Os Leitores
A primeira mensagem dela dizia assim: eu chorei lendo o conto da quinta-feira do celular, porque a minha quinta-feira foi numa terça e eu nunca contei pra ninguém.
Eu li aquilo num sábado de manhã, de pijama, tomando café.
E respondi antes de terminar de ler.
Prazer, somos o Casal Apimentados. Quem escreve sou eu, a Lúcia. Nomes fictícios, por motivos que qualquer casal liberal entende.
Eu: 1,72 de altura, loira natural, olhos verdes, seios fartos e umas coxas grossas que o meu marido elogia há vinte e três anos. Quarenta e três anos.
Ele, Jorge: negro, 1,85, corpo forte sem ser musculoso, mesma idade que eu.
Desde que a gente começou a publicar aqui, a caixa de mensagens virou uma coisa que eu não esperava.
Chega de tudo. Chega gente elogiando, chega gente corrigindo minha vírgula, chega gente contando a própria história, chega gente perguntando o nome da casa de swing. E chega, principalmente, homem sozinho mandando foto que ninguém pediu, às sete da manhã, sem nem um bom dia.
Noventa por cento é isso. A gente aprendeu a filtrar rápido.
Mas aí, num sábado de manhã, chegou aquela mensagem.
Era um perfil de casal. E quem escreveu foi a mulher, dava pra sentir na escrita.
Ela contou que o marido tinha começado a ler os nossos contos e que passou umas duas semanas mandando link pra ela sem falar nada, só o link. Que ela leu por educação e continuou lendo por outro motivo. E que quando chegou naquele conto da nossa quinta-feira, o do celular, ela teve que fechar o notebook.
Porque ela tinha um telefone guardado também. Fazia três anos. Nunca tinha encontrado o cara, nunca tinha traído ninguém, mas tinha uma conversa que o marido dela não sabia que existia.
E ela terminou a mensagem assim: eu não sei o que eu quero de vocês. Só sei que vocês foram as primeiras pessoas que descreveram exatamente o que eu sinto.
Eu li aquilo três vezes e chamei o Jorge.
Vou chamar eles de Anderson e Simone.
Ele: negro, quarenta e cinco anos, engenheiro civil, alto e magro, com aquele jeito quieto de gente que pensa antes de tudo. Ela: branca, quarenta e um, cabelo escuro na altura do ombro, professora, com um sorriso torto que ela usa pra desconversar quando fica sem graça.
Casados havia dezesseis anos. Uma filha adolescente. Moram na Zona Norte.
E, durante as seis semanas seguintes, a gente conversou quase todo dia.
Meninas, eu preciso explicar uma coisa sobre esse tipo de conversa, porque é diferente de tudo.
Eles sabiam tudo sobre nós.
Sabiam do labirinto da feira em 2017. Sabiam da noite em que eu travei na porta do meu próprio quarto. Sabiam do sítio em Ibiúna, sabiam do que eu falei numa varanda às sete da manhã. Sabiam de coisas que a minha própria irmã não sabe.
E eu não sabia absolutamente nada deles.
Isso mexeu comigo mais do que eu imaginava. Passei duas semanas incomodada e demorei pra entender o motivo. Não era medo de golpe, não era medo de exposição. Era outra coisa.
Era que eu me sentia despida antes de tirar a roupa.
Eu falei isso pro Jorge numa noite, na cama, e ele me deu a resposta certa, do jeito dele:
— Então conta pra eles alguma coisa que você não escreveu.
E foi o que eu fiz.
Naquela mesma semana, eu mandei um áudio pra Simone contando uma coisa da minha adolescência que não está em conto nenhum e que eu não vou contar aqui também. Coisa boba, de menina de quinze anos, mas que era minha e que ninguém tinha lido.
Ela respondeu com uma coisa dela.
E aí ficou parelho.
O Anderson demorou pra aparecer nas conversas. Ele era o leitor original, mas era a Simone que escrevia.
Quando ele finalmente entrou, mandou um áudio de quatro minutos falando muito rápido, gaguejando duas vezes, dizendo que era esquisito falar com pessoas que ele sentia que conhecia e que não faziam ideia de quem ele era.
