Às vezes, fazemos as coisas no calor do momento e depois nos arrependemos. Era exatamente isso que iria acontecer comigo se Nicole não tivesse gritado e se jogado em meus braços, me impedindo de ir para cima de Laura. Aquilo poderia ter causado um estrago enorme na minha vida. Porém, Nicole me impediu, me levou até meu carro e me acompanhou até meu apartamento, praticamente me proibindo de dirigir naquele estado.
Eu realmente não estava em condições de dirigir. Estava tão cheia de raiva que minhas mãos tremiam, e conforme o carro se afastava do hotel, essa raiva foi se dissipando, dando lugar a uma tristeza profunda. Não sei exatamente quando comecei a chorar, mas, quando percebi, já estava em lágrimas. Não era um choro compulsivo ou escandaloso; era um choro silencioso, contido, mas extremamente doloroso. Nicole só percebeu que eu estava chorando muito tempo depois. Ela se assustou e perguntou se estava tudo bem. Eu disse que não, mas que iria ficar bem, que ela não precisava se preocupar, e que nem sabia o motivo das minhas lágrimas. Mas logo elas iriam cessar.
Quando chegamos ao prédio, expliquei a Nicole onde era minha vaga. Ela estacionou e, assim que saímos do carro, veio me entregar a chave. Seguimos até a entrada do prédio, onde Nicole tentou chamar um táxi, mas eu a impedi. Sugeri que ela dormisse no meu apartamento e que, no dia seguinte, eu a levaria até o dela. Ela concordou e passou a noite ao meu lado. Eu estava tão cansada mentalmente que nem conversamos direito sobre o que havia acontecido. Apenas tomamos um banho e caímos na cama. Foi bom ela ter ficado; nesses momentos, é sempre bom ter uma pessoa querida ao lado. Acabei dormindo abraçada a ela e só fui acordar às nove da manhã.
Já mais calma, preparei um café para nós duas, e Nicole quis saber o que tinha acontecido antes dela chegar e ver Laura gritando comigo. Expliquei tudo, e ela disse que jamais esperava que Laura agisse daquela forma. Ela falou que a partir daquele momento, ela queria distância de Laura e de suas reuniões. Concordei, e disse que também nunca mais me envolveria em nada relacionado a Laura e que iria devolver o dinheiro que ela me deu, além de pagar pelos móveis e pelo computador. Nicole disse que eu não precisava fazer isso, que se ela deu, estava dado. Que eu seria muito boba se fizesse isso.
Nossa conversa seguiu, e um pouco antes das dez horas, Raquel me ligou perguntando se eu estava bem. Respondi que sim e perguntei o motivo da pergunta. Raquel disse que uma amiga dela, que estava na reunião com o marido, contou que algumas coisas estranhas aconteceram e que eu e Nicole saímos mais cedo. Expliquei que tínhamos brigado com Laura e que, quando nos víssemos, contaria os detalhes. Raquel disse que estava indo me ver, só iria esperar Sandra sair do banho, e elas viriam ao meu apartamento.
Como não iria conseguir ver minha família, liguei para Tamires e perguntei se ela poderia ficar com Manu o resto do dia. Ela disse que ficaria sem problemas e perguntou se estava tudo bem. Eu disse que tinha acontecido algumas coisas, mas que eu estava bem e que, à tarde, buscaria Manu e explicaria tudo.
Sandra e Raquel chegaram enquanto eu terminava de preparar um almoço para nós quatro. Nicole decidiu ficar e, depois, iria embora com elas. Ela queria contar sua versão da história e facilitar as coisas para mim, já que eu não precisaria mais levá-la.
Sentamos para almoçar na copa, e Nicole tomou a frente, começando a contar o que havia acontecido até o momento em que saímos do prédio. Sandra estava com uma expressão de espanto, mas Raquel parecia estar com muita raiva. Ela ficou revoltada ao ouvir tudo que tinha ocorrido.
Raquel começou a xingar Laura de nomes que eu nunca imaginei que sairiam da boca dela. Ela se transformou em uma leoa enfurecida. Ainda na mesa, ela pegou o celular e ligou. Imaginei que era para Laura e pedi para ela não fazer aquilo, mas Sandra segurou minha mão por cima da mesa e apenas fez um sinal para eu não interferir. Raquel tentou ligar umas três vezes, mas a ligação não foi atendida, o que só a deixou mais chateada. Então, ela mexeu no celular e se aproximou da boca, provavelmente para gravar um áudio, e foi exatamente isso que fez.
Raquel— Eu sei que você viu minhas chamadas e não quis me atender. Mas você vai me ouvir e prestar bastante atenção no que vou te falar, porque só vou falar uma vez. Se você não levar isso a sério, da próxima vez que me ouvir, será em um tribunal, na frente de um juiz.
