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A Chave Errada

Um conto erótico de SandroAndarilho
Categoria: Heterossexual
Contém 2098 palavras
Data: 23/09/2026 10:48:13
Assuntos: Heterossexual

Eu só precisava devolver uma chave.

Era sexta-feira, pouco depois das oito, e meu plano não podia ser mais simples: passar no apartamento da Camila, entregar a chave que ela tinha esquecido comigo alguns dias antes e voltar para casa. Talvez pedir alguma coisa para comer, abrir uma cerveja e terminar a noite diante da televisão.

Toquei a campainha e ouvi os passos dela se aproximando. Quando a porta se abriu, porém, meu plano começou a perder importância.

Camila estava descalça, como quase sempre ficava em casa. Aos quarenta anos, tinha uma beleza que eu conhecia havia tempo suficiente para não me surpreender mais — pelo menos era isso que eu gostava de pensar.

Os cabelos castanhos, compridos e levemente ondulados caíam soltos pelos ombros. Os olhos eram escuros, vivos, e combinavam com aquele sorriso meio torto que aparecia sempre que estava prestes a dizer alguma coisa que não devia. Usava uma calça preta de tecido leve, ajustada às pernas e ao quadril, e uma blusa vinho de alças finas.

Não havia nada de exagerado nela.

Camila nunca precisou exagerar.

— Vai ficar parado aí?

— Estava esperando um “boa noite”.

— Boa noite.

Ela abriu mais a porta.

— Agora entra.

Mostrei a chave.

— Vim só trazer isso.

Camila estendeu a mão. Quando entreguei, nossos dedos se tocaram e permaneceram assim por um instante maior do que o necessário. Ela baixou os olhos para nossas mãos antes de guardar a chave.

— Obrigada.

— Missão cumprida. Agora vou embora.

— Nem pensar. Tem vinho.

— Golpe baixo.

— E comida.

— Está piorando.

O sorriso torto apareceu.

— Sabia que você ia entrar.

Passei por ela resmungando alguma coisa, mas estava rindo. Foi então que ouvi outra risada, feminina, vindo da cozinha.

Parei no corredor.

— Você está acompanhada?

— Estou.

— Podia ter avisado.

— Por quê?

— Porque não quero atrapalhar.

Camila ia responder quando uma mulher apareceu na entrada da cozinha.

Era Fernanda.

Naquela hora eu ainda não sabia seu nome, nem que tinha trinta e sete anos. Só percebi que era bonita pra caralho.

Tinha cabelos loiros escuros, lisos, pouco abaixo dos ombros, olhos claros e um rosto delicado que contrastava com a maneira segura como me examinou. Era um pouco mais baixa que Camila, tinha cintura marcada, quadris largos e pernas bonitas dentro de uma calça jeans clara. A blusa branca, com as mangas dobradas até os cotovelos, estava aberta nos primeiros botões e deixava à mostra apenas o suficiente do colo para chamar atenção sem parecer proposital.

Ou talvez fosse.

Fernanda me examinou dos pés ao rosto sem qualquer constrangimento.

— Então esse é o Alessandro.

Virei para Camila.

— “Esse é o Alessandro”?

— Não começa, Fernanda.

— Eu só falei oi.

— Definitivamente não foi isso que você falou.

Fernanda veio até mim. Seu perfume era suave, levemente adocicado, e senti antes mesmo que ela estendesse a mão.

— Fernanda.

— Alessandro.

— Eu sei.

Segurei sua mão. O cumprimento durou um segundo a mais do que normalmente duraria e, quando ela finalmente soltou, continuava sorrindo.

— O que você anda falando de mim? — perguntei a Camila.

— Absolutamente nada.

Fernanda soltou uma risadinha.

— Nada?

— Você fica quieta.

Aquilo deveria ter sido um aviso para eu entregar a chave e ir embora.

Em vez disso, tirei o casaco.

Jantamos na cozinha.

Camila serviu vinho para nós três, e a conversa começou de maneira completamente normal. Fernanda era amiga dela desde a faculdade, trabalhava com arquitetura e tinha terminado um relacionamento alguns meses antes.

Essa última informação veio de Camila.

— Você precisava contar isso? — Fernanda perguntou.

— Ele descobriria em algum momento.

— Como exatamente?

— Sei lá.

— Eu não perguntaria — falei.

Fernanda apontou para mim com a taça.

— Está vendo? Educação. Aprende.

— Espera mais uma taça para conhecer melhor.

— Olha a fama que você está me fazendo.

Camila apenas sorriu.

Com o passar do tempo, comecei a reparar numa característica de Fernanda: quando alguém falava com ela, prestava atenção de verdade. Não ficava olhando o celular nem procurando outra coisa pela sala. Sustentava o olhar, inclinava ligeiramente a cabeça e parecia observar até aquilo que não estava sendo dito.

Quando era eu quem falava, aquilo começou a me deixar consciente demais dela.

Em determinado momento, parei no meio de uma história.

— Que foi? — ela perguntou.

