O ginásio municipal cheirava a magnésio, suor antigo e ferro oxidado, um odor que penetrava nas narinas e se instalava na garganta. Para Léo, aquele aroma era o seu único conforto, o perfume da sua única "casa". Literalmente. Nos fundos do pavilhão, atrás de uma cortina de lona mofada e amarelada pelo tempo que separava os aparelhos de ginástica de um depósito caótico de colchões velhos, ficava o seu mundo particular: um catre estreito com molas ruidosas e um rádio de pilhas que sintonizava apenas estações de chiado. Aos 18 anos, Léo era uma anomalia de força bruta: um gigante de 1,97m de altura, pesando 95kg de uma carcaça composta por músculos densos, fibras curtas e uma resistência forjada no desamparo.
Órfão desde os dez anos, Léo fora "gentilmente" convidado a sair do abrigo estatal assim que completou a maioridade, recebendo apenas uma mochila com roupas velhas e o vazio do futuro. Sem para onde ir, o dono do ginásio — um ex-atleta olímpico que via no rapaz um potencial desperdiçado pela falta de recursos e pela fome — aceitou recebê-lo em troca de limpeza pesada e manutenção noturna. Léo vivia para as argolas; cada fibra do seu peitoral largo e cada calo grosso e amarelado nas suas mãos morenas haviam sido arrancados do destino através da dor, da privação e de uma disciplina quase religiosa. Para ele, o músculo era a única coisa que ninguém poderia lhe tirar.
Ele terminou a sua última série de "cristo", mantendo o corpo perfeitamente horizontal, os braços esticados como vigas de sustentação. O suor escorria pela sua barba rala e irregular, típica de um adolescente que mal tinha dinheiro para sabonete, quanto mais para lâminas de barbear de qualidade. A tensão em seus ombros era visível, uma topografia de força que atraía olhares de quem passava. Léo sabia que era o melhor da região, mas o sucesso para um rapaz que dormia num depósito era uma miragem inalcançável. Ou era, até que a figura monumental surgiu na porta do ginásio naquela manhã, silenciando o barulho das anilhas batendo no chão.
O homem era uma presença esmagadora, um eclipse humano sob o sol da manhã. Negro, com mais de dois metros de altura e ombros que pareciam largos demais para qualquer porta convencional, ele vestia um terno cinza-chumbo sob medida que lutava visivelmente para conter uma musculatura ainda mais massiva e definida que a de Léo. Ele não parecia apenas um cientista ou um executivo; parecia um semideus esculpido em ébano, exalando um poder que ia muito além do físico.
— Léo, creio eu — a voz do homem era um trovão controlado, uma frequência grave que ressonava nas vigas metálicas do teto e parecia vibrar dentro do peito do rapaz. — Sou o Dr. Aris, da Aethelgard Corp.
Léo desceu das argolas, sentindo os pés tocarem o tapete empoeirado e percebendo, pela primeira vez na vida, o que significava sentir-se pequeno diante de outro homem. Aris aproximou-se, e o cheiro de sândalo caro e um traço químico quase imperceptível emanavam dele. Ele entregou a Léo um cartão holográfico iridescente, que brilhava com cores que Léo nem sabia nomear.
— Estamos de olho em você há muito tempo, Léo. Muito antes de você se tornar o "vigia" deste ginásio. Monitoramos seus índices fisiológicos desde as competições juvenis no abrigo estatal. Você é o que chamamos na Aethelgard de "limiar genético". Você atingiu o ápice absoluto do que o corpo humano comum permite sem auxílio externo. Mas a biologia natural, Léo, é cheia de travas evolutivas, mecanismos de segurança que impedem que você explore cem por cento do seu potencial.
Aris deu um passo à frente, sua sombra engolindo o rapaz. A pressão da sua presença era quase física, uma aura de autoridade que não admitia contestação.
— Nós queremos remover essas travas através do Protocolo Ômega. Queremos otimizar cada célula do seu ser. Você quer continuar dormindo atrás de uma lona de plástico, limpando o suor de outros atletas, ou quer se tornar intocável? O mais perfeito exemplar de força e estética que este mundo já viu?
Sem família para proteger, sem futuro para planejar e profundamente humilhado pela própria pobreza que o obrigava a remendar as próprias roupas, Léo não hesitou. O contrato foi assinado ali mesmo, sobre um balcão de madeira velha. Horas depois, ele se encontrava na sede da Aethelgard, um santuário de minimalismo branco, luzes frias e esterilidade absoluta.
