A noite caiu fria e densa sobre o Batalhão. No canto mais escuro do pátio traseiro, onde a luz dos refletores não alcançava, me encolhi ao lado de Emiliano. Ele puxou o celular reserva trincado e discou o número criptografado de Valente.
Emiliano ligou o viva-voz. Nós dois colamos os ouvidos no aparelho, dividindo a respiração curta.
— Fale, Michel — a voz de Valente veio limpa, fria e desprovida de qualquer emoção.
— O Rocha me encurralou numa sala hoje de manhã — cochichei, com a garganta seca. — Ele descobriu tudo sobre a Pasta A-10 e o desvio de munição. Eu tive que abrir o jogo. Contei que você tá por trás disso.
O silêncio do outro lado da linha durou três segundos agonizantes. Emiliano me encarou no escuro, o pavor estampado nos olhos.
— E qual foi a reação do sargento? — Valente perguntou, num tom calculado.
— Ele abafou a investigação da PE. Disse que vai dizer que o Brito tá delirando por causa dos remédios... mas ele quer um encontro com você. Direto. Sem intermediários. E quer que eu esteja junto.
Ouvi o som fraco de um suspirar do ex-comandante.
— Marque para amanhã à noite. No galpão abandonado perto da rodovia. Diga ao Rocha que eu estarei esperando. — Valente desligou sem despedidas.
Olhei para Emiliano, que guardou o aparelho reserva rapidamente na farda. Tínhamos acendido um pavio curto, e a bomba podia explodir a qualquer momento.
Mais tarde, perto do toque de recolher, fui até o banheiro coletivo para tentar lavar a poeira e o suor do corpo. O vestiário estava completamente deserto, os azulejos brancos refletindo a iluminação fraca das lâmpadas amareladas.
A água fria caindo sobre as minhas costas era o único alívio para os meus músculos tensos. Fechei os olhos por um segundo, tentando afastar a imagem do olhar de Rocha.
Foi quando o som rangente da porta pesada de metal se fechando ecoou pelo recinto. O barulho do trinco correndo me fez abrir os olhos na hora.
Através do vapor e do jato d'água, vi a silhueta do Sargento Mello avançar. Ele estava sem a dólmã, com os braços fortes e calejados cruzados sobre o peito, os olhos injetados de raiva e paranoia. Ele caminhou devagar até a entrada do meu box.
— Você acha que eu sou burro, seu merdinha? — Mello sibilou, a voz ecoando pelas paredes úmidas. Ele deu um passo para dentro, me encurralando contra os azulejos molhados. — O Rocha parou de pressionar os recrutas do nada hoje. Ficou calminho, fechou a cara e parou de revistar o alojamento. O que você conversou com ele naquela sala, seu viado?!
Fiquei estático, a água fria escorrendo pelo meu rosto, o pavor congelando meus movimentos.
— Eu não falei nada, Sargento! — menti, mantendo a voz o mais firme possível. — Eu disse que perdi o celular e sustentei a história da falha de segurança que o senhor mandou!
Mello se aproximou tanto que pude sentir o hálito quente dele. Ele cravou o dedão no meu peito molhado, empurrando meu corpo contra a parede com força.
— Se eu descobrir que você abriu a porra da boca pro Rocha ou que tá me usando de bucha de canhão, Michel... — ele rosnou entredentes, o rosto contorcido de puro ódio. — Eu não quero saber de nuvem, de Valente, de porra nenhuma. Eu te mato aqui mesmo no chuveiro e digo que você escorregou no sabão. Fica esperto.
Ele me encarou por mais dois segundos terríveis, deu meia-volta e saiu pisando fundo, deixando o som da porta bater com força. Cabei de joelhos debaixo da água fria, o peito subindo e descendo num ataque de pânico contido.
Na tarde do dia seguinte, o clima no pátio do Batalhão estava estranhamente calmo. Eu caminhava perto da guarita externa quando uma viatura descaracterizada, um SUV escuro com insulfilm pesado, parou bruscamente ao meu lado.
A porta do carona se abriu. O Sargento Rocha estava no volante, de óculos escuros e paisana.
— Entra logo, Michel. Sem palhaçada — Rocha ordenou, a voz baixa e imperiosa.
Olhei para os lados; ninguém na guarda estava prestando atenção. Entrei no carro e fechei a porta. Antes que eu pudesse ajeitar o cinto, Rocha acelerou cantando pneu, saindo pelos portões do Batalhão sem dar satisfação a ninguém. Ele estava me raptando à plena luz do dia para o encontro.
O trajeto foi feito em total silêncio até alcançarmos uma zona industrial abandonada na beira da rodovia. Rocha estacionou na sombra de um galpão enferrujado.
Ao sairmos do SUV escuro, o som do vento cortando as telhas de zinco do galpão abandonado era o único barulho na beira da rodovia. Uma figura alta, vestindo um sobretudo escuro, aguardava encostada na lateral de um sedã preto. Era o ex-comandante Valente.
