CAPÍTULO 06 – Lie To Me
Quando entrou, a primeira coisa que viu foi Carmem.
Ela estava descontrolada, o rosto vermelho, os cabelos desalinhados, tentando se desvencilhar do policial que a segurava pelos braços.
— Eu peguei os dois! — gritava. — Eu vi! Eles estavam juntos! Dentro da minha oficina!
Cristiane estava alguns metros adiante. Assustada, de olhos arregalados. Tinha um pequeno corte no canto da boca e uma marca avermelhada no braço e outra no rosto. Quando viu Leandro, baixou os olhos.
Foi o suficiente.
Leandro sentiu alguma coisa se partir dentro dele, mas ninguém percebeu. Nem mesmo ele quis admitir o que tinha acabado de sentir.
Carlão permanecia imóvel, pálido, olhando ora para Carmem, ora para o policial e, por fim, para Leandro.
— Não é nada disso, Leandro. Você precisa acreditar em mim. Foi um mal-entendido. Não aconteceu nada entre mim e a Cristiane.
Carmem soltou uma gargalhada amarga.
— Mal-entendido? Você acha que eu sou idiota?
Leandro não respondeu.
Apenas caminhou até Cristiane.
Ela levantou os olhos para ele, assustada.
E Carmem ainda gritava.
— Essa daí é uma puta mesmo!
Um dos policiais segurava o braço dela, mantendo-a afastada de Cristiane.
— Senhora, acalme-se. Já chega.
Carmem tentou avançar novamente.
— Eu quero falar com ela!
O policial a conteve.
— A senhora não vai encostar nela novamente.
Leandro finalmente perguntou
— Você está bem?
Cristiane levou a mão ao canto da boca e fez uma pequena careta.
— Estou... acho que sim.
Leandro olhou para o ferimento.
— O que aconteceu?
Ela respirou fundo.
— Ela veio para cima de mim.
Leandro olhou para Carmem. Seu rosto endureceu.
— Você machucou a Cristiane?
Carmem respondeu aos gritos:
— Ela veio aqui na oficina, se oferecer para o Carlão!
Carlão baixou a cabeça. Leandro olhou para ele.
Não havia muito o que perguntar.
Um dos policiais se aproximou de Cristiane.
— A senhora precisa de atendimento médico?
Cristiane hesitou.
— Não. Eu só quero ir embora.
O policial fez sinal para eles não irem embora ainda:
— Como houve uma agressão, nós vamos registrar o atendimento da ocorrência. A senhora também deve procurar a Polícia Civil para fazer o registro formal do boletim de ocorrência e relatar também para eles tudo o que aconteceu.
Cristiane assentiu.
— Eu tenho que ir hoje?
— É recomendável que a senhora faça o quanto antes. Leve seus documentos e, se tiver fotografias das lesões ou outras provas, também pode apresentar.
Leandro olhou para Carmem, que permanecia alguns metros distante, ainda nervosa.
— E ela?
O policial respondeu com calma:
— Nós também vamos ouvir a versão dela. Depois vamos verificar as circunstâncias da ocorrência e tomar as providências cabíveis.
Leandro colocou a mão em seu ombro.
— Eu estou com você.
Carmem ainda discutia com o outro policial.
— Ela é uma piranha! Vocês não entendem? E esse meu marido é um traste!
— Nós entendemos que a senhora está nervosa — respondeu o policial. — Mas isso não dá direito de agredir ninguém.
Carlão finalmente tentou falar.
— Carmem...
Ela virou-se para ele.
— Não fala comigo!
Carlão fechou a boca.
Os policiais terminaram de pegar o depoimento de Cristiane, e então ela segurou discretamente o braço de Leandro.
— Vamos embora daqui.
Leandro assentiu.
Antes de sair, porém, olhou uma última vez para Carlão.
O homem estava parado no meio da oficina, sozinho. Leandro então acompanhou Cristiane para fora.
Atrás deles, a voz de Carmem ainda podia ser ouvida.
— Você é um traste, safado Carlão! Só porque a menina é bonita e gostosinha!
Na rua, o barulho foi ficando distante à medida que caminhavam. Cristiane olhava para o chão em silêncio.
Leandro caminhava ao lado de Cristiane, mas os dois pareciam estar em mundos diferentes.
A oficina já ficara para trás, mas a cena continuava diante dos olhos dele.
Leandro sabia que Cristiane tivera um envolvimento com Carlão e que o menino era filho biológico dele.
Quando Junior nasceu, simplesmente decidiu ser o pai. Mas ali algo parecia ter se quebrado.
Talvez tivesse confundido amor com certeza. Talvez tivesse transformado uma escolha em uma verdade conveniente. O menino crescera chamando-o de pai, e Leandro aprendera a acreditar que isso bastava para apagar todo o resto.
