Antes de começar, é sempre bom relembrar.
Os Filhos da Floresta é uma história sobre sofrimento, decadência humana e sobrevivência. Sobre pessoas presas em um lugar que não deveria existir, tentando sobreviver em meio ao medo, à exaustão e à ausência de uma saída. Algumas precisarão escolher entre aquilo que consideram certo e aquilo que precisam fazer para continuar vivas. Algumas resistirão, outras quebrarão. E algumas descobrirão que sobreviver pode ser apenas outra forma de morrer aos poucos.
Nem sempre as decisões dos personagens serão certas, heroicas ou justificáveis. Pessoas exaustas, desesperadas e encurraladas não agem como agiriam em condições normais, principalmente quando estão tentando fugir, perseguidas por algo que não entendem.
Respeite a floresta.
Tenha foco.
Guarde cada detalhe.
Siga em frente por sua conta e risco.
E, acima de tudo... aproveite a leitura!
*
Os filhos da floresta - Capítulo 3: O sussurro dos condenados
Ato I
Permaneci observando o chão e as raízes absorvendo pouco a pouco o corpo. Tentei interferir, cavar a terra, cortar raízes. Mas eu não conseguia. A floresta não deixava.
Desisti, aquilo não levaria a lugar algum.
Segurei o revólver em uma mão e o taco na outra, ainda havia poucas balas. Eu não sabia quando encontraria outra munição, muito menos se teria outra oportunidade de conseguir armas. Depois do que havia acontecido na noite anterior, parecia cada vez mais evidente que eu precisaria delas. Por isso, era melhor economizar.
Um estalo seco cortou o silêncio. Um galho havia quebrado em algum lugar à minha frente. Girei o corpo imediatamente, o revólver subiu por instinto, enquanto apertei o taco com mais força. A floresta permaneceu imóvel, mas então, um ruído baixo de passos sobre folhas secas. Afastei um pouco o revólver do corpo e mantive os olhos fixos entre as árvores. Um lobo apareceu entre os arbustos, por alguns segundos, meu cérebro tentou encaixar aquela imagem naquilo que conhecia.
O animal estava vivo, mas seu corpo parecia ter passado dias apodrecendo. As costelas estavam completamente expostas de um dos lados. A pele havia desaparecido em grandes áreas, deixando músculos escurecidos e ossos à mostra. E, ainda assim, havia movimento, o peito se contraía. O coração podia ser visto entre as costelas, batendo em movimentos rápidos e irregulares.
Minha atenção subiu até a cabeça. Partes do crânio estavam completamente expostas. Vermes se contorciam entre os ossos, entrando e saindo das cavidades abertas. Restavam poucos pedaços de carne ao redor do rosto. Mesmo assim, ele me olhava com os olhos negros e parcialmente devorados pelos vermes. Não havia dúvida de que estava vivo. O animal baixou o corpo, os músculos restantes se contraíram, então avançou. Levantei o taco no instante em que ele saltou.
O golpe acertou a cabeça, que caiu, mas tentou se levantar. Continuei atacando até que ele finalmente parasse de se mover.
Outros lobos surgiram entre as árvores. Todos tinham a mesma aparência de mortos-vivos e avançaram contra mim um após o outro. Desviei das mordidas e patas, usando o taco para atingir suas cabeças. Os animais continuavam surgindo e tentando me cercar, mas consegui derrubá-los um por um, golpeando até que nenhum tivesse força para continuar.
Quando o último lobo parou de se mover, fiquei cercado pelos corpos. Estava ofegante e minhas mãos tremiam pela adrenalina. Olhei para o taco coberto de sangue escuro e depois para os animais espalhados pelo chão. Eu estava cansado, mas não aterrorizado. Havia algo estranhamente familiar naquela luta, como se meu corpo soubesse exatamente o que fazer. Eu não sabia quem havia sido antes de acordar naquela floresta, mas aparentemente alguma parte de mim sabia lutar.
Então retomei o caminho em direção à cabana do Velho.
Ato II
Depois de algum tempo caminhando, finalmente reconheci a cabana do Velho entre as árvores. A fumaça saía lentamente pela chaminé e desaparecia entre os galhos acima do telhado. Antes que pudesse bater, a porta se abriu. O Velho apareceu do outro lado e, assim que me viu, começou a rir.