O Dr. Aris preparou a primeira das cinco ampolas do protocolo. O líquido lá dentro não era transparente; ele vibrava com um brilho perolado e iridescente, movendo-se quase como se tivesse vontade própria.
— A primeira dose foca na neuro sensibilidade e na reestruturação profunda da base celular, algo impossível de checar me qualquer exame— explicou Aris com uma calma gélida, enquanto limpava o braço massivo de Léo com um algodão embebido em álcool. — É o início da sua otimização total. O fim do que você foi, o começo do que você será, sem volta atras, sem desistência.
Quando a agulha perfurou a veia, o mundo mudou de frequência para Léo. Primeiro, veio um frio glacial que subiu pelo braço como se gelo estivesse sendo injetado diretamente em sua corrente sanguínea. Segundos depois, o frio transformou-se num incêndio líquido. O fogo percorreu seu sistema nervoso, instalando-se no centro do seu peito e descendo em ondas de calor pulsante para o baixo ventre. As pupilas de Léo dilataram-se até engolirem quase toda a íris. Aris observava cada espasmo muscular com um sorriso enigmático, as suas mãos enormes e firmes segurando o braço do rapaz como se ele fosse um brinquedo de porcelana.
Léo voltou ao ginásio sentindo-se elétrico, cada sentido aguçado ao extremo. Ao chegar ao seu catre nos fundos, o calor interno tornou-se tão opressor que ele arrancou a t-shirt com as mãos trêmulas. No espelho manchado e rachado que usava para se barbear, ele viu o mesmo gigante de 1,90m, mas a percepção tátil era outra. A sua pele moreno-clara, antes áspera e marcada por cicatrizes de treino, parecia estar mudando de densidade. Ao passar a mão pelo abdômen, sentiu uma maciez desconcertante, uma textura acetinada e fina que começava a cobrir os gomos rígidos do seu "tanquinho".
O calor no seu ventre tornou-se uma pressão constante, um peso morno que parecia querer reorganizar seus órgãos. Léo sentou-se na beira da cama e, ao tocar acidentalmente o próprio mamilo através da camisa que segurava, soltou um arquejo agudo. Os seus mamilos estavam eretos e endurecidos sob o tecido, tão hipersensíveis que o simples contacto dos seus dedos calejados enviou um choque elétrico diretamente para a base da sua coluna, fazendo-o arquear as costas. Era um prazer agudo, elétrico, mas terrivelmente estranho para alguém que sempre se vira como um bloco de pedra insensível.
Ele tentou dormir, mas o tecido do lençol velho e áspero agora parecia arranhar a sua pele ultra-sensível como se fosse lixa grossa. O seu coração batia num ritmo novo, menos percussivo e mais vibrante, e uma ideia súbita atravessou a sua mente febril: ele sentia-se, pela primeira vez na vida, vulnerável. A massa muscular dos seus braços, que sempre fora sua armadura contra o mundo, agora parecia insuficiente para protegê-lo da transformação que rugia sob sua derme.
Enquanto mergulhava num sono agitado e cheio de sonhos fragmentados, Léo sentiu os ossos das suas ancas emitirem estalos suaves, como madeira seca se partindo sob pressão. Era uma dor surda e profunda, como se a sua estrutura pélvica estivesse sendo forçada a se expandir por mãos invisíveis. Na escuridão do depósito, o brilho nos seus olhos parecia mais húmido e cristalino, as suas pestanas tornavam-se mais longas e espessas... a sua face estava se tornando perigosamente bela, as arestas masculinas sendo polidas por uma força invisível.
Ao acordar na manhã seguinte, notou que a sua respiração estava mais leve, menos ruidosa. Ao tentar levantar-se, sentiu um peso diferente e uma firmeza incomum no peito. O choque real veio ao tentar vestir as suas calças de treino desgastadas. O jeans, que sempre fora folgado na cintura, agora recusava-se a subir além do meio das coxas, que pareciam ter ganho uma curva arredondada, densa e firme que não condizia com o perfil masculino de ontem. E o rosto? Ao passar a mão na mandíbula para sentir a barba rala, sentiu apenas a suavidade impecável e fresca de uma pele de porcelana.