Aquela cena tinha feito algo que nenhuma suspeita conseguira fazer: mostrara que Carlão não pertencia apenas ao passado de Cristiane.
Ainda existia alguma coisa ali.
E, de repente, a mentira que Leandro contava a si mesmo estava ficando insustentável.
Carlão é o pai biológico do Junior.
A frase surgiu em sua cabeça, nua, sem desculpas.
Ele poderia chegar em casa e contar tudo.
Poderia finalmente perguntar por que Cristiane continuara procurando Carlão depois de tantos anos.
Mas então pensou no menino.
Junior não conhecia outra realidade.
Para ele, pai era o homem que o colocava para dormir, que brincava com ele, que aparecia quando precisava.
Leandro não sabia o que seria mais cruel: continuar escondendo a verdade ou obrigar uma criança a descobri-la de uma vez.
E havia Carlão: um homem casado, com a própria vida construída.
Leandro não conseguia imaginar aquele homem entrando repentinamente na vida de Junior e assumindo o lugar que, na prática, nunca ocupara.
Chegaram a uma esquina e Cristiane continuava calada.
Leandro percebeu que ela também carregava alguma coisa naquele silêncio.
Cristiane não conseguia deixar de pensar no olhar de Leandro quando ele a encontrara na oficina.
Ele não perguntara tudo: talvez fosse justamente isso que a assustasse.
Ela conhecia Leandro o suficiente para saber que aquele silêncio não significava ignorância. Significava que ele estava juntando as peças.
Durante anos, Cristiane conseguira manter as duas partes de sua vida separadas. Carlão pertencia a um passado que deveria permanecer enterrado; Leandro e Junior, ao presente.
Agora as duas coisas tinham colidido, e ela estava pensando em contar tudo, se livrar daquele peso.
Talvez fosse a hora de acabar com a mentira.
Mas imaginou Junior ouvindo a verdade.
O menino adorava Leandro. Nunca tivera motivo para duvidar de que ele fosse seu pai.
Como explicar que a certidão contava uma história e o sangue, outra?
Como explicar que ela mentira?
E, depois, havia Carlão.
Cristiane sabia que não poderia simplesmente apresentar o filho a ele como se aqueles anos não tivessem existido. Carlão era casado. Tinha uma família. Assumir Junior significaria abrir uma ferida em duas casas.
Não sabia se estava tentando proteger o filho ou apenas adiando o momento em que todos pagariam pela verdade.
Quando chegaram em casa, ouviram uma música alta vinda do imóvel vizinho, Lie to Me do Bon Jovi
🎶 It's a bitch, but life's a 🎶 roller coaster ride 🎢
🎵 The ups and downs 🎵 will make you scream sometimes
🎶 It's hard believing 🎶 that the thrill is gone 🥀
🎵 But we got to go around again 🎵 so let's hold on
— Você quer conversar?
Cristiane olhou para ele.
A resposta estava presa na garganta.
— Quero.
Ele esperou. Ela também. Nenhum dos dois continuou.
Na porta de casa, ouviram a voz de Junior vindo da casa da frente.
— Papai!
Junior entrou correndo e se agarrou às pernas de Leandro.
Logo atrás apareceu a mãe de Cristiane, sorrindo.
— Ele ficou todo alegre quando ouviu sua voz! — disse ela. — Foi uma surpresa você chegar tão cedo.
Mas o sorriso dela durou pouco.
Ao olhar para os dois, percebeu que havia alguma coisa errada. Leandro permanecia calado, com o rosto fechado. Cristiane também não dizia nada. Os dois pareciam tensos, como se estivessem carregando uma conversa que ela não deveria ouvir.
— O que aconteceu?
Cristiane evitou seu olhar.
— Mãe, a gente precisa conversar a sós. Você pode levar o Junior de volta, por favor?
A mulher ficou parada por alguns segundos, olhando de um para o outro.
Então seus olhos se fixaram no rosto da filha.
— Cristiane... essa marca aí...
Ela deu um passo à frente, examinando a mancha vermelha.
— O que aconteceu com você?
Cristiane rapidamente levou a mão ao rosto.
— Depois conversamos, mãe.
A resposta curta, quase ríspida, pareceu confirmar que havia algo muito mais sério por trás daquele silêncio.
A mãe ainda olhou para Leandro, como se esperasse que ele dissesse alguma coisa. Ele, porém, permaneceu calado.
Ela não insistiu.
Abaixou-se para pegar Junior no colo.
— Vamos, meu amor. Vamos voltar para a casa da vovó.
Junior se agarrou às pernas do pai.
— Não! Eu quero ficar com o papai!
— Vamos, Junior...
Ela tentou afastá-lo, mas ele começou a chorar.
— Quero o papai!
A mãe acabou carregando-o à força, enquanto ele se debatia e estendia os braços para Leandro.