— Olha só — ele apoiou uma das mãos no batente e me examinou dos pés à cabeça. — Você está me surpreendendo. Passou pela segunda noite e ainda está vivo.
Seus olhos desceram até as armas que eu carregava, o revólver preso à cintura e o rifle.
— E ainda conseguiu uns brinquedos interessantes.
— Por quanto tempo pretendia esconder de mim que também era um Perdido?
O sorriso desapareceu, o Velho ficou parado diante da porta, me encarando em silêncio.
— Você a encontrou, não é? — o Velho soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo rosto, por alguns segundos, pareceu tentar se controlar. — Se encostar um dedo nela, eu juro que eu mesmo mato você.
Respirou fundo.
— Entre.
Entrei na cabana logo atrás dele e fechei a porta atrás de mim.
— Senta.
Sentei em uma das cadeiras, o Velho permaneceu de pé por algum tempo, olhando para o chão.
— Eu não te devo explicações — ele puxou outra cadeira e se sentou à minha frente. — Mas você deveria ser grato pela ajuda que recebeu de mim.
Não respondi.
— Sim. Eu sou um Perdido, quando cheguei aqui, eu era apenas uma pessoa procurando alguma coisa — ele esfregou lentamente as mãos. — Só não conseguia lembrar o quê.
Olhei para ele, ele parecia menos irritado e mais cansado.
— Eu tentei descobrir. Passei muito tempo tentando. Mas quanto mais eu procurava, menos coisas eu conseguia lembrar. Vi muita gente morrer — a voz dele havia perdido completamente o tom de deboche. — Gente tentando fugir, gente tentando lutar, gente achando que tinha encontrado uma maneira de vencer a floresta.
Ele olhou para as próprias mãos.
— E eu não consegui fazer nada, ninguém consegue fazer nada contra essa floresta — ele ergueu os olhos para mim. — É melhor aceitar isso.
Fiquei em silêncio. Aquelas palavras eram muito diferentes do homem que havia me dado um mapa e mandado que eu sobrevivesse. Talvez aquela fosse justamente a diferença entre nós.
Eu ainda queria sair. Ele já tinha desistido.
— Enquanto a morte não chega — continuou. — A única coisa que resta é tentar sobreviver.
A conversa poderia ter terminado ali. Mas havia outro nome que eu precisava mencionar.
— E Kiev?
— O idiota do lança-chamas — o Velho soltou uma risada aguda e balançou a cabeça. — O sujeito realmente achava que conseguiria queimar a Raiz Negra.
Peguei o mapa que estava comigo e o coloquei sobre a mesa.
— Ele fez um lança-chamas improvisado — o Velho voltou a rir e apontou para uma das marcações. — E morreu antes mesmo de chegar perto da árvore.
Passei os dedos pelo desenho no mapa até encontrar a anotação.
“Raiz Negra, só chegue perto se quiser morrer da forma mais dolorosa possível.”
Apontei para aquelas palavras.
— O que é isso?
— Uma árvore, a porra de uma árvore enorme — ele apoiou os cotovelos sobre a mesa. — Ela vive em simbiose com uma massa de carne.
A imagem do mapa pareceu subitamente muito menos abstrata.
— Pessoas — o Velho fez uma pausa. — Tem pessoas presas nela, gritando e agonizando o tempo inteiro.
Meu estômago se contraiu.
— E se alguém tentar chegar perto — ele me encarou. — Enlouquece, não é como as outras coisas daqui. Você não chega perto, você olha e dá meia-volta.
Ele apontou para a cabeça.
— Alguma coisa acontece aqui dentro — bateu levemente com o dedo na própria têmpora. — Eu já vi pessoas rasgando a própria carne com as unhas só de ficar muito tempo olhando para aquela coisa maldita, e não param até morrer.
— Então é melhor ficar longe — olhei para o mapa novamente.
— É.
— E por que Kiev queria queimá-la?
— Porque ele acreditava que aquela árvore bloqueava uma saída — o Velho deu de ombros.
— Uma saída?
— Antes havia ruas, trilhas, caminhos que levavam para fora — seu dedo percorreu algumas partes do mapa. — Alguns caminhos simplesmente desapareceram.
— Então você não sabe se a Raiz Negra realmente bloqueia a saída.
