Eu não sabia que horas eram quando acordei naquele quarto de hotel. Levou algum tempo até me localizar. Acordei com a mente confusa; geralmente isso me acontece quando durmo mais do que o normal, e naquela noite com certeza dormi bem mais do que o habitual. Sofy já não estava na cama, e quando me levantei para ter uma visão melhor do cômodo, não a encontrei. Talvez estivesse no banho ou algo assim.
Levantei e percebi que meu vestido estava todo amarrotado. Olhei ao redor procurando minha bolsa e lembrei de tê-la deixado no chão perto da cama, mas agora ela estava no criado-mudo ao lado da cama. Provavelmente, Sofy a colocou ali. Quando fui pegá-la, notei que, debaixo dela, havia uma folha de papel com algumas linhas escritas à mão. Peguei o bilhete e descobri que seria perda de tempo procurar por Sofy.
Bilhete:
"Antes de tudo, muito obrigada por cuidar de mim e me perdoe por não ficar para uma despedida. Eu precisava partir e fiquei com pena de acordar você. Espero que me entenda e que essa decisão não te chateie.
Camila, eu queria te dizer várias coisas que estão passando pela minha cabeça agora, mas não tenho tempo para escrever tudo que queria, então vou apenas escrever o mais importante.
Entrei naquele restaurante ontem com uma ideia maluca, mas no fim, saí de lá com duas grandes lições, e vou levá-las para sempre comigo.
Primeira: Nunca julgue alguém pelo que você ouviu ou imaginou que ela fosse.
Segunda: Toda história tem dois lados, e o seu lado da história é lindo.
Deixo você, mas levo comigo uma nova esperança no peito. Existem sim pessoas boas no mundo, e vou tentar encontrá-las, assim como encontrei você. Obrigada de coração, você salvou minha noite e talvez até meu futuro.
Xoxo!
P.S.: A diária está paga, pode aproveitar o quarto até quando achar necessário."
Li e reli aquele texto e não sabia exatamente o que sentir ou pensar. Algumas coisas me pareciam sem sentido; outras faziam sentido, pelo que ela me falou e pelo que vivemos na noite passada. Resolvi não ficar pensando muito naquilo, não era o momento. Eu precisava dar um jeito de lavar o rosto e voltar para meu apartamento.
Fui até o banheiro e ainda havia alguns produtos de beleza ali. Não sabia se Sofy os deixou para trás de propósito, se esqueceu de pegar, ou se eram do hotel. Bom, isso não era problema meu. Lavei o rosto e dei uma ajeitada no cabelo. Eu estava um caco, mas não havia muito o que fazer; teria que ir embora daquele jeito mesmo.
Desci até o saguão e fui procurar meu carro com o manobrista. Ele me pediu para esperar um momento, ligou para alguém e logo outro manobrista apareceu com meu carro. Dei uma boa gorjeta para os dois e saí dali com destino ao meu apartamento. Já eram quase onze da manhã e eu ainda queria ir à casa dos meus pais. Não seria pelo tempo que eu gostaria, mas não iria deixar de ir lá.
Depois que saí do hotel, tudo foi muito corrido. Cheguei no meu apartamento e mandei uma mensagem para Tamires pedindo para arrumar Manu para ir à casa dos avós, que em meia hora eu passaria lá para buscá-la. Não esperei ela responder e fui tomar um banho rápido e vestir outra roupa. Apesar da pressa, só cheguei à casa da Tamires quarenta minutos depois, e por minha sorte, ela estava do lado de fora me esperando, com Manu ao lado.
Assim que parei o carro, Tamires foi até a porta de trás e abriu para Manu entrar. Ela ajudou a colocar o cinto e depois foi até a porta do passageiro e entrou já dizendo que iria comigo. Eu apenas afirmei que tudo bem e seguimos para a casa dos meus pais. Tamires me falou que não tinha nada para fazer em casa e, sem a Manu para ocupar seu tempo, o resto do domingo ia ficar muito chato, então resolveu ir comigo para matar o tempo e a saudade da minha família.