— Papai!
Leandro sentiu um aperto no peito.
Ficou imóvel, vendo o filho ser levado para a casa da frente aos prantos.
A mãe de Cristiane não olhou para trás.
Desta vez, não havia mais sorriso em seu rosto.
Quando ficaram a sós, Leandro perguntou: — O que aconteceu lá na oficina, Cristiane?
Ela demorou a responder, como se escolhesse cuidadosamente as palavras. Quando finalmente tomou coragem, disse: — Olha, Leandro, vou te contar a verdade.
O coração dele disparou. Naquele exato momento, o som alto da casa vizinha voltou a invadir o ambiente com os versos de Lie to Me, do Bon Jovi:
♪ ♫ If you don't love me, lie to me 'Cause, baby, you're the one thing I believe ♫ ♪
(Se você não me ama, minta para mim, porque, baby, você é a única coisa em que eu acredito.)
Cristiane respirou fundo: — O que aconteceu foi que a Carmen viu coisa onde não tem. Ela é ciumenta e exagerada... Não aconteceu nada na oficina.
— Eu acredito em você — respondeu Leandro, finalmente aliviado.
Cristiane respirou fundo, como se tivesse acabado de escapar de alguma coisa. Aproximou-se dele e o abraçou.
Leandro correspondeu e fechou os olhos.
E, naquele instante, decidiu não pensar.
Não pensar no que havia acontecido dentro daquela oficina. Não pensar no que Carmem tinha visto. Não pensar na expressão de Carlão quando seus olhos se encontraram.
Não pensar em nada.
Porque acreditar nela era mais fácil do que acreditar naquilo que seus próprios olhos lhe diziam.
Talvez, no fundo, ele soubesse que estava mentindo para si mesmo.
Mas havia uma mentira que ainda podia suportar. A verdade, não.
E enquanto Cristiane permanecia abraçada a ele, Leandro apertou-a contra o peito, como se pudesse impedir que ela escapasse.
Como se pudesse impedir que a verdade escapasse também.
Se ela não o amava, que mentisse.
Se tudo aquilo que ele mais temia fosse verdade, que ela negasse.
Leandro se aproximou, amparou-a pelos ombros e a conduziu com cuidado até a sala, acomodando-a suavemente no sofá. Tirou toda a sua roupa
— Deixa eu ver onde dói — disse ele, ajoelhando-se ao lado do estofado.
Enquanto examinava o corpo dela em busca de marcas, seus olhos pararam nos seios de Cristiane. Um dos mamilos estava visivelmente vermelho e inchado, começando a ganhar um tom arroxeado. Leandro franziu a testa, tocando a região com extrema leveza.
— Como ela fez isso? — perguntou, sem erguer os olhos.
Cristiane soltou um suspiro pesado, desviando o olhar por um segundo antes de responder:
— A Carmem... Ela apertou e torceu o mamilo por cima da roupa.
Na verdade, quando Carmem apertou os seios de Cristiane, ela estava nua, mas não podia contar isso para Leandro.
Leandro paralisou por um instante. Achou estranho, aquele tipo de movimento não fazia o menor sentido. Carmem estava com raiva, disse que havia flagrado Cristiane com seu marido. Achou estranho Carmem torcer o mamilo de Cristiane.
Mas de qualquer forma, olhou para Cristiane com um misto de preocupação e ternura, ele segurou seu seio e com delicadeza, e deu um beijinho suave sobre o mamilo.
— Pronto — murmurou com um sorriso acolhedor, tentando aliviar o peso da atmosfera. — Um beijo para sarar.
Deitada no sofá, com os olhos fechados, Cristiane ignorou a dor pulsante e deixou que a memória da tarde invadisse sua mente, reconstruindo cada segundo daquela confusão.
A verdade é que a carência a tinha levado até lá. Leandro passava dias inteiros fora, distante, e a falta de pegada, de um sexo mais intenso fez com que ela procurasse Carlão.
Leandro se esforçava para lhe dar prazer, tentando assumir uma postura mais bruta, mais agressiva. Mas aquilo não lhe vinha naturalmente. Por mais que tentasse, havia sempre algo de forçado em seus gestos, porque, no fundo, Leandro era mais sensível. E além disso estava quase sempre sem tempo para ela.
Carlão, por outro lado, não precisava se esforçar para ser bruto. Aquilo fazia parte dele. Era naturalmente rude, grosseiro, um verdadeiro ogro — como todos costumavam dizer.
Procurando um pouco de sexo intenso, ela fora até a oficina. O plano era simples e rápido: aproveitar o horário de almoço, quando a maioria dos funcionários estava fora, e dar uma rapidinha com Carlão no escritório particular dele.
Ela só não contava com Carmem.
Carmem tinha a chave da sala e entrou sem avisar, pegando os dois no flagra.