— Você olha muito.

— Você também.

Não havia muito o que responder.

Camila percebeu a troca.

— Vocês estão se dando bem.

— Está com ciúme? — Fernanda perguntou.

— De você?

— Dele.

Camila soltou uma gargalhada.

— Você bebeu rápido demais.

Fernanda não insistiu, mas me lançou um olhar divertido por cima da taça.

Aquela noite começava a ficar interessante.

Depois do jantar fomos para a sala. Camila deixou apenas os abajures acesos, colocou uma música baixa e abriu a porta da varanda. Entrava um vento fresco que movimentava as cortinas e deixava o ambiente confortável demais para alguém que pretendia ir embora cedo.

Fernanda tirou os sapatos e se acomodou numa ponta do sofá. Eu fiquei na outra, enquanto Camila preferiu a poltrona.

Continuamos conversando.

Depois de algum tempo, Fernanda mudou de posição e esticou as pernas. Seus pés tocaram minha coxa.

— Desculpa.

— Tudo bem.

Ela não os tirou.

Continuou falando com Camila como se não houvesse nada diferente, mas, alguns minutos depois, mexeu novamente as pernas e seus dedos deslizaram de leve pela minha coxa antes de repousarem outra vez.

Dessa vez encarei.

Fernanda sustentou meu olhar com uma inocência pouco convincente.

— Algum problema?

— Nenhum.

O canto de sua boca levantou discretamente.

Camila acompanhava tudo da poltrona.

— Vou buscar mais vinho.

Quando passou atrás de mim, pousou a mão sobre meu ombro. Seria um gesto perfeitamente comum se os dedos não tivessem deslizado lentamente pela minha nuca antes de se afastarem.

Acompanhei-a com os olhos até a cozinha.

Fernanda riu baixinho.

— O que foi?

— Sua cara.

— Que cara?

— Você realmente não percebe, né?

— Percebo o quê?

Ela apenas pegou a taça.

— Pergunta pra ela.

Aquilo ficou na minha cabeça.

Quando Camila voltou, em vez de retornar à poltrona, sentou-se no espaço entre nós.

— Melhor.

— Para quem? — Fernanda perguntou.

— Para mim.

Fernanda se aproximou e apoiou o queixo no ombro dela.

Foi nesse momento que comecei a notar uma intimidade entre as duas que havia passado despercebida durante o jantar.

Fernanda afastou uma mecha do cabelo de Camila e colocou-a atrás de sua orelha. Os dedos desceram de leve pela lateral do pescoço antes de se afastarem.

Camila não estranhou.

Pelo contrário.

Parecia acostumada àquele tipo de carinho.

Minha atenção deve ter ficado evidente porque ela virou o rosto.

— O que foi?

— Estou tentando entender vocês duas.

— Boa sorte — respondeu Fernanda.

Camila riu e deixou a mão cair sobre o sofá, próxima da minha. Primeiro nossos dedos se encostaram por acaso. Depois, dessa vez sem acidente nenhum, ela passou o dedo mínimo sobre o meu.

Em seguida entrelaçou nossas mãos.

Não disse nada.

Também não precisava.

Fernanda observou a cena e balançou a cabeça.

— Vocês são ridículos.

— Por quê? — Camila perguntou.

— Porque estão fazendo isso há horas.

— Isso o quê?

Fernanda se inclinou e, com delicadeza, segurou o queixo da amiga, virando seu rosto na minha direção.

— Isso.

Camila ficou sem resposta pela primeira vez naquela noite.

Eu estava perto o suficiente para sentir seu perfume e perceber a mudança na respiração dela. Passei o polegar lentamente sobre os dedos que ainda seguravam os meus.

Ela baixou os olhos para minha boca.

A distância entre nós desapareceu.

O primeiro beijo foi curto, quase cuidadoso. Quando me afastei, Camila permaneceu perto, os olhos ainda semicerrados.

— Demorou — murmurou.

— Você podia ter facilitado.

— Facilitei pra caralho.

Atrás dela, Fernanda riu.

— Finalmente.

— Cala a boca — Camila respondeu, sem sequer olhar para a amiga.

Dessa vez foi ela quem me puxou.

Sua mão subiu pela minha nuca e entrou em meus cabelos enquanto nos beijávamos novamente, agora sem aquela hesitação inicial. Segurei sua cintura e a trouxe um pouco mais para perto, acariciando devagar suas costas por cima do tecido fino da blusa.

Quando nos afastamos, Camila permaneceu com a testa encostada na minha.

Foi então que senti dedos percorrendo meu braço.

Fernanda.

O toque começou perto do cotovelo e subiu lentamente até meu ombro. Quando me virei, ela já estava próxima.

O sorriso brincalhão tinha desaparecido.

— Posso?

A resposta veio quando aproximei o rosto.

Fernanda beijava de maneira diferente. Mais devagar, como se estivesse descobrindo alguma coisa e não tivesse pressa nenhuma para chegar ao fim. Uma das mãos permaneceu em meu ombro enquanto a outra tocava meu rosto, os dedos deslizando suavemente pela barba.