— Não — ele ficou alguns segundos olhando para o mapa. — Mas pensando bem... talvez Kiev estivesse certo, talvez aquela coisa seja propositalmente tão perigosa para evitar que qualquer um saia daqui. Se você quiser apostar em alguma possibilidade de escapar, esse será o seu melhor cavalo.
Olhei para a anotação novamente. Quanto mais eu descobria sobre aquele lugar, menos parecia existir uma saída. Ainda assim, aquela era a primeira possibilidade concreta que alguém havia me dado.
— Se eu tentar chegar lá...
— Boa sorte, vai morrer.
— Existe algum jeito de chegar até ela? Sem enlouquecer?
Ele ficou em silêncio. Por alguns segundos, apenas me encarou, então balançou a cabeça.
— Talvez exista alguém... — ele puxou o mapa para mais perto. — Alguém que possa te ajudar.
O Velho estendeu a mão sobre a mesa e pegou o mapa. Ele o abriu completamente, pegou um lápis que estava sobre a mesa e começou a fazer alguns rabiscos. O caminho seguia para longe da região da Vila e avançava em direção às montanhas. Ele fez algumas curvas, contornou áreas marcadas no mapa e continuou desenhando.
— Isso passa pelas montanhas? — apontei para a trilha.
— Passa — ele continuou desenhando.
A linha chegava até uma das extremidades do mapa, onde não havia praticamente nenhuma outra anotação. Ali, ele parou, escreveu uma única palavra, Bruxa.
— Se quiser morrer, ela pode te ajudar.
— Quem é ela?
— É melhor descobrir sozinho — ele sorriu. — Não quero estragar a surpresa.
— Estou começando a ficar cansado dessas surpresas — suspirei.
— Mas já? Só está começando.
Peguei o mapa e comecei a dobrá-lo.
— Você encontrou alguma criatura? — o Velho apontou para o taco que estava encostado na cadeira onde eu estava sentado.
— Alguns lobos.
— Lobos? — ele ergueu as duas sobrancelhas, parecia surpreso, seus olhos foram novamente para o taco. — Está ferido?
— Não.
— Então você tem boas habilidades de luta — ele parecia genuinamente surpreso, pegou o taco e o examinou.
As marcas deixadas pelos golpes ainda estavam visíveis na madeira. Havia manchas escuras espalhadas pela superfície, algumas já secas.
— Já vi pelo menos uns três serem devorados por esses lobos — ele passou os dedos pelas marcas da madeira. — Você teve sorte.
Não achei que tivesse sido apenas sorte, mas também não sabia explicar o que havia acontecido. Durante a luta, meu corpo simplesmente sabia o que fazer, o Velho colocou o taco sobre a mesa.
— Posso melhorar isso — ele se levantou e foi até um canto da cabana, abriu uma caixa velha e começou a mexer dentro dela, depois de alguns segundos, voltou carregando um rolo de arame farpado. — Isso daqui vai ficar muito bom...
O Velho sentou-se novamente e começou a enrolar o arame ao redor da extremidade usada para golpear. O metal raspava contra a madeira a cada volta, ele apertava o arame com um alicate, prendendo cada trecho no lugar. As pontas afiadas ficavam projetadas para fora, formando uma superfície irregular que parecia muito mais perigosa do que antes. Depois de terminar, passou a mão pelo cabo e me devolveu a arma.
— Obrigado — segurei o taco e examinei o trabalho.
Guardei o mapa e ajustei as armas no corpo, eu já estava me preparando para sair quando ouvi a voz do Velho atrás de mim.
— Ei.
Parei e me virei, ele estava olhando para mim pela porta da cabana.
— Evite o celeiro no pé da montanha.
Olhei para o mapa, aquela região ficava justamente próxima da trilha que ele havia marcado.
— O que tem lá?
O Velho não respondeu, apenas manteve os olhos sobre mim.
— Não vale a pena nem chegar perto, vai por mim.
— Isso não responde à minha pergunta.
— Evite o grito da criatura — ele voltou a se sentar. — Se você provocar aquilo, vai conseguir mais inimigos.
Sabia que não iria conseguir arrancar mais nada dele, então apenas aceitei. Saí da cabana e fechei a porta atrás de mim. O ar do lado de fora estava mais frio, guardei o mapa e comecei a caminhar pela trilha que ele havia indicado. As montanhas apareciam ao longe entre as árvores.
O celeiro... o que será que havia lá?
