Naquela noite eu olhei e não vi sombra nenhuma.
Vi um rosto cansado. Cansado mesmo, sem retoque, com o dia inteiro marcado nele. Mas uma pele bem cuidada — anos de creme religioso finalmente servindo pra alguma coisa. Vi um corpo que, pra minha idade, ainda dá inveja em muita menina de vinte por aí. Genética boa, sorte que eu não escolhi.
E vi os meus peitos.
Depois de amamentar duas crianças eles ficaram maiores, com um caimento que dá volume. Eu sei que a gente devia dizer o contrário, que amamentar estraga tudo. Comigo melhorou.
Eu estava de camisola. Uma curta, daquelas que param logo abaixo do umbigo — e a parte de baixo estava embolada junto com a calcinha no canto da cama, onde eu tinha largado quando siriricava.
E foi aí que veio o pensamento sujo, antes de eu conseguir barrar:
Eu acho que ele ia gostar de ver isso.
A voz seguinte veio no mesmo segundo. E essa veio com raiva:
Tu tá falando com o amigo do teu filho. Cheia de fogo, com a buceta colando, achando que um moleque de vinte e dois anos quer alguma coisa contigo. Se toca, Márcia.
Eu fiquei parada ali na frente do espelho, e aí eu pensei uma coisa que eu não tinha pensado nenhuma vez na vida inteira:
E se ele me quisesse?
O telefone apitou em cima da cama. Mensagem nova.
— Eu tive uma webnamorada mais ou menos da sua idade…
Era mentira. Eu soube no segundo em que li — eu conheço a peça. Aquilo ali era ele querendo dizer que tem experiência, que já andou por aí, que não é criança. Homem faz isso desde que o mundo é mundo, e faz mal.
Mas eu resolvi dar corda.
— É mesmo? Mas webnamorada não tem compromisso real. Não sai pra jantar, não apresenta pros amigos, não transa…
— Transa. Claro que transa.
Aquilo me deixou curiosa.
— Téo, para de inventar. Trocar foto na internet é transar?
E aí ele escreveu uma coisa que ficou marcada em mim. Não na hora — na hora eu li rápido e passei batido. Mas depois, a cada coisa nova que foi acontecendo, aquela frase foi ganhando peso, até virar quase um lema.
— Você tem que abrir a cabeça. Prazer tem mil jeitos, e a gente foi criado achando que só um presta e que todo o resto é sujeira. — A maioria das pessoas passa a vida inteira dentro de uma jaula que ninguém trancou.
Abrir a cabeça. Eu já tinha ouvido isso umas duzentas vezes na vida, de gente muito mais velha e muito menos interessante que ele.
Mas não foi a frase que me pegou.
Foi o "você".
Sumiu a senhora. Duas mensagens inteiras sem senhora. "Você tem que abrir a cabeça" — assim, de igual pra igual, sem aquele degrau que ele vinha mantendo entre nós dois desde o começo. Ele tinha descido um degrau. Ou tinha me puxado pra cima do dele. Não sei qual dos dois — mas alguma coisa se mexeu ali, e eu senti no corpo.
E aí eu fiz uma coisa que eu não faço.
— Então me explica. Como é isso?
Olha, eu não sou boba. Eu sabia perfeitamente como as pessoas fazem sexo pela internet. Tenho amiga com aqueles vibradores que o outro controla de longe pelo telefone — tem uma que fica rezando pro marido viajar a trabalho, porque com ele dentro de casa não tem graça nenhuma. Eu sei o que existe no mundo.
Eu perguntei porque pensei que ele achasse que eu não sabia.
E, sendo bem honesta: porque deixar um homem te explicar uma coisa que você já sabe é uma das formas mais antigas de flerte que existe. Eu não formulei isso com essas palavras na hora. Mas eu fiz.
— Ah! Eu fico meio sem graça de falar isso. Você quer mesmo saber?
Ele estava pedindo autorização.
Era isso que aquela frase queria dizer, e nós dois sabíamos. Ele estava pedindo licença pra falar de sexo comigo — e me dando a chance de dizer não sem ninguém passar vergonha.
E foi bem nessa hora que o meu período fértil resolveu me humilhar de novo.
Senti uma gota escorrer pela parte de dentro da coxa. Juro. O meu cérebro tinha passado de raspão na palavra sexo e o corpo já tinha respondido, sem consultar ninguém. Peguei um lencinho umedecido da mesinha, me limpei ali mesmo, sentada na beirada da cama, e fiquei um tempo com o telefone virado pra baixo em cima da perna.
Pensando.
Ah, que mal tem? Ninguém vai saber, né?
Se existe frase que já estragou mais vida nesse mundo, eu não conheço.
— Sim, pode falar. Não tenho problema de conversar essas coisas.
Tinha. Claro que tinha.
Primeiro porque eu morria de vergonha. Segundo porque eu nunca na vida ficaria de graça com homem pela internet assim, tão fácil, tão rápido. Eu nunca dei essa liberdade nem pro meu marido.
E talvez o problema tenha sido exatamente esse.
Quase vinte anos, e eu nunca falei uma safadeza pra aquele homem. Nunca mandei uma foto, nunca escrevi nada, nunca disse em voz alta o que eu queria.
— Ah! A gente troca foto, e vai falando as coisas que excitam. O que tá passando na cabeça, o que a pessoa gostaria de tá fazendo com a outra.
— Aí você pega as fotos da menina e mostra pros amigos todos, né?
Foi defensivo. Saiu antes de eu pensar.
E era medo — medo de uma coisa que nem tinha começado. Eu estava me protegendo de uma humilhação que ainda não existia no plano material.
— Não, eu nunca fiz isso, acho que tem que ter muita confiança envolvida entre os dois.
— Sei...
Conversa pra boi dormir.
Confiança. A confiança aparece quando o tesão e a vontade de ver o outro pelado ficam maiores que o juízo da pessoa. É só isso. Nunca foi outra coisa.
Olhei pro relógio e levei um susto. Aquela conversa estava durando muito mais do que eu tinha percebido.
Com o telefone na mão eu vesti roupa. Muita roupa. Como se ele pudesse me ver através da tela, e como se pôr uma calça resolvesse alguma coisa do que estava acontecendo ali. Comecei a arrumar o quarto, dobrar o que estava jogado, ocupar as mãos. E de minuto em minuto eu olhava a tela, ansiosa igual adolescente, esperando o que ele ia dizer.
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