Oi, gente. Vanessa aqui. Essa é a penúltima parte. Eu prometo.
Toda história como a nossa tem um fim. A gente sabe disso desde o começo, mesmo fingindo que não. Só não sabe como ele vai chegar. O nosso chegou numa quinta-feira, pelo elevador de um hotel no Ipiranga, e tinha nome: Guilherme.
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Depois da noite da Bia, as coisas mudaram. Não do jeito que eu esperava.
As terças continuavam. O flat, a janela, a luz da Velour piscando do outro lado da rua, o cigarro da Nat depois de gozar. E, em algumas terças, nem o flat. O Pedro pegava a Nat na porta, ela de moletom, com a bolsa no ombro e o cabelo preso, descia a Ricardo Jafet, e eu encontrava os dois no Orquídea, um motel a cinco minutos dali. Sempre o mesmo quarto, o único que tinha coisa pra prender. A Nat adorava prender. Prendia eu na cama, de braço aberto, e os dois faziam o que queriam, e eu, que passei a vida dizendo não, descobri que gostava de não poder dizer nada. Às vezes era ela que pedia pra ser presa, e o Pedro fechava cada fivela devagar, conferindo duas vezes, e ela ria da cara dele.
Mas o Pedro estava diferente. Dormia mal. Olhava o celular no meio do jantar e sorria sozinho. Falava da Nat quando ela não estava. "A Nat disse que…", "a Nat acha que…", "a Nat ia gostar disso". Chegava das terças mais calado. Ficava na varanda do nosso apartamento no Itaim olhando a cidade, como quem procura um endereço.
Numa segunda, usando o notebook dele pra imprimir um exame, eu vi as abas abertas. Apartamentos pra alugar. Um quarto, mobiliado. Vila Mariana. Saúde. Ipiranga. Todos a quinze minutos da Velour. E, atrás das abas, uma planilha. "Centro de estética – investimento". Eu abri. Eram os números da Nat. Os mesmos que eu tinha corrigido no chão do flat, com ela rindo de mim. Só que agora estavam certos, organizados, com uma coluna nova chamada "aporte" e o nome do Pedro na célula de cima.
Eu fechei o notebook. Não falei nada. Fiquei três dias sem conseguir comer direito.
Eu li aquilo do único jeito que eu sabia ler: ele ia embora. Ia alugar um apartamento perto dela, ia montar a vida dela, ia sair da nossa e entrar na dela. Eu também estava apaixonada por ela. Eu também pensava nela no consultório. Eu também sonhava com o flat. Mas eu nunca, nem por um segundo, tinha pensado em sair de casa. E ele estava com a planilha pronta.
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A raiva chegou no quarto dia. E a raiva, em mim, eu descobri, não grita. Treina.
Se ele ia me largar por uma puta, eu ia ser puta antes. De verdade. Com dinheiro no caixa. O garoto do cartão preto tinha dito, gritando do sofá, que voltava na semana seguinte e que ia me ter. Eu decidi que ele ia. Sozinha. Sem contar pro Pedro. Sem contar pra Nat.
E, na semana seguinte, eu usei o meu marido pra ensaiar.
Ele chegou na quarta, com as crianças já dormindo, e eu estava esperando na cozinha, de jaleco e nada por baixo. Ajoelhei no piso frio antes de ele tirar o paletó. Chupei olhando pra cima, com a boca aberta, babando, do jeito que a Nat me ensinou no hotel, e quando senti ele endurecer mais, tirei a boca e falei, olhando nos olhos verdes dele:
— Me dá leitinho, dá.
Ele gemeu como se tivesse levado um soco. Encheu minha boca. Eu mostrei pra ele, na língua, e engoli devagar. Por dentro eu pensava: é assim que eu vou fazer com o outro. Ele achou que era amor. Era. E era raiva. Eu ainda não sabia separar as duas.
Na sexta, eu virei ele de bruços na nossa cama. Ele riu, sem entender. Eu abri a bunda do meu marido com as duas mãos e lambi o cu dele. Pela primeira vez. Devagar, rodando, depois entrando, do jeito que eu tinha aprendido na Nat. Ele travou. Depois soltou. Depois deu aquele gemido grave, de olho fechado, empurrando pra trás, o gemido que eu só tinha ouvido ele dar com ela. Eu lambi até ele implorar, com a mão no meu cabelo, e depois montei nele e fiz ele gozar dentro de mim olhando pra mim. Agora dá comigo, eu pensei. Agora você vai lembrar disso quando estiver lá.