Carmem flagrou os dois nus. Carlão comendo a sua bucetinha e lhe dando uns tapas na bunda.
A reação de Carmem foi violenta e imediata: um tapa estalou no rosto de Cristiane antes que ela pudesse reagir. Em seguida, Carmem se jogou sobre ela, agarrando-a com fúria. Foi preciso que Carlão agisse para puxar Carmem de cima e contê-la, dando a Cristiane alguns segundos preciosos para vestir a roupa.
Foi naquele momento que ela percebeu que Carlão havia tirado a camisinha, sem que ela percebesse.
“ Não tem graça nenhuma com essa capa” , dizia ele
Era assim que Carlão tratava as coisas. Ignorava limites, transformava suas vontades em regra e parecia não compreender — ou simplesmente não se importar — com as consequências para os outros.
Do lado de fora, o barulho da briga chamou a atenção de um funcionário, que assustado, acabou chamando a polícia.
Precisando vestir a própria roupa antes que chegasse mais gente, Carlão acabou soltando Carmem por um instante. Foi o suficiente. Tomada pela raiva, Carmem avançou novamente: imobilizou Cristiane, puxou seus cabelos e a estapeou.
O caos só terminou quando a viatura da polícia dobrou a esquina. Carlão tentava manter a postura e, logo em seguida, Leandro apareceu.
Enquanto Cristiane repassava os acontecimentos na memória, Leandro permanecia ao seu lado, ajoelhando-se no estofado para ficar na altura do seu corpo e começou a dar vários beijinhos suaves e demorados em seu corpo — Poxa, meu amor, eu fico preocupado vendo você assim... Tenho que cuidar de você, né? Deixa eu cuidar de você...
Cristiane fecha os olhos novamente e a mente voltou para a oficina. Lembrou da pegada firme de Carmem travando seu pulso daquela voz grave e firme soprada bem perto da sua orelha: "Puta, safada! Cadela! Aquele jeito durão, sem filtro e totalmente dominante de Carmem faz um arrepio elétrico percorrer a espinha de Cristiane.
Meu Deus..., pensa Cristiane, sentindo o pulso acelerar. A Carmem tem exatamente a pegada firme que o Leandro nunca teve. Aquela atitude forte que eu sempre procurei em um homem... e irônico pensar que nunca achei num cara, mas fui achar logo numa mulher. O choque da descoberta vem acompanhado de uma onda inesperada de prazer. Que incrível... eu tô gostando de mulher? E justo da mulher que quase quebrou meu braço?
— Olha só... — Leandro comenta, notando a respiração mais forte da esposa e vendo um sorriso radiante e satisfeito surgir nos lábios dela. Ele para os beijos e sorri, orgulhoso. — Sabia que meu carinho ia te acalmar. Você fica até corada quando eu cuido de você desse jeito.
— É... incrível — murmura Cristiane, ainda de olhos fechados, lembrando da sensação do braço forte de Carmem ajustando o golpe.
— A Carmem passou dos limites! — Leandro se levanta, indignado, cruzando os braços. — Essa mulher passou completamente do ponto. Amanhã mesmo eu vou com você lá na delegacia! Vou fazer um B.O. contra essa Carmem por lesão corporal!
Cristiane abre os olhos devagar, ainda com aquele sorriso bobo no rosto, olhando para Leandro com um olhar distante.
— É... você tem razão, amor. Pode fazer o B.O. sim. É um caso sério.
— Viu só? Eu sabia que você ia concordar! Ela não pode sair impune depois do que fez com você!
— Com certeza — responde Cristiane, dando uma risadinha leve e encarando o teto. — Tem que fazer um B.O. mesmo...
(Pode fazer o B.O. por roubo, Leandro... porque essa mulher acabou de roubar meu coração), pensou Cristiane, segurando o riso internamente.
— E você sabe que eu só faço isso porque te amo e quero te proteger, né? — diz Leandro, sentando de novo e dando mais um beijo demorado na testa dela.
Ele continua com os beijinhos melosos e o cafuné devagarzinho.
À medida que a poeira baixava, a memória de Cristiane começou a reordenar os detalhes daquela confusão — mas sob uma nova e perturbadora perspectiva.
O foco inicial na agressão deu lugar a sensações que, na hora, passaram batidas no calor do momento, mas que agora emergiam com uma clareza incômoda. Lembrou-se do toque de Carmem.
Ela estava completamente nua quando Carmem a atacou pela primeira vez, o que lhe deu uma sensação gostosa de estar exposta e vulnerável.
A vulnerabilidade, em vez de assustá-la, lhe dava uma sensação inesperada de liberdade.
Carmem veio com fúria, fazendo-a perder o equilíbrio.
