Meus caros,
A pedidos insistentes, quase diários, e insuportáveis de uma sarna de pele clara e cabelos escuros, nomeada Fernanda Mariana, apresento um epílogo.
Espero que curtam.
Espero que ela me dê paz agora...
Forte abraço,
Mark
[...]
Dois meses se passaram desde aquela fatídica noite em que uma porta se abriu, fechando outra onde o mundo de Katie desabara.
Nos dias seguintes, ela não voltou para a faculdade. Não se achava capaz de encarar Chuck novamente. Não depois de todo o drama causado a sua família. Entretanto, o que ela não sabia ainda é que Chuck havia sumido de Princeton com a mesma discrição com que desaparecera de Memphis quinze anos antes.
Kelly ficou com ela nesses dias, apoiando, mesmo sem saber o que dizer exatamente. Quando Katie soube da demissão de Chuck, decidiu ficar. Afinal, o romance entre os dois era discretíssimo demais, a pedido dele, para que as pessoas não julgassem eles. A universidade continuava a mesma. As amigas continuavam as mesmas. O apartamento, o campus, a rotina de aulas… tudo seguiria igual. Só ela havia mudado.
Kelly precisou voltar para casa, afinal, tinha sua própria vida como professora numa Universidade local. Entretanto, numa noite especialmente quente, quando já estava deitado ao lado de Jerry, não se conteve:
- Eu acho que preciso falar algo para a Katie...
Jerry repousou seu livro e encarou a esposa. Não parecia surpreso. Ele nunca parecia surpreso. Respirou profundamente e a encarou com carinho:
- E o que pretende dizer?
- Eu ainda não sei, amor. Mas ela precisa saber que não é uma sombra minha. Não quero que ela imagine que o Chuck se aproximou dela por minha causa. Não é justo.
- Eu entendo. – Jerry se aconchegou na cama e a encarou, olhos nos olhos: - E as suas aulas? Como fará?
- Vou conversar com o John amanhã. Eu só queria saber se você não se incomodaria de eu ir?...
- De você ir cuidar da nossa filha!? – Jerry deu uma risada e beijou rapidamente a boca da esposa: - Vá tranquila. Se precisar que eu vá também me ligue que darei um jeito com a minha agenda.
Kelly chegou na terceira semana. Trouxe duas malas e a decisão silenciosa de ficar o tempo que fosse necessário. Jerry ficou em casa com Camille, então com quase quinze anos, e manteve o acordo de ligações diárias por vídeo. Todas as noites, às nove em ponto, o rosto dele e o da irmã mais nova apareciam na tela do notebook de Katie. Eram conversas curtas, cuidadosas, cheias de brincadeiras para não forçar nada além do necessário.
Kelly dormia no sofá da sala. De manhã preparava café. À tarde, quando Katie voltava das aulas, as duas caminhavam pelo campus ou sentavam no banco debaixo do grande carvalho perto da biblioteca. No começo, falavam de tudo, menos do assunto que a levara até ali. Depois as palavras foram saindo aos poucos, como quem tira farpas de uma ferida ainda aberta.
Foi numa tarde fria de outubro, com as folhas já cobrindo o chão, que Kelly finalmente falou:
- Eu tinha dezenove anos quando conheci o Chuck... - Disse, olhando as próprias mãos, ainda sem coragem de encarar a filha: - Ele era… diferente. Do tipo que fazia o mundo parecer mais urgente do que era na realidade. Eu amei aquele homem com uma força que me assustava, Katie. E ele a mim. Tínhamos planos. Já tínhamos uma vida. Mas veio o acidente e ele desapareceu. Durante quatro anos... eu sobrevivi. Não! Não é justo. Eu sobrevivi por pouco tempo. Depois, seu pai me deu um motivo para viver. Construí outra vida. Amei outro homem. Tive você. E eu enterrei o Chuck. E mesmo assim, quando ele voltou, parte de mim ainda o reconheceu como se o tempo não tivesse passado.