Bom, se o Velho disse para ficar longe, deve ter motivos, eu deveria confiar mais nele, mesmo ele omitindo alguns fatos... o que importa aqui é a minha sobrevivência e como eu conseguiria sair dali, de preferência, vivo e inteiro.
Mas... precisava passar em um lugar primeiro.
Ato III
Segui pela floresta até a clareira onde havia encontrado a Caçadora. Encontrei o lugar vazio e procurei por ela entre as árvores, imaginando que talvez estivesse me observando. Depois de esperar algum tempo, desisti e me virei para continuar o caminho.
Ela estava parada bem atrás de mim.
Fiquei imóvel diante dela, sem que nenhum dos dois dissesse uma palavra. Era estranho encontrá-la novamente, talvez pela lembrança do que havia acontecido entre nós. A sensação daquela noite ainda parecia recente demais, deixando uma espécie de desconforto entre nós.
— Encontrei algumas fitas — falei baixo.
A mudança nela foi imediata, seus olhos foram direto para mim. Abri a bolsa e retirei as duas fitas que havia encontrado na antiga cabana de Kiev. Ela a pegou sem hesitar, como se tivesse medo de que eu mudasse de ideia. Por um instante, apenas ficou olhando para aquele pequeno objeto. Depois abriu a própria bolsa, retirou o toca-fitas, jogou a mochila na minha direção, peguei-a antes que caísse no chão.
— Pode pegar o que quiser.
A Caçadora se afastou, sentou-se perto de uma árvore e colocou uma fita no toca-fitas. A música começou a tocar. Por alguns instantes, ela pareceu esquecer que eu estava ali.
Aproveitei para vasculhar sua bolsa. Havia ferramentas, suprimentos e diversos objetos. Peguei algumas baterias para a lanterna, um relógio quebrado que ainda funcionava, comparei o horário com o que eu acreditava ser o correto, tudo parecia funcionar. Munições para o revólver e uma luneta bastante desgastada, mas ainda utilizável. Encontrei outras coisas que poderiam ser úteis, porém decidi não pegar mais nada. Já havia levado o suficiente.
Não sabia há quanto tempo aquele relógio permanecia funcionando, mas, naquele lugar, ter alguma noção das horas poderia ser mais importante do que parecia.
— Já peguei o que precisava.
A Caçadora não respondeu, continuou ouvindo a fita. Decidi esperar. A música chegou ao fim depois de algum tempo. O aparelho continuou emitindo apenas o chiado até que ela apertou o botão e interrompeu a reprodução. Ela ficou alguns segundos olhando para o toca-fitas, então passou a mão pelo rosto e enxugou algumas lágrimas. Guardou a fita e o aparelho, levantou-se e voltou até mim para recolher a bolsa.
— O que vai fazer agora? — ela olhou para mim depois de terminar de guardar as coisas.
— Preciso encontrar uma maneira de atravessar a Raiz Negra — suspirei, já premeditando todo o trabalho que isso iria dar. — Mas antes preciso descobrir como chegar perto dela. Se eu conseguir, posso tentar achar um jeito de sair... ou cortar... ou só queimar mesmo.
— Fogo — ela abaixou o olhar.
— Hum?
— Queimar seria melhor — ela olhou para as árvores ao redor. — Tudo nessa floresta parece temer o fogo.
Fogo? Tudo naquela floresta? Uma informação muito boa para passar despercebida. Acho bom lembrar disso quando precisar, isso é, se algum dia eu precisar. Kiev havia tentado usar fogo contra a Raiz Negra. Agora eu sabia que talvez ele não tivesse escolhido aquela arma por acaso.
O idiota do lança-chamas... não parecia ser tão idiota assim. Somente no ponto em que se lançou para a loucura.
— Você sabe como chegar perto dela?
— Não tenho... — ela parou e olhou ao redor. — Eu também quero sair daqui, estou cansada desse lugar...
Ela suspirou. Foi quando ouvimos um barulho vindo da floresta. Nós dois olhamos na mesma direção. Um homem surgiu, ele cambaleava com os braços levantados e as mãos se movendo freneticamente diante do próprio rosto. Parecia tentar afastar alguma coisa invisível. Os galhos cresciam em sua cabeça, atravessando a pele e se projetando para cima de maneira irregular. Alguns ainda tinham pequenas folhas presas às pontas.