Havia algo estranhamente bom naquela sensação: perceber que Carmem além de forte também conhecia técnicas de luta e imobilização, e que era muito mais forte e dominante.
Cristiane sorriu ao se lembrar.
— Ahhhhh! Que Delícia!!!... — exclamou, só de recordar, aquele prazer peculiar de ser dominada por Carmem.
Não era apenas uma pegada firme; Ela começou a lembrar que havia uma malícia sutil, uma demora desnecessária no contato. A forma como o corpo de Carmem se ajustava ao seu, o deslizar de mãos que que tangenciaram partes de seu corpo de um jeito nitidamente intencional.
Carmem apertou seus mamilos, durante a confusão ... ela também apertou sua bunda, escorregou a mão até a sua virilha e apalpou a buceta.
Agora, o retrospecto acendia algo diferente em sua mente.
Cristiane reviveu o instante em que seus olhares se cruzaram. Não era o olhar de ódio, mas um contato visual carregado, quase provocativo. Lembrou-se da voz de Carmem, sussurrada bem perto de seu ouvido: Só porque você é gostosinha vem aqui dar em cima do meu marido. Sua vagabunda!
A constatação veio como um choque tardio: Em algum momento, no meio do caos, Carmem passou a sentir atração por ela.
E agora se dava conta que o tapa, os puxões de cabelo e xingamentos de Carmem lhe causaram tesão.
Ao lembrar de Carmem lhe dando uma chave de braço, Cristiane gemeu de prazer.
A memória involuntária da pegada firme de Carmem invadiu o pensamento de Cristiane de forma avassaladora. Mais um gemido involuntário de prazer escapou de seus lábios e uma onda de arrepio percorreu seu corpo, fazendo-o responder quase por reflexo àquela lembrança quente.
Leandro, que a beijava naquele exato instante, sentiu a reação vibrante da esposa e interpretou o arroubo como uma resposta à sua própria paixão. Um sorriso de orgulho e alegria iluminou seu rosto, encorajando-o a intensificar o momento.
Aproveitando o embalo da situação e buscando direcionar aquele impulso sem revelar a verdadeira origem de seu desejo, Cristiane segurou a cabeça de Leandro e a empurrou suavemente em direção à sua vagina, guiando-o para que continuasse a beijá-la ali.
Entusiasmado e querendo entregar-se por inteiro, Leandro desceu pelo corpo dela e chupou a buceta de forma tão firme e afoita que Cristiane acabou soltando uma risada entrecortada, tentando recompor o fôlego:
— Cuidado, Leandro! Assim você vai acabar se engasgando!
“ Acho que o Carlão gozou aí dentro, igual naquele domingo no aniversário do Rogério” pensou Cristiane.
Cristiane manteve os olhos fechados, e voltou a se afundar por completo naquelas memórias com Carmem. A sensação de Carmem lhe batendo, as imagens daquele momento dominavam sua mente de tal forma que ela se desligou do mundo ao seu redor, entorpecida pelo prazer da lembrança.
Começou a fantasiar, imaginou a si mesma amarrada, imobilizada, enquanto Carmem chegava vestindo uma roupa de couro, preta, de salto alto e com um chicotinho na mão
Alheio ao turbilhão de pensamentos da esposa e aproveitando o momento, Leandro tirou o pau pra fora e penetrou na bucetinha, sem camisinha.
Cristiane apenas aceitou o gesto de forma automática, totalmente alheia ao que acontecia. Só quando Leandro já tinha gozado dentro de sua vagina é que sua mente finalmente voltou ao presente.
Leandro aproveitou o momento, para tentar realizar seu sonho de engravidar Cristiane.
Naquela segunda-feira, alguns anos atrás, logo após o aniversário de seu irmão, Cristiane tomou a pílula do dia seguinte. Naquele momento, acreditou que tinha feito o necessário e que tudo ficaria bem.
Só que não ficou.
A agora a pílula não surtiu o efeito esperado, mais uma vez.
Nove meses depois desse dia, nasceu Luísa, a segunda filha do casal. No entanto, a chegada da bebê trouxe consigo uma sombra invisível, guardada em silêncio. Como Cristiane havia dado a buceta para Carlos e para Leandro no mesmo dia, nem mesmo ela tinha certeza sobre a verdadeira paternidade da menina.
Leandro, por sua vez, nunca foi ingênuo. Ele sabia exatamente o que tinha acontecido e guardava a certeza absoluta de que Cristiane fez sexo com Carlos naquele mesmo dia. A dúvida sobre se Luísa carregava ou não o seu sangue ergueu-se diante dele também.
Mas Leandro resolveu o dilema com a simplicidade de quem prefere a paz à verdade: mentiu para si mesmo. Decidiu, por conta própria e sem olhar para trás, que a garotinha era sua filha e ponto final. Para ele, aquela mentira inventada para proteger seu próprio coração tornou-se uma verdade incontestável.