Na terça, eu pedi o Orquídea.
Eu nunca tinha pedido nada. Era sempre a Nat que escolhia, o Pedro que pagava, eu que ia. Naquela terça eu cheguei antes dos dois, pedi o quarto de sempre na portaria e esperei sentada na cama, olhando pro canto.
No canto tinha um tronco. De madeira escura, desses de filme de época, preso no chão: uma tábua grossa na altura da cintura, com três buracos, um maior no meio e dois menores dos lados, e uma trava de ferro em cima. Pescoço e pulsos. Na frente dele, um banco alto de couro, pra quem quisesse sentar na altura da cara de quem estivesse preso. A gente nunca tinha usado. A Nat dizia que era coisa de turista.
Quando eles entraram, eu apontei.
— Ele. Ali.
O Pedro riu. A Nat olhou pra mim, depois pra ele, e sorriu devagar, o sorriso de quando o cliente pede uma coisa que ela gosta.
— Ouviu a doutora.
Ele tirou a roupa sem discutir. Curvou o corpo, encaixou o pescoço no buraco do meio e os pulsos nos dos lados, e a Nat baixou a tábua de cima e fechou a trava. Clique. Ele ficou ali, dobrado, de pé, pelado, com a bunda pra trás e a cara pra frente, sem poder se mexer nem olhar pra gente. Eu dei uma volta nele. Devagar. Pela primeira vez em semanas eu sabia exatamente onde o meu marido estava.
A Nat agachou na frente dele, com a cara na altura da dele.
— Se quiser sair, fala "vermelho".
Ele não falou nada.
— Me ensina — eu disse.
— Ensina o quê? — ela riu.
— Tudo. Tudo o que você faz. Como você faz.
Ela achou que era brincadeira da Bia. Ajoelhou atrás dele e me puxou pro lado dela, e a gente lambeu o cu dele juntas, uma língua de cada lado, se encontrando no meio. Ele não tinha pra onde fugir e não tentou. Empurrava pra trás o pouco que a madeira deixava e falava coisas sem sentido pra parede. A Nat me ensinou a segurar a cintura, a usar o dedo junto, a sentir na língua quando ele ia gozar. E quando ela sentiu, parou. Me fez parar. Ele gemeu de raiva.
— Ainda não — ela disse. — Hoje você é nosso.
Ela subiu no banco de couro, sentou na beirada de pernas abertas e chegou pra frente até a buceta encostar na boca dele. Ele lambeu como quem estava com sede. E eu fui pra trás, com a cinta dela, a preta, passei o lubrificante devagar, olhando a Nat por cima das costas dele, e entrei. Ele gemeu dentro dela. Aquele gemido grave, que eu só tinha ouvido ele dar com ela. Só que agora era eu. Eu segurei a cintura dele do jeito que ela tinha acabado de me ensinar e meti, e cada vez que eu metia a cara dele afundava mais nela, e ela ria e dizia "isso, doutora, empurra ele pra mim".
A gente usou ele assim. Como quis. Ninguém perguntou nada pra ele. Quando deu vontade, a gente trocou: ela atrás, de cinta, eu no banco, segurando a cabeça dele pelo cabelo contra mim, gozando na boca do meu marido enquanto a amante dele comia ele. Depois as duas no banco, uma do lado da outra, se beijando, e ele lambendo o que alcançava, uma e outra, sem escolher. Ele não pediu nada. Só gemia, e empinava, e cada vez que a gente parava ele fazia um barulho de quem implora.
Uma hora a Nat desceu do banco e agachou de novo na frente dele.
— Vermelho?
— Não para — ele disse. — Pelo amor de Deus, não para.
Ela me olhou por cima do tronco. Eu nunca tinha visto o Pedro pedir nada daquele jeito. Nem pra mim. Nem pra ela.
No fim, eu voltei pra trás dele, sem a cinta, só com a língua, e a Nat com o dedo junto, do jeito que ela tinha ensinado. Ele gozou no chão do quarto, preso, sem ninguém encostar no pau dele, e a Nat riu e disse "viu?", e eu vi.
A gente soltou ele. Ele deitou no chão mesmo, rindo, com a marca da madeira no pescoço, e ficou ali olhando o teto espelhado como quem acabou de voltar de viagem.
