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A PARTE DE MIM QUE FICOU Capítulo 1: Maia

Um conto erótico de Sáfica
Categoria: Lésbicas
Contém 2418 palavras
Data: 23/09/2026 11:07:59

Antes de começar… 💜

Quero muito saber o que vocês vão achar dessa história, então comentem, deixem suas opiniões, teorias e até críticas. Vou amar saber o que vocês estão sentindo e pensando durante a leitura.

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O conto também terá cenas eróticas, mas elas não estarão presentes em todos os capítulos. Elas vão aparecer conforme fizerem sentido para a história e para os personagens.

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Espero que vocês gostem, se envolvam e aproveitem a leitura.

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MAIA

Acordo antes do despertador e fico alguns minutos olhando para o teto, tentando lembrar onde estou. Meu coração acelera. Por um instante, sinto medo daquele lugar. Então, o barulho distante dos carros invade o quarto, seguido pelo som de alguma coisa caindo no apartamento ao lado.

São Paulo.

Ainda é estranho pensar nisso. Viro o rosto e encaro duas caixas empilhadas perto da parede. Em cima de uma delas, há uma caneca que Sofia colocou na minha mão antes de eu sair de casa.

“Para você não esquecer de mim”, ela disse, tentando sorrir enquanto escondia os olhos marejados.

Passo a mão pelo rosto e me sento na cama.

Dois dias. Faz apenas dois dias que cheguei aqui.

Olho ao redor e percebo o quanto o quarto é amplo, espaço suficiente para preencher com minha nova história.

Respiro fundo e sinto uma pontada estranha no peito. Sinto medo. Medo de saberem quem eu sou, medo de não dar conta. Mas o medo não me paralisa. Ele me motiva.

Do outro lado da parede, ouço Camille se movimentando pela cozinha. Ela é minha única amiga aqui e a primeira pessoa que conheci desde que cheguei. Com ela, São Paulo parece um pouco menos estranha.

Será que, se ela soubesse um terço de quem eu sou, o que eu fiz, seria minha amiga?

Olho novamente para as caixas, a caneca. Minha vida inteira cabe em duas caixas.

Tenho vinte e três anos, uma bolsa de estudos para cursar Jornalismo e um quarto alugado em São Paulo. E, pela primeira vez em muito tempo, isso parece suficiente.

Salto da cama e tomo um longo banho. Visto uma camisa branca de botões, uma calça jeans e minhas botas favoritas. Não ouso me olhar no espelho. Não gosto muito da minha imagem. Prendo o cabelo em um coque despojado e pego minha câmera fotográfica, minha fiel companheira de trabalho.

Camille insiste para que eu coma alguma coisa antes de sair, mas eu só quero começar a viver São Paulo. Então, me contento com um café e algumas torradas.

Ainda em meu antigo estado, Sofia me ajudou a conseguir um trabalho freelance: fotografar o Casarão, uma ONG destinada a mulheres vítimas de violência. O dinheiro não é muito, mas o propósito me faz sentir bem.

•

Quando chego, fico alguns segundos dentro do carro antes de descer. Observo o casarão pela janela, tentando imaginar como vou registrar aquele lugar.

Assim que entro, percebo que ele é maior do que eu esperava. O corredor é comprido, há portas para diferentes salas e livros espalhados por alguns móveis. Mesmo com a ONG fechada naquele dia, algumas pessoas circulam de um lado para o outro, carregando caixas, conversando e organizando as coisas.

Tiro a câmera da bolsa, mas ainda não fotografo.

Quero primeiro olhar.

Uma mulher se aproxima. Ela aparenta ter uns cinquenta anos e carrega algumas pastas contra o peito.

— Você deve ser a Maia.

— Sou eu.

— Eu sou a Serafina. Sofia falou bastante de você.

Sorrio, um pouco mais tranquila.

— Espero que coisas boas.

Ela ri.

— Pode ficar tranquila. Seja bem-vinda.

Serafina me explica que a ONG está fechada porque estão reorganizando algumas coisas e fazendo mudanças. Pergunta se preciso de alguma coisa e me deixa à vontade para explorar o espaço.

Agora, finalmente, tiro a tampa da lente.