Sua boca se mexia. Não conseguia entender o que dizia, mas pareciam murmúrios de lamento e agonia. Ele avançou mais alguns passos. A Caçadora já estava com o arco nas mãos. Puxou uma flecha. O homem mal teve tempo de perceber o que acontecia ao seu redor ou levantar o olhar. A flecha atingiu sua cabeça e ele caiu no chão.
— Fica atento — ela continuou olhando para a floresta. — Eles não andam sozinhos.
Outros homens surgiram entre as árvores. Todos tinham galhos crescendo de suas cabeças, alguns pequenos e irregulares, outros maiores, quase como extensões de seus próprios crânios. Seus movimentos eram lentos e descontrolados, mas pareciam mais agressivos que o primeiro. Alguns gritavam, enquanto outros avançavam diretamente contra nós.
Usei o taco para mantê-los afastados, enquanto a Caçadora disparava flechas atrás de mim, derrubando-os um por um. Sem precisar combinar nada, acabamos funcionando como uma dupla perfeita em combate, eu mantinha os homens longe e ela os eliminava. Quando o último caiu, fiquei ofegante, segurando o taco, enquanto a Caçadora parecia completamente tranquila e já começava a recolher suas flechas.
— O que eram eles?
— São Selvagens, eles estão infectados por alguma doença, algum tipo de praga — ela puxou uma flecha do corpo de um dos homens e limpou a ponta na roupa dele, ela se levantou. — Sozinhos são fáceis de lidar, mas em grupo eles podem ser um problema. Mata primeiro e pergunte depois.
— E essa praga?
— Você pode ficar tranquilo, as pragas e doenças daqui não parecem afetar os Perdidos — a Caçadora guardou o arco e começou a caminhar entre as árvores. — Boa sorte com a Raiz Negra.
Eu fiquei parado por alguns segundos, observando-a desaparecer na floresta. Depois segui pelo caminho oposto.
Ainda bem que ela era amigável, não queria tê-la como inimiga.
Ato IV
Segui pelo caminho indicado no mapa, mantendo os olhos atentos à trilha estreita que cortava a floresta. As árvores ficavam cada vez mais altas à medida que eu avançava em direção às montanhas. Ainda pensava no que o Velho havia me dito.
“Não chegue perto do celeiro.”
Continuei pela trilha sem me desviar, depois de algum tempo, um som atravessou a floresta, um grito. O som foi agudo, prolongado e distante. Fiquei imóvel, tentando descobrir de onde havia vindo. O silêncio voltou a ocupar a floresta, olhei para os lados esperando mais algum Selvagem, um lobo zumbi ou qualquer criatura grotesca.
Veio outro grito, dessa vez, consegui ouvir melhor. Foi seguido por um ruído abafado, como alguma coisa pesada sendo arrastada sobre madeira. Continuei andando, tentando me afastar da direção dos gritos. Porém, conforme avançava pela trilha, percebi que o caminho começava a se aproximar justamente da região que o Velho havia marcado no mapa.
Vi o celeiro, parcialmente escondido pela vegetação. Era uma construção grande, feita de madeira escura e envelhecida. Havia pessoas ao redor, reconheci alguns moradores da Vila.
Eles estavam espalhados pela área, mantendo distância uns dos outros. Alguns carregavam facas. Outros seguravam armas improvisadas, não estavam trabalhando. Estavam vigiando. Assim que me perceberam, dois deles levantaram as armas na minha direção.
— Para aí — um homem deu alguns passos para frente. — Volta.
— O que tem aí dentro? — olhei para o celeiro.
— Não é da sua conta, vai embora.
Olhei novamente para o celeiro, outro grito atravessou a madeira. Dessa vez, todos ficaram em silêncio, os moradores não demonstraram surpresa. Pareciam já estar acostumados, um deles apertou a arma com força.
— Se continuar aqui, você vai morrer.
Não perguntei mais nada, dei alguns passos para trás e me afastei da estrada. Os moradores continuaram me observando até que as árvores esconderam o celeiro da minha visão. Só então parei, o Velho havia me dito para ficar longe. Talvez, pela primeira vez, eu devesse simplesmente obedecer, não questionar, simplesmente obedecer. Mas os gritos continuavam, e eu queria saber o que estava acontecendo ali dentro.
