camila— Juro, mas só sabia seu nome, que morava em São Paulo e que era executiva de uma empresa. Eram poucas informações e, com o que você me confirmou agora, que não usa redes sociais, era praticamente impossível te encontrar.
Sofy— Acho que seria difícil me achar mesmo. Mas eu te encontrei e não vou deixar você sem ter como me contatar dessa vez.
Camila— Que bom, já basta você morar em outra cidade; não ter como falar com você seria horrível. Mas porque veio me ver, aconteceu algo a não ser ter ficado com saudades?
Sofy— Sim, aconteceu. Acho que estou apaixonada por você. Acho não, eu estou apaixonada por você, Camila, e estou morrendo de medo disso.
Camila— Não fique, não vou te magoar, prometo.
Sofy— Meu medo não é esse; meu medo é de eu te magoar.
Camila— Por quê?
Sofy— Minha vida está uma bagunça, aconteceu muita coisa ruim. Tenho medo de não conseguir te dar o que você espera de mim.
Camila— Não espero nada de você, apenas a chance de te conhecer melhor e passar mais momentos assim com você. Sei que as coisas estão complicadas no momento; para mim também estão. Mas não precisamos transformar isso em mais um problema, e sim em algo que nos dê força para enfrentar nossos desafios.
Sofy— Tudo bem, vamos tentar fazer isso.
Camila— Sofy, eu fiquei curiosa com algo que você escreveu no seu bilhete. Sobre a história ter sempre dois lados, o que você quis dizer com aquilo?
Sofy— Não é nada de importante, Camila. Aquilo é mais sobre mim, sobre minha história. Antes de te conhecer eu estava afundada em tristeza, só via o lado triste da minha história, mas você me mostrou um novo lado, me deu esperança que eu posso lutar para minha vida tenha um lado feliz. É sobre isso.
Camila— Acho que entendi.
Sofy, você quer falar sobre o que houve com você? Acho que mais ou menos sei o que foi, mas prefiro não tirar conclusões antes de ouvir da sua boca.
Sofy— Sei que talvez esteja pedindo demais, mas não queria falar sobre isso. Não hoje, não agora. Sei que você deve estar curiosa, mas isso ainda me deixa muito triste. Não queria ficar assim, queria poder apenas estar aqui com você e curtir bons momentos.
Camila— Tudo bem, não precisa falar nada. Mas quero que saiba que, se precisar desabafar, estou aqui.
Sofy— Obrigada, fico muito agradecida. Só para não deixar você curiosa: eu estava com alguém há mais de dez anos e descobri que essa pessoa me traía durante todo esse tempo, inclusive com meu melhor amigo. Basicamente, é isso, mas ainda vou te contar a história completa, eu prometo. Só não queria fazer isso hoje.
Camila— Sinto muito por você ter passado por isso. Sei exatamente como dói uma traição. Mas vamos mudar de assunto. O que você quer fazer? Quer ir a um restaurante ou, quem sabe, a outro lugar?
Sofy— Eu queria outra coisa, mas ainda estou criando coragem para te dizer.
Camila— Sofy, não precisa ter vergonha de mim. Pode falar o que quiser, sem achar que vou te julgar. Mas só fale o que você se sente confortável para dizer; não se force, vá no seu tempo.
Sofy— Eu quero... Eu quero ficar aqui com você.
Camila— Tudo bem, podemos ficar aqui, sem problemas.
Sofy— Camila, eu... Eu quero ficar com você aqui, sabe? Ficar!
Camila— Você quer que a gente fique de uma forma íntima, é isso?
Sofy— Quero, eu quero ser sua de verdade.
Sinceramente, eu não estava esperando ouvir aquilo, não tão rápido. Até imaginei que poderia acontecer, mas talvez depois de algumas conversas e algumas bebidas. Mas ela foi bem mais direta do que eu pensei que seria. Talvez eu estivesse exagerando na cautela que estava tendo com ela, mas no fim, amei que ela teve essa atitude.
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