É hora de começar.

Antes de fotografar, gosto de observar. Algumas pessoas me cumprimentam, sorriem, me mostram uma sala ali, outra aqui. Procuro um ângulo, presto atenção na luz e, principalmente, na dinâmica do espaço. Existem histórias acontecendo aqui. Quero entender o lugar antes de tentar registrá-lo.

É assim que entro na biblioteca.

O silêncio me faz desacelerar. O acervo é realmente espetacular. Passo os dedos pelas lombadas dos livros e, por alguns segundos, esqueço que estou em uma ONG, esqueço que estou trabalhando. Talvez esse seja o objetivo do espaço.

— Esse lugar tem o poder de tirar a gente da realidade mesmo.

Uma voz meio rouca surge atrás de mim.

Levo um susto e me viro rápido demais.

E então vejo ela.

É alta, talvez um metro e setenta, com o cabelo claro, curto e bem enroladinho. A camiseta preta e a calça jeans escura são simples, mas, nela, parecem chamar ainda mais atenção para o rosto.

Principalmente para os olhos, que são muito claros. Verdes? Azuis? Não consigo decifrar.

Ela percebe que estou olhando e sorri.

E é aí que vejo as covinhas.

Meu Deus.

Eu adoro covinhas.

— Desculpa. Não queria te assustar.

— Tudo bem. — Minha voz sai mais baixa do que eu gostaria.

Ela continua me olhando.

Não sei se é impressão minha, mas parece que demora um pouco mais do que o necessário.

— Eu achei que estava sozinha — digo.

— Eu também.

Ela sorri de novo.

Por algum motivo, fico sem saber o que fazer com as mãos. Então, seguro a câmera com mais força.

— Sou Emily.

Ela estende a mão.

Olho para ela antes de apertá-la.

O toque é rápido. Normal.

Só que meu corpo parece não ter recebido o aviso.

— Maia.

Solto sua mão.

— Você trabalha aqui?

Preciso preencher o silêncio.

— Às vezes. Sou voluntária.

A resposta é curta, acompanhada de um meio sorriso que não consigo interpretar.

Ela olha para a minha câmera.

— Então você é a garota nova que estava andando pelos corredores?

— Acho que sim.

— Fotógrafa?

— Tentando ser.

Ela sorri.

— Parece que sabe o que está fazendo.

— É só a câmera que faz parecer.

Ela ri.

Eu não esperava que ela fosse rir daquele jeito.

Baixo, quase contido.

E, de repente, percebo que estou prestando atenção demais nela. No jeito como inclina a cabeça. No movimento da boca quando sorri. Nos olhos claros que continuam presos aos meus.

Talvez ela seja assim com todo mundo.

Provavelmente é.

Ou talvez não.

— Cheguei em São Paulo faz dois dias — digo, sem saber por que estou contando aquilo.

As sobrancelhas dela se levantam.

— Dois dias?

— Dois.

— E já está trabalhando?

— Preciso começar de algum lugar.

Emily me observa por mais alguns segundos.

— Corajosa.

— Ou inconsequente.

Ela sorri.

— Ainda dá tempo de descobrir.

Não sei se foi só uma frase. Talvez tenha sido. Talvez eu esteja procurando alguma coisa onde não existe.

Desvio o olhar.

— Bom… eu deveria continuar fotografando.

— Deveria.

Olho novamente para ela.

— Você está em um ângulo ótimo. Posso?

Ela me encara com um olhar que Machado de Assis chamaria de “olhar de cigana oblíqua, dissimulada”.

— Pode, sim.

E sorri, mostrando novamente suas covinhas.

Engulo em seco e preciso me concentrar. Meu coração bate um pouco mais forte.

Tiro a foto com um único clique e dou alguns passos para trás, me ajeitando.

— Maia.

Emily está sorrindo e me olhando com curiosidade.

— Seus olhos também são castanhos.

Franzo a testa.

— O quê?

— Você estava tentando descobrir a cor dos meus.

Sinto o rosto esquentar.

— Eu não estava.

Ela sorri ainda mais. As covinhas aparecem, e fico vermelha.

— Está, sim.