Mas antes disso, um episódio quase cômico deu o tom dos dias que se seguiram. Apenas uma semana após o barraco na oficina, Carmem bateu à porta da casa deles com a cara mais lavada do mundo para pedir desculpas.
Diante de Cristiane e Leandro, Carmem fez um verdadeiro teatro: disse que tinha se enganado redondamente, que não tinha visto absolutamente nada entre Cristiane e Carlão e que o surto fora puro fruto da sua imaginação fertilizada pelo ciúme. Graças a essa retratação teatral, Cristiane decidiu deixar para lá e não registrou B.O na polícia por lesão corporal.
O desfecho daquela visita acabou sendo ainda mais curioso. Pouco tempo depois, Leandro soube que Carmem tinha entrado com o pedido de divórcio de Carlão. E, para a surpresa de todos — ou nem tanto —, a aproximação entre as duas tomou um rumo tão surreal quanto inevitável: as diferenças ficaram para trás e Cristiane e Carmem selaram uma amizade tão intensa que, em pouco tempo, pareciam melhores amigas de infância — inseparáveis, cúmplices e sempre juntas.
Leandro juntou as peças, e começou a entender tudo, mas para ele estava confortável. Ele amava a família, os negócios prosperando, e tinha Carmem, que ajudava a satisfazer o lado mais sombrio dos desejos de sua esposa.
Naquele dia, enquanto ouvia o discurso inflado de Carmem afirmando categoricamente que "nada tinha acontecido", Leandro precisou de todo o seu autocontrole para não cair na gargalhada. Ele sabia perfeitamente que ela estava mentindo descaradamente.
Leandro percebeu um fato curioso, estava adorando o jeitinho de Carmem mentir. Ela mentia de um jeito adorável, que lhe provocava até excitação sexual.
Em sua mente, o deboche rolava solto: “Isso, Carmem, mente mesmo! Mente pra mim , Carmem! Mente gostoso! Me engana que eu gosto!”
EPÍLOGO
Leandro ficou alguns instantes parado na calçada, olhando com orgulho para a nova placa que acabava de ser instalada na fachada da empresa. Onde antes estava escrito JLC Informática, agora se lia, em letras maiores e mais modernas, JL Tecnologia. A mudança podia parecer pequena para quem passasse pela rua sem conhecer sua história, mas para Leandro significava muito mais do que uma simples troca de nome. Júnior e Luísa estavam ali, representados pelas duas letras, como uma espécie de lembrança permanente de que aquela empresa já não era apenas o resultado de seu trabalho, mas também parte da história de sua família.
Claudio se aproximou e ficou ao lado dele, observando a placa.
— Gostou?
Leandro sorriu.
— Gostei. Acho que ficou mais bonita.
Ele ainda sentia um pouco de dificuldade em se acostumar com o novo nome. Durante tantos anos, havia visto o próprio sobrenome na fachada e, depois, a sigla JLC, que passou a representar não apenas ele e Cristiane, mas principalmente a transformação que havia acontecido em sua vida depois do nascimento de Júnior. Agora, com Luísa, parecia natural que a empresa também carregasse um pouco dos dois filhos.
A vida profissional de Leandro também havia mudado bastante. Com Claudio assumindo cada vez mais a administração da loja, ele finalmente conseguira se libertar da obrigação de estar presente o tempo todo. Isso permitiu que aceitasse serviços externos, fizesse instalações, manutenções e outros trabalhos que apareciam, aumentando consideravelmente sua renda. Em vez de simplesmente gastar o dinheiro que entrava, Leandro aproveitou para antecipar parcelas do financiamento e, depois de algum tempo, conseguiu finalmente quitar a loja.
A conquista, entretanto, não parou ali. Ele também conseguiu comprar a antiga lojinha onde havia começado sua trajetória, justamente o pequeno espaço que durante tantos anos parecera enorme aos olhos do jovem que sonhava em ter o próprio negócio. Como já havia adquirido o imóvel maior de Feliciano, decidiu unir os dois espaços. As paredes foram derrubadas, a estrutura reorganizada e, pouco a pouco, as duas lojas se transformaram em uma única área muito maior.
Leandro gostava de olhar para aquilo e lembrar de onde havia começado. A antiga loja ainda existia, de certa maneira, escondida dentro daquele espaço novo, como uma fotografia de uma época que não queria esquecer.
E havia outra conquista que lhe dava uma satisfação ainda maior: ele e Cristiane finalmente tinham deixado a edícula. Depois de tantos anos vivendo apertados, conseguiram comprar uma casa própria, ainda financiada, mas que já tinha o cheiro e a sensação de um lugar que realmente pertencia à família. Era ali que Júnior e Luísa cresceriam, onde receberiam amigos, fariam festas e, provavelmente, viveriam também muitas das pequenas confusões que fazem parte de qualquer família.