Fui entre as árvores, contornei o celeiro. Caminhei agachado em alguns trechos para evitar ser visto pelos moradores. Depois de alguns minutos, encontrei os fundos do celeiro, não havia ninguém guardando ali. A parede traseira estava parcialmente coberta por trepadeiras. Uma das tábuas inferiores estava quebrada, deixando uma abertura estreita.
Passei pela abertura, o cheiro me atingiu imediatamente, era forte, quente, um odor de carne, sangue e alguma coisa apodrecida. Prendi a respiração e acendi a lanterna, a luz revelou um corredor estreito entre pilhas de caixas e ferramentas. Escutei vozes, vinham de algum lugar mais à frente. Apaguei a lanterna rapidamente e fiquei imóvel.
— Segura direito — a voz era de um homem.
Ouvi outro responder alguma coisa que não consegui entender, depois escutei um som metálico, uma lâmina sendo preparada. Avancei alguns centímetros e encontrei uma fresta entre duas pilhas de caixas. Consegui enxergar dois moradores e alguma coisa que não consegui identificar, essa coisa se mexia freneticamente e então, um grito cortou o celeiro, fechei os olhos por um instante. O som parecia que iria explodir a minha cabeça, era agudo, mas havia alguma coisa humana nele, a faca desceu, escutei o corte. Os homens começaram a recolher as coisas. Um deles limpou a lâmina em um pedaço de pano.
— Já deu por hoje.
— Melhor guardar.
Os dois começaram a caminhar na minha direção, me escondi atrás das caixas e segurei a respiração. Eles passaram a poucos metros de mim, senti o cheiro de sangue quando atravessaram o corredor. A porta se abriu e depois se fechou. Esperei alguns minutos, só quando tive certeza de que haviam ido embora voltei a respirar normalmente. Saí do esconderijo e continuei.
O cheiro piorou, a madeira sob meus pés estava úmida, olhei para o chão, havia manchas escuras espalhadas pelas tábuas. Algumas pareciam antigas e outras mais novas. Levantei a lanterna, o feixe de luz atravessou o espaço escuro até atingir uma parede no fundo.
Então alguma coisa se moveu, apontei a lanterna. Por alguns segundos, não entendi o que estava vendo. Havia uma criatura presa no interior do celeiro, seu corpo era pequeno para a quantidade de membros que possuía. Braços e pernas finos se espalhavam em posições impossíveis, alguns dobrados em ângulos que fariam qualquer corpo humano parecer quebrado. A pele era irregular, coberta por marcas e cicatrizes.
Seu rosto... não conseguia encontrar uma forma para descrevê-lo.
Era deformado, grotesco, não parecia pertencer a esse mundo. Partes da face estavam afundadas. Outras pareciam inchadas. A boca se abriu lentamente quando percebeu a luz. Dei um passo para trás, a criatura se contorceu e sangue preto esguichou dos ferimentos. Havia grandes partes de seu corpo onde a carne simplesmente não existia, um dos braços terminava antes da mão. Um pedaço do abdômen havia sido arrancado, ainda assim, ela estava viva.
Aproximei a lanterna, a criatura se encolheu, observei uma das feridas. No início, pensei que estava vendo errado, a carne se movimentou, devagar. Pequenos pedaços começaram a surgir no interior do ferimento. Fibras se estenderam umas sobre as outras. A pele cresceu por cima delas, fechando lentamente o espaço vazio. Fiquei olhando, incapaz de desviar os olhos, a regeneração continuou diante de mim, não era rápida, pude acompanhar cada segundo, cada pequena mudança, cada pedaço de carne que retornava ao lugar.
Dei mais um passo para trás, então a criatura ergueu a cabeça, o grito explodiu dentro do celeiro. Tapar os ouvidos não adiantou, o som atravessou meu corpo, dei meia-volta e corri. Passei pelo corredor, alcancei a abertura dos fundos e passei por ela de qualquer jeito. Caí na terra úmida, levantei imediatamente. Corri para dentro da mata sem olhar para trás, o grito continuou ecoando atrás de mim. Realmente, o Velho não estava tentando me assustar, dessa vez, o conselho valeu a pena. Do lado de fora, parei entre as árvores e me apoiei por alguns segundos em um dos troncos, tentando recuperar o fôlego.
O grito ainda parecia preso dentro da minha cabeça, passei a mão pelo rosto e respirei fundo antes de olhar novamente para o celeiro. Os moradores continuavam espalhados ao redor da construção. Alguns permaneciam próximos à entrada principal. Outros estavam mais afastados, observando a mata e a estrada. Nenhum deles parecia preocupado com o que acontecia dentro do celeiro.