Caminhei entre os dois homens com o peito apertado, cada músculo do meu corpo teso como uma corda de aço. Eu esperava qualquer coisa: uma execução sumária, um tiroteio, um pânico generalizado. Mas o que se seguiu foi uma dança tática entre dois veteranos que sabiam exatamente onde doía no outro.
Valente deu dois passos à frente, as mãos nos bolsos do sobretudo. Rocha parou a poucos metros dele, mantendo o braço direito estrategicamente próximo da empunhadura da pistola na cintura.
O silêncio entre eles durou longos e agonizantes segundos.
— Você envelheceu, Valente — Rocha quebrou o gelo, a voz ríspida, sem o menor traço de cortesia militar. — E continua usando recrutas pra fazer o seu trabalho sujo.
Valente soltou um riso fraco, sem humor, dando mais um passo devagar.
— E você continua o mesmo cão de guarda obstinado, Rocha. Sempre farejando a pista errada até que a verdade venha e te atropele.
Os dois se encararam fixamente. A tensão era tão densa que dava para sentir o peso do ar. Por um momento, achei que um dos dois puxaria uma arma. Em vez disso, Rocha relaxou ligeiramente a postura, embora os olhos continuassem cerrados em desconfiança.
— Eu não tô aqui pra jogar conversa fora — Rocha cravou, dando um passo à frente, colando a distância entre eles. — O Brito perdeu o controle da cúpula. O desvio de munição virou bagunça, a PE tá me pressionando e a porra do Batalhão tá caindo aos pedaços. Eu quero saber qual é a sua real intenção com essa Pasta A-10.
— A minha intenção sempre foi a mesma desde o dia em que me tiraram do Comando: erradicar a cúpula podre que o Brito e a turma dele montaram — Valente respondeu, a voz mantendo um tom de autoridade gelada que parecia congelar o galpão. — O Brito foi ganancioso. Vendeu armamento não rastreado, falsificou assinaturas do Estado-Maior e achou que ficaria impune.
— E o meu nome? — Rocha deu mais um passo, encarando Valente no fundo dos olhos, a voz abaixando para um tom perigosamente calmo. — O meu nome tá nessa merda de dossiê, Valente? Se o meu nome aparecer em Brasília por causa da sua 'limpeza', eu juro por Deus que eu caço você e cada um que te ajudou.
Valente sustentou o olhar de Rocha sem piscar um único segundo.
— O seu nome nunca esteve nas planilhas de desvio, Rocha. Você sabe disso. Você é um filha da puta truculento, mas nunca foi ladrão. É por isso que você ainda tá vivo e conversando comigo aqui.
Rocha travou a mandíbula, absorvendo a resposta. Ele olhou de relance para mim e depois voltou a encarar o ex-comandante.
— O recruta pegou o inventário físico no Depósito B hoje de madrugada — Rocha apontou o queixo na minha direção. — O Mello tá apavorado, querendo queimar tudo. Se a PE ou a imprensa pegarem esse material antes da hora, não vai ser só o Brito que vai cair. O Batalhão inteiro vai pra vala. O Comando Geral vai intervir e fechar o regimento.
— É por isso que a queda do Brito precisa ser cirúrgica — Valente disse, ajeitando a gola do sobretudo. — O material que o Michel me enviou já tá sendo analisado pela minha equipe na Corregedoria. Ninguém vai vazar nada pra imprensa até que as ordens de prisão preventiva saiam de Brasília. A operação precisa de absoluto sigilo interno. Se o Brito ou o Mello desconfiarem que a cúpula vai ser presa, eles queimam o resto das provas e matam quem estiver no caminho.
Rocha passou a mão grossa pelo rosto, respirando fundo, processando a gravidade da situação. Ele e Valente podiam ter rivalidades do passado, mas tinham um inimigo em comum que ameaçava destruir a instituição.
— Você tem quarenta e oito horas, Valente — Rocha disse, o tom agora soando como um pacto selado no sangue. — Eu vou abafar tudo que está acontecendo no Batalhão. Vou dizer que o Brito tá delirando por causa dos sedativos do hospital e vou segurar a PE no rédea curta. Mas se a Corregedoria não der o bote em dois dias... eu resolvo do meu jeito. E você não vai gostar de ver como eu resolvo.
— Justo — Valente acenou com a cabeça, um cumprimento frio e formal. Ele então virou o rosto na minha direção, me encarando com aqueles olhos de águia. — Bom trabalho, Michel. Você provou ser mais útil do que eu esperava.
Senti meu estômago dar um nó. Eu não era um aliado para eles; era apenas a peça frágil que ligava dois monstros fardados no mesmo jogo de xadrez.
Na volta para a cidade, Rocha me olhou pelo retrovisor do SUV.