Levanto a câmera para tirar mais uma foto e me livrar da situação constrangedora.

Emily. Será que ela gosta de mulheres?

Pisco rápido. Não tenho tempo para isso.

Então, uma batida forte na porta de entrada me faz abaixar a câmera.

•

Nós nos encaramos.

Outra batida, dessa vez, desesperada.

Vemos Serafina passar rapidamente pelo corredor até a entrada. E a seguimos.

Quando a porta se abre, vejo sangue.

Uma mulher entra tropeçando, com a roupa suja e um corte no ombro. Em uma das mãos, segura a mão de uma menina que chora tanto que mal consegue respirar.

— Por favor… — ela diz, quase sem voz. — Me ajudem.

Meu corpo fica imóvel. Por alguns segundos, não escuto mais nada, só o choro. Aquele som me leva para um lugar que conheço, mas tento esquecer.

A lembrança brota sem pedir permissão. Lembro de como era procurar um abraço e não encontrar. De aprender cedo demais que algumas coisas eram melhor guardar.

Serafina se aproxima da mulher.

— Calma. Entre, querida. Você está segura aqui.

A menina continua chorando.

E eu não consigo parar de olhar para ela.

Emily toma a frente e, com agilidade, pega um kit de primeiros socorros.

— O que aconteceu?

A voz dela é diferente daquela de minutos atrás. Firme, mas calma.

Ela se aproxima da mulher, enquanto Serafina verifica se a criança está machucada, mas ela resiste.

Eu olho novamente para a menina. Ela deve ter uns cinco anos. O rosto está molhado, os dedos apertam a mão da mãe com força.

Eu conheço aquela expressão. Talvez não aquela menina. Mas conheço o medo.

Abaixo-me devagar e faço contato visual.

— Oi.

Ela me olha.

— Eu sou a Maia.

Ela não responde.

Estendo os braços.

— Posso te pegar? Vem comigo?

Por um instante, acho que ela vai recusar.

Então, ela solta a mão da mãe, toca na mecha roxa do meu cabelo e vem. Meu cabelo sempre chama a atenção das crianças.

Seguro seu corpo pequeno e sinto os braços dela se fecharem ao redor do meu pescoço. Passo a mão devagar pelas costas dela.

— Está tudo bem, pequena.

As palavras saem quase num sussurro.

— Você está segura.

E começo a cantar baixinho uma música de ninar que nem sabia que conhecia.

O choro vai diminuindo aos poucos. Fecho os olhos por um instante. Talvez seja isso que uma criança precise quando está com medo.

Não de respostas.

Só de alguém que fique.

Quando abro os olhos, encontro Emily olhando para mim. Por alguns segundos, nenhuma de nós desvia. Dessa vez, não vejo curiosidade no olhar dela. Vejo alguma coisa mais difícil de nomear.

Ela olha para a criança, depois para mim.

E sinto aquela velha vontade de morrer quando alguém parece enxergar demais.

Desvio os olhos e continuo cantando enquanto me sento em um sofá velho.

A criança finalmente para de chorar, mas não me solta, e eu não tenho coragem de soltá-la também.

Aos poucos, consigo entender o que aconteceu.

O nome dela é Raquel. Ela fugiu do marido bêbado levando a filha, Cecília. Serafina a acompanha até a Delegacia da Mulher.

Uma assistente social voluntária vem buscar Cecília, mas ela aperta ainda mais os braços ao redor do meu pescoço.

— Pode deixar ela mais um pouquinho comigo? — peço.

A assistente concorda.

Fico ali. Com uma criança que não conheço nos braços. E, pela primeira vez em muito tempo, não sinto vontade de ir embora.

A tarde passa devagar.

Cecília fica cada vez mais tranquila nos meus braços até finalmente cochilar. Continuo ali, sem coragem de me mexer. Em algum momento, o cansaço pesa sobre mim também, e adormeço.

Sinto que alguém nos cobriu e agradeço mentalmente.

Acordo com a assistente social me chamando. Ela diz que dormimos por pelo menos uma hora e meia.

Passo Cecília para os braços dela. A menina continua dormindo.

A ONG está silenciosa agora.