Depois, deitada no meu peito, fumando, ela me respondeu tudo o que eu perguntei. Quanto tempo dura uma subida. Como se pede o dinheiro. O que se fala no elevador. O que se faz quando o cliente é nojento. Ela respondia rindo, como quem conta piada de trabalho. Em algum momento parou de rir e me olhou.
— Por que você quer saber isso?
— Curiosidade.
Ela tragou fundo e não perguntou mais. Até hoje eu não sei se ela não percebeu. Ou se percebeu, e deixou.
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O Guilherme é o melhor amigo do Pedro desde a faculdade. Engenheiro, bonito do jeito largado, casado há dez anos com a Carina, dois filhos. Frequenta a Velour desde sempre, sem culpa nenhuma, e a Carina finge que não sabe. Foi ele quem levou o Pedro lá pela primeira vez. E o que eu sei dele, eu sei pelo Pedro: cinco anos atrás, ele se apaixonou por uma menina da casa e ia largar a Carina. O Pedro sentou com ele num bar da Vila Olímpia e falou, na cara dele, que ele seria o homem mais burro de São Paulo se largasse a mãe dos filhos dele por uma biscate que ia sumir no mês seguinte. O Guilherme xingou, bebeu, chorou. E ouviu. A menina sumiu no mês seguinte. Ele nunca mais tocou no assunto. Mas nunca esqueceu.
Era o único, fora nós três, que sabia das terças. O Pedro tinha contado tudo pra ele, meses antes, bêbado, no churrasco de aniversário dele. Tudo. Menos a parte de mim. Essa, o Guilherme não sabia. E o Guilherme, ouvindo o amigo falar, reconheceu a história. Porque era a dele.
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Numa quinta à tarde, ele mandou mensagem pro Pedro: "passa na Velour hoje, lá pelas onze. Preciso te mostrar uma coisa."
O Pedro me mostrou a mensagem.
— O que você acha que é?
— Não sei. — Eu olhei o celular sem olhar pra ele. — Vai. Eu tenho plantão hoje.
Eu não tinha plantão.
Deixei as crianças com a babá às oito e fui pro hospital. O vestido vermelho e o salto estavam numa sacola no fundo do meu armário desde a noite da Bia, atrás dos jalecos. Eu me pintei sozinha, no espelho do vestiário dos médicos, com um batom vermelho comprado na farmácia do térreo. Não ficou igual. Ficou pior. Ficou mais puta.
Às dez e meia eu parei o carro numa rua de trás e andei até a porta. O segurança me olhou e disse "boa noite, Bia". Eu entrei.
Sentei no balcão. No mesmo banco. A Nat estava do outro lado do salão, no colo de alguém, e não me viu. Da outra vez ela tinha mandado eu beber sem álcool. Pedi uma vodca com Sprite, muita vodca, pouca Sprite, e o barman me olhou como quem já conhecia aquele pedido. Bebi metade num gole só. Desceu queimando e eu deixei queimar. E antes de qualquer um chegar, fui ao banheiro retocar o batom, porque ele tinha ficado torto e eu queria que ficasse certo. Queria que a Bia ficasse perfeita naquela noite.
No espelho do banheiro das meninas, com duas delas se pintando do meu lado sem me olhar, eu pensei: é a primeira vez que a Bia está sozinha. Sem a Nat na porta. Sem o Pedro a dois bancos. Ninguém pra dizer "para".
Na volta, eu peguei o caminho errado. Em vez de virar pro salão, segui reto pelo corredor dos fundos, o que passa pelo camarim e vira o túnel. Estreito, parede de espelho escuro, luz azul no chão. O mesmo corredor onde a Nat tinha me beijado um mês antes, rindo.
Um homem saiu do banheiro dos homens, no meio do corredor, e parou na minha frente.
Eu vou descrever, porque importa. Um metro e noventa e poucos. Pele de quem toma sol em outro lugar, sem uma mancha, sem uma ruga, e pele eu leio bem, é do ofício. Ombro que fechava o corredor. Camisa branca com a manga dobrada, braço de quem levanta peso. Cabelo escuro. E os olhos. Verdes. Os olhos do Pedro, no rosto do Pedro, só que dez anos mais novo, sem o cansaço, sem a empresa, sem a reunião de condomínio. O Pedro do primeiro dia, antes de eu dizer o primeiro não. O próprio Super-Homem, eu pensei, e ri por dentro de estar pensando uma bobagem daquelas encostada numa parede de boate.