Katie escutava em silêncio, os olhos marejados, mas também sem coragem de encarar a mãe:
- O que aconteceu entre você e ele… - Kelly continuou, a voz baixa: - Aquilo foi só uma coincidência. Talvez, ele tenha visto em você algo que ainda se lembrava de mim, mas... Você é tão parecida comigo, e com o seu pai. E o Chuck... Talvez ele carregue uma ferida que nunca cicatrizou direito. Isso não justifica, não torna certo o que aconteceu. Mas explica por que doeu tanto nos dois.
- Eu me senti suja, mãe... - Murmurou Katie: - Como se eu fosse um eco, como se eu tivesse traindo você.
Kelly segurou a mão da filha com força e só então a encarou, preocupada:
- Nunca, querida! Você não é um eco: Você é você! E o que existiu entre vocês dois foi real o suficiente para machucar. E Isso conta. A gente não precisa transformar essa sua história num romance, nem em crime. Foi um acaso do destino que envolveu duas pessoas que estavam tentando encontrar alguém, cada uma à sua maneira. Agora... escuta a mamãe... Agora, você está machucada, mas logo vai cicatrizar, e não vai te definir. Mas vai te deixar forte, o suficiente para superar muita coisa que você ainda enfrentará na sua vida.
Elas se abraçaram e assim ficaram naquele banco até o sol se pôr. Nos dias seguintes a conversa voltou outras vezes, sempre em doses menores. Kelly não tentou apagar o que acontecera. Apenas deu à filha o direito de nomear a dor sem precisar carregá-la sozinha.
Três meses depois, Kelly voltou para casa. Katie continuou em Princeton. As ligações noturnas com o pai e a irmã se tornaram rotina. Camille era uma alegria ímpar e sabia contagiar a irmã. Aos poucos, a vida acadêmica voltou a fazer sentido. As amigas perceberam a mudança, mas não perguntaram além do que ela queria contar. O tempo, teimoso, foi fazendo o seu trabalho lento. E ela sobreviveu.
Dois anos se passaram.
Katie recuperou o mesmo sorriso aberto da infância, agora temperado por uma confiança nova. Naquele outono, começou a namorar Dominic Hayes, lineback do time de futebol americano da faculdade. Ele era alto, de fala mansa e mãos grandes que sempre pareciam ter cuidado demais ao tocá-la.
Numa noite de novembro, depois de um jogo que o time venceu por pouco, os dois subiram até o mirante de pedra no limite norte do campus. A cidade se espalhava lá embaixo como um colar de luzes. O ar estava frio o suficiente para que o vapor da respiração ficasse visível.
Dominic tirou o casaco e o colocou sobre os ombros dela. Katie sorriu sem olhar para ele:
- Você sempre faz isso...
- O quê?
- Me protege do frio antes mesmo de eu reclamar.
Ele sorriu e deu de ombros, um pouco constrangido:
- É o mínimo que eu posso fazer.
Ficaram em silêncio por um tempo. Depois Katie falou, a voz baixa:
- Às vezes eu penso em como minha família é… complicada. Meus pais passaram por umas coisas pesadas. Tem noites em que eu ainda escuto minha mãe e meu pai conversando na sala quando acham que eu já havia dormido. Não me lembro direito o que eles falavam, mas sei que eles ainda carregam umas cicatrizes antigas.
Dominic segurou a mão dela:
- Todo mundo tem uma história e carrega alguma coisa. O que nos faz diferente é a decisão de como carregar isso.
Ela virou o rosto para ele. Os olhos brilhavam com a luz distante da cidade:
- Você não é só fortão! É sábio também?
Eu deu uma risada divertida e a encarou também:
- Não viu o drible que eu dei hoje no jogo? Tem que ter neurônio para fazer aquilo.