O Jorge respondeu com um áudio de dez segundos:
— Cara, relaxa. A gente é duas pessoas normais que escrevem à noite. Eu tenho uma dívida de cartão e uma torneira pingando na área de serviço.
Foi a partir daí que ficou leve.
Fizemos uma chamada de vídeo. Uns quarenta minutos, os quatro, sem nenhum clima, só pra ver a cara um do outro.
E depois marcamos um bar.
O bar foi num sábado, na Zona Norte, num lugar escolhido por eles.
Eu cheguei nervosa. Sério, nervosa como não ficava há anos, e olha que eu já entrei em casa de swing sem conhecer viva alma.
Porque uma coisa é conhecer alguém e ir se abrindo aos poucos. Outra coisa é sentar na frente de duas pessoas que leram a sua vida inteira.
A Simone me abraçou antes de eu sentar. Um abraço apertado, de conhecida antiga.
E a primeira coisa que ela falou foi:
— Você é muito mais bonita do que eu tinha imaginado.
— E como você tinha imaginado?
— Exatamente como você escreve. Que é diferente.
Passamos quatro horas naquele bar.
O Anderson e o Jorge se deram bem rápido demais, do jeito que dois homens de quarenta e tantos se dão bem: falando de obra e de carro. Em vinte minutos estavam discutindo caixa d'água.
E eu e a Simone ficamos do outro lado da mesa, e ela me contou a história do telefone.
Ela tinha contado pro marido, três meses antes, depois de ler o nosso conto. Sentou ele na cozinha e contou tudo. Eles brigaram, choraram, ficaram uma semana estranhos, e depois começaram a conversar de um jeito que não conversavam havia anos.
— Vocês não fazem ideia — ela falou. — Vocês escreveram aquilo achando que era só um conto de sacanagem.
Eu falei que a gente escreve porque gosta, e que se serviu pra alguma coisa, melhor ainda.
E ela pegou a minha mão em cima da mesa e falou:
— Serviu pra caramba.
Naquela noite não aconteceu nada, e foi de propósito.
A gente combinou no estacionamento: se rolasse, rolava numa próxima. Ninguém ali estava com pressa, e todo mundo tinha muito a perder.
A próxima foi três semanas depois, num hotel na região da Paulista, num sábado.
E foi diferente de tudo o que eu já vivi, e eu já vivi bastante coisa nesses anos.
A porta fechou e o mundo lá fora deixou de existir. Não houve hesitação. A Simone me beijou no meio de uma frase, e aquele beijo tinha gosto de urgência, de anos de desejo reprimido que as nossas histórias haviam despertado nela. Eu tirei o vestido dela com pressa, sentindo o calor do corpo dela contra o meu. Ela era menor que eu, com curvas generosas e uma pele que pedia toque.
Deitei a Simone na cama e desci por ela com uma lentidão torturante. Beijei cada centímetro da sua barriga, dando atenção especial à cicatriz de cesárea. Eu queria que ela soubesse que cada marca do seu corpo era um convite ao prazer. Quando minha língua finalmente encontrou sua intimidade, ela soltou um grito abafado, as mãos enterradas no meu cabelo, me puxando para mais perto.
— Ah, Lúcia... por favor, não para! — ela gemia, o corpo arqueando enquanto eu sugava seu clitóris com força, levando-a ao ápice em poucos minutos. Ela gozou violentamente, as pernas tremendo, inundando minha boca com seu prazer.
Enquanto isso, do outro lado do quarto, o clima era diferente. O Anderson estava travado, a respiração curta, olhando para o Jorge como quem olha para um espelho do desejo. Jorge, com aquela calma que o torna irresistível, sentou-se na poltrona e conversou com ele. Aquele momento de vulnerabilidade foi o gatilho. Assim que o Anderson relaxou, a luxúria assumiu o controle.
A noite virou uma dança de trocas viscerais.
O Anderson veio para mim, e eu descobri que aquele homem quieto escondia um animal. Ele me virou de costas, prendendo meus pulsos com uma mão só, e me possuiu com uma brutalidade que me fez perder o fôlego. Ele entrou em mim com estocadas profundas e ritmadas, o peito batendo nas minhas costas, a respiração quente no meu pescoço.
