Foi a coisa mais irresponsável que a gente já fez em nove anos de vida liberal.
E foi também uma das noites mais quentes.
As duas coisas são verdade, e é por isso que esse conto é difícil de escrever.
Prazer, somos o Casal Apimentados. Quem escreve sou eu, a Lúcia. Nomes fictícios, por motivos que qualquer casal liberal entende.
Eu: 1,72 de altura, loira natural, olhos verdes, seios fartos e umas coxas grossas que o meu marido elogia há vinte e três anos. Quarenta e três anos.
Ele, Jorge: negro, 1,85, corpo forte sem ser musculoso, mesma idade que eu.
A gente tem uma caixa em casa.
Ela mora no alto do armário do quarto de hóspedes, e é uma sobra de uma ideia antiga: lá em 2017, antes de tudo o que virou a nossa vida, a gente ia abrir uma loja virtual de produtos eróticos. A loja nunca saiu do papel, mas a gente comprou umas amostras em feira e ficou com elas.
Tem baralho erótico, tem dados de prenda, tem um jogo de tabuleiro adulto com cartinha de desafio, tem uma caixinha de perguntas pra casal.
Coisa boba, de sexy shop, dessas que casal ganha em amigo secreto e nunca usa.
E era isso mesmo: a gente nunca usava. A caixa ficou lá em cima juntando poeira por anos.
A festa era na casa do Ademir e da Cida, uns amigos de dez anos, gente absolutamente comum. Festa PB, preto e branco, sem nada de colorido: um churrasco de aniversário num sábado, na casa deles, com quatro casais.
Ninguém ali era do meio. Ninguém ali sabia de nada sobre a gente.
Isso é importante e vocês vão entender daqui a pouco.
Os quatro casais eram: o Ademir e a Cida, donos da casa. O Rogério e a Karina, que a gente conhecia menos, casados havia uns seis anos, os mais novos da turma. O Paulinho e a Vanessa, que a gente conhecia bastante, casados havia quinze anos, com dois filhos e uma vida certinha. E nós.
Foi a Cida quem me pediu.
Uns dois dias antes, no telefone, ela falou:
— Lú, traz aquele jogo que você me mostrou uma vez. Aquele do baralho.
Eu tinha mostrado aquilo pra ela num almoço, uns dois anos antes, rindo, sem nenhuma segunda intenção.
E eu falei que ia levar.
Meninas, foi aí que a noite começou. Dois dias antes, num telefonema de dois minutos.
O churrasco foi churrasco até quase meia-noite.
Carne, cerveja, criança correndo até as nove, quando os filhos do Paulinho foram dormir na casa da avó. Conversa de trabalho, de escola, de obra.
E, lá pelas onze, com todo mundo já em outro estado, a Cida bateu palma e gritou:
— Gente, a Lúcia trouxe uma coisa.
Eu ainda pensei em falar que tinha esquecido no carro.
Fui buscar no carro.
A gente começou pela caixinha de perguntas, que é a coisa mais inofensiva do mundo. Pergunta do tipo qual foi o lugar mais estranho, quantas pessoas você já beijou na vida, você já pensou em alguém que não devia.
Isso durou uns quarenta minutos e foi só risada.
E foi ali, nas perguntas, que a primeira coisa aconteceu, e ninguém percebeu direito, tirando eu.
A pergunta era essa: qual foi a coisa mais ousada que você já quis e nunca fez.
O Rogério respondeu na hora, rindo, apontando pro salão inteiro:
— Trocar de casal.
A mesa riu. Deu risada mesmo, aquela risada de piada boa.
E a Karina, mulher dele, não riu.
Ela olhou pro prato e tomou um gole.
Eu olhei pro Jorge do outro lado da mesa e ele já estava olhando pra mim.
Depois veio o baralho.
O baralho é mais direto. Cada carta é um desafio pra fazer com a pessoa que você tirar no sorteio. Coisa que começa em massagem no ombro, dança de dois minutos, beijo no pescoço.
E vai subindo.
Nas primeiras dez cartas foi tudo palhaçada. O Ademir fez uma dança que quase derrubou a mesa. O Paulinho teve que dar um beijo na bochecha da Cida e fez um escândalo cômico.
Aí a Karina tirou uma carta e o sorteio caiu no Jorge.
E o desafio era beijo na boca, dez segundos.
Silêncio na mesa.
O Rogério, marido dela, foi o primeiro a falar:
— Vai, vai, é o jogo!
E ela levantou, deu a volta na mesa e beijou o meu marido por dez segundos contados em voz alta pelo Ademir.
Aquele beijo não teve nada de "brincadeira de jogo". Foi um choque elétrico. A Karina se entregou ao meu marido com uma fome que me deixou sem ar. Ela não beijou; ela devorou a boca do Jorge, as mãos cravadas na nuca dele, a língua explorando cada canto com uma urgência de quem estava guardando aquele desejo há anos. Quando eles se soltaram, o clima na mesa tinha mudado. O oxigênio tinha sido substituído por puro tesão.
E a partir dali, a "brincadeira" virou pornografia ao vivo.
As luzes baixaram e a sala se transformou num antro de carne. Eu me vi no sofá, entre Ademir e Cida. Foi uma investida coordenada. Enquanto Ademir subia o meu vestido com mãos trêmulas de desejo, Cida me atacava por trás. Ela apertava meus seios fartos com força, as unhas cravando na minha pele, enquanto sussurrava no meu ouvido palavras chulas que me faziam molhar instantaneamente.