Ele não disse nada. Não perguntou meu nome, não perguntou preço, não disse "oi". Chegou com o corpo, devagar, até eu sentir o espelho frio nas costas nuas, e ficou ali, com a boca na minha orelha, respirando. Só isso. Naquela casa todo homem fala. Fala demais. Aquele não falava, e o silêncio dele me prendeu na parede mais do que o corpo.
Eu senti ele duro na minha barriga. Através da calça, e mesmo assim eu senti que era grande demais, que chegava mais em cima do que devia. Eu tinha o corredor inteiro pra sair. Não saí.
A mão dele subiu pela minha coxa. Grande, quente, sem pressa. Entrou por baixo do vestido vermelho. Achou o fio-dental, o mesmo que a Nat tinha me ajudado a vestir um mês antes, de joelhos na minha frente. Eu pensei na Nat. Não parei. Ele afastou a calcinha com dois dedos e entrou. Um dedo. Depois dois. E eu estava tão molhada que ele riu, baixinho, com a boca na minha orelha. E foi ali, com a boca dele na minha orelha, que eu senti o cheiro. Perfume de muito rico. Daqueles que não se compra em shopping, que se traz de viagem, amadeirado, quente, com alguma coisa de couro por baixo, misturado com a pele dele. Eu fechei os olhos e respirei fundo, como uma idiota, como quem cheira um bebê. Eu adorei aquele cheiro. Eu sabia, ali mesmo, que não ia esquecer aquele cheiro tão cedo. E o riso dele, junto com o cheiro, me fez apertar os dedos dele por dentro. Eu mordi meu lábio, com o batom novo, pra não gemer no corredor de uma boate cheia.
A minha mão desceu sozinha. Eu juro que eu não mandei. Por cima da calça primeiro, sentindo o tamanho, e o tamanho não acabava. Depois eu abri o zíper, eu mesma, e peguei. E a minha mão não fechou. Uns vinte centímetros, grosso na base, quente, pesado, a cabeça grande, lisa, molhada na ponta. E logo abaixo da cabeça, onde todo pau afina, aquele alargava. Por um terço do comprimento ficava mais largo do que a própria cabeça, e só depois descia pra base. Como o corpo de um 747, eu pensei. Eu sou médica. Eu nunca tinha visto um formato daqueles. O rosto era o do Pedro. Aquilo não era do Pedro. Eu fechei os olhos e, de olho fechado, era o Pedro do primeiro dia, com aquele pau, contra uma parede, num lugar onde eu não devia estar. Eu apertei e pensei: eu podia. Ali. Ninguém ia saber. Eu podia ficar de quatro naquele corredor e ser aberta por aquilo, por um estranho com a cara do meu marido, de graça, só porque eu queria saber se cabia.
Por cima do ombro dele eu vi onde a gente estava. Atrás de uma viga de metal escura que sai da parede, no meio do corredor, num vão entre ela e o espelho onde a luz azul do chão não chega. Ele tinha me levado até ali sem eu perceber. Do salão ninguém via. Só quem passasse pro túnel, e só se olhasse. É o canto que a casa finge que não existe. Eu pensei nisso por um segundo e o segundo acabou, porque os dedos dele dobraram dentro de mim, no lugar que a Nat tinha me mostrado, e o polegar dele achou meu grelo, e o cheiro entrou de novo, e eu gozei. De pé. Vestida. Mordendo o ombro da camisa branca dele pra não gritar, apertando os dedos dele por dentro, com a mão fechada nele, o quanto fechava. De pé, num corredor, com um homem que eu não sabia o nome. Eu tremi inteira contra o espelho e ele me segurou pela cintura com a outra mão, sem falar, pra eu não escorregar.
Eu desci. Ainda tremendo, ajoelhei no chão azul, atrás da viga. E quando aquela cabeça ficou na altura da minha boca, eu vi. Era circuncidado. Sem pele nenhuma, a cabeça inteira exposta, lisa, brilhante, nua, uma coisa que eu já tinha visto em consultório e nunca fora dele, nunca assim, nunca num homem que eu quisesse. Diferente do Pedro. Diferente de tudo. Molhada na ponta daquele líquido que vem antes, grosso, transparente. Eu abri a boca e pus pra dentro. Só a cabeça. Tentei descer pra parte larga e o meu maxilar avisou que não. Fiquei na cabeça, sabendo que o pior, ou o melhor, estava logo abaixo e não ia caber. Lisa, quente, salgada, o gosto mais forte sem a pele no meio, enchendo minha boca inteira. Eu adorei aquela cabeça nua na minha língua de um jeito que eu não vou saber explicar pra ninguém.