Chegamos já no início da tarde, mas, apesar do tempo mais curto que o normal, foi muito bom passar algumas horas com pessoas que eu amava muito. Me fazia bem passar esses momentos com eles. Saí dali com as energias revigoradas e o coração aquecido.
Levei Tamires à sua casa e depois fui para meu apartamento. Manu já tinha dormido e só tive o trabalho de levá-la para a cama. Depois fui tomar um banho e tentar descansar um pouco. Porém, quando me deitei, pude pensar com calma no que tinha acontecido na noite passada. Lembrei do bilhete e me levantei para pegá-lo na minha bolsa. Voltei para a cama e o reli; ainda sentia que algo nele estava sem sentido. A parte sobre a história ter dois lados me confundia; eu não tinha certeza do que ela realmente estava falando. Seria sobre nossas histórias? Da nossa história juntas? Mas a gente nem tinha uma história; passamos apenas alguns momentos juntas, mas aquilo estava longe de ser uma história.
Bom, provavelmente não iria descobrir, já que seria quase impossível a gente se ver de novo. Cidades diferentes, mundos diferentes; acho que o acaso não iria nos unir novamente. Era perda de tempo ficar pensando naquilo; era melhor eu esquecer e tentar dormir. Guardei o bilhete na gaveta do criado-mudo, apaguei a luz e tentei dormir. Só tentei, porque não consegui; o rosto de Sofy não saía dos meus pensamentos, e aquele olhar triste dela era de cortar o coração.
Me lembrei da sua tentativa de me beijar. E se ela não tivesse desmaiado? Eu iria realmente impedir ela de me beijar? Provavelmente sim; eu não queria aproveitar do estado em que ela estava. Mas e se eu não impedisse? Será que o beijo seria bom? Será que ficaria só em um beijo ou escalaria para algo melhor? Será que ela se lembraria se isso acontecesse? Provavelmente não; ela estava muito bêbada. Talvez o corpo denunciasse, mas provavelmente as memórias seriam apagadas pelo álcool. Com certeza eu pararia o beijo antes de acontecer. Mas se ela estivesse em sã consciência? Bom, talvez eu deixasse acontecer; ela é beijável, na verdade, ela é bem bonita.
Com esses pensamentos, acabei dormindo e acordei no meio da noite com o coração disparado. Sonhei com o momento em que ela tentou me beijar, só que no sonho eu não parei. Ela beijava bem, pelo menos no sonho. Mas quando o beijo ficou intenso, eu acordei. Minha vontade era tentar dormir de novo para continuar o beijo, mas era algo totalmente sem sentido. Resolvi levantar e ir tomar um copo de água; minha garganta estava seca.
Parada na cozinha, encostada na pia e já bebendo um copo de água gelada, relembrei do sonho e nem percebi quando toquei os dedos nos meus lábios. O beijo parecia tão real que eu ainda podia sentir o calor dos lábios de Sofy nos meus. Porém, a realidade caiu sobre mim, me fazendo sentir uma pequena tristeza no peito. Não era real; não era possível ser real. Ela se foi, eu fiquei, e a vida tinha que seguir, sem Sofy e sem esses pensamentos. Estava na hora de deixar aquelas lembranças para trás.
Resolvi não contar para ninguém sobre Sofy, mas decidi contar para as meninas sobre meu encontro que não aconteceu com Laura. Foi contando para Nicole que descobri algo: quando fui mostrar a conversa para ela, percebi que Laura tinha me bloqueado ou então apagado sua conta no WhatsApp. Sua foto tinha sumido e, para tirar a dúvida, Nicole foi olhar o WhatsApp da Laura no celular dela. Estava do mesmo jeito, sem foto. Por via das dúvidas, enviei uma mensagem perguntando o motivo dela não ter aparecido. Não foi entregue, então, ou ela bloqueou a gente ou realmente apagou sua conta.