Ela gargalhou e o abraçou, sendo acolhida por ele. Então, se calaram, assistindo ao espetáculo da natureza. Depois, de um tempo, perguntou:
- Você acha que a gente consegue construir algo que não se quebre do mesmo jeito?
- Eu acho que a gente consegue tudo se quiser. - Respondeu ele, apertando-a em seus braços: - Mas tem que ser uma tentativa diária, com vontade, com objetivo. E se for feito com amor, ninguém irá nos parar.
Katie encostou a cabeça no ombro largo dele. O vento trouxe o cheiro de folhas molhadas. Por um momento, o futuro pareceu menos assustador.
[...]
Numa certa casa de Memphis, Kelly e Jerry sentiam o efeito do tempo. Haviam envelhecido, amadurecido, endurecido em alguns aspectos. Os cabelos de Jerry estavam completamente brancos. As linhas ao redor dos olhos de Kelly tinham se aprofundado, mas a boca mantinha a mesma curva quando sorria de verdade.
Continuavam em terapia, agora com frequência menor, mas ainda constante. Laura Mitchell se mudara de lá, mas indicara uma conhecida, uma terapeuta mais jovem e com técnicas mais diretas. O trabalho, no entanto, seguia o mesmo: nomear as cicatrizes sem deixar que elas ditassem cada gesto.
Certa noite, depois que Camille saíra para encontrar umas amigas no shopping, os dois foram para a cozinha. Jerry secava a última louça. Kelly preparava um chá:
- Você ainda pensa naquela minha proposta louca? - Perguntou ele, sem olhar para ela.
Kelly soube imediatamente do que se tratava. Anos antes, num momento de vulnerabilidade e curiosidade residual, Jerry confessara o desejo de vê-la com outro homem. Não com Chuck, nem ninguém em particular. Apenas a fantasia, algo que talvez a tivesse levado a ficar com Chuck. Ela recusara na época, com gentileza e firmeza. O assunto nunca mais voltara de forma direta:
- Penso... – Resmungou ela: - Mas não do jeito que você propôs.
Jerry pousou o pano e se virou, curioso para ela:
- Como assim?
Ela se aproximou, encostou a testa no peito dele e falou contra o tecido da camisa:
- Eu nunca quis transformar a nossa vida num lugar de testes. Mas eu também nunca esqueci o que aquela curiosidade poderia significar para você. Então… às vezes, quando estamos só nós dois, eu deixo a fantasia entrar. Várias vezes a gente fantasiou, não fantasiou? E foi bom, não foi? Não precisamos de outra pessoa, Jerry. A ideia, eu aceito. Posso imaginar, criar, falar baixinho no seu ouvido. E só espero que isso seja suficiente para você.
Jerry engoliu em seco. As mãos subiram pelas costas dela:
- E você? Como se sente fazendo isso?
- Eu me sinto... no controle. Acho... - Disse ela, sorrindo contra o peito dele: - E me sinto próxima de você. É estranho, eu sei. Mas acho que tem funcionado para a gente.
Ele a beijou com uma lentidão que carregava anos de conversas difíceis, de terapia, de silêncios e de recomeços. Naquela noite, na cama, Kelly fez exatamente o que dissera na cozinha. Imaginou... Falou baixo... Descreveu seu amante... Deixou a fantasia existir apenas entre as quatro paredes e os dois corpos que escolheram permanecer juntos apesar de tudo. Depois, quando o silêncio voltou, Jerry sussurrou contra o cabelo dela:
- Obrigado por não ter me julgado.
- Não, amor... Eu é que agradeço por não ter lutado pela gente.
[...]
Do outro lado do mundo, em uma casa de madeira de frente para o mar em Tonga, Chuck Noland acordava com o som das ondas.
Bettina Peterson dormia de bruços ao lado dele, um braço estendido sobre sua cintura. O cabelo grisalho estava solto sobre o travesseiro. Fazia quase cinco anos que eles estavam juntos.