Uma menina passou. Alta, morena, de vestido prata, indo pro túnel. Olhou. Não disse nada. Parou meio segundo na frente da viga, de costas pra gente, ajeitando a tira do salto, tapando a vista de quem viesse do salão. Depois seguiu. Eu entendi na hora, com a boca cheia: elas se cobrem. Todas sabem o que o gerente faz se pega alguém transando fora do hotel. Pra lei, ali é bar, restaurante, show. O que acontece atrás daquela viga não pode existir. E eu, dermatologista dos Jardins, de joelhos no chão de uma boate, estava sendo protegida por uma puta que eu nunca tinha visto na vida.
Eu chupei mais. Devagar, rodando a língua, pegando tudo o que ele soltava, e ele soltava mais, e eu chupava mais, olhando pra cima, com o batom novo se desfazendo nele. Ele pôs a mão no meu cabelo. Não puxou. Segurou, como quem não acredita. Passou outra menina, ruiva, e essa sorriu de canto e não parou.
E aí eu senti. Na língua. O que a Nat tinha me ensinado na terça, com o Pedro preso no tronco: o jeito que endurece mais, um segundo antes, o pulso que muda. Ele ia gozar. E a minha boca saiu. Eu não decidi. Saiu sozinha, do mesmo jeito que a mão tinha entrado sozinha. Ele fez um som, o primeiro som dele, um ar que saiu pelo nariz, e ficou ali, duro, pulsando no vazio, a um centímetro da minha boca.
Eu levantei com o gosto dele. Sem engolir. E beijei ele. De boca cheia, empurrando com a língua pra dentro da boca dele o que era dele. Ele bebeu. Gemeu dentro do beijo. E quando eu afastei o rosto, ele estava vidrado em mim. Não era mais cara de cliente. Era cara de homem que viu uma coisa que não vai conseguir esquecer.
— Quanto pra subir?
Foi a única coisa que ele disse a noite inteira. E saiu num português de sotaque fortíssimo, pesado, arrastado, que eu não consegui situar. Americano? Alemão? Holandês? Três palavras, com a voz rouca, quase pedindo, e eu não sabia nem de que país era o homem que estava com a minha boca na dele.
E foi isso que quebrou. Não o dinheiro. O contrário. Eu percebi que eu ia de graça. Que aquilo não era vingança, não era Bia, não era plano, não era planilha. Era eu. A Vanessa. Querendo. E isso me assustou mais do que qualquer caixa.
Eu ajeitei o vestido. Passei o dedo no canto da boca. E disse, com a voz da Bia, que saiu firme sem eu saber de onde:
— Hoje eu já tenho cliente.
Ele guardou aquilo na calça com dificuldade e ficou olhando pra mim. Sem dizer nada. Eu passei por ele e não olhei pra trás. Deixei ele ali, atrás da viga, duro, com o que eu não tinha terminado. Foi a única coisa naquela noite inteira que eu não dei pra ninguém. Voltei pro balcão com as pernas tremendo, a calcinha encharcada, o gosto dele na boca, os dedos dele ainda dentro de mim, como se tivessem ficado, e três palavras num sotaque que eu não conhecia. Sentei no mesmo banco. Virei a outra metade da vodca de um gole e pedi mais uma.
Ele chegou perto da meia-noite, quando eu já estava na terceira. O garoto do cartão preto. Tatuado, bonito, filho de alguém.
— Falei que voltava.
— Falou.
— Hoje você tá livre?
Eu olhei pra ele. Pensei no notebook. Na planilha. Na palavra "aporte".
— Hoje eu tô.
Ele perguntou quanto. Eu disse o valor que a Nat tinha me ensinado, o valor da casa, sem inventar nada. Disse sem pensar. Depois do corredor, o preço era a parte mais fácil. Ele riu, disse que pagava o dobro. Eu disse que o dobro estava bom. Ele foi até o caixa e pagou. Eu fiquei olhando ele contar as notas na frente da moça do caixa, e a moça me olhar, e escrever alguma coisa num caderno. Tinha um nome ali. Bia. Tinha um preço. O meu.
Eu vou contar o que passou na minha cabeça, porque eu prometi contar tudo.