Quando o beijo terminou, ela ainda ficou perto.

— Então? — perguntei.

Fernanda passou novamente os dedos pelo meu maxilar.

— Estou formando minha opinião.

Camila começou a rir.

— Não dá confiança.

A tensão se desfez por alguns segundos e nós três rimos.

Talvez tenha sido justamente isso que tornou tudo mais natural.

Não parecia uma cena ensaiada. Ninguém sabia exatamente o que fazer depois.

Camila acabou se aproximando novamente. Encostou a cabeça no meu ombro enquanto eu acariciava seus cabelos, passando os dedos entre os fios até a nuca.

Fernanda ficou do outro lado.

Minha mão encontrou seu braço e percorreu lentamente a pele até o ombro. Ela fechou os olhos quando comecei a fazer carinho em sua nuca.

— Não para.

Continuei.

Camila observou.

— Está gostando, pelo visto.

Fernanda abriu os olhos.

— Está com ciúme?

— Talvez.

Puxei Camila pela cintura antes que respondesse.

— Vem cá.

Ela veio sorrindo e encostou novamente em mim.

Durante algum tempo, ninguém pareceu preocupado com o relógio.

As carícias eram lentas, quase preguiçosas. Camila gostava de brincar com meus cabelos enquanto conversávamos e, de vez em quando, aproximava-se para outro beijo. Fernanda tinha o hábito de passar os dedos pelo meu rosto, pelo pescoço, pelo braço, como se estivesse decorando cada detalhe.

Também comecei a perceber as diferenças entre elas.

Camila era quente, espontânea, ria durante os beijos e gostava de provocar até quando estava recebendo carinho.

Fernanda era mais silenciosa. Fechava os olhos quando meus dedos percorriam seus cabelos ou sua nuca e parecia aproveitar cada toque antes de procurar outro.

Em determinado momento, ficamos os três juntos no sofá, próximos demais para continuar fingindo que aquela era apenas uma conversa entre amigos.

Camila estava encostada no meu peito.

Fernanda tinha a cabeça apoiada no meu ombro.

Minha mão acariciava lentamente o braço de uma enquanto a outra brincava com meus dedos.

Foi Fernanda quem finalmente quebrou o silêncio.

— Você ainda vai embora?

Camila levantou o rosto, esperando minha resposta.

Olhei para o relógio.

Depois para as duas.

— Acho que perdi a hora.

Fernanda sorriu.

— Ainda bem.

Camila se aproximou e me beijou mais uma vez.

Aquela noite já tinha deixado de precisar de explicações.

O resto ficou entre nós três: beijos demorados, abraços apertados, carícias que foram ficando cada vez mais íntimas e aquela mistura gostosa de desejo e nervosismo de quem sabe que atravessou uma linha e não está nem um pouco interessado em voltar.

Na manhã seguinte acordei no sofá com o pescoço reclamando e a claridade entrando pela varanda.

Minha camisa estava sobre uma cadeira, havia uma almofada no chão e duas taças esquecidas na mesa.

Da cozinha vinha cheiro de café.

Encontrei Camila encostada na bancada, usando uma camiseta larga e com os cabelos completamente bagunçados. Fernanda estava numa banqueta, igualmente descabelada, segurando uma caneca com as duas mãos.

As duas me olharam quando entrei.

— Bom dia — disse Fernanda.

— Bom dia.

Camila colocou uma caneca diante de mim.

— Café?

— Por favor.

Bebi um gole e permaneci alguns segundos olhando para as duas.

— Ninguém vai falar sobre ontem?

Elas trocaram um olhar.

— Não — responderam quase juntas.

Começaram a rir.

— Vocês são duas filhas da puta.

Camila veio até mim e deixou um beijo demorado no meu rosto.

— E você gosta.

Fernanda passou pelo outro lado e fez o mesmo.

— Bastante.

Ela pegou a bolsa e começou a se despedir.

Enquanto Camila a acompanhava até a porta, coloquei a mão no bolso procurando o celular.

Encontrei outra coisa.

A chave.

— Camila.

Ela se virou.

Levantei a chave entre os dedos.

— Eu vim aqui ontem só para devolver essa porra.

Fernanda começou a rir perto da porta.

Camila voltou até mim, pegou a chave da minha mão e ficou alguns segundos olhando para ela.

Então fechou meus dedos novamente ao redor da chave.

— Fica com ela.

— Pra quê?

O velho sorriso torto apareceu.

— Vai que eu preciso que você venha devolver outra vez.

Fernanda abriu a porta.

— Da próxima vez, me avisa.

E saiu rindo.

Olhei para a chave fechada na minha mão e depois para Camila.

Eu tinha ido até ali convencido de que só precisava devolver uma coisa.

No fim, saí levando a única coisa que deveria ter deixado.

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Comentários

Foto de perfil de Mestredosexo

Adorei a leveza do teu conto!

O humor se torna um acessório bem bacana!!

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