—Nós batalhamos muito para construir um lugar seguro para nós e você destruiu isso ao levar pessoas que não são do nosso círculo e sem a autorização dos outros. O pior é que você trouxe um abusador para dentro do nosso lugar seguro. Além disso, ainda protegeu esse abusador e tentou forçar uma mulher lésbica a dormir com ele. Você extrapolou todos os limites possíveis e isso não vai ficar assim. Vou contar a todas do nosso círculo o que aconteceu; as mulheres vão adorar saber o que você tentou fazer com as meninas.
—Outra coisa, eu quero que você devolva todo o dinheiro meu e de Sandra que ainda resta com você. Quero esse dinheiro na minha conta até segunda-feira à tarde. Nossa parte na mansão pode ficar com você; ela vale muito mais do que todo o dinheiro que você gastou com Camila e Nicole. Dito isso, nenhuma delas te deve mais nada; na verdade, nunca deveram, mas mesmo assim faço questão de pagar.
—Para finalizar, não nos procure, não nos ligue, finja que morremos e nunca mais cruze o caminho da Camila ou da Nicole. Se você quer se transformar em uma cafetina e montar um bordel, procure suas prostitutas em outro lugar, porque as duas não são como você. Se você não me ouvir, eu juro que vou processá-la tanto que seus advogados terão trabalho pelos próximos cinco anos. Você está avisada; você me conhece muito bem e sabe do que sou capaz, então não duvide de mim. Passe bem.
Quando Raquel terminou, eu estava de boca aberta e um pouco assustada com tudo que ouvi. Nicole estava mais pálida do que o normal, mas não parou por aí. Raquel continuou mexendo no celular e, depois de um tempo, começou a gravar outro áudio. Ela dava explicações sobre tudo que havia ocorrido na noite passada, depois explicou a atitude que havia tomado e enviou. Disse que tinha enviado para todas as suas amigas do círculo e que logo a história se espalharia, e cada uma das mulheres decidiria o que fazer. Eu apenas disse que tinha entendido; sinceramente, eu estava com um pouco de medo de Raquel naquele momento.
Aos poucos, os ânimos foram se acalmando, e Sandra me explicou que todo mês elas faziam um depósito generoso para Laura, que era para pagar bebidas e o aluguel do local das reuniões. Porém, se a pessoa fizesse o depósito e não fosse, o dinheiro seria usado na próxima reunião. Como elas não foram e não iriam mais, Raquel pediu o dinheiro de volta.
Ela explicou que a parte da mansão valia uma boa quantia, mas como estava no nome de uma empresa, não havia como vender ou transferir apenas essa parte para o nome de alguém. Ou seja, elas de todo jeito iriam perder esse dinheiro, mas não havia como Laura colocar as mãos nele. A dona da empresa era uma empresária muito honesta; Laura não teria direito a nada na mansão, a não ser que a empresária autorizasse a venda e desse o dinheiro a ela. Raquel pagou nossa "dívida" com um dinheiro que dificilmente Laura conseguiria acessar.
Agradeci às três por tudo que estavam fazendo por mim e me desculpei por elas terem brigado com uma amiga de tantos anos por minha causa. Eu realmente estava me sentindo mal por isso, mas Sandra disse que não era por minha causa; era por causa do que Laura fez. Infelizmente, eu e Nicole estávamos envolvidas, mas não tínhamos que nos culpar por nada. Raquel comentou que ficou com raiva pelo que fizeram conosco, mas não era isso. Tanto elas quanto várias outras pessoas ajudaram muito a Laura durante todo esse tempo, tudo para ter um lugar seguro onde todos pudessem ser quem eram sem serem julgados. Laura destruiu tudo por algum motivo egoísta, o que a deixou muito irritada. Todo o esforço de várias pessoas jogado fora por causa de alguém egoísta.
A conversa durou bastante tempo, mas todas tinham algo em comum: não entendiam por que Laura estava agindo daquela maneira. Raquel disse que a conhecia há muitos anos e nunca imaginou que ela seria capaz de fazer algo assim. Sandra sugeriu que provavelmente ela estava passando por algum problema, talvez financeiro ou no trabalho, e que estava desesperada, por isso fez besteira. Concordamos que essa era a opção mais provável, mas não tínhamos certeza de nada, já que a vida pessoal de Laura era um mistério; ela não falava sobre essa parte de sua vida.
Raquel e Sandra foram embora e levaram Nicole. Antes de ir, disseram que, se eu precisasse de algo, era só avisar. Agradeci e prometi dar notícias à noite.
Depois que Raquel mandou o áudio para as mulheres amigas dela, comecei a receber algumas mensagens de apoio. Respondi algumas, mas depois resolvi desligar o celular. Estava grata pelo apoio, mas sem cabeça para ficar explicando os detalhes do que havia acontecido. Achei melhor deixar para responder com a cabeça mais fria.