— Você tá liberado por hoje, recruta. Vou te dar uma folga de 24 horas no sistema como 'serviço externo'. Desaparece da minha frente e esfria a cabeça.
A sensação de sair do portão do Batalhão à paisana era de um alívio irreal, mas a paranoia continuava a me perseguir. Peguei um táxi e fui direto para a casa de Gustavo.
Quando ele abriu a porta do apartamento e me viu parado ali — abatido, com marcas no pescoço e os olhos fundos de cansaço —, a expressão dele mudou instantaneamente.
— Michel?! Meu Deus, o que aconteceu com você?! — Gustavo me puxou para dentro, me abraçando com força.
A calidez do abraço dele desarmou todas as minhas defesas. Sentados no sofá, desabafei tudo. Contei sobre a Pasta A-10, o ataque ao Tenente Brito, a chantagem ao Mello, o celular esmagado, o encontro de Rocha com Valente... soltei cada segredo que estava me sufocando há dias.
Gustavo me ouviu em absoluto silêncio, segurando minhas mãos trêmulas. Quando terminei, ele se aproximou, segurou meu rosto com delicadeza e me deu um beijo calmo e profundo — um contraste violento com o caos em que minha vida tinha se tornado.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você, Michel — Gustavo olhou bem no fundo dos meus olhos, a voz carregada de uma determinação sincera. — Eu não entendo metade dessa sujeira militar, mas eu vou te proteger no que der. Você não tá sozinho nessa.
Por algumas horas, no colo dele, acabei esquecendo de tudo. Gustavo se levantou sem dizer nada, segurou a minha mão e me guiou até o banheiro.
Ele ligou o chuveiro, ajustando a água para uma temperatura quente e acolhedora. O vapor começou a embaçar o espelho, preenchendo o ambiente com um aroma suave de sabonete e um calor que eu não sentia há semanas.
Gustavo se aproximou e começou a tirar a minha roupa devagar, peça por peça, como se estivesse desarmando um explosivo frágil. Quando tirou a minha camiseta e viu as marcas arroxeadas no meu pescoço e as escoriações no meu peito, os olhos dele brilharam com uma mistura de dor e revolta, mas as mãos dele continuaram extremamente suaves.
Ele me puxou para baixo do jato d'água. Em contraste absoluto com o chuveiro frio e ameaçador do vestiário do Batalhão — onde o Mello me encurralara contra os azulejos nojentos —, a água quente na casa do Gustavo parecia derreter a rigidez dos meus músculos.
Gustavo entrou no box comigo, de calça jeans e tudo, sem se importar em se molhar. Pegou o sabonete, fez espuma nas mãos e começou a lavar minhas costas, os ombros e o peito. Ele limpava a poeira da caserna, o suor do medo e o peso da farda da minha pele. Fechei os olhos e encostei a testa no ombro dele, deixando a água lavar também as lágrimas que eu vinha segurando há dias.
— Você tá seguro aqui — Gustavo sussurrou no meu ouvido, passando os dedos pelo meu cabelo ensaboado, enxaguando-o com cuidado sob a água. — Esquece o Batalhão por algumas horas, Michel. Esquece o Rocha, o Valente... me deixa cuidar de você.
Depois do banho, ele me enrolou em uma toalha macia e me levou para o quarto. O ambiente estava à meia-luz, com o ar-condicionado suave e os lençóis limpos perfumados. Deitamos abraçados, o peito dele colado nas minhas costas, o braço dele me envolvendo com firmeza, como um escudo contra o resto do mundo.
— Tenho medo de não conseguir sair dessa, Gu — murmurei na escuridão do quarto, a voz saindo rouca e vulnerável. — Eles são monstros fardados. Se o plano do Valente falhar nessas quarenta e oito horas, eu não sei o que vai ser de mim.
Gustavo se ajeitou no travesseiro, segurou meu queixo e fez eu olhar nos olhos dele.
— Eles podem ter as armas e as patentes, Michel, mas eles não são donos do seu futuro — a voz dele saiu firme, cheia de uma certeza que me deu chão. — Você fez o que era certo. Você protegeu os seus amigos e encarou aqueles caras de frente. Agora deixa o tempo rodar. Eu não vou a lugar nenhum. Quando essa poeira baixar, nós dois vamos recomeçar bem longe daquele lugar. Eu tô com você até o final.
Aquelas palavras foram a última coisa que ouvi antes do cansaço extremo finalmente vencer a minha vigilância. Mergulhei num sono profundo e desarmado, protegido pelo abraço dele.
No silêncio da madrugada, a cidade lá fora continuava em ritmo de guerra. O relógio invisível da Corregedoria continuava a rodar no escuro, aproximando o Batalhão do seu ponto de ruptura — mas ali, naquele quarto, o tempo finalmente tinha parado para nós dois.