Guardo a câmera, pego minhas coisas e vou até o banheiro, sinto que não estou bem.

•

Diante do espelho, encaro meu próprio reflexo.

Por alguns segundos, não penso em nada.

Então vem de novo. Aquela sensação de precisar desaparecer.

Apoio as duas mãos na pia e as lágrimas descem antes que eu consiga impedir.

Não sei exatamente o que estou sentindo. Não é só tristeza. Talvez nem seja tristeza.

É como se meu corpo tivesse encontrado uma brecha para soltar o que venho segurando há tempo demais.

Respiro fundo.

Abro a torneira e lavo o rosto.

Quando levanto os olhos novamente, encontro meu reflexo.

Forço um sorriso. É uma nova fase e quero acreditar que vai ser diferente.

A porta se abre e Emily entra.

Ela me encara por alguns segundos.

— Tudo bem, Maia?

Passo a mão pelo rosto rápido demais.

— Tudo.

Minha voz falha.

— Eu só… fico mexida com essas coisas.

As lágrimas voltam.

Emily não pergunta mais nada.

Apenas se aproxima e me abraça.

Por um segundo, fico imóvel.

Depois, me permito ficar ali.

É estranho perceber o quanto isso é raro para mim. Ser cuidada. O abraço dela é tão confortável.

Como ela sabe que preciso de um abraço?

Emily se afasta um pouco.

— Aqui é assim mesmo — diz baixinho, quase cochichando. — Um dia é paz. No outro, é inferno. E a gente segue ajudando.

Rio baixinho, ainda com os olhos molhados.

Ela me observa por alguns segundos.

— Você leva jeito com criança.

Sorrio.

— Obrigada.

O silêncio volta.

Levanto os olhos.

Emily está perto.

Perto demais.

Consigo ver melhor seus olhos claros. De perto, parecem ainda mais bonitos. Castanhos, quase verdes, como pedrinhas em um rio cristalino.

Ela também não desvia.

Nenhuma de nós fala.

Emily levanta a mão devagar e toca meu rosto.

O toque é leve, gentil, e meu corpo se arrepia todo.

Ela para por um instante.

Como se estivesse esperando que eu dissesse não.

Eu não digo.

Ela se inclina e sinto sua respiração. Então, seus lábios encostam nos meus.

O beijo é suave, lento, quente. Sua língua encontra a minha como se fizéssemos aquilo com muito mais frequência.

Me encosto na pia e, por alguns segundos, esqueço completamente onde estou. Devagar, encontro a cintura dela e, com minhas duas mãos, aperto seu corpo contra o meu.

Que corpo gostoso! Que vontade de subir na pia e sentir mais ainda.

Quando nos afastamos, fico olhando para ela.

Não penso.

Só a beijo outra vez.

Emily retribui, agora como se fosse me devorar. Sua respiração está mais forte e sinto que ela me quer mais. E eu quero mais.

Por alguns segundos, não existe mais nada.

Só nós duas.

Quando nos afastamos novamente, nossas testas permanecem encostadas enquanto respiramos fundo.

Meus olhos estão fechados, e sei que os dela também.

— Eu precisava fazer isso — ela sussurra.

Abro os olhos.

— Que bom que você fez.

E, pela primeira vez naquele dia, não penso no passado.

Nem no que vem depois.

Só naquele momento.

Emily se afasta devagar.

— Eu preciso ir.

Faço que sim com a cabeça.

Por incrível que pareça, sei que ela realmente precisa.

Nenhuma de nós pergunta nada.

Nenhuma tenta explicar o que acabou de acontecer.

Emily sai.

Fico parada, olhando para a porta.

Depois, respiro fundo.

São Paulo definitivamente não é nada do que eu imaginei.

Continua…

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Comentários

Foto de perfil de Forrest_Gump

Muito bom seu texto, fácil de ler e compreender o que está acontecendo. A história começou interessante e me prendeu 🥰

Foi uma grata supresa encontrar um história com um início tão bom, me fez lembrar de quando aqui tinha várias escritoras que publicava boas histórias desse tema 🤷🏻‍♂️

Espero que continuei escrevendo, já vou ler os próximos 🤩

Muito bom, parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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