Leandro já fazia planos para o futuro. Assim que conseguisse quitar a casa, pretendia investir na abertura de uma filial. Ainda não sabia exatamente onde seria, nem quanto tempo levaria para chegar lá, mas a ideia já começava a ocupar espaço em sua cabeça. E, naturalmente, imaginava também a inauguração.
Seria impossível não pensar na primeira festa. Ele queria novamente algodão-doce, pipoca, balões e, claro, o karaokê. Lembrou-se das pessoas se divertindo, dos clientes cantando desafinados, das risadas e daquela sensação boa de ver a loja cheia de gente que, por algumas horas, parecia estar ali não apenas para comprar alguma coisa, mas para participar de uma pequena celebração de tudo o que ele havia conseguido construir.
Foi justamente quando pensou no karaokê que uma ideia surgiu.
Leandro virou o rosto e olhou para dentro da loja. Em uma das prateleiras havia um dos aparelhos que estavam à venda.
— Pensando bem... — murmurou. —Vou levar um desses para casa!
Leandro não demorou muito para transformar a ideia em realidade. Voltou para dentro da loja, fez a baixa do aparelho no sistema como uma venda para uso próprio e, pouco depois, já saía carregando a caixa até o carro. Enquanto colocava o aparelho no porta-malas, não conseguiu evitar um sorriso ao imaginar a reação de Cristiane. Tinha certeza de que ela reclamaria, mas também sabia que, no fundo, acabaria entrando na brincadeira.
Quando chegou em casa, encontrou a família já esperando por ele. Cristiane havia preparado o jantar e a mesa estava posta, enquanto Júnior e Luísa pareciam muito mais interessados em descobrir o que havia dentro da caixa que o pai trazia do que propriamente no que havia para comer.
E, é claro, Carmem também estava ali. Sua presença havia se tornado cada vez mais constante na casa e, principalmente, na vida de Cristiane. As duas tinham desenvolvido uma proximidade que já não causava estranheza a ninguém da família. Carmem fazia parte daquela rotina com uma naturalidade quase doméstica, aparecendo para conversar, ajudar, participar dos momentos importantes e, naquele dia, obviamente, não poderia ficar de fora da inauguração particular do novo karaokê.
O jantar foi acompanhado de conversas, brincadeiras e algumas provocações, até que Leandro finalmente não aguentou mais esperar. Assim que terminaram de comer, levou o aparelho para a sala, conectou tudo e, depois de alguns minutos de cabos, ajustes e tentativas de fazer o equipamento funcionar, a televisão finalmente exibiu a tela inicial.
Júnior e Luísa foram os primeiros a se apresentar. Escolheram músicas infantis e cantaram juntos, cada um do seu jeito, sem a menor preocupação em acompanhar o ritmo ou acertar a letra. Leandro e Cristiane riam enquanto os dois se divertiam, e Carmem aproveitou para filmar alguns segundos da apresentação.
Depois chegou a vez de Leandro.
Ele escolheu “Exagerado”, de Cazuza, pegou o microfone com uma confiança muito maior do que seu talento justificava e começou a cantar como se estivesse diante de uma multidão.
Cristiane não demorou a perceber a oportunidade.
— Você está cantando para a gente ou para a vizinhança?
— Para a família — respondeu ele, sem abandonar a pose.
— Ainda bem. A vizinhança não fez nada para merecer isso.
Todos riram, e Leandro continuou cantando, cada vez mais empolgado.
Quando chegou a vez de Cristiane, ela escolheu “Perigosa”, das Frenéticas. Sua interpretação arrancou aplausos e alguns comentários provocativos, especialmente de Leandro, que fez questão de demonstrar que conhecia muito bem aquela música.
Carmem, por sua vez, esperou tranquilamente a sua vez. Quando pegou o microfone, escolheu “Papo Reto”, do Charlie Brown Jr., e surpreendeu os outros ao entrar na música com uma energia completamente diferente daquela que costumava demonstrar nas conversas do dia a dia.
Depois de mais algumas músicas, Leandro olhou para o relógio e percebeu que já estava ficando tarde.
— Acho melhor a gente encerrar por hoje. Amanhã tem trabalho.
Cristiane fez uma expressão de quem não concordava muito com aquela decisão.
— Só mais uma.
— Cris...
— Uma só.
Ela se levantou, aproximou-se de Carmem e estendeu a mão para ela.
— Vem.
Carmem riu, mas aceitou o convite. As duas escolheram “3”, de Britney Spears, e, assim que a música começou, ficou evidente que já haviam ensaiado aquilo em algum outro momento ou, pelo menos, possuíam uma sintonia que dispensava qualquer ensaio. Dividiram os versos, alternaram as partes e, em alguns momentos, cantaram juntas, perfeitamente entrosadas.