Eu pensei no Pedro chegando em casa e encontrando o dinheiro em cima da mesa da cozinha, com um bilhete: "primeira subida da Bia". Eu pensei na Nat, que eu tinha visto de longe quando cheguei, sentada no colo de um cliente, com o riso de propaganda, sem me ver, e pensei: é isso que ele quer, então é isso que ele vai ter em casa também. Eu estava com tanto ódio que estava escorrendo pela perna. Eu nunca tinha entendido tão bem o que era ser comprada. E nunca tinha ficado tão molhada com nada.
Ele voltou do caixa e pôs a mão na minha cintura.
— Pela rua — ele disse. — Quero que vejam.
Eu levantei. A gente atravessou o salão. Passou pelo palco, pelo balcão do japonês. E, de pé perto da porta de emergência, do lado de dentro, com um copo na mão que ele não estava bebendo, estava o Pedro.
Ele me viu. Viu a mão do garoto na minha cintura. Viu o vestido vermelho. Ficou branco de um jeito que eu nunca tinha visto. Eu não parei. Eu passei por ele a um metro, olhando pra frente, com um segurança me botando o sobretudo preto nos ombros por cima do vermelho, e saí pela porta de emergência da Velour com outro homem, com escolta, como ele tinha saído comigo e com a Nat um mês antes.
Vinte metros de calçada. O letreiro. Os manobristas. O sobretudo aberto batendo na coxa. A porta do hotel. O porteiro pegou o sobretudo, pendurou na arara e voltou pra guarita.
O hall era pequeno. Mármore, uma planta, o porteiro de costas na guarita olhando o celular. O menino apertou o botão do elevador e ficou atrás de mim, colado. Ele era dos que falam. Falou no meu ouvido, baixo, uma coisa suja e boba, "vou te comer até você esquecer o nome", e eu pensei, sem querer, que o outro não tinha dito nada e valia mais.
A mão dele entrou por baixo do vestido, por trás. Não foi na buceta. Eu senti ele tirar a mão, ouvi ele lamber o dedo, um barulho ridículo, e o dedo voltou molhado e foi direto no meu cu. Sem pedir. Sem rodeio. Sem nem me olhar. A primeira falange entrou e eu travei. E depois não travei.
Aí ele tirou o dedo. E eu ouvi. Ouvi ele levar o dedo à boca. Chupar. Um "hum" baixo, no meu ouvido, de quem gostou. E o dedo voltou, mais molhado, e entrou mais fundo, e ele mexeu devagar, rodando, como quem quer que volte com mais gosto. Tirou. Chupou de novo. E entre uma lambida e outra eu senti o pau dele, por cima da calça, encoxando a minha bunda. Duro. Comum. Um pau de menino, do tamanho de qualquer um, nada a ver com o outro. E mesmo assim eu empinei.
Nesse lugar todo mundo só quer saber de cu, eu pensei. Meu marido pediu o meu por sete anos e eu neguei. Mas o Pedro só queria meter. Esse povo daqui não quer só meter. Quer lamber. Quer sentir o gosto. Quer botar na boca o que sai de dentro de uma mulher que conheceu há dez minutos. A Nat lambendo o meu na primeira tarde, gemendo. O Pedro de quatro pra Nat. A Nat me ensinando a lamber o do Pedro. E agora um cliente, num hall de hotel, com o porteiro a três metros, chupando o dedo que tinha acabado de sair de dentro de mim com cara de quem prova vinho. Quase demoníaco, eu pensei. E eu gostei. Eu gostei de ser provada.
E eu estava tão molhada que senti a minha própria lubrificação escorrer da buceta até onde o dedo dele estava, e o dedo entrou mais, e ele tirou e chupou mais uma vez, e eu quase gozei. De novo. Pela segunda vez naquela noite, com o segundo homem que não era o meu. E esse não tinha o cheiro, não tinha o silêncio, não tinha o porte, não tinha o pau, não tinha nada. Era um menino com dinheiro e um dedo. Era cliente. E eu estava a um movimento de gozar no dedo de um cliente esperando elevador. Puta pode gozar? Pode. Eu era puta ali. Era exatamente isso que eu tinha vindo ser, e eu estava conseguindo.
E no hall, o elevador abriu.
Saiu a Nat. De vestido branco, curto, cabelo molhado, maquiagem refeita. Com o Guilherme.
Eu conhecia aquele vestido. Eu conhecia aquele cabelo molhado.
E eu estava ali, de vermelho, com o dedo de um cliente dentro de mim e o gosto de outro homem na boca, olhando a Nat sair do elevador em que eu ia entrar.
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Continua na Parte 4.