Nicole ficou brava por eu ter ido encontrar com ela sozinha; podia ser uma armadilha. Expliquei que pedi para encontrar em um lugar público, e Nicole se acalmou um pouco. Falei para Nicole que ela não ter aparecido e depois me bloqueado não fazia sentido, já que foi ela implorou para me ver. Nicole disse que era melhor eu deixar isso para lá e seguir minha vida longe de Laura. Eu disse que ia fazer isso; iria deixar aquela história para lá.
A reação de Sandra e Raquel não foi muito diferente da de Nicole, até os conselhos foram semelhantes. Elas também olharam o WhatsApp e a conta da Laura estava do mesmo jeito. Decidimos deixar Laura de lado; não valia a pena ficarmos esquentando a cabeça com ela. Provavelmente, aquele número ela só usava para manter contato com o pessoal dos encontros. Como ela abandonou tudo, provavelmente deixou de usá-lo.
Na quarta-feira, sonhei de novo com Sofy e, na sexta, resolvi conversar com Tamires. Não tinha contado a ela sobre Sofy por achar que era algo irrelevante, porém não era mais. Por mais que eu tentasse, não conseguia tirá-la dos meus pensamentos. Então decidi que talvez pudesse fazer algo a respeito; talvez eu pudesse encontrá-la de alguma forma. Se eu conseguisse falar com ela de novo, aquilo passaria. Na minha cabeça, o que eu não conseguia decifrar naquele bilhete era o que fazia eu ficar lembrando dela. A curiosidade, às vezes, faz isso; se ela me explicasse, aquilo perderia o mistério e passaria.
Expliquei tudo a Tamires, principalmente o motivo de não ter contado antes. Ela entendeu de boa e me perguntou por que estava contando naquele momento. Falei que não parava de pensar na Sofy e que queria a ajuda dela para resolver isso. Tamires ficou me olhando com cara de quem não entendeu nada, então falei que queria que ela me ajudasse a achar Sofy e os motivos por trás disso. Nunca vou esquecer a gargalhada que Tamires deu e o que ela disse depois.
Tamires disse que iria me ajudar sim, mas que eu estava apaixonada e não curiosa. Esse era o motivo de eu não tirar Sofy da cabeça. Quando ela disse aquilo, foi minha vez de rir dela; falei que não tinha nada a ver, que era só curiosidade mesmo. Tamires pegou o celular para ver se achava algo sobre Sofy, mas antes de pedir as informações que eu tinha dela, disse que "o mais cego é aquele que não quer ver". Nem rebati; só mostrei o dedo do meio para ela e comecei a passar as informações que eu tinha da Sofy, que eram bem poucas.
Tamires não achou nada, nem uma pista sequer. Ela disse que seria muita sorte achar, já que eu não tinha muitas informações sobre ela. Porém, me deu uma ótima ideia: talvez Ítalo ou Eloá pudessem me ajudar, já que eram da mesma cidade e provavelmente da mesma área de trabalho. Isso fazia muito sentido e, ali mesmo, ao lado de Tamires, liguei para Eloá. Ela atendeu no segundo toque, porém estava no shopping e o ambiente estava meio barulhento. Marcamos de nos falar naquele mesmo dia, porém à noite, quando ela estaria mais tranquila e Ítalo estaria ao seu lado.
À noite fiz a ligação por vídeo e contei tudo que estava acontecendo. Eloá me ouvia com atenção e, quando terminei, ela deu um sorriso meio suspeito. Perguntei do que ela estava rindo e ela disse que por nada, só sorriu. Claro que lembrei da gargalhada da Tamires e do que ela disse depois. Mais que depressa, eu disse que não estava apaixonada, só curiosa. Ela disse que não falou nada e sorriu de novo. Xinguei ela, mas com carinho, e perguntei se ela iria me ajudar ou só iria rir de mim. Ela disse que, pelo jeito, iria fazer as duas coisas. Depois de mais um xingamento carinhoso, passei tudo que sabia sobre Sofy.