Leandro ficou observando enquanto Júnior e Luísa batiam palmas, completamente encantados com a apresentação. Quando a música terminou, as duas fizeram uma pequena reverência, arrancando aplausos das crianças e risadas dos adultos.
— Agora acabou — declarou Cristiane, devolvendo o microfone ao suporte. — Está muito tarde.
Leandro apontou para o relógio, satisfeito.
— Finalmente alguém sensato nessa casa.
Cristiane ignorou o comentário e olhou para Carmem.
— Você não precisa ir embora agora. Pode dormir aqui. O quarto de hóspedes está arrumado.
Antes que Carmem pudesse responder, Júnior e Luísa se manifestaram ao mesmo tempo.
— Por favor, papai!
— Deixa a tia Carmem dormir aqui hoje, por favor!
Leandro olhou para os dois e depois para Cristiane. Percebeu imediatamente que aquela batalha já estava perdida.
— Está bem. A tia Carmem pode dormir.
Os dois comemoraram como se tivessem acabado de ganhar um prêmio.
Carmem agradeceu, enquanto Cristiane sorria satisfeita com a solução. Leandro apenas balançou a cabeça, divertido, e começou a guardar algumas coisas do karaokê.
Enquanto enrolava os cabos, porém, uma ideia lhe passou pela cabeça.
Desde que Carmem havia se aproximado de Cristiane, alguma coisa parecia ter mudado na rotina delas. Cristiane estava mais leve, mais animada e, principalmente, parecia cobrar menos dele aquela presença constante que antes fazia tanta falta. Ela já não reclamava tanto quando ele precisava trabalhar até mais tarde, nem fazia questão de que ele estivesse em casa em todos os finais de semana.
Leandro enxergava aquilo como uma coisa boa.
E, se ela estava feliz, ele também ficava.
Além disso, aquela nova dinâmica havia lhe dado uma liberdade que acabou sendo extremamente importante para os negócios. Leandro podia dedicar mais tempo aos serviços externos, resolver problemas da loja, buscar novos clientes e aproveitar oportunidades que antes precisaria recusar porque tinha de voltar para casa.
O resultado aparecia no faturamento.
A empresa estava crescendo.
Leandro terminou de guardar o karaokê enquanto Cristiane mostrava o quarto de hóspedes para Carmem.
— Aqui você pode deixar suas coisas — disse ela, apontando para a cama. — Se precisar de alguma coisa, é só chamar.
Depois Cristiane foi para a suíte.
Leandro entrou alguns minutos depois e encontrou a esposa mexendo no notebook.
Cristiane levantou os olhos para ele.
— Ah, lembrei de uma coisa.
— O quê?
— Está faltando cobertor e travesseiro no quarto de hóspedes. Eu não coloquei antes.
Ela fez menção de se levantar, mas, antes que pudesse sair, Junior apareceu na porta.
— Mamãe...
Cristiane se virou.
— Oi, meu amor.
— Quero que você me ponha para dormir.
Ela sorriu.
— Agora?
Junior assentiu, já segurando a mão dela.
— E conta uma história.
Cristiane olhou para Leandro.
— Está bem. Vamos.
Antes de sair, apontou para o armário.
— Leandro, você pode levar um cobertor e um travesseiro para a Carmem?
— Claro.
Cristiane saiu com Junior.
Leandro ficou sozinho no quarto.
Seu olhar caiu sobre o notebook.
Por alguns segundos, ele hesitou.
Então se aproximou.
A curiosidade falou mais alto.
Abriu o histórico de navegação.
Leandro começou a percorrer as pesquisas.
Uma delas chamou sua atenção.
“Trisal: como funciona?”
Ele franziu a testa.
Continuou descendo.
Havia outras pesquisas sobre relacionamentos a três.
Depois, alguns vídeos pornográficos envolvendo sexo Hard.
Leandro ficou parado diante da tela.
Não sabia exatamente o que pensar.
Fechou o notebook.
Pegou o cobertor e o travesseiro.
— Depois eu vejo isso...
Saiu do quarto e atravessou o corredor.
Parou diante da porta do quarto de hóspedes e bateu de leve.
— Carmem?
Nenhuma resposta.
Leandro abriu a porta.
— Aqui está, Carmem. Vim trazer o cobertor e o travesseiro que estavam faltando.
Entrou.
No mesmo instante, ouviu um ruído atrás de si.
Clique.
A porta se fechou.
Imediatamente após, Leandro foi pego de surpresa quando suas calças foram puxadas para baixo:
Aaai! — Leandro deu um gritinho, dando um pulo para o lado.
Por pouco não perdeu o equilíbrio. Precisou abrir os braços e dar dois passinhos desajeitados para se firmar.
FIM