Fiquei agachado atrás de algumas plantas e continuei observando, foi então que algo grotesco passou pela minha cabeça. Eles não estavam impedindo a criatura de sair, estavam impedindo que alguém entrasse. Se aquela coisa era tão perigosa quanto o Velho havia dito, por que os moradores simplesmente não a matavam?
E por que mantinham aquele lugar tão bem protegido?
Continuei escondido, observando. Em determinado momento, dois moradores se aproximaram da porta do celeiro, um deles olhou ao redor antes de entrar, o outro foi logo atrás, e a porta se fechou. Alguns minutos depois, os dois saíram, um deles carregava um pedaço grande de carne, o outro segurava dois pedaços menores.
Fiquei observando enquanto caminhavam pela estrada em direção à Vila. Pelo dom e pela dádiva do raciocínio humano, comecei a entender o que estava acontecendo. Me lembrei da Vila, da criança, quando estive lá, havia visto aquele pedaço de carne estranho nas mãos dela.
Os moradores estavam retirando pedaços do corpo dela, e ela estava regenerando tudo. Não era apenas uma criatura presa naquele celeiro, era alimento, uma fonte de carne, uma fonte que não acabava.
Pensei nas plantações que nunca cresciam, nas crianças. Nas pessoas que precisavam comer. Por mais repulsivo que fosse, aquilo fazia sentido naquele lugar, eles haviam encontrado uma maneira de sobreviver, não precisavam caçar constantemente. Eles foram forçados a isso, já que a floresta não deixava que nada crescesse além de árvores. Era a única fonte de alimento deles.
Mas pensar que eles chegaram na conclusão de associar aquilo como alimento...
Me afastei, voltei para a trilha. A imagem da criatura permaneceu na minha cabeça. Seus membros deformados, as feridas abertas, a carne crescendo novamente.
Então me virei e continuei em direção às montanhas, em direção à casa da Bruxa.
Ato V
Segui a trilha indicada pelo Velho, afastando-me cada vez mais do celeiro. A presença humana desapareceu, enquanto a vegetação se tornava mais densa, com árvores próximas, galhos cruzados e raízes cobrindo o caminho.
Descobri uma trilha estreita que não aparecia no mapa e a segui. Alguns metros adiante, encontrei uma pequena cabana escondida entre as árvores.
Diante dela, uma mulher estava sentada, aparentemente esperando por mim. Seu rosto estava coberto por um pano cinza com algumas manchas escuras. O pano tinha apenas uma abertura na altura do olho direito. Ela vestia uma túnica marrom, uma vestimenta diferente do que tinha visto até agora. Ela me observava através daquele pequeno buraco.
— Você é a Bruxa?
Ela não respondeu imediatamente, apenas continuou olhando para mim.
— O Velho me mandou.
— O Velho... — ela pronunciou o nome como se já o conhecesse havia muito tempo.
— Eu sou um Perdido — dei mais um passo.
— Não me importo.
— Preciso de ajuda.
— Hum...
— Quero atravessar a Raiz Negra.
— Perdidos... — ela abaixou a cabeça por um instante. — Todos vocês são idiotas. Não tem jeito.
Não respondi, ela levantou novamente o rosto.
— O que está disposto a sacrificar para sair daqui?
A pergunta me pegou desprevenido, fiquei em silêncio. Não sabia responder.
Minha vida?
Meu corpo?
Alguma coisa que eu nem sequer lembrava possuir?
— Você não sabe — ela percebeu a hesitação.
— Não.
Ela ficou me observando por alguns segundos.
— Você sabe o que é a Raiz Negra?
— O Velho comentou sobre ela.
— Comentou?
— É uma árvore enorme da qual ninguém consegue chegar perto.
— Você já a viu? — ela soltou outra risada.
— Não.
A Bruxa se levantou, sem dizer mais nada, entrou na cabana. Esperei do lado de fora, pouco depois, ela voltou carregando um binóculo. Passou por mim e começou a subir pela encosta.
Segui atrás dela. Subimos mais um pouco pela montanha. A trilha ficou inclinada e precisei usar as mãos em alguns pontos para me apoiar nas pedras e nas raízes. A Bruxa, apesar de ser um pouco debilitada, caminhava com facilidade. Depois de alguns minutos, chegamos a um ponto mais alto da montanha, havia poucas árvores ali. O espaço aberto permitia enxergar uma parte enorme da floresta. A Bruxa me entregou o binóculo.