Fui buscar Manu à tarde e acabei ficando na casa da Helena até tarde. Conversei bastante com ela e seu Geraldo e, depois que Manu dormiu, fui contar a Tamires o que tinha acontecido. Ela ficou revoltada, mas contei sobre o que minhas amigas tinham feito, e ela se acalmou um pouco. Perguntou o que eu iria fazer da vida dali para frente, e eu disse que ainda não sabia, mas que iria pensar com calma antes de tomar qualquer decisão. Porém, tinha certeza de que, mesmo que os encontros continuassem de alguma forma, eu não iria mais participar.
Fui embora sozinha, não tive coragem de acordar Manu e, além disso, não havia necessidade de fazer isso. Na segunda, fui para a faculdade com Tamires, já que não havia necessidade de irmos em carros separados. A aula acabou mais cedo, e eu estava em casa antes das onze da manhã. Liguei meu outro celular e respondi a todas as mensagens de apoio. Retornei algumas ligações perdidas e fiquei com o coração quentinho pelo carinho e apoio que recebi do pessoal.
Na parte da tarde, recebi uma notificação do banco: Laura havia enviado meu pagamento. Não sabia como reagir ao ver aquilo, então achei melhor não pensar muito a respeito. Nicole mandou mensagem cinco minutos depois dizendo que tinha recebido também. Não entendi o porquê, mas, sinceramente, não queria saber. O dinheiro seria útil, então que ela se dane.
Com o tempo passando, após dez dias, Sandra me disse que ninguém sabia de Laura. No entanto, ela entrou em contato com Marcelo, que disse que Laura estava bem, mas não iria mais se envolver nos encontros e iria focar no trabalho. Dias depois, Sandra me disse que Laura realmente devolveu o dinheiro e entregou as chaves da mansão para a empresária dona da empresa a qual a casa pertencia. Mas, pelo que Sandra sabia, ela não falou com ninguém pessoalmente ou por telefone; apenas mandou mensagens para algumas pessoas que precisavam de instruções.
Sandra disse que ela dispensou as meninas e o barman, mas o pessoal estava tentando mantê-los por perto, já que alguns planejavam continuar as reuniões, mas com outra pessoa no comando. Sugeri que deixassem Nicole no comando; Sandra disse que já tinha pensado nisso e iria verificar com o pessoal, depois me avisaria. Ela perguntou se eu continuaria participando caso Laura não estivesse mais envolvida. Respondi que iria pensar e decidir depois que eles resolvessem tudo.
Se passaram 20 dias desde a confusão, e eu ainda não tinha decidido o que faria da vida. Sandra também não tinha me dado mais informações se as reuniões continuariam ou não. Não tive mais notícias de Laura; pelo jeito, ela havia realmente desistido de sua vida antiga. Dias depois, Ítalo, que já sabia do que aconteceu, me ligou e disse que tinha falado com Laura. Ele comentou que se comunicaram por causa de alguns negócios, mas que ela mencionou ter feito besteiras e se afastado de tudo. Ítalo não perguntou o que aconteceu, pois com certeza Laura já sabia que eu tinha contado a eles. Agradeci a ele por ter me contado e disse que torcia para que Laura voltasse a ser a mulher que era, pois essa versão dela só trouxe problemas para ela e para as pessoas ao seu redor.
Três dias depois, numa sexta-feira, eu estava deitada no sofá sem nada para fazer quando recebi uma mensagem no WhatsApp. Ao ver a notificação e perceber que era de Laura, até me sentei para ler a mensagem. Não fazia ideia do que ela ainda queria comigo, mas não tinha como não abrir; a curiosidade falou mais alto. Quando li, fiquei sem saber o que responder. Laura pedia para nos encontrarmos no dia seguinte, dizendo que precisava falar comigo e que era importante.
Pensei e repensei naquele convite. Depois de tudo que aconteceu, eu não tinha nada para conversar com ela. Foi exatamente o que eu respondi a ela: disse que depois de tudo que houve, não tínhamos nada para conversar. Laura, após um tempo, mandou outra mensagem: disse que queria se desculpar pelo que houve e apenas queria uma chance para se explicar. Antes que eu pudesse responder, ela mandou outra mensagem pedindo encarecidamente uma oportunidade.
Não sabia se aquilo seria uma boa ideia, mas, no fundo, sentia que devia pelo menos isso a ela. Mesmo depois de tudo, não esqueci as coisas boas que ela fez por mim, nem os bons momentos que vivemos. Então perguntei onde ela queria me encontrar, mas deixei claro que só iria em um lugar público. Ela sugeriu um restaurante, concordei e pedi o endereço e horário. Ela me passou as informações, e mesmo com um pé atrás, estava ansiosa para vê-la, provavelmente por causa da curiosidade de saber o que tinha acontecido com ela.
Não sabia o que esperar daquele encontro, mas eu sabia que seria muito estranho. Porém, o que realmente aconteceu, eu jamais poderia imaginar.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