No barco, naquela madrugada distante, ela não o impedira de voltar para a ilha. Apenas pedira tempo, alguns dias, uma chance de mostrar que a vida ainda podia ser habitada sem necessidade de desaparecimento. Chuck aceitara com a desconfiança de quem já havia perdido demais.
Nos primeiros meses foram cautelosos. Ela era mais ousada, mais rápida em rir, mais direta sobre o que queria no corpo e na conversa. Ele era hesitante, marcado, sempre pronto a recuar. Foi ela quem ensinou, aos poucos, que o corpo também podia ser território de descoberta e não apenas de uma memória dolorosa.
Bettina gostava de falar durante o sexo. Gostava de pedir. Gostava de rir no meio do ato quando algo saía diferente do planejado. No começo, Chuck ficava rígido, quase ofendido pela leveza. Depois foi aprendendo. A liberalidade dela não era promiscuidade: Era presença. Uma presença quase divina para quem já havia vivido o inferno. Ela era uma força da natureza, um recusa de tratar o prazer como algo que precisava ser justificado ou escondido.
Certa noite, meses depois de começarem a viver juntos, ela disse enquanto ainda estavam ofegantes:
- Você passou por uma tragédia, idealizando uma vida que não existia mais. Eu já quase morri! Perdi muito também... Não tenho tempo para essa seriedade toda.
- Credo! Para que tanta seriedade!? Está pensando em me largar? – Ele brincou, fazendo ela se surpreender.
Chuck riu naquela noite da cara de surpresa dela. Foi um riso curto, mas verdadeiro, e, surpresa, mais longo depois. Foi o momento em que algo dentro dele afrouxou de verdade.
Eles não se casaram. Não sentiam necessidade. Viajavam quando o dinheiro e a vontade permitiam. Bettina esculpia em madeira e pedra, vendendo onde estavam. Chuck passou a escrever contos curtos e dava aulas particulares pela internet para alunos que nem imaginavam quem ele tinha sido.
Às vezes, em noites especialmente quietas, ele ainda tinha pesadelos com a ilha e com tudo o que passou. Acordava suado, respirando rapidamente. Bettina apenas puxava o corpo dele para perto e esperava a respiração acalmar. Não perguntava. Não cobrava. Não precisava.
Num final de tarde, sentados na varanda com os pés na madeira quente, Chuck falou sem olhar para ela:
- Você me salvou, sabia?
Bettina soltou uma risada baixa:
- Eu não! Eu só te dei tempo para você se reencontrar. Você é quem decidiu usar esse tempo para ficar por aqui me enchendo o saco. – Ela gargalhou de verdade agora e o encarou, feliz: - Isso tem muita diferença, Chu. Muita mesmo...
Ele estendeu a mão. Ela entrelaçou os dedos nos dele. O sol descia vermelho sobre o oceano. O mesmo oceano que um dia o engolira e o devolvera. Agora apenas balançava na frente da casa, indiferente e constante:
- E aquela surubinha que eu te propus? Pensou a respeito?
- Essa história de novo, Bettina!?
- Ué!? Só se vive uma vez, Chu. Temos que aproveitar!
Eles riram juntos. Nunca fizeram nada. Chuck até desconfiava de uns sumiços muito esporádicos dela, mas nunca a cobrou. Nunca precisou, porque ela sempre voltava. E sempre estava lá quando ele precisava.
A verdade é que, ali no Pacífico, longe de todos, Chuck Noland aprendia, aos poucos, que sobreviver não era mais a única tarefa. Viver, mesmo com todas as imperfeições, mesmo com o corpo envelhecendo, mesmo com o desejo que às vezes ainda doía de tão vivo, também era necessário.
A história não terminou como eles quiseram. Nunca houve uma redenção completa. Mas ela seguiu, numa continuidade inesperada. E, para pessoas que haviam perdido tanto, continuidade já era uma forma de milagre.
[AGORA É O FIM, NANDA!]
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