Eloá prometeu que iria ver se descobriria algo, mas não conhecia ninguém com o nome de Sofy. Ítalo disse que até conhecia uma, mas não era executiva e era loira. Então, com certeza, não era a Sofy que conheci. Os dois falaram que iriam perguntar para alguns amigos e, se descobrissem algo, me avisariam. Acabamos aproveitando a ligação e conversamos por bastante tempo. A gente sempre se falava, mas nem sempre dava para nós conversarmos os três com mais tempo.
Os dias seguiram e ninguém conseguiu informações positivas sobre Sofy. Infelizmente, eu não tinha o nome dela completo e nem peguei seu número de celular. Tamires até tentou novamente, mas não obteve nenhum resultado. Ou ela me deu um nome falso ou não tinha redes sociais. Por fim, acabei desistindo de achá-la e resolvi deixar para lá. O problema é que meu cérebro não seguiu minha decisão e eu continuava lembrando dela com uma frequência fora do normal. Até cheguei a cogitar que talvez Tamires estivesse certa: eu estava apaixonada, mas logo descartei a ideia; não iria estar apaixonada por alguém que só vi uma única vez.
No meio disso, Sandra me avisou que o pessoal resolveu continuar com os encontros; nada iria mudar além da saída da Laura e do Marcelo. Nicole aceitou administrar tudo no início, mas deixou claro que era só até eles acharem outra pessoa. As meninas seriam as mesmas e o barman também. Só faltava eu para fechar as pessoas que continuariam frequentando os encontros. Pedi a Sandra um tempo para pensar; não tinha dúvidas de que voltaria a ir nos encontros, mas queria repensar sobre aceitar o dinheiro para ser uma das meninas solteiras ali. Sandra entendeu de boa e disse que eu tinha o tempo que quisesse para pensar.
Liguei para Nicole e conversei com ela. Nossa conversa me deixou menos indecisa. Nicole disse que só aceitou gerenciar por um tempo, porque gostava muito das pessoas dali e quis ajudá-las, mas depois iria deixar tudo nas mãos de outra pessoa. Ela disse que iria continuar frequentando as festas mesmo quando deixasse a gerência, mas não queria mais salário. Queria continuar porque gostava do pessoal e se divertia ali, mas não queria sentir obrigação de nada. Queria ser totalmente livre e só se divertir como as outras pessoas ali. Eu disse a ela que estava pensando em fazer a mesma coisa, porém o dinheiro iria me fazer falta. Eu teria que fazer umas contas e arrumar outro emprego. Nicole disse que, se pudesse, me contrataria para trabalhar no ateliê dela, mas além de não ter vaga, não poderia me pagar o suficiente. Agradeci e disse que iria resolver isso; talvez eu voltasse a trabalhar na padaria ou aceitasse ser contratada pelo menos por mais um ano.
No fim, resolvi aceitar ser novamente contratada. Senti-me segura por ser a Nicole tomando conta de tudo e por ter Sandra e Raquel nos bastidores. Eu iria juntar mais uma grana e depois faria o mesmo que Nicole resolveu fazer.
O tempo foi passando, as lembranças de Sofy não passaram e agora, quando eu lembrava dela, a saudade doía. Eu não podia fazer nada quanto a isso. Já tinha se passado mais de um mês do nosso encontro; eu não tinha como achá-la e ela, pelo jeito, não tentou me procurar, já que com as informações que dei a ela quando contei minha história, não seria difícil me encontrar.
Em uma sexta feira pela manhã, eu estava no meu quarto brincando com Manu; era feriado e estávamos de bobeira no nosso apartamento. Foi quando meu celular tocou; era um número que eu não reconhecia. Porém, era DDD 21 e achei que poderia ser alguém conhecido. Resolvi atender para ver quem era. Quando eu disse "alô", e a pessoa respondeu, eu quase deixei o celular cair da minha mão!
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