— Você é deliciosa, Lúcia... puta que pariu, que aperto! — ele rosnou no meu ouvido, enquanto me fodaçava com uma força que me fazia gemer alto, sem qualquer pudor.
Eu estava em êxtase. Sentia o pau do Anderson me rasgando por dentro enquanto, ao mesmo tempo, via a Simone montada no Jorge. Ela estava de costas para mim, a bunda empinada, enquanto o Jorge a possuía com vigor, as mãos dele apertando as coxas dela com força. Era uma imagem de luxúria pura: dois casais, quatro corpos, fundidos num ritmo de desejo absoluto.
O ápice aconteceu quando decidimos que ninguém ficaria de fora.
Nós nos embolamos no centro daquela cama king size. A Simone se posicionou de frente para mim, nossas línguas se entrelaçando num beijo úmido e profundo, enquanto o Anderson me possuía por trás e o Jorge preenchia a Simone. Era um emaranhado de pernas, seios pressionados e respirações curtas. O cheiro de sexo impregnava o lençol, misturando-se ao suor e à excitação.
— Agora! Agora! — a Simone gritou, sentindo o orgasmo chegar.
Eu senti o Anderson atingir o fundo da minha vagina com uma última estocada poderosa, disparando sua porra quente dentro de mim em jatos violentos. Quase no mesmo segundo, o Jorge descarregou todo o seu sêmen dentro da Simone. Eu gozei junto com eles, um colapso de prazer que me deixou sem forças, sentindo as paredes do meu corpo pulsando ao ritmo dos deles.
Ficamos ali, os quatro, em um silêncio denso, cobertos de sêmen e suor. A Simone segurou minha mão, as lágrimas escorrendo pelo rosto, não de tristeza, mas de alívio. Ela tinha sido lida, compreendida e, finalmente, possuída.
Quando descemos para a padaria na Consolação às cinco da manhã, com as roupas amassadas e a cara de quem tinha acabado de sobreviver a um furacão de tesão, eu olhei para aquele grupo e sorri.
O Anderson reclamando do café, a Simone com a maquiagem borrada, o Jorge roubando meu misto quente... tudo aquilo era a prova de que a pornografia, quando feita com emoção, é a forma mais honesta de conexão humana.
Nós não tínhamos apenas trocado parceiros; tínhamos trocado almas através da carne. E enquanto eu sentia a umidade do sexo ainda entre as minhas pernas, eu soube que aquele conto seria um dos mais especiais, porque ele começou com a coragem de dizer a verdade e terminou com a glória de senti-la na pele.
Quem quebrou o silêncio foi o Anderson.
— Isso vira conto?
O Jorge começou a rir. Eu comecei a rir. A Simone jogou um travesseiro nele.
E eu respondi que sim.
E, na calçada, na hora de ir embora, a Simone me abraçou e falou no meu ouvido:
— Escreve direitinho, hein.
Estou escrevendo.
A gente ainda sai com eles. Não sempre, e a maioria das vezes é só jantar mesmo, sem nada acontecer.
Eles entraram no meio devagar, do jeito certo. O Anderson consertou a torneira da área de serviço da nossa casa numa tarde de domingo, de graça, e não deixou o Jorge pagar.
E é isso que eu queria que ficasse deste conto.
Quando a gente começou a escrever aqui, era só pra registrar as nossas coisas. A gente nunca imaginou que alguém do outro lado fosse ler uma história nossa e resolver a própria vida com ela.
Se você está lendo isso agora e tem um telefone guardado, ou uma conversa que ninguém sabe, ou uma vontade que você nunca falou em voz alta pra pessoa com quem você dorme todo dia: fala.
Não precisa ser com a gente. Não precisa virar nada disso aqui.
Mas fala.
Foi assim que tudo começou pra mim, numa cozinha, em 2017, chorando na frente do meu marido.
E foi a melhor coisa que eu já fiz.
Se você chegou até aqui, obrigada por ler. A gente escreve essas histórias do jeito que elas aconteceram, sem inventar muito, e é sempre bom saber que tem gente do outro lado. Se curtiu, segue a gente, deixa um comentário contando o que achou e dá uma olhada nos nossos outros contos, tem bastante coisa por lá.
Casal Apimentados