Apontei para o horizonte, no começo, vi apenas árvores. A floresta se estendia até onde meus olhos conseguiam alcançar. Então encontrei o que ela queria mostrar.
A Raiz Negra.
Era muito maior do que eu havia imaginado, uma árvore gigantesca se erguia no outro extremo da floresta entre uma parede de árvores maciças, tão alta que parecia tocar o céu. Havia pessoas presas à árvore espalhadas pelo tronco. Outras estavam presas aos galhos. Seus corpos eram deformados, retorcidos e fundidos à madeira.
Algumas se contorciam, outras tentavam puxar os próprios corpos para longe do tronco. Nenhuma conseguia, quanto mais eu observava, mais pessoas encontrava, fora os braços, pernas e rostos balançando implacavelmente naquele amontoado de carne. Corpos inteiros parcialmente engolidos pela árvore.
Abaixei o binóculo, minha mão tremia. O Velho havia falado sobre uma árvore monstruosa, mas não achei que seria algo como aquilo.
— Agora você viu.
— É muito pior do que ele contou — olhei para ela. — É isso que eu tenho que atravessar para sair daqui?
— Ainda quer chegar lá, mesmo sabendo o que é?
— Sim — respondi sem hesitar, mesmo com o coração preenchido de medo.
— Quer atravessar? Queimar? Cortar? Perfurar? — ela inclinou a cabeça.
— Só quero sair daqui — respirei fundo. — Eu preciso sair daqui.
Ela ficou me encarando por alguns segundos, então começou a descer a montanha. Fui atrás mesmo sem o convite, voltamos para a cabana. Quando chegamos, a Bruxa entrou e sentou-se novamente na frente da casa. Por algum tempo, ficamos em silêncio.
— Sabe, eu já vivi na Vila antes de me chamarem de Bruxa.
— E por que veio para cá?
— Mexi com a floresta — ela passou os dedos pelo pano que cobria o rosto.
— E você descobriu alguma coisa?
— Descobri que existem consequências para quem tenta interferir, uma praga recaiu sobre mim quando fui longe demais.
— O que você descobriu?
— Observo este lugar há muito tempo, aprendi coisas que os moradores da Vila não sabem.
— Por que não conta para eles?
— Porque eles não aceitariam — ela riu. — Provavelmente me matariam.
Ela disse aquilo sem demonstrar medo, como se já tivesse aceitado essa possibilidade há muito tempo.
— Mas posso fazer um acordo com você — ela se levantou. — Posso ajudar você a chegar à Raiz Negra.
— E o que quer em troca?
— Quero que mate a Mãe — ela virou o rosto em direção onde ficava o celeiro.
A imagem da criatura no celeiro voltou imediatamente à minha cabeça. Os braços finos, as pernas deformadas, a carne sendo arrancada.
— Aquela coisa no celeiro?
— Sim.
— Por quê?
— Porque se ela morrer, a Vila inteira vai morrer de fome.
— É algum tipo de vingança contra a Vila?
— Vingança? — a voz da Bruxa mudou. — Não. Eu só quero que eles sintam as consequências do que fizeram.
Ela respirou fundo.
— Aquela gente não se importa com ninguém além deles mesmos. São egoístas, hipócritas... vivem cuspindo no mesmo prato que os alimenta e depois fingem que não devem nada a ninguém.
A voz dela ficou mais amarga.
— Eles merecem tudo o que vier. Que se afoguem na própria merda.
Fiquei em silêncio, a imagem da criança comendo aquele pedaço de carne voltou à minha cabeça. Como eu poderia tirar a única fonte de alimento daquelas pessoas?
Em troca eu teria ajuda para chegar a Raiz Negra e, então?
Nem sei se eu conseguiria realmente sair dali, isso não seria egoísmo?
Se eu matar aquela coisa, a Vila entraria em colapso, a única fonte de alimento— Como eu mato a Mãe? — me levantei, ajeitando o rifle, o revólver e o taco.
A Bruxa virou o rosto na minha direção, seu único olho visível parecia ainda mais escuro por trás da abertura do pano.
— Esmague a cabeça — ela respondeu sem hesitar.