Ademir não teve pressa. Ele abriu minhas pernas e mergulhou a língua na minha vulva, sugando meu clitóris com uma voracidade que me fez arquear as costas. Eu sentia a boca dele me devorando e as mãos da Cida me dominando, me beijando o pescoço com fome.
— Puta que pariu, Lúcia, você é deliciosa! — Ademir rosnou entre um beijo e outro.
Eu gozei ali mesmo, num espasmo violento que sacudiu meu corpo todo, mordendo o próprio braço para não acordar a vizinhança, enquanto a Cida ria, sentindo meu orgasmo pulsar contra ela.
Do outro lado da sala, o cenário era ainda mais bruto. O Jorge estava no chão, encostado na parede, com a Karina montada nele. Ela estava com o vestido enrolado na cintura, a bunda branca contrastando com a pele negra dele. Ela cavalgava o meu marido com uma fúria animal, os seios balançando, os olhos fechados, gritando o nome dele enquanto se fundiam num ritmo frenético. Eu vi a Karina atingir o ápice, gozando violentamente em cima do Jorge, enquanto ele a segurava pelos quadris, enterrando o pau nela com estocadas profundas que faziam a parede vibrar.
No meio daquele caos de carne, o Jorge me achou com o olhar. Aquele olhar de "estou vendo tudo e quero mais".
Lá pelas três da manhã, a fome me levou até a cozinha. Eu achei o Jorge bebendo água e, sem dizer uma palavra, ele me prensou contra a bancada de granito frio.
A transa foi a coisa mais suja e quente daquela noite. Ele levantou meu vestido com violência e me virou de costas, me jogando contra a pia.
— Eu quero você agora, Lúcia. Agora! — ele rosnou.
Ele me pegou pela cintura e entrou em mim de uma vez só, sem preliminares, sem delicadeza. Foi uma estocada bruta que me fez soltar um gemido rouco. Ele me fodaçava com um ritmo animal, o som da pele batendo contra a pele ecoando na cozinha silenciosa. Eu sentia o pau dele batendo no fundo do meu útero, me preenchendo completamente.
Eu gozei mordendo o braço, sentindo cada centímetro dele me rasgando por dentro, enquanto a porta da sala permanecia entreaberta, revelando os vultos da orgia que ainda acontecia lá fora. Quando ele finalmente veio, disparou sua porra quente profundamente dentro de mim, me segurando com tanta força que deixou marcas nos meus quadris.
Foi a melhor transa da noite, porque era a nossa verdade, destilada no meio de um erro coletivo.
A conta chegou no domingo.
O Ademir e a Cida ficaram ótimos. Mandaram mensagem no grupo às onze da manhã com uma piada, e a Cida me ligou à tarde rindo, e eles hoje frequentam o meio e fizeram o caminho todo direitinho.
O Rogério e a Karina também. Eles já tinham a conversa engatilhada havia anos, e aquela noite só empurrou. Continuam juntos, continuam bem.
E o Paulinho e a Vanessa não.
A Vanessa não falou comigo por sete meses.
Sete meses, meninas. Uma amiga de quinze anos.
Ela não brigou, não me xingou, não fez escândalo. Ela só sumiu. Parou de responder, parou de aparecer, saiu do grupo do churrasco com uma desculpa qualquer.
E, quando a gente finalmente se falou, num café que eu insisti umas quatro vezes pra acontecer, ela me disse a coisa que eu carrego até hoje:
— Lú, vocês trouxeram aquela caixa. E eu passei a noite inteira olhando pro meu marido com medo do que ele ia querer. E ele passou a noite inteira olhando pra mim com medo do que eu ia querer. E a gente nunca tinha conversado sobre nada disso na vida.
Ela não estava com raiva do que eu fiz.
Ela estava com raiva de ter sido colocada, sem aviso e sem escolha, na frente de uma conversa que ela não estava pronta pra ter.
E ela tinha razão.
Porque a gente sabe disso. A gente escreve isso aqui há anos.
Casal de fora não se convida. Casal de fora se informa, e só se ele perguntar, e no tempo dele.
Naquela noite, a gente não convidou ninguém com palavra nenhuma.
A gente só colocou uma caixa em cima de uma mesa e deixou a bebida fazer o resto.
E é a mesma coisa. É pior, até, porque tem cara de acidente.
Hoje o Paulinho e a Vanessa estão bem. A gente voltou a se falar, voltou a se ver, e ela nunca mais tocou no assunto.
Mas a amizade não é mais a mesma, e eu sei disso todo Natal.
A caixa continua no alto do armário do quarto de hóspedes.
A gente usa até hoje, e usa bastante, mas só entre nós dois ou com gente que já sabe exatamente o que está fazendo.
Ela nunca mais saiu de casa pra festa PB nenhuma.
E, se você está lendo isso e pensou em levar a sua num churrasco de amigos, com a desculpa de que é só brincadeira e que ninguém precisa fazer nada, eu vou te falar uma coisa como quem já fez.
Foi uma noite ótima. Eu gozei três vezes, o meu marido teve uma das melhores noites da vida dele e dois casais daquela sala mudaram a vida pra melhor.
E ainda assim eu não faria de novo.
Se você chegou até aqui, obrigada por ler. A gente escreve essas histórias do jeito que elas aconteceram, sem inventar muito, e é sempre bom saber que tem gente do outro lado. Se curtiu, segue a gente, deixa um comentário contando o que achou e dá uma olhada nos nossos outros contos, tem bastante coisa por lá.
Casal Apimentados
